Eu fiz algumas anotações sobre ontem, mas esqueci o caderninho em casa...
Logo, vou escrever do que me lembro.
Eu estava muito ansiosas feliz com a visita da Elisa.
Eu e minha mãe ficamos fazendo os preparativos dos cds cantando alto várias músicas durante a gravação.
A noite de ontem foi muito especial, acredito que não tenha palavra que descreva melhor.
Eu fiz algumas anotações sobre ontem, mas esqueci o caderninho em casa...
Logo, vou escrever do que me lembro.
Eu estava muito ansiosas feliz com a visita da Elisa.
Eu e minha mãe ficamos fazendo os preparativos dos cd cantando alto várias músicas durante a gravação.
A primeira lagarta a chegar, foi a Nequinha. Chegou toda sorridente com o delício pão com nozes debaixo do braço. Nos contou sobre uma conhecida que é especialista em perdas e danos. Ficou de nos trazer sua convidada para o clube.
Ficamos ainda um tempo conversando, quando aos poucos foram chegando Thaís (dama de preto, magrinha e com sua deliciosa sobremesa de brigadeiro com nozes), Ângela (super elegante com sue sapatinho de bonequinha de luxo. Estavamos todas com saudades.), Maria José (linda e carinhosa), Adri (anão de botas e vestido com três botões vermelhos), Elisa (minha querida professora que chegou com vários copos de leite na mão e mochila cheio de livros e sabedoria), Margareth (com sua voz doce e postura de quem pratica tai chi), Joana (com as sua mais famosa e focada frase: "voltando ao conto..." sensacional!), D. (de all star e com promessa de começar terapia durante a copa no Brasil), Aline (de cabelo cortado super gracinha), Tânia (com sua delicadeza de sempre e programação de almoço para todas as lagartas no moinho de pedra, vamos?), Cláudia (de band aid, novia e sempre tão receptiva e carinhosa) e eu (de cabelo mais claro, que o anão disse que estava "bom".)
Depois de toda entrada com Figo com presunto cru, queijo brie com geléia de pimenta e torradinhas, pepino, biscoito polvilho, amêndoas, castanhas, pistache, erva doce, pão com nozes e etc e etc, Elisa começou a contar um pouco de sua trajetória com bom humor e ensinamentos.
O que mais mexeu comigo durante seu discurso foi a frase: "hoje eu sei que existem coisas mais importantes do que o intelecto em uma relação". Deduzi que talvez seria o companheirismo, o respeito e admiração. Seria isso mesmo ou entendi mal?
Depois Elisa nos conduziu para a terceira margem do rio... Entramos para dentro da morte como metáfora. O filho tentando elaborar a morte do pai... Sua culpa, seu abandono, sua solidão... Tudo tão intenso e profundo. Senti como se fossemos o crocodilo do Guimarães... Adentrando o rio... A bagunça que se encontra dentro dele, mesmo quando olhando por fora passe a sensação de calmaria... Acho que foi mais ou menos assim que todas nós nos sentimos ontem... Lagartixas crocodilos...
O luto patológico seria a melancolia... Perguntei para a Elisa dizendo que poderia ser melancolia o que o personagem sentia... Mas então ela disse sobre o julgamento... Sobre apontar para o outro e esquecemos os dedos que estão apontados para nós...
Foitudo muito lindo e a confraria estava calma... Ouvindo com paciência a nossa convidada.
Quero agradecer pela energia maravilhosa de todas ontem e principalmente pela sintonia do grupo. Sinto que estamos cada vez mais próximas em algum rio da vida.
Depois veio a salada de tomatinho cereja, burrata, lesto de manjericão e torradas...
Mais rio... Mais vida...
Depois o delicioso bacalhau com natas (tinha até brócolis dessa vez) e arroz branco macio. Tudo isso da nossa chef e seu aprendiz de Ratattouie Boaz. A disposição das cadeiras estava diferente dessa vez... Éramos em 13 então resolvemos aumentar a roda, incluindo a mesa principal desde o início.
Depois fomos para a poltrona e a Elisa foi apresentada às lagartixas de enfeite. Depois ouvimos músicas, Joana tirou dúvidas, Nequinha nos distribuiu frases do Jorge amado e cada uma nós tinha uma especial.
Elisa nos indicou alguns livros que fico de postar mais tarde... Sei que temos que adquirir o livro "primeiras histórias" do Guimarães rosa. Sugestão: vamos fazer uma sessão cinema para assistir grandes sertões, veredas? Quero conhecer o Diadorim...
Estou encantada por ontem!
Fomos depois para as sobremesas.
Quando me dei conta já eram quase uma da manhã... Longa noite! Foi difícil acordar, mas com certeza valeu muito a pena!
Obrigada a todas (em especial a novia) por me proporcionar momentos de tamanha alegria.
Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira
Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas
Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai
Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai
Segundo Elisa Maria, as angústias chamavam a atenção de Klein. Após
absorver tudo o que podia de Freud, ela criou uma teoria que focalizou
em duas angústias básicas: a de ser perseguido e a de perder. "A questão
da perda, talvez, centralize a obra dela", diz.
A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Elisa Maria de Ulhôa Cintra
A partir do impacto produzido pelo atentado terrorista contra os Estados Unidos faz-se uma reflexão sobre a violência, o ódio e a intolerância usando o referencial psicanalítico de Melanie Klein e algumas idéias de Lévinas.
A metáfora da “terceira margem do rio”, retirada de uma história de Guimarães Rosa, é usada para pensar a parentalidade como “atividade de ser e de dar ser, de destinar a ser, de deixar o outro ser”.
Neste terceiro milênio, ele mandou matar as americanas porque elas não cobrem o rosto, fumam, bebem, falam de igual para igual com os homens e ainda, suprema ousadia, escolhem os seus próprios parceiros sexuais, não se submetendo a casamentos arranjados pelo clã. Quem achar que aqui há exagero pode consultar os manifestos denunciando os maus-tratos contra as mulheres afegãs que circulavam pela Internet... (José Nêumane, O Estado de S. Paulo, 10.10.2001, p. A2.).
O recente atentado terrorista nos Estados Unidos levou-me a pensar que o trabalho mais importante para combater a expansão do ódio em escala mundial é um persistente e profundo trabalho do pensamento que possa expor e desmontar a lógica que sustenta o fundamentalismo1 e as práticas terroristas. Comparo este trabalho do pensamento à força milenar da erosão da água sobre a pedra: quanto mais dura for a rocha tanto mais surpreendente é este insidioso poder de amolecer e dissolver. Penso na terra fértil com seus lençóis freáticos, suas reservas de água que promovem o milagre da germinação. Penso em alguns momentos singulares de contato com o outro e com a sua alteridade.
Estava mergulhada em devaneios, antes de escrever este texto, quando uma pessoa muito querida veio me falar da “água da palavra” em uma canção de Caetano Veloso, A terceira margem do rio. “Mas este não é o título de uma história de Guimarães Rosa, naquele livro Primeiras estórias?” – perguntei-me. Sim, exatamente. A canção foi composta pensando na história de um pai de família que resolve retirar-se do convívio familiar adentrando-se em um horizonte invisível: terceira margem do rio.
