quarta-feira, 30 de maio de 2012

Felicidade





"Felicidade se acha em horinhas de descuido".

É Guimarães Rosa, mas parece Mario Quintana, né não?

Beijos D.



sexta-feira, 25 de maio de 2012

UM DIA E UMA NOITE DE DAMAS DE HONRA

Flores de guarda chuvas



 Minhas doces confrades, desejo uma boa madrugada!

Esperei o pronunciamento da Princesa, mas ela não deve ter tido tempo, lua de mel....
Vamos falar do dia? Sim, o dia foi inusitado.
Primeiramente a Thais dá uma voz de comando para fazermos uma surpresa para a Carla.
Eu estava saindo para fazer exame médico e li seu email. No caminho de volta, providenciei a surpresa.
Chego em casa ligo para Thais, ok! Ela me pede ajuda para um conto que tenha haver com a história da Carlinha.
Já piro na maionese, não vou ter tempo....Thais pede o celular de Mary Joey, cinco minutos depois Mary me liga e pede para ver se acho algum conto...ferrou-se...que horas que eu ia procurar. Fui trabalhar, já tô a 220, chego na Adri amiga, a do anão, lembram ela anda meio sumida! Ela procura em vários livros e nada....a coisa tá ficando apertada.
Moramos tão próximas uma da outra, mas o destino tava afim de me azucrinar, fiquei mais de 23min parada no mesmo lugar...cheguei em casa mais de 18h30.
Procuro na internet e nada....desespero.
De repente bate uma coisa que não tem explicação, vamos brincar pensei eu, vou tentar escrever algo para ela. A coisa rolou que eu ria e chorava ao mesmo tempo! Foi incrível.
Quando achei que tinha acabado lembrei do cartão...aí meu Deus, minha letra não é mais a mesma! Perdi 3 cartões...lembrei da Thais....escrevi  e colei. Vou embora são 20h30...que horas vou chegar na Casinha da Lapônia? Segredo: fui sem tomar banho... de tenis, sem baton, sem perfume, ai que horror!
Cheguei na Lapônia pondo os bofes pra fora, mas ainda não tinha acabado as surpresas.
Já estavam presentes: Mary Joey, Mary Ines, Thais, D. e lógico a nossa linda anfitriã!
Vou entrando no eixo (já tinha ido duas taças de vinho), a Carla chega: VIVA! Felicidades! Muitos brindes! Aí vem a primeira surpresa: Com maestria Cláudia e se entendi bem a Thais juntas fizeram uma teia com todos os comentários surgidos a partir da convocação da Thais! Sensacional! Rimos muito... e a Carlinha emocionada.
Vitor chegou e mais VIVAS! O mimo da Confraria entregue aos dois com direito a fotos.
Vitor acertou a senha e isso não pode cair na boca do povo!!!rsrsrrs

Ahhhh, jantamos um magnifico mussaca (é isso o nome?) gente, eu, uma mulher que tem nome de rainha não pude deixar de repetir, óbvio! Já tinha repetido as entradas caldo de mandioquinha e tinha aquele .... de friqué ???( aí to ruim de cabeça) eu queria fazer inveja para as ausentes não vou conseguir...isso me é muito frustrante! Tinha damasco recheado maaaaravilhoooso!!!!

Vamos a poltrona, Mary Joey lê Pondé para aguçar os animos, uma pena a Adri, aquela do anão, não estar presente, ela ia causar!!! rsrsr

Tá muito cumprido? Ainda estou em 220...dormir hoje só lá pelas 04h00 da manhã.
Aí minha vez de ir para poltrona para ler o conto que a Cláudia elegantemente já postou! Linda!
Eu choro, tu choras e elas choram, foi muito legal! Romântico....e somos felizes, simples assim!
Amo vocês
beijocas
Sil Azul

CINEMA - COMENTÁRIOS


"Um filme que merece ser visto e celebrado... Albert Nobbs"

Confrades queridas,
Estou tentando por em dia os filmes que vocês já assistiram.

Nesta segunda aluguei o maravilhoso "Albert Nobbs". Divino! Que é essa atuação da Glenn Close?
O filme é tudo de bom, não consegui entender como ela não levou o Oscar?!
O que faz uma pessoa viver uma vida assim? Sobrevivência?

Assisti também Margareth...esperava mais, ótima atuação da Meryl Streep.

Vi O Amor na Idade da Razão, muito lindo. Gostoso de assistir. Francês.

Coriolanus de Willian Shakespeare com Gerard Butler, Ralph Fiennes e Vanessa Redgrave. Caio Marcio fica conhecido como Coriolano após vencer uma batalha contra os volscos. Gostei muito!

Agora vamos ao relato Day After!
beijocas
Sil Azul

SILVIA BEJAR


A Fábula da Sílvia...



A Borboleta e o Sapo
Silvia Bejar

Era uma vez uma princesa, nada parecida com a Branca de Neve, pois esta era um morena de sol carioca, parecida com a Bela Adormecida? Nem pensar, esta princesa é pura adrenalina: dança flamenco, joga futebol, pula de paraquedas, pilota helicópteros entre outras coisas... Com a Cinderela? Nunca, esta tem atitude e uma mãe que mostrou o mundo como ele é!!! A Bela...também não, afinal o Moçoilo em questão é bem bonitão!

Nossa princesa entrou como lagarta muito discreta, muito ouvinte, muito atenciosa! Essa lagarta-princesa é livre! Tem magia, tem gingado, tem tesão, ama a vida acima de tudo! Ela nunca imaginou que um dia ia virar uma linda borboleta e muito menos que poderia voar....É voar, voar...voar até uma distância razoavelmente grande para uma borboleta. Chegou ao Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, e lá se encantou por um belo sapo! Eles se apaixonam!!!
E aí começa um namoro à longa distância. Mas a coisa foi evoluíndo...ele, o sapinho, quis conhecer a Confraria dela, logo ele se apaixona mais ainda, afinal sua princesa-borboleta é culta e tem lindas amigas!!!!!
Entra ano, o namoro é firme, forte, sólido, mas é cansativo viajar todo final de semana é uma voada grande para uma borboleta menina...
A princesa vinha manifestando vontades de unir as escovas de dente, de sair para trabalhar cedo e quando voltasse ele estaria para chegar, jantariam juntos, todos os dias, menos as quartas que a princesa tem Confraria...mas nada acontecia...a princesa e o sapo já são passageiros Vips, da GOL!

Mas o glorioso sapo veio e mostrou a que veio. És um belo rapaz de vontades, de coragem, de amor a ponto de mudar da lagoa Rodrigo de Freitas para a lagoa do Parque do Ibirapuera!! Sim é um grande amor!

A nossa Princesa-Borboleta não acreditou... se emocionou, sem palavras, ela só acreditou porque na segunda feira ainda estavam juntos (Feitiço de Áquila), ela uma linda Mulher e ele um lindo Homem juntos!!!! E por enquanto estão sendo muito felizes, mesmo com a nova mania de limpeza da princesa!


The End


Silvia Bejar é bailarina, sobrinha do Tio Péricles, destemida, escritora, lagartixa, organizada, filha, irmã, amiga, esposa, azul e lagartixa.

Nasceu em São Paulo, põe ordem em qqr lugar que chega, atriz, contista e apaixonada.

O que adora: Beijar e mexer no caldeirão nas horas vagas.

Para vc Sílvia Azul,
Um pedacinho do encanto que comoveu a noite.
Obrigada.
Bjs,
Lagartixas

quarta-feira, 23 de maio de 2012

UM BRINDE AO ENSAIO...


O Brinde das Lagartixas para o momento tão... tão...
 
Queridas:
Temos um brinde pra Carla amanhã!!! 
Como damas de honra que se preze o que acham que podemos aprontar mais pra marcar este momento tão, tão, tão tanta coisa da vida dela????
Aguardo,
Ah, ela não esta copiada neste email.
Bj
Thais

Meninas, como assim? A Carlinha casou?
Silvia, claro que to dentro do presente.
Mas pra variar hj nao vou conseguir ir...
Tenho saudades!
Beijos a todas!!
Léa

Lea,
A Carla tá iniciando um ensaio!
Vê se vem!!!!
Bj
Thais

que ensaio? gente, vocês tão falando outra língua. só hoje consegui entender que a carlinha casou. ela se empolgou com aquele papo casamenteiro da última quarta, acho.
beijos D.

