sexta-feira, 27 de julho de 2012

CONTO E CRÔNICA


Como assim?


POR QUE SÃO DIFERENTES?
Por Joana Rodrigues


A crônica tem uma linguagem mais cotidiana, mais parecida com o nosso jeito de falar; com a nossa oralidade, já o conto, lança mão de palavras e expressões que ficam mais acomodados no universo da escrita, da narrativa e da literatura.

Na crônica, há uma repetição de expressões, de verbos e de palavras para justamente enfatizar a ação de toda hora, do dia a dia, do cotidiano. O conto traz palavras que às vezes nos faz ir e voltar ao dicionário. E aproveito para enfatizar essa prática diária e infinita de visitar o significado, a família, as funções de cada palavra. É um mundo fascinante este dos dicionários.

A crônica apresenta um relato a partir de um fato, para o qual o escritor tece um comentário, uma reflexão, uma pensata. O conto, não. Ele tem uma trama. Portanto, tem começo, meio e fim. Mesmo que sejam microcontos, eles apresentam uma história, portanto um enredo, com um ou vários personagens. Mesmo que estes personagens sejam “coisas”, objetos, como uma casa, uma nuvem ou quem sabe um par de sapatos. Mas há contistas que vão mais longe, nos trazem personagens como a solidão, a dor, a alegria.

A crônica se aparenta a um comentário, uma reflexão sobre determinado acontecimento que o autor viu, vivenciou, acompanhou. Já o conto cabe no mundo da ficção total, ou seja, tudo na história é inventado, ou melhor, criado pelo autor. Portanto não há necessidade de verossimilhança
n substantivo feminino
1   qualidade do que é verossímil ou verossimilhante
2   Rubrica: literatura.
ligação, nexo ou harmonia entre fatos, idéias etc. numa obra literária, ainda que os elementos imaginosos ou fantásticos sejam determinantes no texto; coerência
(Dicionário Houaiss)


A crônica é um gênero híbrido como nos contou Aline, quer dizer tem um pouco de realidade (de fatos, de acontecimentos, de jornalismo) e de ficção. O conto, por sua vez, só tem ficção, é um texto em que o autor fica responsável por tudo o que inventa: escolha de palavras, tempos dos verbos, construção do personagem, cenário, ações etc.

Por isso é que a crônica leva o autor sempre à frente: eu vi, eu experimentei, eu comuniquei. Já no conto, o narrador é que se encarrega de dizer as coisas que até o autor duvida, ou não tem coragem. Afinal, narrador é para isso mesmo, é para narrar, para nos contar tudo o que acontece, como acontece, onde e quando acontece.

Dentro dos contos há os realistas, os surrealistas, os mágicos, os fantásticos entre tantos. São textos em que os autores seguem estilos e escolas literárias. Por isso é que os contos de Guimarães Rosa se diferem dos contos de Rubem Braga (que também se dedicou aos contos). É por isso que Sérgio Porto ou Stanislaw Ponte Preta  não é da mesma linha que Clarice Lispector. Mario de Andrade tem contos com um estilo distinto dos de Machado de Assis. Isso sem falar nos ingleses, russos, latino-americanos, espanhóis, chineses, árabes etc etc.

Para ilustrar, um conto de Sérgio Porto,  para recordar os tempos da adolescência:

Conto de mistério
Sérgio Porto – Stanislaw Ponte Preta

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.
Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:
Siga-me! - foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele - a uma distância de uns dez a doze passos - entrou também.
Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.
Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou - porém - quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: "É este".
O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.
Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:
- Julieta! Ó Julieta... consegui.
A mulher veio lá de dentro enxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.


E como não podia deixar de ser, uma crônica de Gabo, nosso ilustre representante latino-americano:

Um domingo em delírio
Gabriel Garcia Márquez Gabriel García Márquez

Un editor de Barcelona hizo la semana pasada una escala en Cartagena de Indias para almorzar conmigo. Um editor em Barcelona fez na semana passada uma escala em Cartagena de Indias para almoçar comigo. Después de una comida criolla bien conversada, lo llevé a conocer la ciudad antigua, que, con toda razón, le pareció una de las más bellas del mundo. Depois de uma comida criolla feita no capricho, levei-o para conhecer a cidade antiga, que, com toda razão, pareceu-lhe uma das mais belas do mundo. Lo invité más tarde a tomar un café en casa de mis padres, que tienen 54 nietos, y muchos de ellos habían ido a saludarlos. Convidei-o mais tarde para tomar café na casa de meus pais, que têm 54 netos, muitos dos quais, haviam passado por lá para lhes pedir a bênção. Por último, sem saber como, terminamos Por último sin saber cómo, terminamos en una recepción en una recepción trataron con tanta amabilidad que tuvo que escuchar seis discursos y se tomó once vasos de whisky en tres cuartos de hora. numa recepção oficial, e o trataram com tanta amabilidade que teve que ouvir seis discursos e tomou 11 copos de uísque em menos  de uma hora. Al atardecer, todavía medio aturdido por tantas novedades juntas, se fue con la impresión de haber vivido tina de las experiencias más raras de su vida. Ao entardecer, ainda meio aturdido por tantas novidades juntas, partiu com a impressão de ter vivido uma das experiências  mais extraordinárias de sua vida. «No has inventado nada en tus libros», me dijo al despedirse.
Você não inventou nada em seus livros, disse-me, ao se despedir. «Eres un simple notario sin imaginación». Você é um simples escrivão sem imaginação. En realidad, estaba preparado para pasar un domingo tranquilo, a salvo de las nieves que había dejado el día anterior en el otro lado del mundo, y se encontró de pronto y sin previo aviso enredado en los hechizos del Caribe.El delirio empezó en el mismo aeropuerto.
Na realidade, estava preparado para passar um domingo tranqüilo, a salvo da neve que havia deixado no dia anterior do outro lado do mundo,  e logo se viu, e sem aviso prévio, enredado nos feitiços do Caribe.
O delírio começou no próprio aeroporto. Yo nunca había observado, hasta que él me lo hizo notar, que las puertas de abordaje y desembarco son imposibles de distinguir. Eu nunca observara, até que ele me fez notar, que as portas de embarque e desembarque são impossíveis de distinguir.En efecto, hay una con un letrero que dice: «Salida de pasajeros», y por ella salen los que van abordar los aviones. Hay otra puerta con otro letrero que dice lo mismo: «Salida de pasajeros», y es por allí por donde salen los pasajeros que llegan. De fato, há uma com um aviso que diz: "Saída de passageiros, e por ela saem os que vão entrar nos aviões. Há outra porta com outro aviso que diz a mesma coisa:" Saída de passageiros ", e é por ali que saem os passageiros que chegam. Lo peor es que ambos letreros son correctos, porque por ambas puertas se sale. O pior é que ambos os letreiros estão corretos, porque se sai por ambas  as portas. Por otra parte, hay también una sala de espera que no es para esperar a los que llegan, sino para que esperen la salida del avión los que se van. Por outro lado, há também uma sala de espera que não é para esperar os que chegam, e sim para que esperem a saída do avião os que se vão.Allí hay, por supuesto, varias hileras de sillas muy ordenadas y limpias, frente a una serie de puertas numeradas bajo un letrero general: «Salida de vuelos nacionales». Ali há, certamente, várias fileiras de cadeiras muito organizadas e limpas, em frente a uma série de portas numeradas sob um aviso geral : "Saída de vôos nacionais”. Pero esas puertas no se usan. Mas essas portas não são usadas. En cambio, los pasajeros que llegan en los vuelos nacionales no salen por ninguna de tantas puertas, sino por la salida internacional, que está en otro edificio apartado; sin embargo, cuando una cálida voz de mujer solicita por los altavoces que salgan por la puerta de salida los pasajeros que se van, nadie sufre un tropiezo. Em compensação, os passageiros que chegam nos vôos nacionais não saem por uma dessas numerosas  portas, e sim pela saída internacional, que está em outro prédio separado; no entanto, quando uma cálida voz de mulher solicita  pelos alto-falantes que saiam pela porta de saída dos passageiros que se vão, ninguém fica embaraçado.
«Es que no hay que hacerle caso a los letreros», nos explicó un agente de policía de turismo. «Aquí todo el mundo sabe por donde entra y por dónde se sale ». Não se deve ligar para os letreiros explicou-nos um agente da polícia de turismo. Aqui todo mundo sabe por onde se entra e por onde se sai.