Terceira margem do rio? Onde fica? É no meio da travessia? É um espaço transicional, lugar de possíveis? Para onde foi, o pai retirou-se da tagarelice, da positividade da presença? Retraiu-se para dar lugar ao outro, à sua alteridade? Questões que ficam por responder. Por enquanto, alguns versos esparsos da canção de Caetano: “Água da palavra, água calada pura. Água da palavra, água de rosa dura. Proa da palavra, duro silêncio, nosso pai. Margem da palavra. Entre as escuras duas Margens da palavra Clareira, luz madura Rosa da palavra Puro silêncio, nosso pai”.
Sou muito grata a esta pessoa que me apresentou o horizonte poético para pensar sobre ódio e intolerância. Desde este instante, sentia, à medida em que redigia, a força persuasiva, refrescante, correndo por trás das letras e pensamentos. Água da palavra. Misterioso poder de mitigar a sede e fazer brotar pensamentos. Havia encontrado a terceira margem e um rio de água viva surgia do encontro com o outro.
O OUTRO ENCONTRO
Chegara ao consultório, como em tantas outras sextas-feiras, para o habitual horário. Comecei a escutar a palavra daquele homem, a sua dor, o ritmo lento, pausado, de deixar sair as palavras da garganta de pedra, da garra impronunciável que nos mantém isolados uns dos outros. Algumas palavras começaram a pingar como chuva leve batendo com firmeza no chão, originando sons agudos de “tes” e “tus”, “other-ness”, “al- ter-idade”, batendo sobre a pedra como antimísseis da paz, ressoando, ecoando. Comecei a prestar atenção na música deliciosa, frágil, sobre a pedra dura que se amolecia embaixo, que vergava para o fundo. Eu me sentia derretendo por dentro sem saber ainda o que aquilo significava, mas podendo sentir o trabalho de dissolução de antigas certezas e algumas dores infantis e solitárias. Minhas fomes insaciadas cediam, o sentimento de humilhação e a opressão da necessidade experimentada, tudo, enfim, que tinha o poder de fazer de mim uma terrorista em potencial, tudo isto cedia. O ressentimento ia vergando sob o peso daquela água, e eu me sentia deliciosamente incapaz de detê-la. A palavra daquele homem era como uma água profunda e fecunda que fazia brotar certas reservas milenares de emoção: eu era simplesmente a sede daquele misterioso acontecimento. Como é possível ter tanto poder a palavra? Lavra silenciosa, sulco, marca Água da palavra, sopro da palavra. Capaz de dissolver um mundo e de fundar um outro. Senti que se não fizesse esse trabalho da palavra, se não o fizesse logo e com a maior urgência, estaria contribuindo pessoalmente para aumentar a violência do mundo.
Elucidar a própria violência é apenas parte do esforço maior que visa elucidar a violência infiltrada na lógica fundamentalista que conduz aos atos de terror. A questão é muito ampla e merece que se reúna tudo que foi, até hoje, pensado sobre a inesgotável violência dos homens e a dificuldade de lidar com o outro sem imediatamente querer assimilá-lo e devorá-lo para dentro das próprias crenças e valores.2
MELANIE KLEIN AJUDA A ELUCIDAR A VIOLÊNCIA
Neste sentido, o pensamento de uma psicanalista como Melanie Klein, que se debruçou de modo sistemático sobre a questão da agressividade e do ódio, tem sua contribuição a dar para esta elucidação. Um amigo me havia dito que depois da destruição e das mortes daquela terça-feira de setembro, eu podia dizer aos meus alunos que Melanie Klein tinha boas razões para ter construído sua teoria em torno do fenômeno do ódio e da destrutividade que arde incansavelmente nas mentes e corações.
Nestes tempos sombrios de terror e fundamentalismo a ênfase dada por ela à destrutividade e à agressividade é um ponto-chave que também chamou a atenção de Freud desde a época da Primeira Guerra Mundial e do estudo sobre a neurose obsessiva e a melancolia. Ele ficou profundamente impressionado com a presença de masoquismo, sadismo, agressividade e ódio, que dificilmente podiam ser derivados apenas da libido. Além da infinita e insaciável ânsia de amor (Sehnsucht) postulada por Freud, e talvez até mesmo em decorrência da impossibilidade de atender esta demanda insaciável, criam-se as condições para o surgimento de toda a forma de violência. Algumas formas têm origem no ambiente: violência da miséria que corta a circulação dos bens necessários à vida e deriva dos regimes de distribuição da riqueza e a violência dos sistemas ideológicos e religiosos que estabelecem e definem os modos de circulação dos bens, ao mesmo tempo que criam sistemas de valores e interdições que dão origem à exclusão e à adesão fanática. Do lado psíquico, a força das exigências pulsionais, a violência do imaginário e das interdições interiorizadas são capazes de reproduzir e amplificar, ao infinito, a violência da ideologia e da religião.
ANGÚSTIAS ARCAICAS
Para Melanie Klein a violência psíquica é anterior à capacidade de amar; antecede a capacidade de pensar, postergar, agir, gerar recursos e projetos. Antes de tudo somos isto: um feixe de violentas necessidades e exigências, mergulhado no mais aflitivo desamparo. Isto é, antes de chegar a perceber e desejar o outro como um outro, com capacidade de manter a distância e a diferença em relação a ele, somos um puro anseio vampiresco e voraz, um turbilhão de angústias e um tumulto de desejos arcaicos que nos tornam indiscerníveis uns dos outros; somos sede da mais pura violência do imaginário, o que nos coloca em pleno estado de desamparo.
A própria violência do anseio de incorporar e possuir o outro e a voracidade que caracteriza a mais primitiva forma de amar tornam o mundo perigoso e ameaçador, por meio do mecanismo da projeção, pois o mundo fica todo impregnado da ânsia de incorporação. Daí surgem as mais arcaicas angústias persecutórias. O que quer dizer com isto? As angústias persecutórias são assim chamadas pois originam a sensação de estar sendo perseguido e atacado. São terrores; como o terror sem nome de cair para sempre, de ser abandonado, de ter seu Eu aniquilado, de ser morto, invadido, devorado ou destruído por uma força monstruosa que ultrapassa a capacidade de defesa. As imagens de ser engolido por uma onda gigantesca, devorado por um tubarão ou outro monstro qualquer podem ser figurações das angústias persecutórias mais arcaicas.
DEFESAS PRIMITIVAS
Neste quadro em que predomina a violência das pulsões e do imaginário, faz- se necessário construir defesas que possam diminuir e apaziguar em certa medida a intensidade das primeiras angústias. Um destes mecanismos de defesa é a cisão que consiste em separar de forma radical as experiências boas e más, isto é, as que promovem prazer das que provocam qualquer forma de desprazer, desconforto ou dor. Melanie Klein acredita que as experiências de prazer são atribuídas a uma pessoa, a mãe, que se constitui então como a mãe boa, capaz de prestar cuidados e amar. Por outro lado, as experiências más são atribuídas à mãe que frustra, castiga ou deixa a criança em estado de frustração. Isto quer dizer que nos primórdios da vida o psiquismo organiza suas experiências de prazer e desprazer polarizando ao máximo a distinção entre ambas e atribuindo-as, por um lado, a um objeto idealmente bom e, por outro, a um terrível perseguidor. Ora, o dinamismo que separa o bem purificado do mal radical está presente na lógica do fundamentalismo ao pregar a absoluta bondade de Deus em contraste com a maldade dos infiéis que devem ser sumariamente aniquilados. Ao constituir um “bem” absoluto e inalcançável, este fica protegido de toda possível contaminação e assim pode permanecer incorruptível; eterniza-se: torna-se uma reserva imaginária de “bem” que pode durar para sempre, o que responde a uma de nossas aspirações mais profundas.
