sexta-feira, 30 de março de 2012

BOLO CELTA


O Bolo que virou farelo - Encantado, fechou a noite com sementes e frutos de amor.

Meninas, devidamente postado e batizado.
Sei que é feito com sementes mágicas e frutos encantados.
Diz a lenda, que se servido no meio de uma ciranda de mulheres, a Terra beija a Luz da Lua.
Assim como toda a cultura celta, era uma iguaria sagrada e por isso, degustado apenas nos grandes rituais e sua receita era passada através de contos, músicas e danças, mas jamais pela palavra escrita. 
Hoje, somente as sacerdotizas evoluídas, que se desprendem da Terra com facilidade, conseguem passar a fórmula com um ritual de amor.
Bjs

quinta-feira, 29 de março de 2012

AMOR

Thought of You - by Ryan Woodward (Por Silvia Bellintani)

"Simplesmente Lindo! Vontade de Sonhar e Sonhar é "Viver"
Demais!!!
Maria Inês

"Abraçar a água é como abraçar a vida...
Vida que flui, que se move, que escapa, que pula e foge do nosso controle.
Ela se esvai...
Como a Vida...
Muito rápida e sem controle.
Viver..."
Adri Felden

"Sonho, desejo que arde.
Busca, encontro
Medo e Fuga.
Desenho franco,
Melodia Doce.
Poesia."
Amei
Margaret

"Real?
Só se for fantasioso!"
D.

"Lindo!
Talvez seja mais fácil viver na ilusão..."
Ilana

"A Bailarina e a Rosa
Senti a vontade de amar...
A busca por uma completude...
A rosa que se sacrifica e a bailarina que cai do céu
e se materializa...
O medo da entrega e o arrependimento de um amor desperdiçado.
Tudo tão frágil e tão breve...
A vida que se transforma em um fluído em vontade de ser,
sem coragem de ser.
A dor da descoberta de nós mesmos no outro...
O vínculo que se rompe no suspiro da realização...
Tão breve!
Mas que vale uma Vida."
Muito Lindo!
Carla

"Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
Será tão loura e vagarosa e bela,
que eu pensaria que é o sol que vem pela janela,
trazer luz e calor a esta alma escura e fria..."
Guilherme de Almeida 
Por MJ

"O homem não sabe amar,
ele sublima o Amor!"
Sílvia

"Eva saiu da costela de Adão
A moça saiu da imaginação do moço
O desejo move,
mas cuidado, 
há perigo na esquina
eles venceram
e o sinal está fechado para nós.
Você aguenta?
Então vá além..."
Thais

"O peso da leveza e a leveza do peso.
A imaginação é tida por leveza e liberdade 
A realidade é tida por peso, aprisionamento e decepção.
Abandonemos a realidade e estaremos livres de tudo o que não é agradável a nossos gostos.
Intocáveis, protegidos...
Ufa!
Nada irá me abalar. 
Nada irá me abalar...
Nada irá me abalar?
Nada irá me tocar?
O que irá me fazer sentir?
Limitada a si mesma,
Num ciclo vicioso de realizações e decepções 
imaginárias,
solitárias.
Já o abandono da imaginação gera constante movimento,
surpresa, 
espanto e encanto.
O abandono da realidade 
não permite a possibilidade libertária do encontro,
libertar-se de si para encontrar e ser encontrado.
A prepotência da imaginação
superada pela beleza jamais esperada da realidade
e pela delícia de ser tocada,
acessada,
ampliada,
nos tornamos
imensas
e sem ponto de chegada."
Júlia

"Mulheres, lagartixas, meninas, bruxas, fadas, sacerdotisas, amantes, amadas, sobrinhas, lindas, morcegas, bailarinas, azuis, borboletas, amigas, filhas, queridas, apaixonadas, comadres, enfeitiçadas, inquietas, cunhadas, noturnas, parceiras, vermelhas, presentes..."
Nunca pensei que fosse amar tanto assim.
Para as minhas mulheres,
um pouco de vcs,
que me faz tanto bem."
Cláudia
 


Noite das Confrades...


A Verdadeira História do Morcego - Por Adri Felden


Boa noite minhas queridas,
A Adri já disse tudo...nossa noite foi maravilhosa!
Meninas, o que a gente vai fazer com a Tixa Cláudia?
Ela faz, cuida, doa, presenteia à todas. Sim, agradecemos por tudo. E que mais?
Cláudia você não existe. Você motiva, emociona, encanta e o mais difícil, faz as nossas quartas sempre serem diferentes! Isso é mágico e raro! Coisas de Cláudia.

Não teve o conto do balcão mas se falou muito da Pina, ouvir a trilha sonora de Pina de Win Wenders, falar de Oscar Wilde e discutir seu conto que fez para seus filhos, quanto sofrimento em nome do amor. E o filme que a Cláudia passou, que coisa linda! Mais sofrimento ou no meu olhar uma sublimação.
Sonhar ou Viver?!
Amigo Ovo foi muito divertido e Adri realmente estava inspirada.
E a historia da origem do morcego contada pela gúria alemã Adri! Genial! Empurra, empurra, empurra...
Agora o conta da poltrona by Thais foi fantástico! Adorei!Não esperava aquele final...me encantei!

Finalizando: A D., vai para poltrona e quem vai sugerir o conto da semana?
Angela você fez muita falta! Saudades.

beijos carinhosos à todas
Silvia

terça-feira, 27 de março de 2012

amigo ovo

Coelha... Como vc deixa que entrem no seu olhar?
Amanhã é dia de lagartixa amiga ovo...
Não se esqueçam!

segunda-feira, 26 de março de 2012

WIM WENDERS


Wim Wenders - "A Profundidade do Olhar" (Em 3D, com Inteligência e Seriedade)


Meninas, segue uma entrevista do Wim Wenders que ele deu para o jornal "O Globo".
Beijos, D.