Yupi, tam... Tam....tam.  Tam...
Aguardem!!!!
Bj
Thais

thaís, pelo que entendi pelos emails, a carlinha casou com o vitor, é isso?
bem, o dia está complicado, greve de metrô, trânsito fodido, acho que poderíamos enviar umas flores pra ela, o que acha?
beijos D.

ah, ela ta grávida?
Enviado de meu iPhone
Lea De Luca

Devia vir conferir!!!
Bj
Thais
Enviado via iPhone

Até daqui a pouco...não vai dar tempo de tomar banho e nem me arrumar...ufa to a mil com essa história!
Sil

Bom dia Amigas Apaixonadas!
Escolhi uma caixa muito bonita em vermelho, cheia de chocolates, inclusive com um coração e licor! A caixa é grande e trabalhada!
beijocas
Silvia Azul

Tô dentro !!!
Cabe um anão ?
bjs
Adri

Lagartas: tão... tão... simples... Eles estão morando juntos! Escovando, cozinhando, amando, vivendo...

Por Cláudia


sábado, 19 de maio de 2012

DOIS CONTOS FALADOS


Um pouco mais do Lirismo de Kawabata



"Contos da Palma da Mão"
O título do livro é de uma beleza delicada, com uma profundidade atordoante.
O primeiro conto, A Mulher ao Caminho do Fogo, é um presságio, um sonho revelador, que acorda a alma adormecida.
O segundo, Descendentes de Samurais, nos envolve em descobertas, desejos e ancestralidade. Um tesouro que herdamos e somente nos damos conta quando um desbravador o desvenda.

Para vcs lagartixas, um presente de quem ganhou dois presentes lindos e vitais para o percurso da vida: um choro de bebê que espia o mundo pela primeira vez e um casal que ousa colocar o pé na realidade da vida e construir um caminho juntos.

Com Amor e Ternura,
Cláudia


quinta-feira, 17 de maio de 2012

UM BRINDE AS LAGARTIXAS!


"A Teia das Lagartixas"
Queridas Confrades, boa noite!

Muitos brindes, muitos Vivas, sempre que nos encontramos é como se fosse a primeira vez, brindamos à tudo, à VIDA!
Foi por pouco, quase completa a Confraria! Três ausências: Marg, Ilana e Léa!
Confrades ausentes, nossa anfitriã usou a sineta com maestria! Vocês perderam, tá?
Acho que o Boaz não entendeu nada.....rssrs Ele vai pirar na maionesa conosco.....Ah, vocês querem saber quem é o Boaz, vão ter que ir na próxima semana!!! Hahaha

Noite fria do lado de fora, quente em volta do calderirão com taças de vinho, um aconchego especial para lagartixas fazerem a festa! Lagartixas felizes como se não houvesse nada mais a pensar fora Gabo e um Bobó de Camarão sem palavras...repeti...tava muito bom...muita GULA!
Falamos bastante do livro Memórias de minhas putas tristes, uma coincidência descoberta ontem, comigo e a Cláudia, ambas lemos o livro ressabiada, pois já tinhamos lido anteriormente e não gostamos, em algum momento erroneamente interpretamos que ele tinha relações com a menina... ficamos com uma certa repulsa...lendo pela segunda vez com um outro olhar (coisas da Confraria), descobrimos o amor de um homem de idade avançadíssima depois de uma vida inteira, pela bela virgem adormecida, liiiiiiindo! Encantador! Sublime!
Lemos o conto também do Gabo,  O avião da bela adormecida: Cláudia, D., eu e Juju.(nessa ordem) O conto da inspiração....

By the away, não sei não, mas falamos também de casamento, que coisa né...acho que tem gente com vontade de casar. Aviso as moçoilas...eu quero ser Dama de Honra, seremos 12!!!!
Festa de casamento é tudo de bom! Não precisa ter igreja e nem cartório, só a festa!

Well, para a semana:
Mary Joey vai para poltrona com Introdução de Pondé.
Vamor ler mais dois capítulos da Amarelinha.
Próximo livro do mês: O retrato de Dorian Gray. Tem na internet.
Amigas queridas, revivemos a festa da Cláudia e juntas fomos tecendo comentários como uma teia.
Foi muito bacana!!! A Cláudia é pura emoção!!!

Infelizmente gripei...rs..."Eu gripo, tu gripas elas gripam...." Tudo pode virar verbo.
Me despeço aqui, beijocas virtuais
Silvia Azul

Imagem: Mauritis Cornelis Echer

A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS


"As Profundezas da Alma Feminina...

 Yasunari Kawabata

Obra que serviu de inspiração para o aclamado Memória de mis putas tristes, de Gabriel García Márquez

Imbuída de um erotismo inusitado, esta obra, escrita em 1961, demonstra a maturidade estilística do autor, que se utiliza de sua virtuose descritiva para contar a história de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “casa das belas adormecidas”, uma espécie de bordel onde moças encontram-se em sono profundo, sob efeito de narcóticos. Apesar da idade avançada, o protagonista parte em busca dos prazeres perdidos e se depara com moças virgens, que os visitantes podem tocar, mas são proibidos de corromper. Daí derivam passagens antológicas de rememorações pessoais e fantasia.
Kawabata procura desvendar o enigmático universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável, investigando as dores da solidão a partir da sutileza de um erotismo expressivo, constantemente atravessado por passagens de fina ironia e perturbadora consciência da passagem do tempo, do vazio existencial que permeia as relações humanas.
* * * * *
É objeto de consenso na crítica literária mundial que Yasunari Kawabata descreveu com meticulosa concisão as profundezas da alma feminina e revelou o corpo da mulher em seu mais sutil esplendor. Dono de uma capacidade de observação única, nenhum detalhe, nenhuma verdade escapam de seu olhar incomum. Em A casa das belas adormecidas, Kawabata dedicou-se obsessivamente a esta marca de sua literatura. Imbuído do matsugo no me, que talvez pudéssemos traduzir por “o olhar derradeiro”, Kawabata nos dá a impressão de pintar em cores vivas as últimas imagens de quem vai partir deste mundo.
A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não mais pode procurá-lo por conta própria. Contrapartida mais fantasiosa e ao mesmo tempo mais radical, apresenta um inegável parentesco com Diário de um velho louco, de Jun’ichiro Tanizaki, outro grande mestre da literatura japonesa moderna. Se este último trata da sensualidade a priori contida que acomete um idoso no cotidiano, Kawabata nos leva aqui em singela exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado. Os meandros da sexualidade — assim como a inexistência dela — em situações limite, da repressão do desejo e do autocontrole exacerbado compõem um jogo perverso que assume todo seu significado quando o protagonista tem de lidar com a noção de virgindade em seu sentido mais amplo. Temos aqui um indício de até que ponto Kawabata, sempre fiel a si mesmo, foi deliberadamente aos alicerces das estruturas mentais. Yukio Mishima, que louvava Kawabata, escreveu de forma reveladora em seu prefácio à edição norte-americana desta obra: “E será que a impossibilidade de obtenção não coloca definitivamente o erotismo e a morte no mesmo nível? E se nós romancistas não estamos do lado da ‘vida’ (se estamos confinados a uma abstração de certo tipo de neutralidade perpétua), então ‘a radiação da vida’ somente pode aparecer onde morte e erotismo caminham juntos.”