Do outro lado, a grande vantagem de estar diante de um objeto absolutamente mau é que nenhuma dúvida se instala quanto ao que fazer com ele: só resta destruir e, impiedosamente, aniquilar o perseguidor. Ao constituir um objeto como sendo plenamente mau, consigo justificar qualquer ato de violência contra ele. Sobretudo se o estou aniquilando em nome do Supremo Bem, então toda e qualquer arbitrariedade contra ele será justificada, será considerada “santa” e “bendita”: aquele sobre quem projetei minha concepção de mal absoluto é completamente destituído de sua subjetividade, de seu direito à defesa, de seus direitos tout court; torna-se um objeto desprezível, mero dejeto.
Do outro lado, para constituir um objeto idealmente bom preciso negar toda falta ou precariedade que porventura haja nele; isto faz parte da idealização necessária para o surgimento do objeto imaculadamente bom e perfeito: será um verdadeiro Deus.
Melanie Klein considerava a negação um poderoso mecanismo de defesa arcaico que visa aniquilar percepções e aspectos indesejados das pessoas e está intimamente relacionada à idealização. Bem próximos do ideal máximo, Deus (ou Alá, como querem os muçulmanos), estariam os que conseguiram aproximar-se mais desta extrema qualidade do Bem: mártires, santos e sacerdotes e aí reside o perigo do fanatismo. Se Deus permanecesse inacessível em uma esfera metafórica de bem absoluto, jamais poderíamos vir a conhecer com muita certeza qual é, exatamente, a sua vontade. O perigo começa quando julgamos que os mullás ou sacerdotes são representantes legítimos e porta-vozes do Bem Absoluto: é o que nos leva a um movimento regressivo, colocando-nos cegamente submetidos a seus desígnios, da mesma forma que um dia, no passado, fomos obrigados a estar em relação a nossos pais. A partir deste instante, todas as arbitrariedades poderão ser cometidas em nome do Deus Supremo ao pronunciar-se por intermédio de seus oráculos e eleitos.
Desde a descoberta do diário de um dos terroristas que organizou o atentado americano, pode-se vislumbrar nele um estado de profunda convicção: ao matar e destruir os americanos, representantes de satã, estava cumprindo a vontade do Deus Supremo. Este discurso fanatizado revela aquela certeza absoluta que caracteriza os estados psicóticos: não há dúvida de que os americanos são satânicos e que o projeto de matá-los é um gesto de obediência ao Bem Supremo. Não há lugar para dúvida, indagação, crítica, meditação ou ponderação. O fundamentalismo taleban através da jihad (que sig- nifica obediência cega à vontade de Deus) transforma palavras e crenças em mísseis a serem atirados contra os outros, isto, é todos os que não participam das mesmas crenças e valores e que foram devidamente “satanizados”.
Outro mecanismo de defesa descrito por Melanie Klein para lidar com a turbulência emocional dos primeiros tempos, a fuga para o objeto bom, consiste em refugiar-se imaginariamente no “seio do bom objeto ideal”, o que permite negar a própria fragilidade e desamparo e lançar-se à deliciosa aventura de partilhar da onipotência divina. Tornar-se muito poderoso, na verdade onipotente, é a promessa mais sedutora do fundamentalismo. Este pode ser pensado como sendo sempre uma estratégia de resgatar poder e triunfar sobre a fragilidade da existência humana. Podemos admitir que o sentimento de onipotência no início da vida é uma importante defesa: nega a fragilidade, impotência e desamparo dos primeiros tempos, de modo que, quanto mais indefesa e imatura a criança, maior será o sentimento de onipotência e a sensação de ser o centro do universo. Melanie Klein mostrou que o desenvolvimento psíquico consiste no doloroso processo de perda do sentimento de onipotência, de descentramento; é a exigência constante de sair do lugar de “sua majestade, o bebê”. O princípio de realidade obriga cada um a confrontar-se com a ignorância, impotência e exigências da necessidade que estabelecem diferentes graus de dependência e aprendizado.
Ora, para aceitar que sou um ser de necessidade, sujeito ao adoecimento e à morte, incapaz de resolver sozinho a grande maioria de minhas necessidades, preciso necessariamente abdicar do sentimento de onipotência e de auto-suficiência. Este doloroso processo é um prolongado luto que me faz chorar e lamentar ao mesmo tempo em que continuo nutrindo os mais secretos desejos de voltar a ser poderoso e triunfar sobre o desamparo. Era tão prazeroso sentir-me o centro das atenções e o centro do mundo e é tão insuportável e tedioso viver um cotidiano medíocre ou até mesmo miserável quando comparado às grandiosas vivências de poder e plenitude dos primórdios da vida! É este o terreno que propicia adesão ao fanatismo religioso e ao fundamentalismo.
Quanto mais intenso for o desejo de recuperar a onipotência perdida e quanto mais profundo o desprezo por minhas aquisições cotidianas, tanto mais torno- me presa fácil para a sedução do fundamentalismo e de todas as formas de fascismo e nazismo. Estas ideologias prometem resgatar a perfeição e a onipotência originárias, associando-me a alguma figura todo-poderosa ou seus representantes aqui na terra.
O SUICÍDIO COMO PROMESSA DE RESGATE DA PLENITUDE
Entretanto, se eu permanecer aderida a uma aspiração cada vez mais forte e devoradora de recuperar o estado de onipotência e plenitude, começo a entrar na dinâmica vertiginosa que culmina com o suicídio de tipo melancólico. Muitos autores na psicanálise3 já escreveram a respeito desta experiência-limite. Matar-se significa neste caso destruir a precariedade de um corpo e uma existência que passaram a ser vividos sob o signo da falha, da precariedade e da insuficiência. É uma lógica asfixiante que vai produzir a insidiosa, silenciosa transformação do corpo e existência em dejetos. O vertiginoso percurso vai das mais leves formas de depreciar a vida, de frustrante, precária e imperfeita até considerá-la indigna, insuportável, até finalmente coisificar este corpo real a um ponto extremo, tornando-o matéria fecal e fazendo do suicídio um gesto glorioso, via expressa de recuperação da grandiosidade perdida. A morte passa a ser procurada não em si mesma, como extinção da vida, mas como via de acesso à verdadeira plenitude, caminho para fazer cessar conflito, necessidade e dor da existência: suicidar- se virou estratégia de recuperação da plenitude narcísica mais absoluta e optar pela morte não é tão difícil quando a vida foi depreciada até tornar-se equivalente à matéria fecal. O próprio corpo e a vida foram completamente coisificados e não é difícil empregá-los como preço a ser pago pelo maior bem. Há nisto a sensação grandiosa de estar a serviço da missão heróica de purificação e eliminação do mal. A grandiosidade da missão apaga a insignificância da existência; entrega-se o nada de sua vida atual pelo tudo da vida eterna. O suicida mata-se não para se destruir, mas para reconstituir a imaculada perfeição originária da existência. Há, nesta forma de morte, a busca de um sentido supremo e grandioso que possa preencher o vazio da vida; é o mais extremo ato de onipotência e recusa de assumir a condição humana e anônima. Representa o triunfo sobre a impotência, trivialidade e precariedade de uma existência cotidiana atravessada pela miséria e pela insignificância.
