domingo, 29 de julho de 2012

NA ESTRADA


Sam Riley

Sal Paradise

Jack Kerouac

O Um,


Garrett Hedlund

Dean Moriarty

Neal Cassady

O Dois,

Kristen Stewart

Marylou Moriarty

Lu Cassady

e o Três. A Tríade. 
Quem chega?

Caras Lagartas;
Estou há um tempão com o filme na garganta. 
Pergunta: quem de nós não transgrediu? 
Quando foi que enxergamos o limite da estrada? 
Com alívio, vendo cada um de nós, respiro aliviada e constato que o carro não derrapou. Aprumamos, tomamos um rumo onde os pés tocam na vida de outra forma. 
Vamos pensar na época em que o livro foi escrito: O que se cultuava? 
Uma das frases que mais me marcou foi "Quem quer que controle a mídia, as imagens, controla a cultura" de Allen Ginsberg. 
Outra, de Jack Kerouac, "Toda aquela velha estrada do passado desenrolava-se vertiginosamente como se a taça da vida tivesse sido entornada e tudo houvesse enlouquecido. Meus olhos ardiam naquele pesadelo acordado."
Dean Moriarty, personagem que não tem estrutura familiar (baseado na figura real de Neal Cassady), me lembrou a solidão e a dor do personagem Brandon (Michael Fassbender) do filme "Shame" de Steve McQueen.
Eles não cabem no próprio corpo, ardem com um desejo sem fim. Incendeiam, destroem, abandonam e choram um gozo dolorido, que imanta e devora.
 No filme, as experiências não são sonhadas, mas vividas de forma explícita diante de nossos olhos.
Sob a batuta de Walter Salles, os personagens se materializam diante de nós com transparência e quase desespero.
Me "atrevo" a comparar com os grandes da época (cultuados) como Jean Paul Sartre e Charles Bukowsk.
O que se "vendia" era o foda-se e o vale tudo.
Viver significava se ver livre de valores.
Gostaria de trocar olhares, mudar de lente.
Assistam.
Bj,
Cláudia

Viggo Mortensen

Willian Burroughs
Uma viagem sem volta.

Curiosidades sobre o filme:

Levou oito anos para Walter Salles concluir o esperado Na Estrada, a adaptação de um dos maiores clássicos beat de todos os tempos. Assinado por Jack Kerouac, publicado em 1957, o livro se tornou uma das bíblias da contracultura, embalando gerações à procura de liberdade e experimentação na própria pele, numa era pré-internet.

Concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2012, esta que é uma coprodução entre a França e o Brasil – apesar da produção executiva assinada pelo velho leão do cinema independente norte-americano, Francis Ford Coppola – dividiu opiniões em sua passagem pelo festival francês, o que certamente acompanhará também sua trajetória nos cinemas.

Conduzido com a habitual perícia de Salles, que leva consigo o roteirista portorriquenho Jose Rivera e o diretor de fotografia francês Éric Gautier, seus parceiros em Diários de Motocicleta (2004), o filme encharca-se da melancolia que é o tom predominante do livro, narrando as memórias do escritor iniciante Sal Paradise, o alterego de Kerouac - interpretado com intensidade na medida pelo ator britânico Sam Riley, o magnético intérprete do roqueiro Ian Curtis em Control.

É toda construída de nostalgia, portanto, esta memória das aventuras juvenis na estrada de Sal e seu amigo Dean Moriarty – este, por sua vez, o alterego do escritor Neal Cassady interpretado por Garrett Hedlund com uma voracidade que homenageia o jovem Marlon Brando, ator que chegou a ser pensado pelo próprio Kerouac para o papel, numa das muitas tentativas frustradas de adaptação para o cinema. Detentor dos direitos do livro desde 1979, Coppola, convidou, por exemplo, Jean-Luc Godard e Gus Van Sant, antes de Salles finalmente aceitar.
A tensão entre as diferenças profundas entre os dois personagens, unidos por uma mesma fome de vida, embalam uma vertiginosa troca de paisagens, de Nova York ao México, riscando na pele dos dois, e de vários companheiros de carona, um mapa de acontecimentos fortuitos. Como bebedeiras, canções, trabalhos eventuais, comida ruim ou nenhuma, a exposição às intempéries do clima, a camaradagem encontrada e logo perdida. E as mulheres.

Personagens marginais no livro, as mulheres ocupam um pouco mais de espaço na tela. A principal é Marylou (Kristen Stewart, deixando Crepúsculo para trás), a primeira mulher de Dean, que se torna uma espécie de galvanizador entre ele e Sam – já que Dean insiste em que ela vá para a cama com o amigo.

Esta espécie de amoralidade, que também se espalha ao consumo de drogas, além de bebidas, é um lembrete de um tempo bem mais libertário e libertino do que os dias atuais, cristalizando uma espécie de utopia em busca de uma vida sem limites que a chegada da maturidade baliza para Sal, mas não para Dean – que sonha em viver sem compromissos para sempre.

A segunda mulher de Dean, Camille (Kirsten Dunst, vivendo personagem inspirada em Carolyn Cassady), é justamente essa “voz da razão” na vida dele. Mãe de seus dois filhos, ela sinaliza seu desejo de parada e estabilidade. Mas não é essa a natureza de Dean.