Trecho
“Uma mulher mergulhada no sono, que não fala nada, que não ouve nada: não seria, por outro lado, o mesmo que falar tudo, escutar tudo de um velho que já não tem virilidade para fazer companhia a uma mulher? Para Eguchi, entretanto, essa era sua primeira experiência com uma mulher desse tipo. A garota, por certo, já devia ter experiência de deitar-se com velhos como ele. Entregava-se totalmente e ignorava tudo, mergulhada no sono letárgico tal como uma morte aparente, deitada com um rosto quase infantil e respirando com tranqüilidade.” (p. 22)
“A decrepitude hedionda dos pobres velhotes que procuravam aquela casa ameaçava atingi-lo dentro de alguns anos. Quanto da imensurável amplitude do sexo, da insondável profundidade do sexo ele teria tocado na sua vida de 67 anos? Além disso, em volta dos velhotes nasciam incontáveis peles renovadas de mulheres, peles jovens, de garotas bonitas. Os desejos de sonhos impossíveis, o lamento pelos dias que lhes escaparam e que estavam perdidos para sempre não estariam impregnando os pecados daquela casa secreta? Eguchi já havia pensado que as garotas adormecidas o tempo todo seriam uma eterna liberdade para os velhotes. As garotas adormecidas e mudas certamente lhes falavam tudo que eles gostariam de ouvir.” (p. 43)
“Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que freqüentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem mulher.” (p. 53-4)
“Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade no lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores. Decerto os velhotes não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar. Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem lágrimas frias, se desmanchassem em choro convulsivo ou berrassem, a garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria.” (p. 80)

Kawabata ficou conhecido como alguém que "pintava as palavras" de branco. A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes.

Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.
Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês.
Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde os ideais dacorrente neo-sensorialista (shinkankakuha), que visava uma revolução nas letras japonesas e uma nova estética literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol de uma escrita lírica, impressionista, atravessada por imagens nada convencionais.
Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.
Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda sucessiva de todos seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.

Outras Obras:
Contos da Palma da Mão
O País das Neves
Nuvens de Pássaros Brancos
O Som da Montanha
Meijin
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Adeus a Carlos Fuentes







"Deve-se ter muito medo de escrever. Não é um ato natural como comer ou fazer amor, é de certa forma, um ato contra a natureza. É dizer à natureza que não se basta a si própria, que precisa de outra realidade, da imaginação literária" (Carlos Fuentes)


Meninas, uma homenagem ao Carlos Fuentes, que faleceu ontem no México. 


Amigo do Cortázar e do Garcia Marquez é nosso amigo também.


Beijos, D.

sábado, 12 de maio de 2012

CONFRADES MÃES



Dia de mãe é todo dia, mas comercialmente resolveram que o dia seria o segundo domingo do mês de maio, logo este ano será no dia 13 de maio, juntamente com o dia da Nossa Senhora de Fátima iremos comemorar o dia de vocês, mamães!
Que o dia de vocês, minhas doces amigas mamães, seja muito iluminado, com muita harmonia e amor junto aos seus filhos!!!
beijocas especiais à vocês mulheres incríveis!
Silvia Azul

sexta-feira, 11 de maio de 2012

OUTRO NARCISO


Outro Olhar...


A Fonte da Vaidade
(Um pouco de Mitologia Greco Romana)
Por Silvia Bejar
 
Narciso era filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liriope, e era um jovem de extrema beleza. Porém, à despeito da cobiça que despertava nas ninfas e donzelas, Narciso preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecedora do seu amor. E foi justamente este desprezo que devotava às jovens a sua perdição.

Pois havia uma bela ninfa, Eco, amante dos bosques e dos montes, companheira favorita de Diana em suas caçadas. Mas Eco tinha um grande defeito: falava demais, e tinha o costume de dar sempre a última palavra em qualquer conversa da qual participava.

Um dia Hera, desconfiada - com razão - que seu marido estava divertindo-se com as ninfas, saiu em sua procura. Eco usou sua conversa para entreter a deusa enquanto suas amigas ninfas se escondiam. Hera, percebendo a artimanha da ninfa, condenou-a a não mais poder falar uma só palavra por sua iniciativa, a não ser responder quando interpelada.

Assim a ninfa passeava por um bosque quando viu Narciso que perseguia a caça pela montanha. Como era belo o jovem, e como era forte a paixão que a assaltou! Seguiu-lhe os passos e quis dirigir-lhe a palavra, falar o quanto ela o queria... Mas não era possível - era preciso esperar que ele falasse primeiro para então responder-lhe. Distraída pelos seus pensamentos, não percebeu que o jovem dela se aproximara. Tentou se esconder rapidamente, mas Narciso ouviu o barulho e caminhou em sua direção:

- Há alguém aqui?
- Aqui! - respondeu Eco.

Narciso olhou em volta e não viu ninguém. Queria saber quem estava se escondendo dele, e quem era a dona daquela voz tão bonita.
- Vem - gritou.
- Vem! - respondeu Eco.
- Por que foges de mim?
- Por que foges de mim?
- Eu não fujo! Vem, vamos nos juntar!
- Juntar! - a donzela não podia conter sua felicidade ao correr em direção do amado que fizera tal convite.

Narciso, vendo a ninfa que corria em sua direção, gritou:
- Afasta-te! Prefiro morrer do que te deixar me possuir!
- Me possuir... - disse Eco.

Foi terrível o que se passou. Narciso fugiu, e a ninfa, envergonhada, correu para se esconder no recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e entre os rochedos das montanhas. Evitava o contato com os outros seres, e não se alimentava mais. Com o pesar, seu corpo foi definhando, até que suas carnes desapareceram completamente. Seus ossos se transformaram em rocha. Nada restou além da sua voz. Eco, porém, continua a responder a todos que a chamem, e conserva seu costume de dizer sempre a última palavra.

Não foi em vão o sofrimento da ninfa, pois do alto, do Olimpo, Nêmesis vira tudo o que se passou. Como punição, condenou Narciso a um triste fim, que não demorou muito a ocorrer.

Havia, não muito longe dali, uma fonte clara, de águas como prata. Os pastores não levavam para lá seu rebanho, nem cabras ou qualquer outro animal a freqüentava. Não era tampouco enfeada por folhas ou por galhos caídos de árvores. Era linda, cercada de uma relva viçosa, e abrigada do sol por rochedos que a cercavam. Ali chegou um dia Narciso, fatigado da caça, e sentindo muito calor e muita sede.

Narciso debruçou sobre a fonte para banhar-se e viu, surpreso, uma bela figura que o olhava de dentro da fonte. "Com certeza é algum espírito das águas que habita esta fonte. E como é belo!", disse, admirando os olhos brilhantes, os cabelos anelados como os de Apolo, o rosto oval e o pescoço de marfim do ser. Apaixonou-se pelo aspecto saudável e pela beleza daquele ser que, de dentro da fonte, retribuía o seu olhar.

Não podia mais se conter. Baixou o rosto para beijar o ser, e enfiou os braços na fonte para abraça-lo. Porém, ao contato de seus braços com a água da fonte, o ser sumiu para voltar depois de alguns instantes, tão belo quanto antes.

- Porque me desprezas, bela criatura? E por que foges ao meu contato? Meu rosto não deve causar-te repulsa, pois as ninfas me amam, e tu mesmo não me olhas com indiferença. Quando sorrio, também tu sorris, e responde com acenos aos meus acenos. Mas quando estendo os braços, fazes o mesmo para então sumires ao meu contato.

Suas lágrimas caíram na água, turvando a imagem. E, ao vê-la partir, Narciso exclamou:

- Fica, peço-te, fica! Se não posso tocar-te, deixe-me pelo menos admirar-te.

Assim Narciso ficou por dias a admirar sua própria imagem na fonte, esquecido de alimento e de água, seu corpo definhando. As cores e o vigor deixaram seu corpo, e quando ele gritava "Ai, ai", Eco respondia com as mesmas palavras. Assim o jovem morreu.

As ninfas choraram seu triste destino. Prepararam uma pira funerária e teriam cremado seu corpo se o tivessem encontrado. No lugar onde faleceu, entretanto, as ninfas encontraram apenas uma flor roxa, rodeada de folhas brancas. E, em memória do jovem Narciso, aquela flor passou a ser conhecida pelo seu nome.

Dizem ainda, que quando a sombra de Narciso atravessou o rio Estige, em direção ao Hades, ela debruçou-se sobre suas águas para contemplar sua figura.