SAIR DA ONIPOTÊNCIA INFANTIL: A POSIÇÃO DEPRESSIVA
Para Melanie Klein, a saída do estado de onipotência mais agudo é um longo processo de luto que começa a ser vivido desde o nascimento e prolonga-se até a morte. É verdade que os psicóticos, algumas personalidades muito narcísicas ou esquizóides e os fanáticos de qualquer seita nunca chegam a passar por este processo de transformação que Melanie Klein chamou de “posição depressiva”. Neste caso o termo “depressivo” não se refere ao quadro psicopatológico da depressão.
Usemos uma metáfora política para pensar um aspecto desta passagem. A divisão política do mundo era mais clara na época da guerra fria, quando de um lado estavam os Estados Unidos e do outro a União Soviética, e o mundo podia ser esquematicamente dividido em esquerda e direita. Ora, desde a queda do muro de Berlim e o desaparecimento do objetivo russo de levar a revolução comunista ao planeta, o panorama político revelou-se ser muito mais complexo e difícil do que se pensava até então. Diante do novo panorama geopolítico, a confusão tem sido tão grande que acaba acontecendo a volta ao funcionamento anterior (nós somos “do bem”, os outros são do mal) ou uma regressão mais profunda para atos isolados de destruição fanática que parecem gritos de desespero ou movimentos descoordenados e anárquicos. Algo análogo ocorre quando se entra na posição depressiva. Na posição anterior (chamada de esquizoparanóide) podia-se separar tão nitidamente o bom e o mau que as pessoas consideradas “más” podiam ser aniquiladas como perseguidores perigosos. As experiências desagradáveis e desconfortáveis podiam ser descarregadas e evacuadas ou projetadas sobre o mundo e os “outros”.
Na posição depressiva, entretanto, começa a acontecer uma confluência entre amor e ódio: os objetos já não são percebidos como exclusivamente bons e maus, perde-se a crença de que o mundo está dividido em vilões e santinhos, relativizam-se todas estas atribuições de valor positivo e negativo às pessoas e a si próprio. Surge o panorama modificado de uma realidade psíquica mais complexa, há um crescente reconhecimento da própria agressividade, tornando-se impossível acreditar que o “mal” está só no mundo e no “outro”.
A realidade psíquica passa a caracterizar-se por um maior grau de tensão, pela presença de conflito que origina culpa, remorso e desejos de reparação. Uma grande decepção é vivida pois o objeto ideal, perfeito e absolutamente doador deixa de existir. A criança começa a dar- se conta de que a mãe que alimenta é a mesma que frustra, que não existe uma pessoa infalível e inesgotável; ocorre uma mudança muito perturbadora na qualidade do objeto bom. A mãe perfeita e onipresente é substituída por alguém que funciona “suficientemente bem”, mas também falha e angustia. Surge uma nova imagem parental contaminada em sua perfeição e danificada em sua completude. Há um profundo pesar e um angustiante sentimento de responsabilidade com relação as outras pessoas. Diminui a necessidade de ser atendido e receber cuidados e aumenta o desejo de cuidar e proteger o outro. Desenvolve-se um maior grau de tolerância com relação às falhas dos outros.
A posição chama-se “depressiva” porque nela cumpre-se um processo de luto. Este consiste na aceitação da perda dos aspectos ideais das pessoas e na capacidade de abrir mão das representações mais radicais que exigem “tudo, absolutamente bom” para aceitar e enraizar em si representações de “alguma coisa, relativamente boa”, morte da criança magnífica, gestação de nova subjetividade. É também a passagem da posição do “berço esplêndido” para uma postura de implicar-se e responsabilizar-se.
Porém, a passagem para a posição depressiva é a mais difícil das transformações, envolvendo todo tipo de regressões à posição anterior. Não é simples perder o status de criança magnífica e entrar no regime da realidade, com as exigências de postergar a satisfação das necessidades, trabalhar, reconhecer o outro em sua diferença e desenvolver a capacidade de tolerar frustrações, pensar e sentir. As angústias que povoam os primeiros tempos somam-se às novas angústias da posição depressiva, e os problemas tornam-se infinitamente mais complexos: isto origina um forte movimento regressivo, na direção da posição esquizoparanóide, perceptível através das defesas maníacas. Tais defesas sinalizam justamente a dificuldade de entrar no processo de luto da onipotência, são tendências a recuperar o status perdido e voltar a uma organização mais simples e dualista do mundo.
Os mecanismos de defesa da posição esquizoparanóide envolviam cisões radicais entre o Bem Absoluto e o Mal Radical e estratégias de evacuar e destruir tudo que causava desconforto, ao passo que na posição depressiva a criança busca novos métodos para trabalhar o caos psíquico e a violência pulsional. São métodos mais introjetivos: desenvolve-se maior tolerância ao desconforto de se ver bombardeado por pulsões contraditórias e amplia-se a capacidade de suportar o conflito entre diferentes aspectos da experiência. Isto tudo quer dizer que mais trabalho psíquico e maior capacidade de postergar a vivência de prazer tornam-se necessários. O resultado é que ao fim deste penoso trabalho de implicação e responsabilização de si nos acontecimentos, há um melhor aproveitamento da energia pulsional e maior integração desta ao Ego.
Os mecanismos da posição depressiva podem ser comparados a um lento processo de gestação, pois há criação de novo espaço potencial ou “espaço” psíquico onde as representações pictóricas e verbais serão trabalhadas e modificadas, evitando a pura descarga das energias instintivas através de atos.
A metáfora de “espaço” psíquico é sempre precária: leva-nos diretamente ao registro visual, para as imagens e o imaginário com suas violentas estratégias de captura e cristalização do pensar. Talvez possamos pensar em um espaço virtual, um lugar escondido e invisível, um não-topos ou “lugar nenhum” em que possamos ficar relativamente livres da captura e da prisão do imaginário. Para entender esta passagem das imagens idealizadas da infância à solidão relativa e à plena capacidade de pensar da maturidade, por meio da posição depressiva, podemos recorrer à história da terceira margem do rio. Entrar nesta posição já não é fácil; porém é ainda mais difícil atravessá-la: se as margens são crenças absolutas, será preciso desprender-se delas, soltá-las em direção ao meio do rio. A posição depressiva exige deixar morrer deuses e demônios e abandonar crenças infantis de que há um bem e um mal absolutos que podem ser perfeitamente localizados em estado purificado. Só há verdadeiro crescimento à medida que os ídolos declinam e desaparecem juntamente com a idéia de um pensamento mágico e imediatista. No lugar deste último será preciso desenvolver um verdadeiro trabalho de pensar, sentir e elaborar conflitos. E ainda criar uma grande capacidade de conviver com o estrangeiro, tolerar dor e frustração e aceitar a condição humana de desamparo, transitoriedade e finitude. Estas são tarefas para uma vida inteira, por isso, dizem, nunca terminamos de elaborar a posição depressiva. É o mergulho na direção da face escura do outro, desalojamento de certezas, lugar da dúvida.