Alguns personagens à beira do caminho introduzem um sabor especial, que desenha melhor essa época. O maior deles é Old Bull Lee (Viggo Mortensen), uma espécie de guru junkie diretamente calcado na figura do escritor William S. Burroughs, o autor de Almoço Nu que era o mais velho do grupo beat e, ironicamente, apesar das as viagens de todos os tipos que fez, foi o que morreu mais velho: 83 anos. Kerouac e Cassady morreram antes do 50 anos; o poeta Allen Ginsberg (no filme representado pelo personagem Carlo Marx, interpretado por Tom Sturridge), com 71.

Pequenas e marcantes são, igualmente, as passagens de três outras atrizes: Amy Adams, como Jane, mulher de Old Bull Lee, e alterego de Joan Vollmer, a primeira mulher de Burroughs que ele matou acidentalmente com um tiro, numa brincadeira de Guilherme Tell (episódio que não aparece em Na Estrada); Elisabeth Moss, como Galatea Dunkel, a jovem esposa abandonada pelo marido, Ed Dunkel (o estreante Danny Morgan), representando os personagens reais Al e Helen Hinkle; e a única brasileira do elenco, Alice Braga, como Terry, jovem mexicana com quem Sal tem um rápido caso quando colhe algodão na Califórnia e que evoca Bea Franco, que escreveu várias cartas a Kerouac, em 1947.

Steve Buscemi interpreta um homem que dá carona aos protagonistas e Terrence Howard (indicado ao Oscar por Ritmo de um Sonho), o jazzista Walter – traduzindo uma pegada mais jazzística do que roqueira na trilha sonora assinada pelo argentino Gustavo Santaolalla (outro parceiro de Salles em Diários de Motocicleta).

Não se trata de um filme catártico, e sim de um grande mergulho na melancolia, na perda, na passagem do tempo e das paixões. A câmera se instala na pele dos personagens e não larga mais seu turbilhão, seu frenesi pela vida, sua pulsão pelo movimento, pela experiência direta. Na Estrada realiza, assim, seu maior desafio: capta o aspecto fugaz do tempo presente, as relações humanas que se acendem e duram o instante de um fósforo, imperfeitas, passageiras, mas fundamentais. (Cineweb)


Baseado no best seller e um dos símbolos da contra cultura "On the Road - Pé na Estrada", escrito por Jack Kerouac nos anos 50.
O livro foi eleito pela revista “Time” como um dos 100 melhores em inglês entre 1923 e 2005.

A produção executiva é de Francis Ford Coppola, que comprou os direitos em 1979 e não conseguiu tocar o projeto adiante por décadas.

Ao longo das décadas, vários roteiros foram escritos em tentativas de adaptar o livro "Pé na Estrada" para o cinema.
Segundo o diretor Walter Salles, 15 roteiros haviam sido escritos antes da versão usada no filme.

Durante o processo de confecção do roteiro, Walter Salles e o roteirista Jose Rivera tiveram acesso a uma cópia do manuscrito de "Pé na Estrada", que estava com o irmão da última mulher do autor Jack Kerouac.
O início do manuscrito era bastante diferente do livro e influenciou o roteiro do filme.

A atriz Kristen Stewart entrou para o elenco do filme bem antes de ficar conhecida graças à série Crepúsculo.
Ela foi indicada ao diretor Walter Salles pelos colegas Alejandro González Inárritu e Gustavo Santaolalla, que haviam visto seu desempenho em Na Natureza Selvagem (2007).
Na época Salles teve que anotar seu nome, já que nunca tinha ouvido falar dela.

Em conversa com o diretor, Kristen Stewart declarou ser fã do livro e que faria qualquer coisa para interpretar Marylou.
Na época ela tinha entre 16 e 17 anos, a mesma idade da personagem.
Entretanto, atrasos na produção fizeram com que as filmagens apenas começassem anos depois, quando a atriz já era bastante conhecida.

O ator Viggo Mortensen foi escalado para um papel no filme muito por ser um profundo conhecedor da cultura beat, que teve como um de seus ícones Jack Kerouac, autor de "Pé na Estrada".

Para melhor compreender o universo de "Pé na Estrada", Walter Salles resolveu rodar antes um documentário sobre o percurso citado no livro.
Desta forma ele e uma pequena equipe percorreram o mesmo caminho, entrevistando pessoas e captando informações sobre a ambientação a ser utilizada em Na Estrada.

Antes do início das filmagens, Walter Salles reuniu o elenco por três semanas em um acampamento sobre a cultura beat.
Segundo a atriz Kristen Stewart, neste período todos ouviram entrevistas de Jack Kerouac e discutiram literatura.

As filmagens começaram em agosto de 2010, em Montreal, no Canadá.
De lá o elenco viajou para Quebec, Calgary, México, Arizona, Louisiana, Califórnia, Argentina e Chile.

Ao chegar para as filmagens em Nova Orleans, Viggo Mortensen levou consigo as roupas de seu personagem, as armas que poderia usar na época retratada e uma máquina de escrever.
Além disto, havia feito uma pesquisa aprofundada sobre o que o autor William F. Burroughs estava lendo na época.  (Cineclick)