Wim Wenders fala do longa 'Pina' e anuncia mais um projeto em 3D

O Globo - Rio
A música cantada por Nick Cave em "Asas do desejo", filme que rendeu a Wim Wenders o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 1987, é precisa para compreender o momento vivido pelo cineasta alemão nos últimos anos. "From her to eternity", dela para a eternidade, foi a mensagem que Wenders quis passar ao mundo ao retratar, num belíssimo documentário ário em 3D, a dança da também alemã Pina Bausch, coreógrafa morta em 2009. O filme, intitulado simplesmente "Pina", vem emocionando os espectadores pelo mundo, acaba de ser escolhido para representar a Alemanha no Oscar e vai estrear no Brasil em novembro, possivelmente com a presença de Wenders.

Enquanto isso, os espectadores cariocas estão tendo a chance de assistir a 15 outros longas do cineasta, como "Asas do desejo", "Paris, Texas", "O estado das coisas" e "Alice nas cidades", na mostra Wim Wenders - Imagens que Obedecem, que fica em cartaz até o próximo domingo, na Caixa Cultural.

Em entrevista ao GLOBO, o diretor falou sobre suas intenções de compartilhar com o público o encantamento que teve com Pina Bausch, comentou a adaptação de "On the road", que está sendo preparada por Walter Salles, e falou de como renega a nostalgia em sua obra, apesar de ainda se encantar com certas produções do passado.

O Globo:O senhor ainda se mantém entusiasmado com as possibilidades do 3D como estava no último Festival de Berlim, em fevereiro, na primeira exibição de "Pina"? O 3D não estaria se tornando uma ferramenta banal?

WIM WENDERS: Esta é realmente uma questão: quanto há de material sem sentido que os estúdios estão lançando em 3D, estragando o futuro da nova mídia? Como o 3D pode ser levado a sério se ele não é reconhecido como uma nova e real linguagem cinematográfica, mas é somente usado, e abusado, como uma atração de parque de diversões? A resposta deve ser dada pelos cineastas que se aproximam do 3D com seriedade. No meu caso, continuo tão entusiasmado quanto no início. Para mim, ele é a ferramenta ideal para documentários, e mal posso esperar para ver filmes narrativos que utilizem o 3D com inteligência. Estou trabalhando nisso no momento, e tenho certeza de que há muitos cineastas com a mesma missão de "quebrar o código" e mostrar o potencial do 3D para se contar uma história.

O senhor pode falar sobre seu novo projeto em 3D?

Eu quero fazer um documentário sobre arquitetura em 3D. E também estou trabalhando com um roteirista muito talentoso num filme de ficção. Será uma história de família, possivelmente também em 3D.

Em 2010, o senhor rodou em São Paulo o curta-metragem "Ver ou não ver", que será um dos segmentos do projeto "Mundo invisível", idealizado por Leon Cakoff e previsto para estrear na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no mês que vem. O que o senhor tem a dizer sobre o curta?

Tenho muito orgulho dele, e fico muito agradecido ao Leon por ter me atraído para esta aventura. Minha contribuição foi focada em crianças de São Paulo que são quase cegas, mas que ainda têm uma leve capacidade de enxergar. Com os cuidados e a atenção da Santa Casa, elas são capazes de frequentar uma escola normal e se desenvolver como outras crianças.

Muitos de seus filmes foram elaborados a partir do ponto de vista de seus personagens, como se fossem feitos para que o espectador enxergasse as ações através de seus olhos. Em "Pina", quem seriam esses personagens? Qual é o ponto de vista do filme?

"Pina" é narrado sob o ponto de vista de alguém que está convencido de que o trabalho de Pina Bausch está entre as coisas mais belas deste planeta. O narrador invisível do filme é um tipo de guia turístico para o universo dela, com consciência de que mesmo os que não têm gosto para a dança terão com o filme uma experiência iluminada. Sei que pode parecer que estou me gabando, mas digo tudo isso porque tenho viajado com o filme há um tempo e vejo as reações das pessoas.

Alguns críticos e também alguns cineastas gostam de dizer que os melhores documentários são aqueles que usam uma estrutura de narrativa ficcional. Mas, em "Pina", o senhor não se preocupou em explicar a história da vida da coreógrafa nem de seu trabalho. É como se o senhor tivesse percebido que as imagens, os sons e os movimentos fossem mais poderosos do que qualquer narrativa ortodoxa. É uma crença que parece também estar presente em outros de seus filmes. Qual seria, então, o segredo para se transformar a contemplação do audiovisual numa história para o espectador?

Há muitas possibilidades para se conceber um filme, e muitas outras para se contar uma história. Eu sempre senti que a melhor atitude para se fazer um documentário é "querer compartilhar alguma coisa da qual você gosta com seus amigos". Foi esse o caso com "Buena Vista Social Club" e é esse definitivamente o caso com "Pina". Em ambos os filmes, eu senti que era necessário "desaparecer" como cineasta e deixar a música (no caso de "Buena Vista") e a dança (no caso de "Pina") falarem por si mesmas. Em outros documentários como "Tokyo-ga", sobre meu diretor favorito, Yasujiro Ozu, e "Notebook on cities and clothes", sobre o estilista Yohji Yamamoto, eu estou muito presente, como narrador. Mas, falando especialmente de "Pina", eu não quis me impor. Este é um filme sobre a incrível arte de outra pessoa, e eu assumi a posição de admiração como qualquer outro na plateia para a qual eu quis compartilhar sua beleza. Veja só: eu nunca tive nada a ver com dança ante s de ver o trabalho de Pina. Dança não era meu negócio, por assim dizer. Mas ela entrou na minha vida com força e convicção. Fiz o filme para todos aqueles que, como eu, ainda não tinham afinidade com a dança.

O senhor acredita que é possível comparar a criatividade surgida nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial de sua infância a uma possível criatividade crescente na década após o 11 de Setembro?

Eu ainda não pensei nessa analogia, mas me parece que faz sentido. Na Alemanha do Pós-guerra, local em que eu e também Pina Bausch crescemos, havia uma sensação nítida, talvez subconsciente, mas inegável, de que eram necessárias mudanças. A vida não poderia seguir o rumo tomado pela geração anterior. Na verdade, não tínhamos um modelo de como viver. Tivemos que reinventar tudo do zero, com novos padrões. Hoje, na década seguinte ao 11 de Setembro, nós também temos que reinventar a civilização, mas os políticos estão falhando em perceber isso. Nossa economia pós-capitalista está falhando miseravelmente. Mesmo as igrejas perderam muito de suas habilidades de espalhar uma mensagem de amor e solidariedade. Então, depende dos artistas, mais do que nunca, desenhar a imagem de um mundo melhor.