PRÉVIA DO GABO


Este conto é um esboço do livro


O avião da bela adormecida 
Gabriel García Márquez


Era ela, elástica, com uma pele suave da cor do pão e olhos de amêndoas verdes, e tinha o cabelo liso e negro e longo até as costas, e uma aura de antiguidade que tanto podia ser da Indonésia como dos Andes. Estava vestida com um gosto sutil: jaqueta de lince, blusa de seda natural com flores muito tênues, calças de linho cru, e uns sapatos rasos da cor das buganvílias. "Esta é a mulher mais bela que vi na vida", pensei, quando a vi passar com seus sigilosos passos de leoa, enquanto eu fazia fila para abordar o avião para Nova York no aeroporto Charles de Gaulle de Paris. Foi uma aparição sobrenatural que existiu um só instante e desapareceu na multidão do saguão.

Eram nove da manhã. Estava nevando desde a noite anterior, e o trânsito era mais denso que de costume nas ruas da cidade, e mais lento ainda na estrada, e havia caminhões de carga alinhados nas margens, e automóveis fumegantes na neve. No saguão do aeroporto, porém, a vida continuava em primavera.

Eu estava na fila atrás de uma anciã holandesa que demorou quase uma hora discutindo o peso de suas onze malas. Começava a me aborrecer quando vi a aparição instantânea que me deixou sem respiração, e por isso não soube como terminou a polêmica, até que a funcionária me baixou das nuvens chamando minha atenção pela distração. À guisa de desculpa, perguntei se ela acreditava nos amores à primeira vista. "Claro que sim", respondeu. "Os impossíveis são os outros" Continuou com os olhos fixos na tela do computador, e me perguntou que assento eu preferia: fumante ou não-fumante.

— Dá na mesma — disse categórico — desde que não seja ao lado das onze malas.

Ela agradeceu com um sorriso comercial sem afastar a vista da tela fosforescente.

— Escolha um número — me disse. — Três, quatro ou sete.

— Quatro.

Seu sorriso teve um fulgor triunfal.

— Nos quinze anos em que estou aqui — disse —, é o primeiro que não escolhe o sete.

Marcou no cartão de embarque o número do assento e me entregou com o resto de meus papéis, olhando-me pela primeira vez com uns olhos cor de uva que me serviram de consolo enquanto via a bela de novo. Só então me avisou que o aeroporto acabava de ser fechado e todos os vôos estavam adiados.

— Até quando?

— Só Deus sabe — disse com seu sorriso. O rádio avisou esta manhã que será a maior nevada do ano.

Enganou-se: foi a maior do século. Mas na sala de espera da primeira classe a primavera era tão real que havia rosas vivas nos vasos e até a música enlatada parecia tão sublime e sedante como queriam seus criadores. De repente pensei que aquele era um refúgio adequado para a bela, e procurei-a nos outros salões, estremecido pela minha própria audácia. Mas na maioria eram homens da vida real que liam jornais em inglês enquanto suas mulheres pensavam em outros, contemplando os aviões mortos na neve através das janelas panorâmicas, contemplando as fábricas glaciais, as vastas plantações de Roissy devastadas pelos leões. Depois do meio-dia não havia um espaço disponível, e o calor tinha-se tornado tão insuportável que escapei para respirar.

Lá fora encontrei um espetáculo assustador. Gente de todo tipo havia transbordado as salas de espera e estava acampada nos corredores sufocantes, e até nas escadas, estendida pelo chão com seus animais e suas crianças, e seus trastes de viagem. Pois também a comunicação com a cidade estava interrompida, e o palácio de plástico transparente parecia uma imensa cápsula espacial encalhada na tormenta. Não pude evitar a idéia de que também a bela deveria estar em algum lugar no meio daquelas hordas mansas, e essa fantasia me deu novos ânimos para esperar.

Na hora do almoço havíamos assumido nossa consciência de náufragos. As filas tornaram-se intermináveis diante dos sete restaurantes, as cafeterias, os bares abarrotados, e em menos de três horas tiveram de fechar tudo porque não havia nada para comer ou beber. As crianças, que por um momento pareciam ser todas as do mundo, puseram-se a chorar ao mesmo tempo, e começou a se erguer da multidão um cheiro de rebanho. Era o tempo dos instintos. A única coisa que consegui comer no meio daquela rapina foram os dois últimos copinhos de sorvete de creme numa lanchonete infantil. Tomei-os pouco a pouco no balcão, enquanto os garçons punham as cadeiras sobre as mesas na medida em que elas se desocupavam, olhando-me no espelho do fundo, com o último copinho de papelão e a última colherzinha de papelão, e com o pensamento na bela.

O vôo para Nova York, previsto para as onze da manhã, saiu às oito da noite. Quando finalmente consegui embarcar, os passageiros da primeira classe já estavam em seus lugares, e uma aeromoça me conduziu ao meu. Perdi a respiração. Na poltrona vizinha, junto da janela, a bela estava tomando posse de seu espaço com o domínio dos viajantes experientes. "Se alguma vez eu escrever isto, ninguém vai acreditar", pensei. E tentei de leve em minha meia língua um cumprimento indeciso que ela não percebeu.

Instalou-se como se fosse morar ali muitos anos, pondo cada coisa em seu lugar e em sua ordem, até que o local ficou tão bem-arrumado como a casa ideal, onde tudo estava ao alcance da mão. Enquanto fazia isso, o comissário trouxe-nos o champanha de boas-vindas. Peguei uma taça para oferecer a ela, mas me arrependi a tempo. Pois quis apenas um copo d'água, e pediu ao comissário, primeiro num francês inacessível e depois num inglês um pouco mais fácil, que não a despertasse por nenhum motivo durante o vôo. Sua voz grave e morna arrastava uma tristeza oriental.

Quando levaram a água, ela abriu sobre os joelhos uma caixinha de toucador com esquinas de cobre, como os baús das avós, e tirou duas pastilhas douradas de um estojinho onde levava outras de cores diversas. Fazia tudo de um modo metódico e parcimonioso, como se não houvesse nada que não estivesse previsto para ela desde seu nascimento. Por último baixou a cortina da janela, estendeu a poltrona ao máximo, cobriu-se com a manta até a cintura sem tirar os sapatos, pôs a máscara de dormir, deitou-se de lado na poltrona, de costas para mim, e dormiu sem uma única pausa, sem um suspiro, sem uma mudança mínima de posição, durante as oito horas eternas e os doze minutos de sobra que o vôo de Nova York durou.

Foi uma viagem intensa. Sempre acreditei que não há nada mais belo na natureza que uma mulher bela, de maneira que foi impossível para mim escapar um só instante do feitiço daquela criatura de fábula que dormia ao meu lado. O comissário havia desaparecido assim que decolamos, e foi substituído por uma aeromoça cartesiana que tentou despertar a bela para dar-lhe o estojo de maquiagem e os auriculares para a música. Repeti a advertência que a bela havia feito ao comissário, mas a aeromoça insistiu para ouvir de sua própria voz que tampouco queria jantar. Foi preciso que o comissário confirmasse, e ainda assim a aeromoça me repreendeu porque a bela não havia colocado no pescoço o cartãozinho com a ordem de não ser despertada.

Fiz um jantar solitário, dizendo-me em silêncio tudo que teria dito a ela, se estivesse acordada. Seu sono era tão estável que em certo momento tive a inquietude que aquelas pastilhas não fossem para dormir e sim para morrer. Antes de cada gole, levantava a taça e brindava.

— À tua saúde, bela.

Terminado o jantar, apagaram as luzes, mostraram um filme para ninguém, e nós dois ficamos sozinhos na penumbra do mundo. A maior tormenta do século havia passado, e a noite do Atlântico era imensa e límpida, e o avião parecia imóvel entre as estrelas. Então contemplei-a palmo a palmo durante várias horas, e o único sinal de vida que pude perceber foram as sombras dos sonhos que passavam por sua fronte como as nuvens na água. Tinha no pescoço uma corrente tão fina que era quase invisível sobre sua pele de ouro, as orelhas perfeitas sem os furinhos para brincos, as unhas rosadas da boa saúde e um anel liso na mão esquerda. Como não parecia ter mais de vinte anos, me consolei com a idéia de que não fosse a aliança de um casamento e sim de um namoro efêmero. "Saber que você dorme, certa, segura, leito fiel de abandono, linha pura, tão perto de meus braços atados", pensei, repetindo na crista de espuma de champanha o so neto magistral de Gerardo Diego.