TERCEIRA MARGEM DO RIO: LUGAR DE POSSÍVEIS
A terceira margem do rio é o lugar da palavra, da água da palavra. Casa da palavra. Onde o silêncio mora. Na estória de Guimarães Rosa, o pai retira-se para este lugar fora do alcance do familiar, lugar enigmático, margem inexistente do rio. O que dizer disto? Que o pai retirou- se para lugar inacessível, inapreensível; não quer deixar-se apreender em nenhum esquema ou código. Não vai permitir compreensão totalizante.
A tradição judaica fala do caráter impronunciável do nome de Deus. Não poder pronunciar o seu nome corresponde ao “lugar nenhum” da terceira margem; é exigência de que “o pai” possa ficar inacessível, em uma certa dimensão, ao imaginário que petrifica. A interdição de “imaginarizar” Deus é um importante limite para a insaciável atividade imaginária e linguageira, é forma de impor silêncio nas margens da palavra: meta de desubstantivar Deus, fazê-lo passar de substantivo a verbo.
No tempo verbal, “pai” é princípio doador de vida, é a parentalidade, ou o que alguns chamam o significante ser pai; isto é, capaz de gerar vida, de dar vida, tornar-se capaz de autoria: é um princípio vital. É preciso pensar parentalidade no plano metafórico, como capacidade de gerar fruto, frutificar. Pensar no pai em termos de pura atividade, atividade de dar ser: da imagem estática ao movimento que sugere instantaneidade, presentidade sempre recomeçando; incessante brotar de água na fonte.
A metáfora espacial da gestação de um “espaço psíquico” começa então a temporalizar-se: o pai é agora atividade de ser e de dar ser, de destinar a ser, de deixar o outro ser. Para deixar o outro ser é preciso manter-se retraído, “cancelado”, em reserva, por isso na “terceira margem do rio”, em estado “ausentemente disponível”.
Muitos para quem contei a história da terceira margem do rio ficavam indignados com a indiferença do pai, no meio daquele rio. Será que isto é indiferença ou abertura de espaço, verdadeiro endereçamento ao outro? Uma certa indiferença, alguma descontinuidade é necessária à função paterna para dar lugar à mais plena emergência do filho: ser pai como quem dissesse aos filhos “Après vous, mes enfants”.
TERCEIRA MARGEM E TERCEIRA PESSOA
Penso que estas são lições aprendidas de Lévinas, em Totalidade e infinito, quando propõe deixar que um germe de infinito venha a dissolver o totalitarismo do imaginário. Este pai que não se fenomenaliza, internando-se no invisível é um princípio de infinitude que vem quebrar desejos de onipotência, aspiração à perfeição e o totalitarismo do Eu.
Infinito é o que ainda está por fazer, é um princípio de inacabamento. Sendo inacabado está ainda por vir, está sempre vindo de nova maneira. Este pai, alteridade invisível, vem relativizar, descentralizar, desestabilizar o Eu de sua posição despótica, imerso na ilusão de auto-suficiência.
Sendo o “totalmente outro”, pura diferença, desejo de diferir, este pai aparece como a terceira margem que ultrapassa sempre o mergulho narcísico do eu no tu e do tu no eu. Alteridade que rompe a mesmice instalada no “face a face” especular e sedutor da pulsão escópica; terceira margem que relativiza o fascínio, a sideração do Grande Outro.
O pai que vai para a terceira margem do rio, em vez de presentificar-se, dissolve- se no inaparente, no horizonte dos possíveis, no informe. Lembra a noção lévinasiana de “Terceira Pessoa”, Ele, eleidade, dimensão do outro e de si que sempre nos escapa à apreensão e permanece enigmática; sem a “eleidade” do outro e de si, núcleo indissolúvel de alteridade, nada resistiria à voracidade assimilativa do Eu.
O pai enigmático da terceira margem do rio é o estrangeiro, o excedente de sentido inassimilável pelo eu-mesmo: é sobretudo o silêncio que põe em movimento a indagação, a dúvida, a incerteza. Ao adentrar-se nesta borda invisível o pai experimenta um modo “outramente que ser” de retrair-se, para deixar o outro ser. A terceira margem é o lugar propício à atividade de dar ser.
PURO SILÊNCIO, NOSSO PAI
Considerando os efeitos do fanatismo terrorista, pergunto-me: se o Deus fundamentalista, em sua majestade triunfante e em sua mais obscena monstruosidade pode originar tanto sangue, para que precisamos ainda de satã? Basta este Deus Todo-poderoso, todo manchado de sangue, obscenidade e volúpia de destruição, a exigir a mais radical passividade e a mais completa obediência (jihad) à sua vontade. A culminação do projeto fundamentalista é sempre o suicídio ritual pois o dinamismo deste Deus leva à morte: a sinuosa estratégia de infiltrar ódio e desprezo ao corpo e à vida é um convite a desencarnar-se.
Por outro lado, a figuração deste pai silencioso da terceira margem do rio serve para se contrapor às mais arcaicas e totalitárias imagos paternas que oprimem com sua sombra esmagadora. Puro silêncio, nosso pai. Para se contrapor a um Deus triunfante e mortífero é preciso ir ao encontro da terceira margem do rio, um horizonte capaz de desalojar a certeza passional e sanguinária e desmanchar a reivindicação de ser tudo, onipresente. Melanie Klein diria que ao atravessar a posição depressiva dá-se um remanejamento de todos os ídolos: mãe e pai todo-poderosos e a criança magnífica e despótica. Há perda de brilho e grandiosidade e ganho de um sentimento de consideração para com o outro, estrangeiro para mim. Isto me faz pensar que falta aos fundamentalistas deixar morrer o seu deus poderoso, sanguinário e narcísico e descobrir como adentrar a terceira margem do rio ao encontro do silêncio do Pai.
No seio do pai, é preciso discernir o filho. O Deus do século vinte e um é uma criança gritando de fome e sede, frágil, desamparada; precisa de água da palavra. Entregou aos homens adultos a tarefa de pacificar o mundo. Sem apelação. “Hora da palavra, Quando não se diz nada, Fora da palavra, Quando mais dentro aflora. Asa da palavra, asa parada agora. Casa da palavra. Onde o silêncio mora. Puro silêncio, nosso pai.”4
1. A versão islâmica do fundamentalismo é, infelizmente, apenas uma das possíveis aparições desta forma de pensar; há também as versões cristãs e judaicas. Por outro lado, adesão cega a princípios sagrados, pretensão à verdade última e a ordem de odiar e destruir os “infiéis” pode derivar, também, de uma adesão fanática a qualquer forma de ideologia.
2. Entre os muitos filósofos e pensadores que precisam ser revisitados neste esforço de pensar a violência do homem civilizado, creio que Lévinas é um dos nomes mais importantes para explicitar as fontes de nossa intolerância para com o estrangeiro e com o que é diferente de nós mesmos.
3. Entre eles, destaco os textos de Grunberger em Le narcisisme: essais de psychanalyse.
4. Palavras da canção de Caetano Veloso, A terceira margem do rio.
REFERÊNCIAS
Grunberger, B. Le narcisisme: essais de psychanalyse. Paris: Payot, 1993.