O senhor assiste a seus filmes antigos? Qual é a sensação?

Às vezes, assistir a um filme antigo pode ser triste. Eles se tornam irrelevantes, e a experiência, nostálgica. E, para mim, a nostalgia é perda de tempo. Nós estamos vivendo o hoje. Porém, há aqueles filmes antigos que são incrivelmente atuais. Outro dia assisti a "A grande testemunha" (1966), do Robert Bresson. Fiquei bastante surpreendido por ele. Ele era violento de uma maneira da qual nenhum dos filmes recentes de violência consegue nem chegar perto. Ele não mostrava violência, mas me fazia experimentá-la. Eu já tinha assistido ao filme há mais de 30 anos e mal podia acreditar no quão contemporâneo e pungente ele é. E, há poucos dias, eu assisti a "Viver a vida" (1962), de Jean-Luc Godard, que foi apresentado no Festival de Telluride, nos EUA, por Caetano Veloso, onde ele foi convidado para ser o curador de um programa especial, este ano. Rapaz, aquilo é uma obra poderosíssima de cinema, mesmo hoje. É cheio de ideias, de entretenimento, de intelig ência, como se tivesse sido feito em 2011 por um jovem e talentoso cineasta.

O senhor sabe que Walter Salles está preparando uma adaptação de "On the road", livro de Jack Kerouac. Qual seria o maior desafio de Salles para o projeto?

Walter fez um documentário antes, como preparação, perguntando para as pessoas sobre "On the road", eu entre elas. Ele tem levado o desafio de adaptar o romance bastante a sério. E eu não acho que haja outro filme pelo qual eu tenha tanta expectativa. Pelo que sei, Walter já terminou a montagem, e está na fase de pós-produção. Nós conversamos sobre o projeto algumas vezes, e é claro que a grande questão para ele é buscar uma forma de tornar a história relevante hoje. Como um diretor brasileiro pode contar a história de um arquétipo americano da década de 1950 hoje? Bem, quem mais poderia?

Qual foi a lição mais importante que o cinema lhe ensinou?

Uma coisa acima de todas as outras: o que você faz com amor e cuidado tem uma chance de fazer diferença, tanto para você como para a vida de outras pessoas. Tudo o que se faz sem amor e sem convicção é fadado ao fracasso e à perda de tempo, para você e para os outros.


STRAVINSKY


Igor Stravinsky (O Homem)

A menina rodeava o pai e se encantava com a vermelhidão do seu rosto, a música que pulsava (The Rites Of Spring) e a paixão estampada em seus olhos azuis. "Um gênio!" Dizia ele (sobre Stravinsky através da rádio Eldorado que ele ouvia antes de dormir) com a mesma paixão que a mulher de hoje assistiu "A Sagração da Primavera" de Pina Bausch.
Meu menino filho, com a voz embargada de emoção, me ligou assim que saiu do cinema. "O que é aquela cena, mãe?  Aquelas mulheres cobertas de Terra, se entregando, conspirando e criando a vida através do sacrifício da entrega?" (não sei se foi textualmente isto, mas vi o menino vivendo o que a menina viveu um dia... foi lindo).

Estou postando algo que acompanhou meu pai, a menina que fui, a mulher que sou e o menino que trilha o caminho para chegar na maturidade.


Igor Stravinsky (por Mads Mikkelsen do filme Coco & Igor)

A adaptação de "A Sagração da Primavera" de Nijinsky está muito bem representada no filme "Coco & Igor" de Jan Kounen.