Em seguida estendi a poltrona na altura da sua, e ficamos deitados mais próximos que numa cama de casal. O clima de sua respiração era o mesmo da voz, e sua pele exalava um hálito tênue que só podia ser o próprio cheiro de sua beleza. Eu achava incrível: na primavera anterior havia lido um bonito romance de Yasumari Kawabata sobre os anciões burgueses de Kyoto que pagavam somas enormes para passar a noite contemplando as moças mais bonitas da cidade, nuas e narcotizadas, enquanto eles agonizavam de amor na mesma cama. Não podiam despertá-las, nem tocá-las, e nem tentavam, porque a essência do prazer era vê-las dormir. Naquela noite, velando o sono da bela, não apenas entendi aquele refinamento senil, como o vivi na plenitude.

— Quem iria acreditar — me disse, com o amor-próprio exacerbado pelo champanha. — Eu, ancião japonês a estas alturas.

Acho que dormi várias horas, vencido pelo champanha e os clarões mudos do filme, e despertei com a cabeça aos cacos. Fui ao banheiro. Dois lugares atrás do meu, jazia a anciã das onze maletas esparramada mal-acomodada na poltrona. Parecia um morto esquecido no campo de batalha. No chão, no meio do corredor, estavam seus óculos de leitura com o colar de contas coloridas, e por um instante desfrutei da felicidade mesquinha de não os recolher.

Depois de desafogar-me dos excessos de champanha me surpreendi no espelho, indigno e feio, e me assombrei por serem tão terríveis os estragos do amor. De repente o avião foi a pique, ajeitou-se como pôde, e prosseguiu voando a galope. A ordem de voltar ao assento acendeu. Saí em disparada, com a ilusão de que somente as turbulências de Deus despertariam a bela, e que teria de se refugiar em meus braços fugindo do terror. Na pressa estive a ponto de pisar nos óculos da holandesa, e teria me alegrado. Mas voltei sobre meus passos, os recolhi, os coloquei em seu regaço, agradecido de repente por ela não ter escolhido antes de mim o assento número quatro.

O sono da bela era invencível. Quando o avião se estabilizou, tive que resistir à tentação de sacudi-la com um pretexto qualquer, porque a única coisa que desejava naquela última hora de vôo era vê-la acordada, mesmo que estivesse enfurecida, para que eu pudesse recobrar minha liberdade e talvez minha juventude. Mas não fui capaz. "Que merda", disse a mim mesmo, com um grande desprezo. "Por que não nasci Touro?" Despertou sem ajuda no instante em que os anúncios de aterrissagem se acenderam, e estava tão bela e louçã como se tivesse dormido num roseiral. Só então percebi que os vizinhos de assento nos aviões, como os casais velhos, não se dizem bom-dia ao despertar. Ela também não.

Tirou a máscara, abriu os olhos radiantes, endireitou a poltrona, pôs a manta de lado, sacudiu as melenas que se penteavam sozinhas com seu próprio peso, tornou a pôr a caixinha nos joelhos, e fez uma maquiagem rápida e supérflua, o suficiente para não olhar para mim até que a porta foi aberta. Então pôs a jaqueta de lince, passou quase que por cima de mim com uma desculpa convencional em puro castelhano das Américas, e foi sem nem ao menos se despedir, sem ao menos me agradecer o muito que fiz por nossa noite feliz, e desapareceu até o sol de hoje na amazônia de Nova York.

Junho de 1982.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"O MENINO É O PAI DO HOMEM" (Cortázar)


Por Cláudia Belintani
 
O "pequeno" Tim Burton, o "pequeno" Cortázar, o "pequeno" Wilde, o "pequeno" Thomas Mann, o "pequeno" Gabriel, o "pequeno" Caio e "as pequenas" Lagartixas...

Noite de Bichos.
Noite de Meninos
Noite de Homens
(Nesta ordem)

Júlia com o Búfalo
"Para que lado?"
Thais com a Tigresa
"Quando pequena me chamavam de Tigresa"
MJ com os Vampiros
"Meus dentes crescem a ponto de não caber na boca"
Carlinha com a Raposa
"Pode ser boa se ela se esforçar"
D com o Elefante
"Ele é super tranquilo, até mexerem com ele"
Caio e seu Tiranossauro Rex
"Tem cabeção e braços curtos"
Cláudia com o Lobo
"Senti minha boca salivar e qdo vi, mordi"
Silvia com a Lontra e o Urso
"Um do lado direito e outro do esquerdo (se fiz certo)"

Entendemos que somos o que vivemos,
Soltamos o bicho que mora por trás da pele,
Falamos dos medos do menino,
Do homem,
e do bicho.

Noite de Cassoulet,
De sorrisos de gatos.,
De lagartas,
De Alice

Um beijo,
Com Carinho,
Lagartixas




UM TEXTO POÉTICO


Para a Júlia que adora amarelo e a Carlinha que adora Girassóis
 Por Angela Camazano

Texto de Marcos Mairton 

Em um terreno baldio, em meio a restos de material de construção e muito mato, nasceu um pé de girassol.

Não se sabe se a semente foi lançada ali deliberadamente por alguém, se chegou trazida pelo vento ou se veio junto com os restos da refeição de uma calopsita. O certo é que a semente brotou, a planta cresceu e, em uma ensolarada manhã, uma bela flor amarela desabrochou, erguendo-se bem acima do mato rasteiro.

Antes que a flor surgisse, ninguém havia percebido a planta crescer até quase um metro e meio de altura. Talvez por isso as pessoas se mostrassem admiradas e surpresas com a presença do girassol naquele lugar improvável.

A mulher que morava em frente ao terreno baldio foi a primeira a ver a novidade, e ficou mais tempo que o de costume debruçada na janela do quarto, no andar de cima de sua casa duplex. Um homem que passeava com seu cachorro ficou alguns minutos parado, simplesmente olhando para o girassol. Outra mulher, que levava o filho à escola, quase se irritou com os puxões que o garoto dava em seu braço, tentando chamar a sua atenção para a flor. Antes, ele somente havia visto outras daquela espécie na Internet e em um livro de ciências. Ao perceber do que se tratava, a mãe se acalmou.

E assim foi o começo do dia naquela rua, até que cada um foi cuidar dos seus afazeres e o belo girassol ficou sozinho em seu terreno baldio.

Somente mais tarde, em um momento no qual não havia ninguém na rua, apareceu uma jovem senhora. Estava vestida com roupas que normalmente se usam em academias de ginástica e tinha os cabelos presos por uma faixa de tecido. Ela também parecia atraída pelo girassol, mas, ao invés de ficar olhando de longe, como os outros, caminhou com dificuldade pelo piso acidentado do terreno baldio, aproximou-se da planta e, com uma tesourinha de cortar unhas, rompeu o talo e retirou a flor. Depois foi para casa sorrindo, segurando em uma das mãos o seu troféu.

Minutos depois, o menino que havia dado puxões no braço da mãe passou novamente por ali, voltando da escola, e percorreu com os olhos cada centímetro do terreno baldio. No entanto, viu apenas o mato e restos de material de construção.

P.S.: Após esse episódio, o menino acabou por convencer a mãe a plantar girassóis em seu próprio quintal, mas, durante meses, cada vez que nascia uma flor, ele ficava todo o tempo que podia vigiando-a. Dizia à mãe que essas flores misteriosas podem se soltar da planta e voar em direção ao sol quando ninguém está olhando.
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* Marcos Mairton é escritor, compositor e Juiz Federal em Quixadá/CE

quarta-feira, 9 de maio de 2012

MEDO - SOMBRAS DA INFÂNCIA


Lobisomens, Sombras, Gatos Negros, Mortos Vivos, Medos... Ele os espantou através das palavras. Quando se transformam, ganham cor e viram borboletas, brincadeiras do olhar.