Para mí, el rincón más nostálgico de Cartagena de Indias es el muellede la Bahía de las Animas, donde estuvo hasta hace poco el fragoroso mercado central. Para mim, o recanto mais nostálgico de Cartagena de Indias é o cais da baía das Almas, onde se encontrava até há pouco o ruidoso  mercado central. Durante el día, aquella era una f¡esta de gritos y colores, una parranda multitudinaria como recuerdo pocas en el ámbito del Caribe. Durante o dia, aquela era uma festa de gritos e cores, uma pândega altamente concorrida, como me lembro de  poucas no âmbito do Caribe. De noche, era el mejor comedero de borrachos y periodistas. Allí estaban, frente a las mesas de comida al aire libre, las goletas que zarpaban al amanecer cargadas de marimondas y guineo verde, cargadas de re mesas de putas biches para los hmeles de vidrio de Curazao, para Guantánamo, para Santiago de los Caballeros, que ni siquiera tenía mar para llegar, para las islas más bellas y más tristes del mundo. De noite, era o melhor lugar de comer, para bêbados e jornalistas. Ali estavam, diante das mesas de jantar ao ar livre, as escunas que zarpavam ao amanhecer carregadas de micos-aranhas e bananas verdes, bem como de putas para os hotéis envidraçados de Curaçao, para Guantánamo, para Santiago de los Caballeros, que sequer tinha mar para aportar, para as ilhas mais belas e mais tristes do mundo. Uno se sentaba a conversar bajo las estrellas de la madrugada, mientras los cocineros maricas, que eran deslenguados y simpáticos y tenían siempre un clavel en la oreja, preparaban con mano maestra el plato de resistencia de la cocina local: filete de carne con grandes anillos de cebolla y tajadas fritas de plátano verde. A gente se sentava para conversar sob as estrelas da manhã, enquanto os cozinheiros efeminados, que eram desbocados e simpáticos e tinham sempre um cravo na orelha, preparavam com mão firme o prato de resistência da culinária local: filé de carne com grandes anéis de cebolas fritas e tiras de banana verde. Con lo que allí escuchábamos mientras comíamos, hacíamos el periódico del día siguiente. Com o que  ali escutávamos enquanto comíamos tínhamos material para o jornal do dia seguinte.
Mi amigo editor recordaba muy bien el lugar, porque lo conoció descrito en El otoño del patriarca, como el remanso nocturno donde monseñor Demetrio Aldus, auditor de la Sagrada Congregación del Rito y promotor y postulador de la fe, se peleaba a trompadas con los marineros. Meu amigo editor lembrava muito bem do lugar, porque o conheceu descrito em O Outono do Patriarca, como o remando noturno onde o monsenhor Demetrios Aldus, auditor da Sagrada Congregação do Rito e promotor e postulante da fé, trocava socos e pontapés com os marinheiros. Lembrava Lo recordaba, digo, pero no lo reconoció cuando lo llevé a conocerlo en la realidad, porque el mercado público fue demolido, y el muelle fue desmantelado, y en su lugar se construye un esperpento descomunal, que será todo lo contrario de la ciudad: el edificio más feo del mundo., digo, mas não o reconheceu quando o levei a conhecê-lo na realidade, porque o mercado público foi demolido, e o cais foi desmantelado, e em seu lugar estão construindo um espantalho descomunal, que será tudo o contrário da cidade: o prédio mais feio do mundo.
El Centro Internacional de Convenciones -inspirado, como hasta su nombre lo indica, en el Convention Hall de Miami- costará 1.500 millones de pesos, que equivalen a siete veces el O Centro Internacional de Convenções   inspirado, como até seu nome indica, no Convention Hall de Miami custará de 1, 5 bilhão  de pesos, que equivalem a sete vezes o mesmo presupuesto municipal. orçamento municipal. Mi amigo, que sabe de números como buen editor catalán, comprendió entonces lo que quiere decir el realismo mágico. Meu amigo, que sabe de números como bom editor catalão , compreendeu então o que quer dizer o realismo mágico.De fato, três  En efecto, 3.000 convencionistas necesitan por lo menos diez jumbo s de los más grandes para llegar a la ciudad, y por lo menos un mes para salir con la capacidad actual de las siete puertas del aeropuerto. Será necesario paralizar un día completo el tráfico de la ciudad para llevarlos desde sus hoteles hasta el centro de convenciones, y otro día completo, para el viaje contrario, y aun así se formará un embotellamiento apocalíptico con sus propios vehículos. convencionais precisam de pelo menos dez jumbos dos grandes para chegar à cidade, e pelo menos um mês para sair com a capacidade atual das sete portas do aeroporto. Será necessário paralisar um dia inteiro o tráfego da cidade para levá-los de seus hotéis até o centro de convenções, e outro dia inteiro para a  viagem em sentido contrário, e ainda assim se formará um engarrafamento apocalíptico com seus próprios veículos.
Por outro lado, Por otra parte, la mayoría de los convencionistas, si en realidad valen la pena, serán hombres de empresa que deberán estar en contacto permanente con sus centros financieros.a maioria dos convencionais, se em verdade valem a pena, serão executivos que deverão estar em contato permanente com seus centros financeiros. Pero el servicio telefónico de Cartagena es tan rudimentario que, para hablar por teléfono, hay que dejar la ventana abierta, porque lo que uno dice se oye más por la ventana que por el teléfono. Mas o serviço telefônico de Cartagena é tão rudimentar que, para falar por telefone, deve-se deixar a janela aberta, porque o que a gente diz se ouve mais pela janela do que pelo telefone. Sólo para conseguir que las operadoras de larga distancia les contesten a 3.000 convencionistas agónicos, se necesitarán 32 años. Só para conseguir que as operadoras de longa distância atendam a três mil convencionistas aflitos serão necessários  32 anos. Antes que mi amigo, estos cálculos los había hecho una comisión de expertos internacionales, que consideraron el proyecto como un disparate homérico. Antes de meu amigo, estes cálculos tinham sido feitos por uma comissão de especialistas, internacionais, que consideraram o projeto um disparate homérico. Pero los promotores locales se empeñaron en hacerlo con un argumento magistral: «La ciudad lo necesita para coronar todos los años a la reina de la belleza». Mas os promotores locais se empenharam em fazê-lo com um argumento magistral:
A cidade tem necessidade dele para coroar todos os anos a rainha da beleza.
Agobiado por tanto realismo fantástico, mi amigo me agradeció, como una pausa de alivio, que lo invitara a tomarse un café en casa de mis padres. Abatido por tanto realismo fantástico, meu amigo me agradeceu, como uma pausa de alívio, que o convidasse para tomar um café na casa de meus pais. Más le hubiera valido no aliviarse. Seria melhor não tivesse ficado aliviado. Como creio ter dito muitas vezes, En efecto, como creo haberlo dicho otras veces, mi padre acaba de cumplir ochenta años, y mi madre 76.meu pai acaba de fazer oitenta anos, e minha mãe 76. Pero no hay manera de sentarlos a descansar. Mas não há maneira de fazê-los descansar. Mi padre se va a pie todos los días, bajo el sol de fuego, hasta el centro de la ciudad, y no hemos logrado disuadirlo de una excursión que quiere hacer por la selva amazónica. Mi madre, se ha empeñado toda la vida en hacer los oficios de la casa, y quiere inclusive acabar de lavar los platos que la lavadora eléctrica deja mal lavados. Meu pai vai a pé todos os dias, sob um sol abrasador, até o centro da cidade, e não conseguimos convencê-lo a desistir de uma excursão que deseja fazer pela selva amazônica. Minha mãe se empenhou a vida inteira nos trabalhos da casa, e quer inclusive acabar de lavar os pratos que a lavadora elétrica deixa mal lavados. Mi amigo le preguntó si alguien la ayudaba, y ella le contestó con su lenguaje propio: «Tengo dos secretarias». Meu amigo perguntou-lhe se alguém a ajudava, e ela respondeu com sua linguagem própria:
Eu tenho duas secretárias.
Mi amigo le preguntó desde cuándo, y ella le volvió a contestar: «Desde hace quince días». Meu amigo lhe perguntou desde quando tempo, e voltou a  responder:
Há 15 dias.
El secreto de ambos es que nunca se han puesto a pensar en la edad. O segredo dos dois é que nunca se puseram a pensar na idade. Hace poco, mi padre compró unos bonos que serán liquidados en el año 2.000. Há pouco, meu pai comprou uns títulos públicos que serão liquidados no ano 2000. Es decir, cuando él tenga cien años. Isto é: quando tiver cem anos. Uno de mis hermanos le reprochó su falta de sentido, y él replicó impasible: «No los compré para mi beneficio, sino para asegurarle a tu madre una vejez tranquila ». Um de meus irmãos, censurou-o por sua falta de lógica, e ele respondeu, impassível:
Não os comprei para meu benefício, mas para assegurar à sua mãe  uma velhice tranqüila.
Mientras conversábamos, llegó una nieta a contamos que la noche anterior se había desdoblado. Enquanto conversávamos, chegou uma neta para nos contar que na noite anterior se desdobrara em duas.
«Cuando regresé del baño», me dijo, «me encontré conmigo misma que todavía estaba en la cama». Quando voltei do banheiro me disse ,  me encontrei comigo mesma que ainda estava na cama. Poco después llegaron tres hermanas y dos hermanos, de los dieciséis que somos en total.
Pouco depois, chegaram três irmãs e dois irmãos, dos 16 que somos  no total. Una de ellas, que fue monja hasta hace poco, se enredó en un diálogo sobre religiones comparadas con un hermano que es mormón. Uma delas, que foi freira, até há pouco, meteu-se numa discussão sobre religiões comparadas com um irmão, que é mórmon. Otro hermano había mandado hacer una tabla sobre medida, pero cuando la volvió a medir en la casa resultó ser más corta que en la carpintería. Outro irmão mandara fazer uma mesa sob medida, mas quando  voltou a medi-la em casa ela estava menor do que na carpintaria.
«Es que en el Caribe no hay dos metros iguales», dijo. É que no Caribe não há dois metros iguais, disse. En efecto, midió un metro con el otro, ya uno de los dos le faltaba un centímetro.
De fato, mediu um metro com o outro e a um dos dois faltava um centímetro.  Outra Otra hermana tocaba al piano la serenata del cuarteto número cinco de Hayden. irmã tocava ao piano a serenata do quarteto número cinco deLe hice ver que la tocaba tan rápido que parecía una mazurca. Haydn. Ponderei-lhe que tocava com tanta rapidez que parecia uma mazurca.
«Es que sólo toco el piano cuando estoy acelerada», me dijo, «lo hago para tratar de calmarme, pero lo único que consigo es acelerar también al piano». É que só toco piano quando estou acelerada  me disse ele. Toco para tentar me acalmar, mas a única coisa que consigo é acelerar também o piano. En esas estábamos cuando tocó a la puerta una hermana de m¡ madre, la tía Elvira, de 84 años, a quien no veíamos desde hacía quince años. Venía de Riohacha, en un taxi expreso, y se había envuelto la cabeza con un trapo negro para protegerse del sol.
Estávamos assim quando bateu na porta uma irmã de minha mãe, a tia Elvira, de 84 anos, a  quem não víamos havia 15 anos. Vinha de Riohacha, num táxi expresso, e envolvera a cabeça com um velho pano preto para se proteger do sol. Entró feliz, con los brazos abiertos, y dijo para que todos la oyéramos: «Vengo a despedirme, porque ya casi me voy a morir». Entrou feliz, com os braços abertos, e disse para que todos ouvissemos:
― Venho me despedir, porque já estou quase morrendo.
Meu amigo não agüentou mais. Mi amigo no soportó más. Ao entardecer, a caminho do aeroporto, deu-me trabalho convencê-lo de que essa era nossa vida real de todos os dias, e que eu preparara só para impressioná-lo cada um dos episódios daquele domingo de delírio.