Artigo recebido em outubro/2001 Versão aprovada em novembro/2001
Guimarães Rosa Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e
menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a
informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste
do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava
no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia,
nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a
tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada,
escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou
trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não
vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa
casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por
aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da
outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem
falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa
mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o
beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai
suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos.
Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega
que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua
canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me
mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai
entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de
se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela
não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente.
Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram,
tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai
a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também
ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com
alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e
longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas —
passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que
nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma
como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados
nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele,
ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto,
ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida
furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou
de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se
chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas.
Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no
ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para
cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo
de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora.
Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de
não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa
mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir
o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de
margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De
outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de
nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar
ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do
jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai
se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por
entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca
se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria,
só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que
era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com
sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo,
só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem
fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e
croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir
seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não
armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo.
O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as
raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o
bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa,
resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da
correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e
paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com
pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso
pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era
só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros
sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia
uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de
muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a
canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais
parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas
grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme
quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que
às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: —
"Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato;
mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria
saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe,
no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou
que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha
irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a
criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou,
esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para
uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo
também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de
resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai
carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu
feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que
constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele
aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse
recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no
começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram
o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a
canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E
apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai,
sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o
começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques,
ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de
padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que
a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas
abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o
coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de
dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando
idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca
mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou,
então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito
no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado
à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado
e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o
seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo,
quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E,
assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu
tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar
de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por
pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado.
Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um
perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois
desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e
temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da
morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não
pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio
de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.
Psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, professora da Faculdade de Psicologia e do Programa de Pós-Graduaçãoem Psicologia Clínica da PUC-SP.
Autora do livro: “Melanie Klein: Estilo e Pensamento”, ed. Escuta, e de vários artigos publicados em revistas de Psicanálise, sobre o pensamento M. Klein e de D.W. Winnicott.
Ela encanta.
Li e ouvi vários depoimentos de alunos e amigos.
Um deles, é de uma de nossas Lagartas:
" Ela impressiona: tanto pelo conhecimento como pela forma como conduz o grupo. Nem acredito que ela vai estar entre nós na próxima quarta!" Carla Belintani
"Nossa! Até eu fiquei com vontade de estar presente na Confraria nesta quarta!" M.C.Prandini
"Será possível agradecer à alguém por ser a pessoa que é?
Se sim, desejo agradecer à Elisa Maria Ulhôa Cintra, por ser encantadora.
Quero, também, revelar um segredo: ela é paixão unânime entre seus alunos e orientandos.
A voz suave, a sabedoria, a fluidez com que se comunica e a geratividade - disposição a ensinar o que sabe e suscitar novas reflexões nos interlocutores - fazem dela uma professora inesquecível."
Kátia Bizzarro - PUC - 2007
Vamos discutir o conto A Terceira Margem do Riode Guimarães Rosa, sugerido por Elisa.
Este conto tem um marco importante na Confraria.
Quando formamos a ciranda, eu tinha dois vestibulandos em casa que precisavam de orientação literária. Contratei uma professora que dava aula de redação e literatura. Junto com ela, veio a idéia da nossa querida MJ com suas aulas de espanhol baseada em discussões de contos.
Eu, a Thais e a MJ inauguramos nossa primeira noite de Sul com A Terceira Margem do Rio.
Quem nos trouxe foi a professora Thaís Rosa.
Hoje, através da busca da Carla, da energia das noites, da roda que gira, da ciranda que circula num interminável fio de encontros temos o conto de volta pela encantadora presença da Elisa.
Noite de caminhos que se bifurcam e se encontram nas margens do rio.
A Poltrona da Tania e do José sob o efeito da Lygia
Lagartixas:
Um pedacinho da noite de ontem sob os óculos do jornalista e escritor José Castello e da nossa querida Tania que inquietou os ares da madrugada que entravam pela fresta da janela do Sul...
"Um conto esplêndido como "A testemunha" sintetiza a estratégia sutil de Lygia. Para ela, o objeto da literatura não é o real, mas o indizível, isto é, aquela parte do real que nos escapa. Tudo aquilo que não pode ser dito, nem com o discurso rigoroso da ciência, nem com os argumentos sedutores da razão. É esse indizível que, visto com sensibilidade, se aproxima do extraordinário, que sua literatura tenta dizer.
Em "A testemunha", um homem se sente ameaçado por um amigo, a quem toma como única testemunha de um acesso de loucura que ele teria experimentado na noite anterior. O acesso de fato aconteceu? Não aconteceu? Isso é o que menos importa. O que interessa a Lygia não é a resposta, mas a dúvida. É o sentimento inquietante do "pode ser", mas também do "pode não ser", a vacilação interminável diante do real. Isso é o humano e é disso que a literatura de Lygia trata. De um veredicto judicial, ou de um relato médico, ou de um estudo científico, esperamos respostas. Da literatura, não: é a arte de suportar o que não se pode responder."
(José Castello - Jornal de Poesia (Revista Valor - 06/2005))"
Valor: Seu livro mais recente reúne contos esquecidos. Por que esse esquecimento?
Lygia: Quando fiz minha primeira seleção de contos ("Meus Contos Preferidos", Rocco, 2004), simplesmente esqueci deles. Sou uma ingrata, sou uma droga de escritora, uma patife - é o que eu me dizia depois. Os leitores reclamavam e eu me perguntava por que não os incluí. Com "Meus Contos Esquecidos" (Rocco, 2005), enfim os trago de volta. Eu os tinha afastado, mas um dia lá longe, como no amor, muitos anos depois da separação, você se pergunta: Meu Deus, o que é que eu fiz? Você se pergunta por que afastou o outro, por que o esqueceu. Com os contos é a mesma coisa. A sorte é que, na literatura, ao contrário do que ocorre no amor, o esquecido está sempre lá, esperando, e você pode recuperá-lo.
Valor: Isso mostra a dificuldade dos escritores para avaliar o que fazem?
Lygia: Certamente, os escritores têm uma grande dificuldade para decidir a respeito do valor, ou da falta de valor, do que escrevem. E por isso eu preciso tanto do leitor. Ele não entra, é claro, no processo criativo, mas depois se torna um cúmplice, depois ele me ajuda a desembrulhar o que estava embrulhado. O leitor é cúmplice, não de um crime, como no conto policial, mas de uma criação. Ele te ajuda a trazer à luz o que estava perdido. Os escritores precisam do leitor. Na escrita, você tira sua máscara, mas nem toda; é o leitor, no fim, quem te ajuda a puxá-la.
Valor: Um conto estupendo como "A testemunha", a história de um homem que tem certeza de que foi tomado pela loucura, que cometeu alguma barbaridade e depois esqueceu de tudo, ilustra o grande refinamento psicológico de suas narrativas.
Lygia: Pois é, e esse homem, Marino, que é um louco, tem no outro, Rolf, uma testemunha perigosa de sua loucura. Então, resolve acabar com ele, na esperança de, assim, anular o perigo que a loucura representa. Na vida criminal existe muito isso: acabar com o outro, matá-lo, para se livrar daquilo que o outro vê. Mas, quando Marino mata Rolf, ele não mata a loucura, ela persiste. A loucura continua ali, nada mudou.