MEDO - sombras da infância   
Julio Cortázar 
Por Cláudia Belintani

Interrogar-me sobre o medo em minha infância é abrir um território vertiginoso e cruel que inutilmente venho tentando esquecer (todo adulto é hipócrita frente uma parte de sua meninice), mas que volta em pesadelos noturnos e noutros pesadelos que fui escrevendo sob a forma de contos fantásticos.

A casa de minha infância estava tomada de sombras, recantos, andares e sótãos, e ao cair da noite as distâncias se tornavam desmedidas para este menino que devia ir ao banheiro atravessando dois pátios, ou trazer o que lhe pediam de uma dispensa remota. Sagas sangrentas de assassinos circulavam nas conversas de família após o jantar, o subúrbio transbordava de ladrões e vagabundos perigosos, mas isso tudo, que compreensivelmente aterrorizava minha mãe, somente incidiu marginalmente em meus medos. Numa idade que não consigo fixar, a solidão e a obscuridade desencadearam em mim outros temores jamais confessos; animalzinho literário desde então, o terror me chegou pelas leituras e não de crônicas vivas, inclusive nestas leituras o vórtice do pavor foi sempre a manifestação do sobrenatural, do que não se pode tocar, nem ouvir ou ver com os sentidos usuais, e que precipita sobre a vítima uma dimensão fora de toda lógica.

Assim, desarmado, nunca pude refugiar-me na confissão do temor que os mais velhos às vezes compreendem, ainda que quase sempre a rechacem em nome do senso comum, da hombridade e de outras cretinices; desde muito jovem tive que aceitar minha solidão nesse terreno ambíguo, onde o medo e a atração mórbida compunham meu mundo da noite. Consigo precisar hoje um marco seguro: a leitura clandestina, aos oito ou nove anos, dos contos de Edgar Allan Poe. Ali o real e o fantástico (digamos a rua Morgue e Berenice, o gato negro e Lady Madelaine Usher) se fundiram num horror unívoco que realmente me contaminou durante meses e do qual jamais me curei de todo. O folclore argentino também fazia das suas, através de tios e primas: o lobisomem, por exemplo, a possibilidade monstruosa do licantropo cada vez que me mandavam buscar algo no jardim em noite de lua cheia. Pouco me atemorizava a idéia de um criminoso que pudesse me apunhalar ou estrangular na sombra; esse criminoso estava do meu lado, inclusive minha ingenuidade me levava a crer-me capaz de defesa, com um direto na mandíbula ou uma patada letal. O medo era o outro, isso que a literatura anglo-saxã chama tão admiravelmente de the thing, "a coisa", o que não tem imagem nem definição precisa, roçar furtivo no cabelo, mão gelada no pescoço, risada percebida do outro lado de uma porta entreaberta. Contra isso não havia resposta possível senão correr, cumprir o encargo a toda velocidade e regressar sem alento para recolher irrisoriamente grandes elogios por minha diligência.

Meus companheiros de escola e de futebol tinham medo do que genericamente chamavam de fantasmas, que extraíam de relatos familiares e de péssimos novelões góticos. A idéia do fantasma típico, com lençol branco e ruído de correntes, nunca me preocupou; podia admitir sua existência, e até admitia, mas estava quase seguro de que não se incomodariam em manifestar-se, achava-os demasiadamente estereotipados e repetitivos. Minhas leituras pouco controladas pelos adultos caminhavam infalivelmente para formas mais sutis do sobrenatural e do mórbido; literatura da catalepsia e do sonambulismo, por exemplo, que abundava nas bibliotecas de minha infância; o Golem, que entrou prematuramente em minha vida; os duplos; os autômatos homicidas; e já no umbral da despedida infantil, o monstro filho de Mary Shelley e do doutor Frankenstein; além de Césare, a horrenda criatura de Caligari.

O menino é o pai do homem, e quem ler estas linhas reconhecerá algumas das atmosferas que surgem de meus contos e de alguma novela (onde se trata de vampiros que, coisa estranha, não circularam muito nas noites de minha infância, sem dúvida por falhas bibliográficas). Se o medo cobriu de infelicidade minha meninice, por outro lado multiplicou as possibilidades de minha imaginação e me levou a exorcizá-lo através da palavra; contra meu próprio medo inventei o medo para outros, resta saber se os outros me agradecerão.
Em todo caso, creio que um mundo sem medo será um mundo demasiado seguro de si mesmo, excessivamente mecânico.
Desconfio dos que afirmam nunca ter sentido medo; ou mentem, ou são robôs dissimulados, e que medo me dão os robôs.

(Julho de 1983)
Julio Cortázar (1914-1984) é um dos escritores argentinos mais importantes deste século.
Autor de Jogo da amarelinha, Bestiário, História de Cronópios e de Famas, entre outros.
Este texto foi cedido pela Agência EFE. (Tradução de Reynaldo Dama)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O BÚFALO DO RIO


Para mim, um "Minotauro" que sabe o caminho...


O Búfalo do Rio
Shaun Tan
Do livro Contos de Lugares Distantes 
Por Júlia Ramiro Belintani

Quando eu era criança, um grande búfalo do rio vivia no terreno baldio no fim da nossa rua, aquele que ninguém cortava a grama. Ele ficava a maior parte do tempo dormindo e ignorava qualquer um que passasse, a não ser que nós resolvêssemos parar e pedir conselhos. Aí ele se levantava bem devagar, erguia a pata esquerda e apontava exatamente a direção certa. Mas ele nunca dizia para onde estava apontando, ou até onde tínhamos de ir, ou o que devíamos fazer ao chegar lá. Na verdade, ele nunca dizia nada, pois os búfalos do rio são assim: eles odeiam conversar.

Para muitos de nós, isso era frustrante. Quando alguém pensava em "consultar o búfalo", nosso problema costumava ser urgente e requeria solução imediata. A gente acabou parando de visitá-lo, e acho que pouco tempo depois ele foi embora: ficamos só com a grama alta.

É uma vergonha, sabe, porque sempre que seguíamos a pata pontuda dele nos surpreendíamos, aliviados e satisfeitos com o que encontrávamos. E toda vez a gente dizia exatamente a mesma coisa: "Como é que ele sabia?".

Tradução de Érico Assis

O OUTRO NARCISO



Imagens de Marcos Issa 

O Outro Narciso*
Julio Cortázar
Papéis Inesperados

Deixamos o carro ao lado do bangalô, tanto faz deixá-lo ali ou em qualquer outro lugar porque é uma coisa que nem olhamos e até que não vemos salvo na hora de usá-la. Mas o passarinho pardo que vem pousar no espelho retrovisor transforma bruscamente o carro num reino próprio e nos obriga a considerá-lo de outra forma, a vê-lo de verdade pela primeira vez.

Menor que um pardal, o passarinho tropical se encontrou no pequeno retângulo brilhante, quis entrar no espelho e se reunir com o outro passarinho, mantendo-se por um segundo no ar diante do espelho, e agora a resistência do vidro azougado o obriga a subir ainda buscando a entrada até pousar na borda cromada do retrovisor. Sua surpresa - de algum modo tenho que dizer - deve ser grande quando deixa de ver o outro passarinho e reencontra a linha de árvores distantes, o horizonte da praia. Não entende o que está acontecendo (de algum modo tenho que continuar contando) e desce de novo até a borda da porta, encarando o espelho e vendo-se, reconhecendo o outro pássaro idêntico a si, e então salta agitado no ar diante da própria imagem, atira-se contra o espelho, e outra vez rejeitado tem que subir até pousar perplexo na borda.