4 comentários:

  1. Caras,
    Fiquei pensando em que havia dúvidas entre o que caracteriza uma crônica e um conto.
    Decidi rascunhar algo especialmente para vocês, com direito a ilustração e tudo.
    É apenas com o intuito de deixar as dúvidas de lado e abrir outras janelas para o ato da leitura.
    ¡Qué lo disfruten!, como dizem os espanhóis.
    Carinhos.
    Joana

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  2. Joana boa noite !
    As dúvidas foram todas sanadas.
    E o conto de Sergio Porto , jamais imaginaria que no pacote teria um quilo de feijão .
    Ah!!!!! O nosso querido Gabo , tudo perfeito . Não preciso nem fechar os olhos para ver a cena de uma serenata do quarteto número cinco de Haydn ( é magnífica ) parecer uma mazurca , realmente ela estava muito acelerada .
    Obrigada e mais uma noite encantadora ,beijos M. Ines ( Nequinha ) .

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  3. Joana, sensacional!

    Obrigada pela excelente explicação!

    Até daqui a pouco!

    Ps- Nequinha sentiremos saudades!

    Bjs

    Carla

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  4. Joana,

    Teu envolvimento e vibração são contagiantes!!
    Obrigada pela generosidade da explicação.
    Bj em todas e bom encontro,
    Thais

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