Valor: De qualquer modo, no fim do relato, o leitor não tem certeza se Marino cometeu ou não o tal ato de loucura de que tenta fugir. Isso lembra o mistério de "Dom Casmurro", de Machado, e a dúvida nunca resolvida a respeito da traição de Capitu. Como escritora, mas também como advogada, você acha que Capitu traiu Bentinho com seu amigo Escobar? Ou ela não traiu e tudo não passa de uma fantasia persecutória que Betinho experimenta?
Lygia: Como você sabe, escrevi, com Paulo Emilio Salles Gomes, um livro ("Capitu", Siciliano, 1993) a respeito de "Dom Casmurro". Na verdade, um roteiro de cinema inspirado no romance. Veja, Bentinho só percebeu que a Capitu era amante do Escobar, ou podia ter sido amante, quando, no enterro de Escobar, ele olha para Capitu e percebe em seu olhar a mesma expressão aflita que encontra na face da viúva. É um detalhe, mas um detalhe que, para ele, desmascara a mulher. É o encanto da dúvida eterna que faz o romance de Machado imortal. Se o Machado lhe desse uma solução, o fascínio acabaria. Agora, por que a certeza de Bentinho é suspeita? Simplesmente, porque ele é o narrador do romance. E o narrador, aquele que rememora, é sempre suspeito. É o lugar que ele ocupa na narrativa, e não algo que fez ou deixou de fazer, que o torna suspeito. Esse é o segredo da permanência de "Dom Casmurro": a inexistência da verdade absoluta.
Valor: Você se esquivou de minha pergunta. Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?
Lygia: Li "Dom Casmurro" três vezes. Quando li pela primeira vez, eu era uma jovem estudante de direito, e fiquei com muita pena de Capitu. Eu pensava: esse Bentinho é um doido, um neurótico, é claro que ela não o traiu, ela é só uma vítima de sua loucura. Quando li o romance pela segunda vez, já era uma mulher adulta. Então, mudei de idéia, e me pareceu que Capitu traiu Bentinho. Capitu era uma manipuladora, desde criança ela manipulava Bentinho, e Bentinho era só um inocente. Era uma dissimulada, e ele um ingênuo. Li "Dom Casmurro" pela terceira vez, enfim, junto com Paulo Emilio, para trabalhar em nosso roteiro. Lembro que o Paulo me pediu que, pelo amor de Deus, suspendesse o juízo. Eu não devia definir nada, ele insistia, pois o livro é inatingível - aquela história dos três is. Eu devia simplesmente entregar o problema para o leitor.
Tiveram o sono dos justos ou ficaram como eu, acordada? Uma inquietude, uma ansiedade, o coração que bate mais forte a cada pensamento ou lembrando momentos da nossa noite! Que deleite Adélia de Aline!!!! Aline, eu gostei daquele lance onde você diz que a Adélia é prosaica e também humilde. Mas confesso que algumas poesias eu não entendo. Não consigo. Aí quando você sei lá, explica a poesia ou lê, aí sim a coisa flui. Ou também estou que nem a Cláudia, me tornando dócil.....rsrsrs Achei nossa ciranda fantástica! Nem a sineta ajuda mais... acho que vamos ter que por um juiz para marcar o tempo de fala de cada uma, lógico com direito a réplica e tréplica! Rsrsrsr Angela, cadê você amiga? Perdeste de novo um grande encontro, uma ciranda bonita e acompanhando de perto os últimos momentos da novia! Cláudia, que coisa gostosa te ver! A cada quarta uma novidade ou surpresa de casamento, menos de um mês....rsrs. Que vergonha! Deixei tio Péricles sem nada, comi 4 vezes o macarrão! Eu sou ou sou uma esganada!!! Perceberam o tamanho do número de quantas vezes eu comi? Bem pequenino....... Meu maior pecado depois da luxúria é a Gula! E com o poder de quem sabe o que esta lendo, nossa querida Tânia estreou a poltrona encantada! Tânia! Que gostoso ouvi-la, quão surpreendente foi o conto lido, A Testemunha da Lygia! Foi engraçado, a Mary Joey, a Cláu e eu já estávamos prevendo o final e a gente se olhava e ria... foi demais. Valeu! Agora quem era o lobsomen? O Rolf? Eu Pensei em orgias...e o Rex deve ter morrido e não fugido. D. você tem esses problemas de cloro? Rsrsrs Você estava ótima e obrigada pela história da Rússia. Well, semana que vem, não estarei ao vivo, eu sei. Não se desesperem! Serão apenas duas quartas....é , é muito triste, sei que vocês vão ficar desoladas, mas foquem na novia e tudo vai dar certo! A Carla convidou a Professora Doutora Elisa Maria de Ulhôa Cintra da PUC para discutir sobre o conto A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa, inclusive já forneceu todo o material para lermos e estudarmos. Em função disso não teremos poltrona encantada semana que vem.
Encerrando, não podemos de deixar de registrar que o nosso ouvinte mais discreto e silencioso agora é um universitário! Um VIVA para BOAZ!!!! Parabéns Boaz!!! Boa quinta-feira para todas! Beijocas com amor Sil Azul
Oficina de Escrita Criativa monta programa na Biblioteca Mário de Andrade
A convite da Biblioteca Mário de Andrade, a Oficina de Escrita Criativa
fará cinco encontros mensais e gratuitos de Leitura Atenta e Escrita
Criativa, com início em 29 de agosto, das 16 às 18h. O
programa utiliza a metodologia do close reading (adotada nos cursos de
creative writing das grandes universidades americanas), que consiste em
ler em grupo trechos da literatura para descobrir a técnica de escrita
de cada escritor. Após a leitura e a discussão da obra, é feito um
exercício de criação de texto.
Os títulos escolhidos foram pinçados da bibliografia indicada para o
vestibular da Fuvest 2012/13, abrangendo romances brasileiros. O
objetivo é habilitar os participantes para a leitura crítica, a visão
analítica da literatura e o desenvolvimento do processo criativo. ,
auxiliando-os inclusive na interpretação de textos e na criação de
redações.
Veja a programação completa:
29/8 - Obra: Capitães da areia, de Jorge Amado. Tema de trabalho: a
construção da personagem. Mediação: Julia Alquéres e Rosangela Petta.
26/9 - Obra: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Tema
de trabalho: a narração e a descrição. Mediação: Rosangela Petta.
24/10 - Obra: A cidade e as serras, de Eça de Queirós. Tema de trabalho: diálogos. Mediação: Julia Alquéres,
28/11 - Obra: O cortiço, de Aluísio de Azevedo. Tema de trabalho: o valor dos detalhes. Mediação: Julia Alquéres.
12/12 - Obra: Vidas secas, de Graciliano Ramos. Tema de trabalho: linguagem. Mediação: Rosangela Petta. 09.08.2012, 15h50 Para mais informações, acesse o site da Oficina ou entre em contato através dos telefones (11) 3255-2003 ou (11) 3257-6268.
Edifício Itália – Av. Ipiranga, 344, 27º andar, conj. 272-B
São Paulo/SP, CEP 01046-010 – Tel. (11) 3255-2003
Metrô República – www.oficinadeescritacriativa.com.br
Adélia é lírica, bíblica,
existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas
de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis." Drummond
Tixas queridas, bom dia de sol!