Nós o observamos da varanda, tenta obstinadamente encontrar o outro passarinho, sobe e desce, borboleteia diante do retrovisor. De repente voa até as árvores e se perde na folhagem; é a nossa hora de comentar enternecidos essa ilusão, esse diminuto teatro do artifício em que vimos mais uma vez representar-se o drama de Narciso. Pensamos, sem falar, que ao contrário do adolescente apaixonado que vai buscar-se até a morte no cruel espelho ilusório do lago, o passarinho já deve ter se esquecido de sua ansiedade e seu desejo, sem dúvida porque nele não há ansiedade nem desejo e muito menos memória, e só nós enternecidos o revestimos com as nossas próprias nostalgias em que Narciso e Endimião e Dafne e Procne, em que Hilas e Arião e tantas outras metamorfoses do desejo se buscam nos espelhos do sonho e do inconsciente. E estamos talvez prestes a dizer essas coisas e a sorrir com um pouco de piedade e de consolo, quando vemos o passarinho voltar, ir diretamente para o retrovisor, recomeçar sua colisão inútil, pular até a borda, descer e voar obstinado, alucinado, apaixonado. Só então sentimos, só então sabemos que aquilo não era um simulacro em que procurávamos apenas uma analogia com a nossa condição solitária de humanos, de Narcisos isolados e excepcionais; agora entendemos que isso que estamos vendo pode ser dito com as palavras que achávamos exclusivas do nosso lado, e que Narciso pode ter asas ou escamas ou élitros ou galhos e também memória e desejo e amor. De repente estamos menos separados do pulsar do dia; nossos espelhos chamam e devolvem outras imagens, brincam com outros desejos, sustentam outras esperanças; não somos a exceção, Narciso passarinho repete o mesmo jogo interminável em seu pequeno lago de azougue, em sua ilusão de amor que abraça a totalidade do mundo e suas criaturas.


*Proceso, México, nº 356, 27 de agosto de 1983.
Por Lagartixas 

AMOR DE CÃO



"Desejo de Cão"
Por Angela Camazano

O Tango de Tibério e Lola

Estavam dançando um tango: quando ele ia, ela recuava, quando ele recuava, ela vinha


O amor é um tango. Hoje vou contar uma história de amor que ouvi de alguém esses dias. Esta história é real e nos faz pensar, afinal, quem somos nós.

Tibério era um jovem promissor. De boa família e com bons antecedentes, era visto como alguém inteligente, vivo e alegre. Vivia sua vida, numa casa de classe A, quando, numa noite de calor, viu alguém chegar à vizinhança. Loira, naquela idade que as avós chamavam de menina-moça, mesmo que ainda novinha, já se mostrava pronta para um investimento erótico.

Lola passeava pela vizinhança, livre e senhora de si, como são as fêmeas da espécie quando seguras de sua beleza e de seu charme. Para o coração do jovem Tibério, aquilo foi demais.

Ficou obcecado por Lola. Tentou voltar para sua vida pré-Lola, mas não adiantou. Nada do que tinha fazia mais sentido, pensava naquela jovem loira todo o tempo. Ficava parado olhando para parede, como se sua casa, sua vida e seus objetos de valor tivessem se esvaziado de sentido. Se Tibério soubesse filosofia, diria que a vida perdera o significado.

Ele era ainda virgem. No fundo da alma, se envergonhava disso e preferia que este fato permanecesse em segredo.

Mas, de repente, tomou uma decisão e resolveu abordar a bela e irresistível Lola, a loira arrasadora do "cartier", como dizem os franceses. Quem sabe, pensou Tibério no silêncio de sua alma, ela fosse, ainda que jovem e virgem, uma loira devassa em potencial? Pelo caminhar dela, balançando, ainda que discretamente, as promissoras ancas, ele pensou que tinha alguma chance.

Chegou perto e tentou falar com ela. Nada. Aquele olhar de desprezo que só fêmeas lindas da espécie sabem dar quando percebem que algum jovem candidato está por perto. Mas, percebia Tibério, Lola o olhava pelo canto dos olhos.

Tibério tinha razão. Ela estava dando sinais de interesse. Aproximou-se e tentou chegar bem pertinho. Lola, literalmente rosnou para ele. De primeira, Tibério temeu que ela o fosse morder de fato.
Tibério correu para casa, temeroso. Mas o desejo era grande, e Lola seguramente o olhava de longe, com olhos doces. Todos os seus genes ancestrais diziam: "Tibério, vá fundo, cara!".

O jovem voltou à carga. Pensou naquilo que todo macho pensa: "Ela quer um presente!". Não tinha nada à mão e, infelizmente, dependia da sua família para ir a um shopping, portanto teve uma ideia desesperada: "Vou dar para ela o que eu mais gosto e assim ela vai ver que eu quero muito ficar com ela".

Correu e pegou um objeto (pouco importa o que era, mas sim o valor que tinha para ele; de longe alguém diria que não passava de uma bola). Colocou carinhosamente o objeto diante da bela Lola. Ela, de novo, desprezou o infeliz Werther. Recuou. De longe, de novo, percebeu o discreto sorriso da bela Lola. Ela estava mesmo dançando um tango com ele: quando ele ia, ela recuava, quando ele recuava, ela vinha.

Uma dor grande se apoderou do pobre coração apaixonado. Mas, de novo, seus genes clamavam pela jovem Lola. Decidiu fazer-se de macho poderoso do pedaço e se aproximou confiante.

De repente, assim como quem ia roubar um beijo e um abraço, Tibério tentou se apossar de Lola. Ela, agora sem dúvida nenhuma, rosnou e o mordeu sem pena.

Tibério fugiu humilhado. Perdido, tentou comer alguma coisa. Mas, de novo tomado pelo amor, pensou se Lola não o aceitaria em troca de sua comida importada, mesmo que por um segundo tivesse pensado que aquilo não eram modos de abordar uma dama fina como Lola.

Docemente, ele empurrou a comida para ela. Lola comeu a comida dele e virou de costas. Tibério ficou arrasado e sentou-se, triste, enquanto a contemplava pela porta de vidro. Lola olhou para ele e ensaiou um sorriso, mas não adiantou. Tibério já estava triste e adormeceu. No dia seguinte, à mesma hora que Lola chegara, reconhecendo o carro, correu para o porta-malas para ver se a bela Lola voltara. Mas não.

Alguém perguntará: como uma bela dama pode vir num porta-malas? Simples: basta ela ser uma golden retriever, e ele, um border collie.

Sim, o amor é um tango, seja entre humanos, seja entre cães.

Luiz Felipe Pondé


Folha de S.Paulo
07/05/2012 




O TANGO DE TIBÉRIO E LOLA - Artigo do Luiz Filipe Pondé -
Vejam o artigo do Pondé sobre o Amor - seja entre humanos seja entre os cães, o Amor envolve os movimentos do Tango; quando um avança o outro recua e assim como numa onda, que se repete....

Angela

UM CASACO DE RAPOSA VERMELHA


Por baixo da pele quem somos nós?