Com carinho,
Cláudia Belintani


PINA & STRAVINSKY

A Vaia Inaugural

Os apupos na estreia de "A Sagração da Primavera" são um marco das vanguardas artísticas. Depois de chocar, o balé se tornou um clássico - e inspirou coreógrafos como Pina Bausch, cuja companhia traz a obra ao Brasil
por Gabriela Mellão
desconhecido (legado)
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"Não se podia, durante todo o espetáculo, ouvir o som da música", anotou a escritora Gertrude Stein sobre a vaia que estabeleceu o 29 de maio de 1913 como o dia D da arte de vanguarda. Nessa data, em Paris, estreou o balé A Sagração da Primavera, com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky. Gertrude Stein estava lá, assim como o escritor e cineasta Jean Cocteau, que registrou: "Ali, para quem soubesse ver, estavam todos os elementos de um escândalo". Como escreveu o crítico musical Alex Ross, da revista The New Yorker, no livro O Resto É Ruído, escândalos como esse ocorriam de seis em seis meses na Paris dos anos 10, em que criadores da nascente vanguarda encenavam peças, escreviam músicas ou pintavam quadros destinados a sacudir e a chocar os conservadores. Nenhuma vaia, no entanto, ficou tão marcada na história da arte quanto a destinada à Sagração, talvez pelos desdobramentos posteriores. A peça de Stravinsky se tornou uma espécie de certidão de nascimento da música moderna. A coreografia de Nijinsky revolucionou a dança. E artistas como Gertrude e Cocteau, que estavam na plateia, se viram para sempre impregnados do espírito demolidor da Sagração - a obra de toda uma geração nascida na época atesta isso.
Depois do choque inicial da estreia, apresentada pela companhia Ballets Russes, do empresário Sergei Diaghilev, A Sagração foi aos poucos caindo no gosto do público. E se tornou - expressão paradoxal - uma espécie de "clássico da vanguarda". Os mais importantes coreógrafos do século 20 visitaram a partitura de Stravinsky e, cada um a seu modo, se impregnaram de sua música de ritmo irresistível, em que as cordas e sopros da orquestra fazem as vezes de instrumentos de percussão. Nessa aventura se lançaram nomes como o francês Maurice Béjart, em 1959, e a americana Martha Graham, em 1984. Uma dessas versões - a da coreógrafa alemã Pina Bausch, morta em junho último - volta a ser apresentada no Brasil neste mês, num programa que inclui Café Müller, com a companhia Pina Bausch Tanztheater Wuppertal.
Na versão original, os dançarinos contorciam-se e tremiam em espasmos no palco, seguindo a complexa estrutura politonal e dissonante da composição de Stravinsky. Com cabeças e pés torcidos, braços dobrados na lateral, mãos abertas e rígidas, os bailarinos levavam o grotesco ao palco para contar a história da jovem - a "eleita" - que precisa ser sacrificada em oferenda ao deus da primavera (a história do balé se baseia numa antiga lenda russa). Para elaborar os tremores e as contorções dos bailarinos, Nijinsky tomou como base a técnica de eurritmia desenvolvida pelo músico-educador suíço Émile Jacques-Dalcroze. Segundo ele, todo ritmo podia corresponder a uma livre criação motora.
Na Sagração da Primavera, os dançarinos golpeiam o solo com os pés, contrariando as regras clássicas segundo as quais os bailarinos, com sapatilhas de ponta, precisam "flutuar". No fim, acontece um dos solos mais longos e exigentes da dança moderna: a eleita, então imóvel, exterioriza com contorções seu terror diante da morte. Ela acelera seus movimentos até a convulsão final, quando gira sobre si mesma, cai morta e é erguida ao céu, em oferenda ao deus da primavera.
Criados pelo pintor e arqueólogo Nicholas Roerich, a cenografia e os figurinos ainda eram bastante suntuosos: no fundo do palco, um imenso painel retratava a paisagem do interior da Rússia. Já os figurinos, pesados, imitavam roupas de camponeses com vestidos longos, rostos pintados e uma série de adereços.
A primeira grande releitura da Sagração da Primavera ficou marcada, justamente, por tornar mais econômicos os recursos de cena, ao mesmo tempo em que retirava a história do contexto regional russo. Em 1959, com 32 anos, Maurice Béjart consagrou-se com uma coreografia despida de adereços pitorescos e um elenco formado por bailarinos das mais diferentes etnias, transformando a história num hino ao amor universal e apresentando a união profunda entre homem e mulher. Para Béjart, o encontro carnal entre um homem e uma mulher simboliza, também, a união do céu e da terra, a dança de vida e morte - "eterna como a primavera", como ele dizia.
Nessa época, Martha Graham já era um nome consagrado. Contudo, ela só iria fazer sua versão da Sagração 25 anos depois, aos 90 anos. Como Béjart, ela retirou a coreografia do contexto original. Fez uma versão contemporânea do ritual da fertilidade, investindo nos movimentos vigorosos, por meio das técnicas de contração e relaxamento do corpo pelas quais ela se celebrizou. Seus dançarinos vestem sungas, tornozeleiras e munhequeiras pretas. Os homens saem de cena carregando as mulheres nos ombros, compondo um retrato da fragilidade da mulher na sociedade patriarcal.
Essa abordagem da condição feminina também é uma característica da coreografia de Pina Bausch. Criada em 1975, quando Pina iniciava sua trajetória à frente da Tanztheater Wuppertal, ela também se afastava dos rituais da Rússia antiga. No lugar da representação do rito na natureza, concentrou-se no terror do homem diante da morte. "Pina aborda esta fábula do ritual para trabalhar as relações humanas, tema investigado em toda a sua trajetória", diz Cássia Navas, pesquisadora de dança da Universidade de Campinas (Unicamp) e consultora do Teatro de Dança. Em cena, os movimentos são violentos, evocando a força da chegada da primavera. A criação explora os sentimentos que a partitura da Sagração provocaram em Stravinsky, "uma convulsão imensa, como se toda a terra fosse sacudida em determinado momento".
A batalha entre vida e morte concebida por Pina Bausch acontece sobre um palco coberto de lama, representando uma arena arcaica. Aos poucos, a lama se aloja nos pés descalços, nas calças pretas e nos peitos nus dos bailarinos, nas camisolas transparentes, cor da pele, das mulheres. Em cena, um casal se destaca dos demais - fisicamente e pela diferenciação do figurino: a mulher veste camisola vermelha. Após uma dança frenética do coro, em movimentos que trabalham braços e pernas semiflexionados e buscam a terra ao mesmo tempo em que expressam grande tormenta, o casal em destaque se divide. O homem junta-se aos demais, deixando sua companheira solitária, entorpecida pelo medo.
"A Sagração da Primavera foi um divisor de águas não só para a dança, mas para a história da arte", diz a pesquisadora Cássia Navas. Para Luis Arrieta, coreógrafo e bailarino argentino radicado no Brasil que encenou sua própria versão da obra em 1985, a música de Stravinsky é "dotada de força e essencialidade incomuns". Segundo ambos, de Nijinsky a Pina Bausch, a ênfase na sexualidade sempre foi uma constante, com movimentos pélvicos, violentos e curvados, dotados de extrema intensidade. "Cada coreógrafo abordou a força primordial da vida na sua criação, situando-a na sua cultura, na sua história, no seu tempo. E todos endossaram os gestos primeiros de Nijinsky", diz Arrieta.
Maurice Béjart, Martha Graham e Pina Bausch foram, cada um a seu modo, inovadores na arte da dança. A alemã chegou a promover uma verdadeira revolução na linguagem ao aproximá-la da arte teatral. Nos primeiros anos de sua carreira, muitos bailarinos se recusaram a trabalhar com ela, e, em suas primeiras peças, pessoas saíam do teatro batendo as portas. Aos poucos, no entanto, a arte inovadora desses três criadores foi entendida e absorvida ao longo de um século - o 20 - em que a vanguarda se tornou o mainstream. No dia 29 de maio de 1913, a vaia mostrou que Stravinsky e Nijinsky estavam no caminho certo - o da contestação. Estabelecido o mito inaugural da vanguarda, vários artistas certamente sonharam com uma vaia assim. Já há algum tempo, no entanto, ela não é mais possível - e o fato de Martha Graham, Maurice Béjart e Pina Bausch nunca terem sido apupados por suas Sagrações é uma prova disso.
Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Minha Loucura É o Amor da Humanidade.