sábado, 28 de julho de 2012

CRÔNICA DE UM DESEJO CRÔNICO


Londres -  julho/2012 - Foto: Caio Belintani



Crônica de Um Desejo Crônico
Caio Belintani
  
Queria comprar um navio. Quem sabe velejar ao redor do mundo não seja uma boa idéia? Só eu, com meus livros pendentes, e o mar inteiro à disposição para me servir frutos do mar frescos e apetitosos, todos grelhados na churrasqueira do próprio barco.
Que magnífico seria, um tempo só para mim, sem ter que me preocupar sequer com o lugar que estou, seria só eu comigo mesmo, sem pátria nem cultura. Seria um momento para mim, e para mais ninguém.
Ora, mas e a solidão? Dizem que é pior para quem fica sem a minha presença, afinal, eu estarei vivenciando uma série de novas experiências, nem terei tempo de sentir falta de alguma coisa. Certo, quem sabe do meu banheiro e do meu conforto. E de dormir sem balançar de acordo com as ondas, isso provavelmente também entraria na lista de algo a sentir falta. Claro, não poderia deixar de dizer a troca com o outro, mas pelo menos terei o benefício de trocar comigo mesmo. Há quanto tempo não me permito algo assim? Será que alguma vez já cheguei a viver isso?
Não sei, sinto que seria muito difícil existir sem o olhar do outro. E me vêm à cabeça a piada da ilha deserta e da modelo número um e da melhor marca: que graça teria ter alguma experiência única com ela e nunca poder contar para ninguém? Mas não seria isso o ápice da dependência? E dependência de quê, simplesmente de outro alguém? Acho que seria o cúmulo da falta de auto-suficiência.
Ora, mas quem se basta sozinho? Os exemplos que me vêm à cabeça sempre resultam em algo trágico ou enlouquecedor. Somos seres coletivos, estamos inseridos em uma sociedade, a interação é pré-requisito de nossa mente cultural, que pressupõe uma correspondência com algum fator externo à nossa própria existência. Nossa existência é previamente compreendida como uma vivência mediada pela sociedade e pela cultura, sejam elas quais forem.
Mas não seria isso uma grande contradição? Fico pensando, e não consigo entender de onde vem então essa minha vontade de ter um barco e viver só comigo mesmo e de acordo com as minhas próprias expectativas. Ou quem sabe pelo menos conhecê-las. Mesmo, de onde vêm essa vontade tão contraditória? Não seria um contra-senso acreditar em algum êxito se parto de um pressuposto tão distante do cotidiano real?
Cotidiano real. O que é isso senão a articulação de uma história forjada e adaptada a cada circunstância? Cotidiano real. E agora penso em como o cotidiano é relatado nos jornais. Cada país com sua particularidade, manipulando o acontecimento de acordo com a mentalidade padrão da população. Um pouco mais sensacionalista, ou quem sabe mais filosófico, o que sobra por trás dessas articulações? Quais são os fatos que definem o “cotidiano real” por trás das máscaras da cultura?
Pois bem, vamos a um exemplo prático para tentarmos extrair alguma conclusão:

“Atirador mata pessoas que desrespeitaram sua visibilidade durante a estréia do Homem-Morcego.”

“Fã-compulsivo de Batman, a sociedade hoje presenciou o resultado da indústria do consumo e da ilusão do individualismo. Conseqüência: mortos no filme, mortos na sala, faturamento da produção superior ao que permitiria um livre acesso à educação com mais qualidade.”

“TERRORISMO? Homem suspeito de cultivar relações com organizações mafiosas assassina cidadãos comuns em plena sala de cinema.”

Qual é o cotidiano real, afinal? O que define esse atirador/compulsivo/terrorista? A simples articulação circunstancial?  A forma como a cultura de cada lugar relata o ocorrido interfere na compreensão de sua existência? Não consigo compreender, se eu estivesse no barco e ouvisse que um homem matou pessoas durante a estréia de um filme, pelo simples fato de que elas estavam levantando durante a sessão, eu provavelmente entenderia a irritação do homem. Ora, se estou no cinema, em plena estréia de um filme super produzido e pessoas resolvem atrapalhar esse meu momento mágico, o que eu faria? E se um dos mortos tivesse alguma relação comigo, ou mesmo se eu não suportasse Batman? No mínimo, exigiria justiça.
Justiça? Mas como, se dependeria das leis do país que ocorreu o ato? E que pena seria coerente, a minha própria ou a do local? E quem foi que disse isso? Espere um instante. Se eu estivesse no barco, nem sequer saberia do ocorrido. Está bem, sentiria falta de saber dos acontecimentos cotidianos, seja lá o que isso quer dizer.
Acho que tenho um problema com essa vida social, mas me incomoda a contradição de não me imaginar feliz fora dela. O que é a felicidade senão uma ilusão de compatibilidades com algum referencial estabelecido?
Acho que prefiro ser feliz sabendo que não sei se essa “felicidade” representa a minha própria definição de felicidade do que ter que correr o risco de nunca conseguir defini-la. Mas preciso de uma definição para conseguir experimentá-la? Preciso estabelecer alguma conclusão da vivência individual, ela não se basta em si própria? Caso se baste, me assusta. Não tenho essa autonomia a ponto de estabelecer minha própria cultura e minha própria forma de vivê-la.
Que conclusão patética, digo que sinto vontade de ao menos saber as minhas próprias motivações e a possibilidade de que elas não existam me arremessa ao social e cultural de novo. Pior que isso, me arremessa ao medo do incerto. Que vai e vem, e que falta coragem para enfrentar esse mar. Mar de incertezas ou ancorar na marina? Pelo menos estaria no barco, querendo ou não. Quem vai e vem, o mar ou as articulações?
Acho que vou comprar uma bicicleta. Esse balanço do mar é muito natural. De bicicleta, posso procurar um lugar asfaltado, devidamente delimitado, quem sabe até com um mapa para encarar alguma aventura aparentemente libertadora. Chegou a hora de encarar essa libertação: não existe homem fora da sociedade. Homem fora da sociedade não se chama “homem”, se chama o que você quiser.
Se tiver coragem de olhar para a sua própria resposta, não me diga qual foi. Não me interessa a resposta, quero saber de onde foi que veio a coragem.