Um Casaco de Raposa Vermelha
Teolinda Gersão

Ao voltar um dia para casa, uma pequena empregada bancária vê numa loja de peles um casaco de raposa vermelha. Para diante da vitrine, com um calafrio de prazer e desejo. Porque aquele é o casaco que sempre desejou ter na vida. Nenhum outro se lhe assemelha, pensa percorrendo com os olhos os outros casacos, pendurados no varão de metal ou suavemente estendidos sobre o sofá de brocado. Aquele é uma peça rara, única, jamais vira um tom assim, fulvo, mesclado, com reflexos de cobre e brilhante como se estivesse a arder. A loja estava fechada àquela hora, lembrou-se no momentânea que empurrava a porta, cedendo ao impulso de entrar. Amanhã viria, então, o mais cedo possível, no intervalo do almoço, durante a manhã, encontraria um pretexto para sair rapidamente, a meio da manhã. Dormiu pouco, essa noite, acordou inquieta, levemente febril. Contou os minutos que faltavam para abrir a loja, os seus olhos erravam do relógio de parede para o relógio de pulso, enquanto atendia os clientes, debruçada no balcão. Tão cedo quanto pôde encontrou uma razão para sair e correu à loja de peles, tremendo com a idéia de que o casaco pudesse estar vendido. Não estava, informaram-na, e ela sentiu de repente o ar voltar-lhe, o coração bater com menos força, o sangue descer da face e retomar compassadamente o seu fluxo.
- Parece feito para si, disse a vendedeira quando ela o vestiu e se voltou no espelho. A medida exata dos ombros, da cintura, a altura ideal da bainha, disse ainda, e olhe como fica bem à cor da sua pele. Não tenho interesse em lho vender, apressou-se a acrescentar, pode evidentemente optar por qualquer outro, mas, se lhe posso dar uma opinião, esse parece feito para si, sublinhou com um sorriso fugidio.
- Qual é o preço? Perguntou dando meia volta e fazendo dançar a bainha, porque lhe era difícil despregar os olhos da imagem.
Recuou, assustada, ouvido a resposta. Custava muito mais do que pensara, cinco vezes mais do que o dinheiro que teria disponível.
- Mas podemos facilitar o pagamento, disse a vendedeira compreensiva.
Talvez sacrificando as férias, pensou. Ou desviando algum dinheiro do empréstimo do carro. Aquecendo menos o quarto, fazendo refeições mais ligeiras. Convinha-lhe, até, porque estava a engordar um pouco.
- Aceito, disse fazendo rapidamente contas de cabeça. Dou-lhe um sinal e começo a pagar na próxima semana. Mas desde já ele é meu.
- De acordo, disse a vendedeira espetando-lhe uma etiqueta "Vendido". Pode levá-lo quando efetuar a terceira prestação.
Passou a vir à noite, quando a loja estava fechada e ninguém a via, olhava através do vidro e de cada vez se alegrava - de cada vez era mais brilhante, mais cor de fogo, labaredas vermelhas que não queimavam, antes eram macias sobre o seu corpo, uma pele espessa, ampla, envolvente, balançando com o seu andar.
Seria admirada, também ela, seguida com os olhos quando passasse - mas não era isso que a fazia sorrir secretamente, era antes uma satisfação interior, uma certeza obscura, uma sensação de harmonia consigo própria, que extravasava em pequenos nadas, deu conta. Como se o ritmo da respiração mudasse, fosse mais repousado e mais profundo. Por outro lado, talvez porque deixara de sentir-se cansada, deu conta de que se movia agora muito mais depressa do que habitualmente, caminhava sem esforço pelo menos com o dobro da velocidade normal. As pernas ágeis, os pés ligeiros. Toda ela mais leve, rápida, com movimentos fáceis do dorso, dos ombros, dos membros.
É por causa da ginástica, pensou, por alguma razão começara a fazer regularmente exercício. Havia meses já que conseguia correr duas horas por semana no campo de treino. Mas gostava sobretudo de correr na orla da floresta, à saída da cidade, sentindo a areia estalar debaixo dos pés, aprendendo a colocar os pés no chão de outra maneira. O contato perfeito, íntimo, direto com a terra. Sentir profundamente o corpo - estava mais viva, agora, mais alerta. A sua capacidade de percepção crescia, notou, mesmo à distancia ouvia ruídos diminutos, que antes lhe passariam despercebidos, uma sardanisca fugindo no chão entre as folhas, um rato invisível fazendo estalar um ramo, uma bolota caindo, um pássaro pousando entre as ervas; pressentia também, muito antes de elas terem lugar, as mudanças atmosféricas, o virar do vento, o subir da humidade, o avolumar-se no ar da tensão que descarregaria em chuva.
E os cheiros, um mundo de cheiros, sentiu, como uma dimensão ignorada das coisas a que agora se tornava sensível, poderia descobrir caminhos, trilhos, pelo olfato, era estranho como nunca tinha dado conta de como todas as coisas cheiravam, a terra, a casca das árvores, as ervas, as folhas, e também cada animal se distinguia pelo seu odor peculiar, cheiros que vinham no ar desdobrados em ondas, em leque, e ela juntava-os ou separava-os, aspirando o vento, levantando imperceptivelmente a cabeça. Interessava-se de repente por animais, dava consigo a desfolhar enciclopédias, a olhar imagens - o ouriço -cacheiro com uma cor mole, tenra, clara, na parte de dentro do corpo, onde não havia espinhos, a lebre rápida, em tons indecisos, saltando, fascinava-a o corpo dos pássaros que analisava com minúcia, calculando como era suave, para lá das penas, e uma palavra lhe ficava por vezes boiando insistentemente na memória: predador.
Tinha mais fome, agora, sentiu arrumando os livros e abrindo a porta da cozinha, e isso desagradava-lhe profundamente, admitia que era a contrapartida negativa do exercício físico e procurava um modo de contornar o perigo de engordar, vagueava, insatisfeita em torno das pastelarias, sem atinar com o que procurava, porque o próprio cheiro do café era repugnante e a enjoava, tinha fome de outras coisas, não saberia dizer exatamente do quê, fruta, talvez, poderia aproveitar para emagrecer um pouco, comprou uma enorme quantidade de uvas e maçãs e comeu-as todas no mesmo dia , mas continuou a sentir fome, uma fome oculta, que a roía por dentro e não parava.
Um inesperado convite para uma festa alegrou-a, sentiu que qualquer derivativo seria bem vindo para esquecer aquela fome absurda, vestiu-se com prazer e pintou a boca e as unhas de escarlate - tão compridas, as  unhas, reparou, e as próprias mãos pareciam mais sensíveis, alongadas, quem ela acariciasse na festa ficaria eternamente em seu poder, pensou e sorriu no espelho - um sorriso felino, viu, pondo os olhos em fenda e sorrindo mais, deixando o sorriso escorrer pelo rosto e dando-lhe aos traços uma certa orientação triangular que lhe agradou e sublinhou ainda mais com maquiagem.
A meio da festa reparou numa peça de carne a ser partida, meio em sangue - rosbife, lembrou-se, mas essa palavra não fazia de repente qualquer sentido, estendeu a mão e engoliu uma fatia - o gosto da carne, quase crua, o gesto de cravar os dentes, de fazer saltar o sangue, o sabor do sangue na língua, na boca, a inocência de devorar a peça inteira, pensou tirando outra fatia e entendo que estender a mão esta já um desvio inútil, deveria estender diretamente a boca.
Desatou a rir e começou a dançar, com as mãos oscilando no ar, manchadas de sangue, como se uma tempestuosa força interior se desencadeasse, uma força maligna que poderia transmitir aos outros, uma peste ou uma maldição, mas essa idéia era suave, tranqüila, quase alegre, sentiu flutuando, ligeiramente embriagada, e escutando o eco do eu próprio riso.
Passaria a noite obedecendo a todas as forças que dentro dela se soltassem, e de manhã iria buscar o casaco, porque era o dia marcado e ele era seu, fazia parte dela, conhecê-lo-ia mesmo de olhos fechados, pelo tato, a pele macia, espessa, ardendo sobre a sua, ajustada perfeitamente, a ponto de não se distinguir dela.
- Feito para si, disse de novo a vendedeira tirando-o da cruzeta.
A pele ajustada à sua, a ponto de não se distinguir dela, viu no espelho levantando a gola em volta da cabeça, o rosto desfeito, de repente emagrecido, desmesuradamente alongado pela maquiagem, os olhos em fenda,
ardendo sem sono.
- Então bom dia e obrigada, disse saindo à pressa, receando que o tempo que lhe restava se esgotasse e as pessoas parassem alarmadas a olhá-lá, porque de repente era demasiado forte o impulso de por as mãos no chão e correr à desfilada, reencarnando o seu corpo, reencontrando o eu corpo animal e fugindo, deixando a cidade para trás e fugindo - e assim foi com esforço quase sobre-humano que conseguiu entrar no carro e rodar até à orla da floresta, segurando o sua corpo, segurando ainda um minuto mais o seu corpo trêmulo - antes do bater da porta e do verdadeiro salto sobre as patas livres, sacudindo o dorso e a cauda, farejando o ar, o chão, o vento, uivando de prazer e de alegria e desaparecendo, embrenhando-se rapidamente na profundidade da floresta.


Para onde sopra o vento?