Revista BRAVO! (Setembro de 2009)

Por Cláudia

sábado, 24 de março de 2012

PINA de Wim Wenders



"Uma verdadeira Obra de Arte"

O filme é uma declaração de amor à dança, à vida, ao amor, à inquietude da alma, à Mulher Pina Bausch  (eu não conhecia) que desvenda o ser humano com um único olhar e transforma o que vê na mais pura arte do movimento.

Pina Bauch (1940-2009)

Movimento visceral, de dentro, latente e como tempero a direção de Wim Wenders (Tão Longe Tão Perto, Paris Texas, Asas do Desejo).
Dois dias antes de começar a gravação do documentário, ela se vai. O grupo, revela pouco a pouco o que ela deixou em seu caminho: sua obra, seu movimento, seu olhar, seu entendimento da vida e do amor.

A Vida salta da Tela e nos acorda...

Através de pequenas (mas valiosas) frases ditas aos integrantes de sua trupe, ela se enraíza. Primavera, Verão, Outono, Inverno. Uma Ode à cada fase da Vida. 

"Sagração da Primavera" Stravinsk

Música (belíssima), os quatro elementos, movimento e amor (aqui um amor ao próximo, resgatando o que cada um tem de melhor - seja em forma de loucura, tristeza, alegria, dor, prisão, amor, liberdade). 

O Amor numa Redoma de Vidro, frágil como a Mulher que se entrega...

O reconhecer-se através do movimento livre. Homens, mulheres maduras e lindas (o que são aqueles rostos, aquelas rugas talhadas com a profundidade da entrega?), adolescentes, gente do mundo inteiro numa ciranda regida por uma Deusa que dança a leveza e a dor do peso da existência.

As cores, a Água, o Ar e o Movimento...

Está na tela todo o Sentimento que move a Humanidade.
Fascinante.
Digno de Lagartixas.

Estou impregnada do filme.
Vcs vão ter que me agüentar por um bom tempo.
Assistam.

Por Cláudia Belintani

sexta-feira, 23 de março de 2012

O ROUXINOL E A ROSA


Wilde, o vermelho


Oscar Wilde
Por Maria José 
_ Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. – Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça  da minha vida.
Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
_ Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.
_ Eis um verdadeiro apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
_ Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
_ Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
_ É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
_ Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
_ Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
_ Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E  o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
_ Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.
_ Dá-me  uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.
O Rouxinol então, dirigiu o vôo para  a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
_ Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
_ Há, respondeu  a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.
_ Dize. Não tenho medo.
_ Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
_ A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol  em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de  um pássaro comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
_ Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
_ Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
_ Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que  pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os  pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.
Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.
_ Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.
A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
_ Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.
Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
_ Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
_ Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.
A moça franziu a testa.
_ Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
_ És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
_ Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... – e a moça levantou-se e entrou em casa.
_ Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...
Versão em português: Lázaro Curvêlo Chaves - julho de 2005

A TEINIAGUÁ


 "Me temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo…" Lendas do Sul


O CONTINENTE
A TEINIAGUÁ 
ÉRICO VERÍSSIMO

Substrato histórico: a consolidação da vida urbana no RS.

Duração: 1850-1855

Argumento

Em 1850, Santa Fé já possui sessenta e oito casas e trinta ranchos. Chama a atenção o magnífico sobrado construído por um nortista de origem misteriosa, Aguinaldo Silva. Dele também é a melhor fazenda da região, a do Angico. Porém a sua principal atividade econômica é a agiotagem e muitas terras, inclusive a  pequena propriedade de Pedro Terra tinham passado para suas mãos.

                                           

Aguinaldo tem uma neta adotiva, Luzia, de esplêndida beleza e "modos de cidade": veste-se bem, é culta e toca cítara. Desperta paixões, especialmente entre os dois primos, Bolívar e Florêncio (filho de Juvenal Terra) que a disputam. Luzia termina optando por Bolívar, filho do Capitão e de Bibiana, herói juvenil na guerra contra o tirano argentino, Rosas.

Bolívar está completamente enfeitiçado por Luzia. Atendendo a uma determinação da própria jovem (que tem dezenove anos) marca-se o noivado para a mesma hora em que um escravo, suspeito de crime hediondo, vai ser enforcado. Os sinais de estranha doença começam a aparecer na moça que veio do Norte.

Também surge neste episódio um dos protagonistas mais importantes de O continente, o Dr. Carl Winter, médico alemão, culto, solitário, extremamente observador e um pouco bizarro, e que havia fugido da Alemanha por razões sentimentais e políticas. Ele será uma espécie de "comentarista" da vida cotidiana e dos costumes, tanto de Santa Fé quanto da província de São Pedro. Não é errado considerá-lo como um "alter-ego"(um "outro eu") de E. V.. Fascinado por Luzia (uma mescla de curiosidade e desejo), ele a compara à lenda local da teiniaguá, a princesa moura transformada pelo diabo numa lagartixa, cuja cabeça consiste numa pedra preciosa de brilho ofuscante que atrai e cega os homens.

É o Dr. Winter o primeiro a perceber a doença da alma que corrói a bela Luzia: a moça tem prazer com o sofrimento alheio. Na hora do enforcamento do escravo, ela corre para a janela a fim de se deliciar com o espetáculo:

"Primeiro o rosto dela se contorceu num puxão nervoso, como se tivesse sentido uma súbita dor aguda. Depois se fixou numa expressão de profundo interesse que aos poucos foi se transformando numa máscara de gozo que pareceu chegar ao orgasmo."

Por isso, casando-se com Bolívar, uma mente singela, ela se aproveitará para atormentá-lo. No entanto, contraditoriamente, Luzia tem momentos de ternura e alegria para com o marido, estraçalhando, pouco a pouco, os seus nervos de homem enfeitiçado. Esta alternância de loucura e fascinação, revela uma Luzia não apenas sádica, mas também masoquista, porque há passagens em que ela parece se comprazer com o próprio sofrimento. Bibiana, a sogra, também percebe o que o Dr. Winter já enxergara e passa a odiar a nora.