Londres, julho de 2012

CECÍLIA MEIRELES


Um colar de encantamentos que se reúne num fio invisível... Quarta-feira.


Poemas de Cecília Meireles

Por Joana Rodrigues

·       
O Amor...

É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!!"
  •  
Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
  •  
LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
·       
Canteiros

Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida

  •  
Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
  •  
Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"
  •  
A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
  •  
SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
  •  
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

  •  
Se você errou

Se você errou, peça desculpas...

É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?

Se você sente algo diga...

É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?

Se alguém reclama de você, ouça...

É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?

Se alguém te ama, ame-o...

É difícil entregar-se?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?

Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...
  •  
Canção do Sonho Acabado

Já tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor.
Cobicei, cheirei, colhi.
Mas ela despetalou
E outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
Me embriaguei de alegria!
Mas os risos da ventura,
No limiar da loucura,
Se tornaram fantasia...
Já almejei felicidade,
Mãos dadas, fraternidade,
Um ideal sem fronteiras
- utopia! Voou ligeira,
Nas asas da liberdade.
Desejei viver. Demais!
Segurar a juventude,
Prender o tempo na mão,
Plantar o lírio da paz!
Mas nem mesmo isto eu pude:
Tentei, porém nada fiz...
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais...
  •  
Epigrama n. 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
  •  
A bailarina


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
  •  

Desenho

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais

  •  
CANÇAO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.
·       
Nem tudo é fácil

É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

AO DEUS DESCONHECIDO


Foto: Margaret

Queridas lagartixas adoráveis, estou fazendo uma linda viagem pela Califórnia, e sempre dou uma olhadinha pra saber de vocês. 
Passei por uma cidade, Monterey, onde havia várias referências a Steinbeck. 
Foi muito bom ter lido as vinhas da ira, reconheci as paisagens, as árvores retorcidas em busca de água. 
As árvores são como nós, a parte que se vê (copa) é uma projeção daquela outra que não se vê (raízes) e aqueles troncos retorcidos me impressionaram muito! 
Aliás, vocês estão sempre comigo.
 Beijos e abraços carinhosos para cada uma. 
Margaret

CONTO E CRÔNICA


Como assim?


POR QUE SÃO DIFERENTES?
Por Joana Rodrigues


A crônica tem uma linguagem mais cotidiana, mais parecida com o nosso jeito de falar; com a nossa oralidade, já o conto, lança mão de palavras e expressões que ficam mais acomodados no universo da escrita, da narrativa e da literatura.

Na crônica, há uma repetição de expressões, de verbos e de palavras para justamente enfatizar a ação de toda hora, do dia a dia, do cotidiano. O conto traz palavras que às vezes nos faz ir e voltar ao dicionário. E aproveito para enfatizar essa prática diária e infinita de visitar o significado, a família, as funções de cada palavra. É um mundo fascinante este dos dicionários.

A crônica apresenta um relato a partir de um fato, para o qual o escritor tece um comentário, uma reflexão, uma pensata. O conto, não. Ele tem uma trama. Portanto, tem começo, meio e fim. Mesmo que sejam microcontos, eles apresentam uma história, portanto um enredo, com um ou vários personagens. Mesmo que estes personagens sejam “coisas”, objetos, como uma casa, uma nuvem ou quem sabe um par de sapatos. Mas há contistas que vão mais longe, nos trazem personagens como a solidão, a dor, a alegria.

A crônica se aparenta a um comentário, uma reflexão sobre determinado acontecimento que o autor viu, vivenciou, acompanhou. Já o conto cabe no mundo da ficção total, ou seja, tudo na história é inventado, ou melhor, criado pelo autor. Portanto não há necessidade de verossimilhança
n substantivo feminino
1   qualidade do que é verossímil ou verossimilhante
2   Rubrica: literatura.
ligação, nexo ou harmonia entre fatos, idéias etc. numa obra literária, ainda que os elementos imaginosos ou fantásticos sejam determinantes no texto; coerência
(Dicionário Houaiss)


A crônica é um gênero híbrido como nos contou Aline, quer dizer tem um pouco de realidade (de fatos, de acontecimentos, de jornalismo) e de ficção. O conto, por sua vez, só tem ficção, é um texto em que o autor fica responsável por tudo o que inventa: escolha de palavras, tempos dos verbos, construção do personagem, cenário, ações etc.

Por isso é que a crônica leva o autor sempre à frente: eu vi, eu experimentei, eu comuniquei. Já no conto, o narrador é que se encarrega de dizer as coisas que até o autor duvida, ou não tem coragem. Afinal, narrador é para isso mesmo, é para narrar, para nos contar tudo o que acontece, como acontece, onde e quando acontece.

Dentro dos contos há os realistas, os surrealistas, os mágicos, os fantásticos entre tantos. São textos em que os autores seguem estilos e escolas literárias. Por isso é que os contos de Guimarães Rosa se diferem dos contos de Rubem Braga (que também se dedicou aos contos). É por isso que Sérgio Porto ou Stanislaw Ponte Preta  não é da mesma linha que Clarice Lispector. Mario de Andrade tem contos com um estilo distinto dos de Machado de Assis. Isso sem falar nos ingleses, russos, latino-americanos, espanhóis, chineses, árabes etc etc.