A escolhida para a nossa próxima ciranda é a querida poetisa Adélia Prado, contemporânea nossa. Quem sabe um dia a gente não se anima para dar um pulinho até Divinópolis e conhecer essa senhora tão inspiradora, cuja obra foi admirada por Drummond?
Não sei se vocês já ouviram falar de Adélia ou leram algo dela. A peça de teatro Dona doida foi inspirada em seus textos. Pincelei apenas quatro poemas, mas podemos ler mais durante o encontro, escolher alguns de forma aleatória, o que seria também bastante divertido.
PS - um desses poemas dedico especialmente à Claudia (ela saberá qual é). Outro dedico a todas nós, lagartixas transformadoras-regeneradoras.
Beijos!
Aline
Óculos, Dimensões, Caleidoscópios, Olhar... Uma Lagarta em 3D
COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
"O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo..."
CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir. Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
"Borboletas provocando risos, coceira, beijos..." O amor de vez em quando é uma borboleta.
GUIA
A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem – sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?
"Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher."
ENSINAMENTO
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
O Posicionamento do Feminino...
"O PAPEL DA MULHER?: Eu
acho que a glória do feminino, continuo achando, é uma discussão complicada,
porque mexe nos afetos, não é? Toda vez que você cuida disso, você não dá conta
de ficar só no acadêmico ou na filosofia. Você mexe nos afetos, nas minorias
espoliadas, aí vem tudo junto e ninguém pensa mais, começa: “Ah, um absurdo”.
Mas eu acho exatamente isso. O feminino... assim como o ato criador é masculino,
para mim, eu sinto as coisas assim, o papel do feminino é o papel do segundo
lugar, é o do segundo, é o do serviço, do anonimato mais perfeito. É isso que
para mim é o feminino. É a permissão para que o homem aconteça. É que, no caso,
num sentido muito profundo mesmo. Sem isso, se nós, mulheres, aqui no caso, que
somos até aparentemente, externamente mulheres, se esse feminino não se
realizar em nós, da ordem espiritual e psicológica, o homem que está do meu
lado não acontece. Porque há uma – como é que se fala? –, uma diluição dos
papéis. Eu acredito que há um papel feminino, sim, e que é o papel do serviço.
Agora, é muito fácil confundir o papel do serviço com escrava, doméstica etc,
como confundir aquilo que eu disse, que o ato criador é masculino, [achando
que] é macho. É a mesma confusão que se faz."
Julia, que vc se sinta sempre assim. Parabéns, minha querida! margaret
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra,
sombras de um artista,
palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final
Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso espectador
vira colibri ...
Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação
Membros de um elenco,
malas de um destino,
partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão
Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si...
Não sei se é vida real,
um invisível cordão,
após o salto mortal ...
O Circo Místico
(Edu Lobo - Chico Buarque)
O Degrau, a Montanha, o Labirinto e a Saída...
Para a Júlia, que tem asas invisíveis e nos faz voar...
Nossa Dançarina.
Vocês perderam um jantar incrível, prá lá de saboroso!
Aposto como vocês nunca comeram faisão? Pois é perderam!
Cadê vocês Angela? Maria José?
Querem matar a gente de saudades?
A cirandeira Maria Inês nos preparou um belo material da Cora Coralina fantástico! Aliás, parabéns Inês, você esta ótima no papel cirandeira.
Os dois contos são lindos apesar de eu e a maioria ter gostado mais da Casa Velha da Ponte.
Entregamos o convite formal do Chá de Literatura da Noiva Lagartixa, pensei que a noiva ia chorar mas não, ela se manteve firme....rsrsrs
Fomos a poltrona, assistimos um clipe de Minotauro (mega INTERESSANTE)...mui bom.
A Adri foi para a poltrona lendo Walt Withman, delicioso. Gosto de quero mais. Um conto de 1855, super atualizado.
Preciso escrever que estou muito feliz, acho que estamos cada vez mais ligadas, unidas na mesma toada! Gratificante.
Carlinha que estava dodói, nos informou que para o dia 22/08 teremos, uma professora da PUC, para falar de Guimarães Rosa.
Para a próxima semana dia 15/08 teremos um conto sugerido por Aline, a cirandeira.
Tânia vai estrear a poltrona, tan tan tan....
D. você ia me falar algo da Russia?! A gente pira tanto....
Se faz hora, acho que preciso ir embora dormir.
Beijocas
Sil Azul
Caio, vc e a Ju falam tão bem do conflito do individual e do coletivo.
Vc mencionou o barco, a viagem e isso me remeteu a uma imagem usada no Taichi.
É um ideograma,
a tradução é "folgado",
e a representação é "como um coelhinho no barquinho"
A ideia é que estamos mesmo num barco.
Mas é um barco conduzido pela corrente do rio.
Um movimento externo que tem a sua própria lógica.
Os taoístas chamam de Tao, os religiosos chamam de Deus, os cientistas chamam de Natureza, os místicos de Cosmos...
E por que o coelho?
O coelho é uma sugestão de atitude perante esta realidade inexorável:
leve, alegre, solto, vivo. Que acompanha.
É simplista, talvez, passivo, mas nem tanto. O Taichi é uma arte marcial.
Haverá muitos barcos nesta correnteza e vencerá aquele que estiver em melhor sintonia com o fluxo externo.
Fazer força contra? Nunca.
Mas aproveitar a corrente para encontrar a sua própria direção.
É um contraponto que pode ajudar a filtrar o desejo crônico que temos de controlar o incontrolável.
Caio, filho de coelha.....rsrsrssr
margaret
PS - Foi meu professor que escreveu o ideograma para eu poder enviar.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Queridas Lagartixas,Como combinamos no nosso último encontro, vou ler Walt Whitman, indo no encontro de Allen Gingsberg que a Sílvia leu na semana passada.Vou ler uma poesia do livro " Folhas de Relva"
Seguem algumas informações : Poeta, ensaísta e jornalista, nasceu em Huntigton em 1819. No início de Julho de 1855 publicou a primeira edição de "Leaves of Grass". Os versos deste livro eram livres, longos, imitando os ritmos da fala. A primeira edição da obra mais importante da sua carreira, não mencionava o nome do autor, e continha apenas 12 poemas e um prefácio.
"Escrito em meio `a crescente tensão política ( 1861 início da Guerra Civil Americana ), social e racial, seu otimismo democrático e libertário almejava fazer da poesia o grande instrumento unificador de sua nação, além do link " kósmico" entre as pessoas consigo mesmas e o Universo. Essa sua visão sofreria um baque com sua experiência trágica e sangrenta da Guerra Civil. Mas a mensagem básica do " poeta do kosmos", em 1855 era a de que a liberdade individual, liberdade sexual e de linguagem, liberdade política e poética tinham de andar lado a lado." Posfácio de Rodrigo Garcia Lopes, do livro Folhas de Relva, edição bilingue, Iluminuras. Withman, que numa redação do Brooklyn, Entre o cheiro de tinta e de cigarro, Toma e não diz a ninguém a infinita Decisão de ser todos os homens E de escrever um livro que seja de todos Jorge Luis Borges