Em 1853, Aguinaldo Silva cai do cavalo e fratura o crânio, sobrevivendo ainda três dias. A neta acompanha-o, minuto após minuto, comprazendo-se com o sofrimento do avô. Seu sado-masoquismo é visível. O nascimento de Licurgo Cambará, o filho do casal, atenua brevemente a situação. Em seguida, deixando o nenê nas mãos de Bibiana, Bolívar e Luzia partem, numa viagem recreativa, para Porto Alegre.

Na capital da província uma epidemia de cólera dizima a população. Em vez de retornar, o casal permanece no centro da grande epidemia. E. V. não narra os acontecimentos na capital, mas meses depois, quando os dois voltam, Bolívar está tão destruído psicologicamente que o Dr. Winter e Bibiana intuem o que havia ocorrido: a euforia e o gozo de Luzia, vendo o terror de todos diante da peste, deliciando-se com o desespero das pessoas que caíam nas ruas, agonizantes.

Ao tentar rever o filho, Licurgo, a teiniaguá é impedida por Bibiana e tem um ataque de fúria, chamando a sogra de "cadela". Bolívar então espanca a esposa e sai da sala, cada vez mais arrasado interiormente. O Coronel Bento Amaral, aproveita-se do contexto para vingar-se dos Cambarás, decretando a quarentena do sobrado. Isto é, durante quarenta dias ninguém, a não ser o dr. Winter, poderia entrar ou sair do casarão. Capangas dos Amarais cercam então o local para que a ordem do caudilho fosse cumprida. Bolívar - exasperado pelas circunstâncias - não suporta a prepotência de Bento Amaral e com uma pistola na mão sai de casa, tentando romper a quarentena. Há um tiroteio e quando o dr. Winter chega à janela vê Bolívar "caído de borco, no meio da rua, com a cara metida numa poça de sangue."

O que destacar em A teiniaguá

a) O caráter doentio de Luzia, indicando, de certa forma, que todas as mulheres que ousassem quebrar o silêncio e a aceitação resignada da dominação masculina, teriam um preço muito alto a pagar por sua autonomia.

b) A identificação - feita pelo Dr. Winter - entre Luzia e a lenda da teiniaguá - a princesa moura transformada em lagartixa e que leva os homens à perdição.

c) A quebra da hegemonia masculina nas relações afetivas e sexuais. Bolívar é um escravo de Luzia, em proporção semelhante à prisão amorosa e social de que Bibiana e as demais mulheres sofriam em seus relacionamentos com os homens.

d) A personalidade complexa do Dr. Winter, que, além de suas penetrantes análises da vida provinciana, revela forte ambigüidade diante do universo local. O que um europeu educado e sensível faz naquela sociedade "tosca e carnívora, que cheirava a sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha"? Ao mesmo tempo, aquele mundo primitivo o prende com o fascínio de sua selvageria, com a beleza de suas paisagens e com a disposição hercúlea de seus homens e mulheres que iniciam uma nova sociedade.

e) De alguma maneira, o Dr. Winter é a expressão da acentuada curiosidade européia pela vida nas regiões remotas, traduzida, por exemplo, em centenas (ou talvez milhares) de viajantes cultos que estiveram no Brasil, no século XIX, e que sobre suas viagens deixaram uma significativa quantidade de belos relatos.

Repare numa dessas fascinantes observações do Dr. Winter sobre a vida em Santa Fé, dirigidas ao intelectual alemão Carlos von Koseritz:

"Mein lieber Baron. Faz hoje quatro anos que estou em Santa Fé. Já não uso mais chapéu alto, minhas roupas européias se acabam e eu desgraçadamente me vou adaptando. Sinto que aos poucos, como um pobre camaleão, vou tomando a cor do lugar onde me encontro. Já aprendi a tomar chimarrão, apesar de continuar detestando essa amarga beberagem. (...) Estes invernos rigorosos de Santa Fé, em que às vezes sentimos mais frio dentro das casas que fora delas, me ensinaram a beber uma mistura deliciosa. É cachaça com mel e suco de limão. Positivamente divino! Se te contarem, Carlos, que morri embriagado numa sarjeta em Santa Fé, podes acreditar na história, apenas com uma restrição: é que em Santa Fé não tem sarjetas pela simples razão que não tem calçadas, como também não tem lampiões nas ruas e como, em última análise, não tem nada. Talvez seja essa carência de tudo que me fascina e me prende."
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    Autor: por *Sergius Gonzaga     Observações: * Professor de Literatura Sul-Rio-Grandense da UFRGS.                             

VERÍSSIMO

O General e a Lagartixa


Os Devaneios do General
Érico Veríssimo
Por Silvia Bejar 

Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno.

O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.

O sol! As poças d'água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de jóias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.

O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras... E recordações... Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.

O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte.

O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto.

Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça.

Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia...

Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu... Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político... A oposição comia fogo com ele.

O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na "Voz de Jacarecanga" um artigo desaforado... Não trazia assinatura. Dizia assim: "A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada". Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador.) Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou "Patife! Canalha!" Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente.

— Sente-se, canalha!

O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã.) Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário.

— Abra a boca! — ordenou.

Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro.

— Come! — gritou.

Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto.

— Coma! — sibilou o general.

Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida.

— Coma, pústula!

E o homem comeu.

Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça.

— Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho.

Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade.

No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses "banheiros" que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade.

O general remergulha no devaneio.

93... Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte.
Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento... Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca!

Morte... O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite... Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo... se houver outro mundo.

Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas... Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os "maragatos". Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: "Inimigo não se poupa. Ferro neles!"

Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes...) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar... Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: "Inimigo não se poupa".

O general agora recorda... Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho.

Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar:

— Petronilho!

A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93.

— Petronilho! Negro safado! Petronilho!

Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde.
— Que é, vovô?

— Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho?

— Está lá fora, vovô.

— Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele.

— Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer?

— Quero um copo d'água. Estou com sede.

— Por que não toma suco de laranja?

— Água, eu disse.

A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada... Chiquinho... Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923...

Um dia ele perguntou ao menino:

— Chiquinho, você quer ser general como o vovô?

— Não. Eu quero ser doutor como o papai.

— Canalhinha! Patifinho!

Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja.

— Eu disse água! — sibila o general.

O mulato sacode os ombros.

— Mas eu digo suco de laranja.

— Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro!

Petronilho responde sereno:

— Não vou, general de bobagem...

O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado.

— Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas!

— Suco de laranja — cantarola o mulato.

— Água! Juventina! Negro patife! Cachorro!

Petronilho sorri:

— Suco de laranja, seu sargento!

Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe.

O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada.

Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão... Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia...

Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na "hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados". Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo... Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias... O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: "Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar".

E recitando coisas esquisitas. "V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido". Outras vezes olhava para o busto e berrava: "Inimigo não se poupa. Ferro neles".

Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades.

O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu... Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua.

Fecha os olhos e recorda a glória antiga.

Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações...

Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último "homem" da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem... Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos!

E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol.

De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho:

— Vovô! Vovô!

Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general.

— A lagartixa, vovozinho...

O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica:

— Degolei a lagartixa, vovô!

No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido:

— Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife!

E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.


O texto acima foi extraído do livro "Entrevero", L&PM Editores - Porto Alegre (RS), 1984, pág. 106 (edição especial para MPM Propaganda).

quinta-feira, 22 de março de 2012

Day After


Nossa Lagartixa Azul está de volta... Linda e Rosa.

Nossa! Noite Intensa!
Desnorteadas? Talvez com muitas saudades do Sul....

Sem pretensão nenhuma a Adri introduziu o conto do balcão! É, é verdade, terceira quarta-feira consecutiva que temos uma preliminar no balcão.
O que é muito legal, porque vamos nos aquecendo até a chegada de todas.
Lógico que também já estamos degustando as comidinhas da Cláudia.

Tivemos um embate Cláudia e Adri, vocês  sabem que a Cláu estuda tudo  e aí ela descobre que o cara era enrustido e fala assim de boa, a Adri não gosta, ela fica chateada, afinal todo mundo que ela gosta descobre-se que é gay ou tem tendências....aí já viu, né? É Marx prá cá é o Capital prá lá, ....mas o que importa é que chegamos a um consenso. Thomas Mann era um escritor de uma época Romantica e era enrustido. E o personagem é um artista doente que viveu enquanto seu amor era impossível quando se torna real, palpável e possível ele se entrega à morte.

Mas até chegarmos nisso foi muito barulho, chegamos até a época do Iluminismo.... Mecenas... Nobreza que compra seus títulos...frases soltas no meio do embate como: -  Nossa! Mãe seus jantares de quarta estão melhores do que os almoços de domingo!!! (Carla) rsrsrsrrs

E  esta, ainda faz um sorteio do Amigo Ovo!!! Tudo junto!!! Não tem como descrever tais cenas, são muito hilárias numa mesa com tantas mulheres!!! Margy e Léa....sentimos falta de vocês.

E o jantar soberbo! Macarrão de fita que até limão vai (Taiti, Galego ou Siciliano?) veja,  por mais que eu  esteja atenta não consigo absorver....são tantas emoções.....kkkk

Eu gostaria de sugerir para nossas confrades exceto a Cláudia, que compremos uma sineta para quando for necessário fazer silêncio, o que acham? Assim evitamos quebrar algumas taças!!!

Fomos a poltrona, momento tão esperado...era eu na fita!

Eu li um conto do Érico Veríssimo “Os devaneios do general”, dediquei a Cláudia, nas últimas reuniões ela tem falado muito dele.

Acho que nossa noite foi encantadora, ótima, polêmica e de muita gula!

D., você precisa descobrir qual era a do Che Guevara???? rs 

Combinado para a próxima semana:

Thais vai para poltrona e o conto a ser discutido será o Rouxinol e a Rosa sugerido por Mary Joey.

A Cláudia esta marcando sábado às 16h30 assistirmos 1492, na casa dela. Por favor, confirmem presença, ok?

Obrigada por tudo Cláu! Você é pura luz!
beijocas e até sábado
Silvia

quarta-feira, 21 de março de 2012

SONHADOR


"O beijo na lápide... Também pode ser um bom lugar para a última festa."

"Sim, sou um sonhador.
Sonhador é quem consegue encontrar o próprio caminho ao luar,
e como punição,
vê o alvorecer antes do resto do mundo."
Oscar Wilde

Por Maria José

THOMAS MANN




"Desejo de Felicidade"
Thomas Mann
Por Adri Felden

Esta é a primeira história de Thomas Mann que tematiza o artista, aqui tratado sob a perspectiva do modernismo literário e da sátira social. A história traz em germe muitos dos motivos importantes que perpassam sua produção ficcional: o artista como produto exótico da mistura de sangue (Tonio Kroger), o artista como um moralista da perfeição (Morte em Veneza), a vida do artista contada por um colega de escola (Doutor Fausto). O título contém um estranho eco da noção nietzschiana de força vital, a "vontade de poder". Na visão de Mann, o artista deve morrer para viver na arte; e a "vontade de poder" do artista exclui a possibilidade de felicidade pessoal.

Publicada pela primeira vez em Simplicissimus, edições de 22 e 29 de agosto e 5 de setembro de 1896. Primeira publicação em livro em Der Kleine Herr Friedemann: Novellen (O pequeno senhor Friedemann: Novelas), Berlim, 1898.

Principais Obras (Por Javier Cercas Rueda):



Kröger e a vocação artística
Tonio Kröger é a imagem do artista que sofre, sobre o qual pesam, com a mesma intensidade, a sua própria existência e o mundo exterior. Sente de um modo mais profundo e intenso do que qualquer outra pessoa, dispõe do poder mais sublime da terra, o da palavra e o do espírito, que o torna mais perfeito, selecto, delicado, subtil, que se irrita contra tudo o que é banal, extremamente sensível em questões de delicadeza e gosto.
Em vez de representar o humano deve renunciar a fazer parte dele e interroga-se: «Pode afirmar-se, sem qualquer restrição, que o artista é um homem?». Mais adiante: «Quem me dera poder viver e amar as coisas na sua ditosa vulgaridade sem a maldita razão e sem o tormento da criação da criação artística». É o drama da solidão e da extravagância. Sem dúvida que esse foi, em boa parte, o caso de Thomas Mann e de outros escritores (não de estranhar que estas afirmações entusiasmem um sofredor por vocação, como o foi Kafka).