Para ilustrar, um conto de Sérgio Porto,  para recordar os tempos da adolescência:

Conto de mistério
Sérgio Porto – Stanislaw Ponte Preta

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.
Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:
Siga-me! - foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele - a uma distância de uns dez a doze passos - entrou também.
Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.
Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou - porém - quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: "É este".
O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.
Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:
- Julieta! Ó Julieta... consegui.
A mulher veio lá de dentro enxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.


E como não podia deixar de ser, uma crônica de Gabo, nosso ilustre representante latino-americano:

Um domingo em delírio
Gabriel Garcia Márquez Gabriel García Márquez

Un editor de Barcelona hizo la semana pasada una escala en Cartagena de Indias para almorzar conmigo. Um editor em Barcelona fez na semana passada uma escala em Cartagena de Indias para almoçar comigo. Después de una comida criolla bien conversada, lo llevé a conocer la ciudad antigua, que, con toda razón, le pareció una de las más bellas del mundo. Depois de uma comida criolla feita no capricho, levei-o para conhecer a cidade antiga, que, com toda razão, pareceu-lhe uma das mais belas do mundo. Lo invité más tarde a tomar un café en casa de mis padres, que tienen 54 nietos, y muchos de ellos habían ido a saludarlos. Convidei-o mais tarde para tomar café na casa de meus pais, que têm 54 netos, muitos dos quais, haviam passado por lá para lhes pedir a bênção. Por último, sem saber como, terminamos Por último sin saber cómo, terminamos en una recepción en una recepción trataron con tanta amabilidad que tuvo que escuchar seis discursos y se tomó once vasos de whisky en tres cuartos de hora. numa recepção oficial, e o trataram com tanta amabilidade que teve que ouvir seis discursos e tomou 11 copos de uísque em menos  de uma hora. Al atardecer, todavía medio aturdido por tantas novedades juntas, se fue con la impresión de haber vivido tina de las experiencias más raras de su vida. Ao entardecer, ainda meio aturdido por tantas novidades juntas, partiu com a impressão de ter vivido uma das experiências  mais extraordinárias de sua vida. «No has inventado nada en tus libros», me dijo al despedirse.
Você não inventou nada em seus livros, disse-me, ao se despedir. «Eres un simple notario sin imaginación». Você é um simples escrivão sem imaginação. En realidad, estaba preparado para pasar un domingo tranquilo, a salvo de las nieves que había dejado el día anterior en el otro lado del mundo, y se encontró de pronto y sin previo aviso enredado en los hechizos del Caribe.El delirio empezó en el mismo aeropuerto.
Na realidade, estava preparado para passar um domingo tranqüilo, a salvo da neve que havia deixado no dia anterior do outro lado do mundo,  e logo se viu, e sem aviso prévio, enredado nos feitiços do Caribe.
O delírio começou no próprio aeroporto. Yo nunca había observado, hasta que él me lo hizo notar, que las puertas de abordaje y desembarco son imposibles de distinguir. Eu nunca observara, até que ele me fez notar, que as portas de embarque e desembarque são impossíveis de distinguir.En efecto, hay una con un letrero que dice: «Salida de pasajeros», y por ella salen los que van abordar los aviones. Hay otra puerta con otro letrero que dice lo mismo: «Salida de pasajeros», y es por allí por donde salen los pasajeros que llegan. De fato, há uma com um aviso que diz: "Saída de passageiros, e por ela saem os que vão entrar nos aviões. Há outra porta com outro aviso que diz a mesma coisa:" Saída de passageiros ", e é por ali que saem os passageiros que chegam. Lo peor es que ambos letreros son correctos, porque por ambas puertas se sale. O pior é que ambos os letreiros estão corretos, porque se sai por ambas  as portas. Por otra parte, hay también una sala de espera que no es para esperar a los que llegan, sino para que esperen la salida del avión los que se van. Por outro lado, há também uma sala de espera que não é para esperar os que chegam, e sim para que esperem a saída do avião os que se vão.Allí hay, por supuesto, varias hileras de sillas muy ordenadas y limpias, frente a una serie de puertas numeradas bajo un letrero general: «Salida de vuelos nacionales». Ali há, certamente, várias fileiras de cadeiras muito organizadas e limpas, em frente a uma série de portas numeradas sob um aviso geral : "Saída de vôos nacionais”. Pero esas puertas no se usan. Mas essas portas não são usadas. En cambio, los pasajeros que llegan en los vuelos nacionales no salen por ninguna de tantas puertas, sino por la salida internacional, que está en otro edificio apartado; sin embargo, cuando una cálida voz de mujer solicita por los altavoces que salgan por la puerta de salida los pasajeros que se van, nadie sufre un tropiezo. Em compensação, os passageiros que chegam nos vôos nacionais não saem por uma dessas numerosas  portas, e sim pela saída internacional, que está em outro prédio separado; no entanto, quando uma cálida voz de mulher solicita  pelos alto-falantes que saiam pela porta de saída dos passageiros que se vão, ninguém fica embaraçado.
«Es que no hay que hacerle caso a los letreros», nos explicó un agente de policía de turismo. «Aquí todo el mundo sabe por donde entra y por dónde se sale ». Não se deve ligar para os letreiros explicou-nos um agente da polícia de turismo. Aqui todo mundo sabe por onde se entra e por onde se sai.
