domingo, 8 de julho de 2012

MEU FILHO, VOCÊ NÃO MERECE NADA




Sair do ninho...



Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.


Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.


Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.


Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.


Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.


É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?


Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.


Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.


Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.


A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.


Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.


Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.


Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.


O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.


Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.


Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.


Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.




Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.


(texto de Eliane Brum, via revistaepoca)
Texto discutido pela Confraria em 11/07/2011
Um ano depois, voltamos com "O Rastro do Teu Sangue na Neve".
Depois de ler o conto, meu filho me envia o mesmo texto hoje na manhã cinza de Sampa e no entardecer chuvoso de Londres.
Um círculo, uma roda, uma ciranda...
O eterno retorno.
Os comentários são da confraria na época em que o texto foi enviado.
Bjs.
Cláudia

5 comentários:

  1. "Sobre a Felicidade..."
    Bjs,
    Carlinha
    11/07/2011

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  2. Caras:

    Como diz a Adri, a vida é uma aldeia...

    A Lea postou no Face que minha afilhada leu, passou para a minha irmã, que a afilhada dela leu (minha filha), que passou para mim, que repasso para vcs e de novo para a Lea que começou toda esta história tão importante a qual eu vivencio, a Maria José, a Denise, a Lea, a Thais, a Sílvia, a Letícia, a Angela, a Margaret, a Maria Inês, a Júlia, a Carla e a Adri viveram e vivem.
    Dedico este texto A TODAS AS MÃES E FILHOS QUE SE MISTURAM , SE ENCAIXAM E VIVEM ESTA LINDA E LOUCA RELAÇÃO...

    Leiam, vale a pena, é urgente.

    Um bj, com carinho,
    Para nós que vivemos esta estranha ligação de pertencer e não mais pertencer.
    Cláudia
    11/07/2011

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  3. É tristemente real. Já me senti inúmeras vezes como um ser de outro planeta por negar algo a meus filhos ou por não entrar na chantagem do " todos tem, menos eu". Minha família , de imigrantes de pós guerra civil, sabe bem o qto a vida pode ser madrasta e tirar tudo, e aí? Arregaçar as mangas e lutar. Ensinar principalmente os filhos a serem Homens e Mulheres, ensinar que a vida é frágil, e que a felicidade em sí não existe( eu sou um pouco pessimista), existem sim momentos felizes. É dificil às vezes ver um filho sofrer por alguma frustração, por algo que se esperava e não deu certo. O importante é ficarmos junto e não suprimirmos esses momentos de suas vidas. Isso os fortalece, faz com que cresçam e que nos amem mais como pais.
    Bjos a todas.
    MJ
    12/07/2011

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    Respostas
    1. MJ:
      Vc não sabe o quanto o que vc diz neste sentido me aquece o peito.

      Saber a hora de cruzar o rio e deixar o fluxo da vida seguir seu curso.
      Sem interferências, sem culpas, sem medo.
      Medo devemos ter de controlar o que não nos diz respeito.
      Medo sim, de controlar o que deve amadurecer naturalmente, sem bloqueios, sem prepotência.
      As vezes me perco no processo.
      Muitas vezes acho que sei o que é melhor.
      Tenho que entender que o melhor para mim, pode não ser o melhor para eles.
      Deixar que se machuquem para se fortalecer.
      Deixar,
      Libertar, (aqui cabe a Aria do Handel, onde ele pede que o deixem livre para sentir "sua" dor)
      Liberdade com respeito à nossa vida e a deles.
      Limites, papéis, decisões certas ou erradas que não nos pertence.

      Um beijo e obrigada pelo olhar.
      Acho que todas nós podemos abrir a corrente do controle e deixar a vida nos levar.
      Sem medo, junto.

      Bj bj
      Cláudia
      12/07/2012

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  4. Ela, Eliane Brum, fala do que se fala.
    Faz uma analise pertinente, mas ao meu ver insuficiente.
    É como se fossemos responsveis por tudo que acontece a eles, filhos. Como se fossemos onipresentes, onicientes. Somos muito ,mas eles tem uma vida independente de nós.
    Eles vão pra escola, eles lidam com o aprendizado das coisas e das relações; com os colegas e as relações de grupo (aceitação/rejeição, inveja, ciumes, perda, etc...), com os pares, com as paixões, os namoros, a luta pelo melhor performace na seleção profissional e tudo que advem de estar no mundo.
    Destas relações até tentamos protege-los, mas é eles na vida. De verdade, temos um papel de coadjuvantes aí.
    Queridas, digo isso, não pq não considero verdadeira a critica feita pela Eliane Brum. é bem verdadeira, principalmente no que relaciona a economia financeira com a economia dos afetos mas cabe aí algumas ressalvas.
    Onde poderiamos fazer melhor, dar com mais verdade e menos ilusão?- Sendo modelo de luta, esforço, batalha, ética, moral. Falando e mostrando como é dificil a luta pela sobrevivencia, porem como é saborosa cada conquista!!!

    "Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande."

    Sabe meninas, isso ainda vale pra gente, do alto de nossa maternidade, ainda não somos prontas ..., e eles já são adultos. Ainda é tempo,graças a D´us.

    Bj
    Thais
    12/07/2012

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