 
"Os Buddenbrook
A decadência de uma família e a da sua empresa ao longo de várias gerações. O talento artístico dos últimos descendentes vai substituindo a energia dos fundadores. É o romance de Mann mais próximo da realidade e, por esse motivo, o mais vibrante e, talvez, o de maior êxito popular. É um retrato do ambiente feito com uma perspicácia implacável e, por sua vez, um magistral estudo psicológico das personagens. A vivacidade de Johann dá lugar à melancolia de Jean, daqui ao perfeccionismo voluntarioso de Thomas, homem cheio de ambição que só poderá transmitir ao seu herdeiro, Hanno, a quarta geração, um carácter sensível e doentio, mas dotado para a arte do que para a acção.
O estilo é o mesmo dos outros romances, elaborado e elegante, mas há uma série de ideias que se tolera mais; paixões e personagens mais próximas da realidade e um tom menos ensaísta. Para Faulkner, leitor pouco dado a excessos nos seus comentários, trata-se do melhor romance do século XX.



Uma pequena obra-prima
A Morte em Veneza em que é narrado o triste final de um escritor maduro, austero e admirado, dedicado unicamente ao seu trabalho intelectual. A meio de uma viagem, a visão do menino polaco Tadzio, destrói, em poucos dias, a ordem ético racional que o mantinha. Não chega a tocar-lhe nem trocam uma palavra, mas descobre que na sua vida existem mais coisas do que aquelas que os outros admiram. Razão, ordem e valores contra os instintos.
Na sequência da publicação dos Diários de Mann não restaram dúvidas sobre a origem da inspiração para escrever esta obra. Nos Diários, Thomas Mann expõe o quanto sofreu, toda a sua vida, por causa das suas paixões por rapazes jovens, impulsos que manteve sempre, mas num registo platónico. (Adri, este negrito é meu.)



A Montanha Mágica
Hans Castorp é um jovem que vai visitar o seu primo a uma sanatório suíço em Davos. Hans deveria permanecer algum tempo com esse seu primo. Essa estada no sanatório que, em princípio, era para ser de três semanas, foi-se prolongando até sete anos. Algumas das pessoas que conhece contribuem para aumentar as suas inquietações intelectuais e para moldar a sua personalidade: o italiano Settembrini, directo e provocador, o jesuíta Naptha, a senhora Chaucat, por quem se apaixona. O tempo tem outra dimensão lá em cima e a variada sequência de refeições, passeios, tratamentos, conversas e reflexões concedem um valor desconhecido a todas as coisas cá de baixo aos olhos do ainda moldável Castorp, transbordante (pletórico), pela primeira na sua vida, de ímpetos morais. O estilo é perfeito e pormenorizado até à minúcia, as descrições são extensas e cheias de profundidade e conteúdo as longuíssimas conversas Castorp-Settembrini-Naptha. Humanismo, civilização e democracia perante a religião, totalitarismo e comunismo.
Seria infindável enumerar os assuntos tratados neste romance, em que a própria narrativa já não tem a ver, directamente, mais com algum deles, mas com o tempo, a morte, ou as relações interpessoais.
Doença, dor, botânica, honra; Naphta, opositor, na altura, do republicanismo ateu e mação do hábil Settembrini, debate a metafísica, a história, a economia, a teoria do conhecimento; mais ainda: o espiritismo, anti-semitismo, guerra. Estão em confronto, mundo, duas forças, a razão, a ciência e o direito contra a força e a superstição; a liberdade contra a tirania, movimento e progresso contra o conservadorismo. É o que se debate durante todas as conversas, nas quais se analisam as consequências desta luta nos campos do amor, da política ou da arte; isto tudo com um brilhantismo que se pode esperar de personagens tão bem preparados como o seu próprio criador e que já estão livres das preocupações dos de cá de baixo, distância que refina a sua lucidez sem diminuir o seu entusiasmo (teórico) por cada uma das questões.
É um romance de dimensões que pode espantar qualquer um, sobretudo quando o rigor e a elevação intelectual do seu riquíssimo conteúdo nos deixam, praticamente, sem respiração. Apenas uma declaração de amor, um suicídio e um duelo é pouco conteúdo para mil páginas. Aqui encontramos um Thomas Mann exuberante, com personagens e temas de sobra, gigantesco como a montanha em que os situa, que nos diz que estamos perante um «romance de formação», que nada tem a ver - e assim é realmente - com um romance no sentido habitual do termo.



Doktor Faustus
Adrian Leverkhün (1885-1941) é o fruto da sua imaginação mais amado por Thomas Mann. Serenuns Zeitblom conta a vida do compositor por quem sente uma exaltada e inabalável devoção. Adrian revela, desde jovem, um grande talento para a música, com preferência pelos sistemas e matemática, com arrogância em relação aos outros e indiferente a quase tudo.
Os méritos naturais não são devidos a ele próprio, são dons de Deus que o demónio se encarrega de fazer esquecer; se não formos humildes, a complacência para com o outro torna-se ingratidão para com aquele que nos dá esses dons. Adrian é advertido mas não faz caso e estabelece pactos com Satanás que aperfeiçoa o seu talento cobrando, no entanto, um preço muito elevado.
O demónio e a sua relação com o génio (com o louco, com o artista, com o criminosos), a luta entre o bem e o mal, a tentação, o talento, a liberdade; o alemão, a afirmação do carácter nacional, os judeus, a religião, a moral (no sentido mais espiritual do que ético) formam os ingredientes do romance mais intelectual de um escritor de romances de ideias, embora consiga agradar mais no plano romanesco do que A Montanha Mágica. A Montanha Mágica é um romance extremamente interessante e digno de ser estudado, mais duvido que se deva analisá-lo em termos de gostar ou não. O Doktor Faustus tem, a esse nível, mais força. O mistério da vida de Leverkhün fica a conhecer-se a partir da metade do livro, mas a personagem consegue cativar: fica-se com curiosidade de saber em que é que vai dar a sua natureza enigmática, a atmosfera tensa e de solidão que o torna tão atraente como inacessível aos outros."