Para mí, el rincón más nostálgico de Cartagena de Indias es el muellede la Bahía de las Animas, donde estuvo hasta hace poco el fragoroso mercado central. Para mim, o recanto mais nostálgico de Cartagena de Indias é o cais da baía das Almas, onde se encontrava até há pouco o ruidoso  mercado central. Durante el día, aquella era una f¡esta de gritos y colores, una parranda multitudinaria como recuerdo pocas en el ámbito del Caribe. Durante o dia, aquela era uma festa de gritos e cores, uma pândega altamente concorrida, como me lembro de  poucas no âmbito do Caribe. De noche, era el mejor comedero de borrachos y periodistas. Allí estaban, frente a las mesas de comida al aire libre, las goletas que zarpaban al amanecer cargadas de marimondas y guineo verde, cargadas de re mesas de putas biches para los hmeles de vidrio de Curazao, para Guantánamo, para Santiago de los Caballeros, que ni siquiera tenía mar para llegar, para las islas más bellas y más tristes del mundo. De noite, era o melhor lugar de comer, para bêbados e jornalistas. Ali estavam, diante das mesas de jantar ao ar livre, as escunas que zarpavam ao amanhecer carregadas de micos-aranhas e bananas verdes, bem como de putas para os hotéis envidraçados de Curaçao, para Guantánamo, para Santiago de los Caballeros, que sequer tinha mar para aportar, para as ilhas mais belas e mais tristes do mundo. Uno se sentaba a conversar bajo las estrellas de la madrugada, mientras los cocineros maricas, que eran deslenguados y simpáticos y tenían siempre un clavel en la oreja, preparaban con mano maestra el plato de resistencia de la cocina local: filete de carne con grandes anillos de cebolla y tajadas fritas de plátano verde. A gente se sentava para conversar sob as estrelas da manhã, enquanto os cozinheiros efeminados, que eram desbocados e simpáticos e tinham sempre um cravo na orelha, preparavam com mão firme o prato de resistência da culinária local: filé de carne com grandes anéis de cebolas fritas e tiras de banana verde. Con lo que allí escuchábamos mientras comíamos, hacíamos el periódico del día siguiente. Com o que  ali escutávamos enquanto comíamos tínhamos material para o jornal do dia seguinte.
Mi amigo editor recordaba muy bien el lugar, porque lo conoció descrito en El otoño del patriarca, como el remanso nocturno donde monseñor Demetrio Aldus, auditor de la Sagrada Congregación del Rito y promotor y postulador de la fe, se peleaba a trompadas con los marineros. Meu amigo editor lembrava muito bem do lugar, porque o conheceu descrito em O Outono do Patriarca, como o remando noturno onde o monsenhor Demetrios Aldus, auditor da Sagrada Congregação do Rito e promotor e postulante da fé, trocava socos e pontapés com os marinheiros. Lembrava Lo recordaba, digo, pero no lo reconoció cuando lo llevé a conocerlo en la realidad, porque el mercado público fue demolido, y el muelle fue desmantelado, y en su lugar se construye un esperpento descomunal, que será todo lo contrario de la ciudad: el edificio más feo del mundo., digo, mas não o reconheceu quando o levei a conhecê-lo na realidade, porque o mercado público foi demolido, e o cais foi desmantelado, e em seu lugar estão construindo um espantalho descomunal, que será tudo o contrário da cidade: o prédio mais feio do mundo.
El Centro Internacional de Convenciones -inspirado, como hasta su nombre lo indica, en el Convention Hall de Miami- costará 1.500 millones de pesos, que equivalen a siete veces el O Centro Internacional de Convenções   inspirado, como até seu nome indica, no Convention Hall de Miami custará de 1, 5 bilhão  de pesos, que equivalem a sete vezes o mesmo presupuesto municipal. orçamento municipal. Mi amigo, que sabe de números como buen editor catalán, comprendió entonces lo que quiere decir el realismo mágico. Meu amigo, que sabe de números como bom editor catalão , compreendeu então o que quer dizer o realismo mágico.De fato, três  En efecto, 3.000 convencionistas necesitan por lo menos diez jumbo s de los más grandes para llegar a la ciudad, y por lo menos un mes para salir con la capacidad actual de las siete puertas del aeropuerto. Será necesario paralizar un día completo el tráfico de la ciudad para llevarlos desde sus hoteles hasta el centro de convenciones, y otro día completo, para el viaje contrario, y aun así se formará un embotellamiento apocalíptico con sus propios vehículos. convencionais precisam de pelo menos dez jumbos dos grandes para chegar à cidade, e pelo menos um mês para sair com a capacidade atual das sete portas do aeroporto. Será necessário paralisar um dia inteiro o tráfego da cidade para levá-los de seus hotéis até o centro de convenções, e outro dia inteiro para a  viagem em sentido contrário, e ainda assim se formará um engarrafamento apocalíptico com seus próprios veículos.
Por outro lado, Por otra parte, la mayoría de los convencionistas, si en realidad valen la pena, serán hombres de empresa que deberán estar en contacto permanente con sus centros financieros.a maioria dos convencionais, se em verdade valem a pena, serão executivos que deverão estar em contato permanente com seus centros financeiros. Pero el servicio telefónico de Cartagena es tan rudimentario que, para hablar por teléfono, hay que dejar la ventana abierta, porque lo que uno dice se oye más por la ventana que por el teléfono. Mas o serviço telefônico de Cartagena é tão rudimentar que, para falar por telefone, deve-se deixar a janela aberta, porque o que a gente diz se ouve mais pela janela do que pelo telefone. Sólo para conseguir que las operadoras de larga distancia les contesten a 3.000 convencionistas agónicos, se necesitarán 32 años. Só para conseguir que as operadoras de longa distância atendam a três mil convencionistas aflitos serão necessários  32 anos. Antes que mi amigo, estos cálculos los había hecho una comisión de expertos internacionales, que consideraron el proyecto como un disparate homérico. Antes de meu amigo, estes cálculos tinham sido feitos por uma comissão de especialistas, internacionais, que consideraram o projeto um disparate homérico. Pero los promotores locales se empeñaron en hacerlo con un argumento magistral: «La ciudad lo necesita para coronar todos los años a la reina de la belleza». Mas os promotores locais se empenharam em fazê-lo com um argumento magistral:
A cidade tem necessidade dele para coroar todos os anos a rainha da beleza.
Agobiado por tanto realismo fantástico, mi amigo me agradeció, como una pausa de alivio, que lo invitara a tomarse un café en casa de mis padres. Abatido por tanto realismo fantástico, meu amigo me agradeceu, como uma pausa de alívio, que o convidasse para tomar um café na casa de meus pais. Más le hubiera valido no aliviarse. Seria melhor não tivesse ficado aliviado. Como creio ter dito muitas vezes, En efecto, como creo haberlo dicho otras veces, mi padre acaba de cumplir ochenta años, y mi madre 76.meu pai acaba de fazer oitenta anos, e minha mãe 76. Pero no hay manera de sentarlos a descansar. Mas não há maneira de fazê-los descansar. Mi padre se va a pie todos los días, bajo el sol de fuego, hasta el centro de la ciudad, y no hemos logrado disuadirlo de una excursión que quiere hacer por la selva amazónica. Mi madre, se ha empeñado toda la vida en hacer los oficios de la casa, y quiere inclusive acabar de lavar los platos que la lavadora eléctrica deja mal lavados. Meu pai vai a pé todos os dias, sob um sol abrasador, até o centro da cidade, e não conseguimos convencê-lo a desistir de uma excursão que deseja fazer pela selva amazônica. Minha mãe se empenhou a vida inteira nos trabalhos da casa, e quer inclusive acabar de lavar os pratos que a lavadora elétrica deixa mal lavados. Mi amigo le preguntó si alguien la ayudaba, y ella le contestó con su lenguaje propio: «Tengo dos secretarias». Meu amigo perguntou-lhe se alguém a ajudava, e ela respondeu com sua linguagem própria:
Eu tenho duas secretárias.
Mi amigo le preguntó desde cuándo, y ella le volvió a contestar: «Desde hace quince días». Meu amigo lhe perguntou desde quando tempo, e voltou a  responder:
Há 15 dias.
El secreto de ambos es que nunca se han puesto a pensar en la edad. O segredo dos dois é que nunca se puseram a pensar na idade. Hace poco, mi padre compró unos bonos que serán liquidados en el año 2.000. Há pouco, meu pai comprou uns títulos públicos que serão liquidados no ano 2000. Es decir, cuando él tenga cien años. Isto é: quando tiver cem anos. Uno de mis hermanos le reprochó su falta de sentido, y él replicó impasible: «No los compré para mi beneficio, sino para asegurarle a tu madre una vejez tranquila ». Um de meus irmãos, censurou-o por sua falta de lógica, e ele respondeu, impassível:
Não os comprei para meu benefício, mas para assegurar à sua mãe  uma velhice tranqüila.
Mientras conversábamos, llegó una nieta a contamos que la noche anterior se había desdoblado. Enquanto conversávamos, chegou uma neta para nos contar que na noite anterior se desdobrara em duas.
«Cuando regresé del baño», me dijo, «me encontré conmigo misma que todavía estaba en la cama». Quando voltei do banheiro me disse ,  me encontrei comigo mesma que ainda estava na cama. Poco después llegaron tres hermanas y dos hermanos, de los dieciséis que somos en total.
Pouco depois, chegaram três irmãs e dois irmãos, dos 16 que somos  no total. Una de ellas, que fue monja hasta hace poco, se enredó en un diálogo sobre religiones comparadas con un hermano que es mormón. Uma delas, que foi freira, até há pouco, meteu-se numa discussão sobre religiões comparadas com um irmão, que é mórmon. Otro hermano había mandado hacer una tabla sobre medida, pero cuando la volvió a medir en la casa resultó ser más corta que en la carpintería. Outro irmão mandara fazer uma mesa sob medida, mas quando  voltou a medi-la em casa ela estava menor do que na carpintaria.
«Es que en el Caribe no hay dos metros iguales», dijo. É que no Caribe não há dois metros iguais, disse. En efecto, midió un metro con el otro, ya uno de los dos le faltaba un centímetro.
De fato, mediu um metro com o outro e a um dos dois faltava um centímetro.  Outra Otra hermana tocaba al piano la serenata del cuarteto número cinco de Hayden. irmã tocava ao piano a serenata do quarteto número cinco deLe hice ver que la tocaba tan rápido que parecía una mazurca. Haydn. Ponderei-lhe que tocava com tanta rapidez que parecia uma mazurca.
«Es que sólo toco el piano cuando estoy acelerada», me dijo, «lo hago para tratar de calmarme, pero lo único que consigo es acelerar también al piano». É que só toco piano quando estou acelerada  me disse ele. Toco para tentar me acalmar, mas a única coisa que consigo é acelerar também o piano. En esas estábamos cuando tocó a la puerta una hermana de m¡ madre, la tía Elvira, de 84 años, a quien no veíamos desde hacía quince años. Venía de Riohacha, en un taxi expreso, y se había envuelto la cabeza con un trapo negro para protegerse del sol.
Estávamos assim quando bateu na porta uma irmã de minha mãe, a tia Elvira, de 84 anos, a  quem não víamos havia 15 anos. Vinha de Riohacha, num táxi expresso, e envolvera a cabeça com um velho pano preto para se proteger do sol. Entró feliz, con los brazos abiertos, y dijo para que todos la oyéramos: «Vengo a despedirme, porque ya casi me voy a morir». Entrou feliz, com os braços abertos, e disse para que todos ouvissemos:
― Venho me despedir, porque já estou quase morrendo.
Meu amigo não agüentou mais. Mi amigo no soportó más. Ao entardecer, a caminho do aeroporto, deu-me trabalho convencê-lo de que essa era nossa vida real de todos os dias, e que eu preparara só para impressioná-lo cada um dos episódios daquele domingo de delírio.

ANA CRISTINA CESAR


Uma inquieta...



 Ana Cristina Cesar
Por Joana Rodrigues
Lá fora
há um amor
que entra de férias.
Há um embaçamento
de minhas agulhas
nítidas diante
dessa boa bisca
de mulher.
Há um placar
visível em altas horas,
pela persiana deste hotel,
fatal, que diz: fiado,
só depois de amanhã
e olhe lá,
onde a minha lâmina
cortante,
sofrendo de súbita
cegueira noturna,
pendura a conta
e não corta mais,
suspendendo seu pêndulo
De Nietzsche ou Poe
por um nada que pisca
e tira folga e sai
afiado para a rua
como um ato falho
deixando as chaves
soltas
em cima do balcão.


 
***
olho muito tempo o corpo de um poema

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas      
 
***
FLORES DO MAIS

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

***
O HOMEM PúBLICO N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

* * *

Tenho uma folha branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
          e limpa à minha espera:

SETE CHAVES

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha
grande história passional, que guardei a sete
chaves, e meu coração bate incompassado entre
gaufrettes. Conta mais essa história, me aconselhas como um marechal do ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa – com
arbítrio silencioso e origem que não confesso –
como quem apaga seus pecados de seda, seus três
monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.


***

ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade. Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco, o primeiro side-car anfíbio nos classificados de aluguel. No flanco do motor vinha um anjo encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para o Lagos, Seven Year Itch, mato sem cachorro. Pulo para fora (mas meu salto engancha no pedaço de pedal?), não me afogo mais, não abano o rabo nem rebolo sem gás de decolagem. Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta.


***

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça. E cante. Puro açúcar branco e blue.







***

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
(em Contagem Regressiva - Inéditos e Dispersos)

Casablanca
Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de
                                                           taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente
                                                           no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
                          madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida
                                                         nos lençóis de pano



MOCIDADE INDEPENDENTE

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra
cima sem medir mais as conseqüências. Por que
recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para
a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é
agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem
uma graça atravessando o Estado de São Paulo, de
madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta
contramão.



***
Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono
d’après Jorge de Lima
Invenção de Orfeu I, XXXIII
2.10.72

***
Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa

QUEM É Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 no Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos, e saiu na antologia "26 Poetas Hoje", de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: "Cenas de Abril" e "Correspondência Completa". Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou "Luvas de Pelica". Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu "A Teus Pés", Editora Ática - São Paulo, 1998, de onde extraímos o texto acima. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.
Ítalo Moriconi escreveu: "Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a idéia de ser escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa bem-comportada, alguém marcada para escrever".
 
Expoente da chamada poesia marginal dos anos 70, a poeta carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) tornou-se conhecida em escala nacional depois de figurar na antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1976.

Alma inquieta, Ana Cristina viveu mais de uma vez, viajou pelo mundo, estudou literatura e cinema, publicou poesia em edições independentes. Escritora compulsiva, produzia poemas, cartas, artigos para jornais e revistas, traduções, ensaios. Entre os principais títulos deixados por Ana Cristina Cesar, encontram-se A Teus Pés, Inéditos e Dispersos, e Crítica e Tradução. Ana suicidou-se em outubro de 1983, aos 31 anos. 

Sobre seu trabalho poético, diz o professor e crítico Paulo Franchetti: "Ana Cristina é um dos lugares principais (senão o principal) do novo discurso poético, que funda a produção e a leitura do fragmento, a recolha do lugar-comum e a incompletude estética como resultado da sinceridade confessional ou como índices da impossibilidade mesma da confissão total."

Segundo o ensaísta, o dado novo na poesia de Cristina está no coloquialismo, numa escrita que não quer ser literatura. "Escrevo in loco, sem literatura", anotou ela. É óbvio que essa mesma novidade não passa incólume pelo crivo dos estudiosos, que apontam na poesia dita marginal a falta de rigor e a tentativa de dar uma marcha à ré em direção ao piadismo e a certa inconseqüência do modernismo de 1922. Não falta também quem veja no movimento uma imagem invertida das vanguardas originárias dos anos 50. Enquanto estas são acusadas de formalistas, o pessoal da poesia marginal recebe a pecha de ter relaxado os procedimentos formais da poesia.

O certo é que Ana Cristina Cesar tornou-se o nome mais forte entre todos os identificados com a poesia marginal. O poeta carioca Armando Freitas Filho, que foi amigo de Ana Cristina e se tornou, depois, o principal divulgador de sua obra, tem uma frase interessante para caracterizar a rapidez e a brevidade da vida e da obra da autora de A Teus Pés. Para ele, a amiga queria "pegar o pássaro sem interromper o seu vôo".

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