sexta-feira, 27 de julho de 2012

ALINE LIMA

Nós te batizamos LAGARTIXA...

 
Aline Lima é formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pós-graduada em literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP).

Trabalhando sempre com a editoria de economia e finanças, passou pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 1999, nos cadernos Fundos e Cia e Suas Contas (Estadão) e foi repórter de política do Jornal da Tarde (SP).

No início da década de 2000, foi repórter de economia e finanças na revista Forbes Brasil, na revista Foco Economia e Negócios e na revista Istoé Dinheiro.

Em 2007, foi editora na Investidor Institucional. No ano seguinte, Aline fez matérias freelancers para publicações como a revista Você S/A, Exame e jornal Valor Econômico.

A jornalista participou da primeira equipe do jornal Brasil Econômico, em setembro de 2009. Sete meses depois, transferiu-se para o jornal Valor Econômico.


Hoje, faz parte da Confraria das Lagartixas, aquece nossas noites de quarta com seu sorriso e inteligência no olhar. Bem vinda! 




Rubem Braga

do livro 200 crônicas escolhidas

Por Aline Lima

 

O Pavão
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Novembro, 1958


O homem rouco
Deus sabe o que andei falando por aí; coisa boa não há de ter sido, pois Ele me tirou a voz.
Ela sempre foi embrulhada e confusa; a mim próprio muitas vezes parecia monótona e enjoada, que dirá aos outros. Mas era, afinal de contas, a voz de uma pessoa e bem ou mal eu podia dizer ao mendigo "não tenho trocado", ao homem parado na esquina "o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo", e ao garçom "por favor, mais um pedaço de gelo". Dizia certamente outras coisas, e numa delas me perdi. Fiquei dias afônico, e hoje me comunico e lamento com uma voz de túnel, roufenha, intermitente e infame.
Ora, naturalmente que me trato. Deram-me várias pastilhas e um especialista me receitou uma injeção e uma inalação que cheguei a fazer uma vez e me aborreceu pelo seu desagradável jeito de vício secreto ou de rito religioso oriental. Uma leitora me receitou pelo telefone chá de pitangueira, laranja-da-terra e eucalipto, tudo isso agravado por um dente de alho bem moído.
Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração.
Alguém me disse que se trata de rouquidão nervosa, o que me deixa desconfiado de mim mesmo.
Terei muitos complexos? Precisamente quantos? Feios, graves? Por que me atacaram a garganta, e não, por exemplo, o joelho? Ou quem sabe que havia alguma coisa que eu queria dizer e não podia, não devia, não ousava, estrangulado de timidez, e então engoli a voz?
Quando era criança, agora me lembro, passei um ano gago porque fui com outros moleques gritar "Capitão Banana" diante da tenda de um velho que vendia frutas e ele estava escondido no escuro e me varejou um balde d’água em cima. Naturalmente devo contar essa história a um psicanalista. Mas então ele começará a me escaranfunchar a pobre alma, e isso não vale a pena. Respeitemos a morna paz desse brejo noturno onde fermentam coisas estranhas e se movem monstros informes e insensatos.
Afinal posso agüentar isso, sou um rapaz direito, bem-comportado, talvez até bom partido para uma senhorita da classe média que não faça questão da beleza física mas sim da moral, modéstia à parte.
O remédio é falar menos e escrever mais, antes que os complexos me paralisem os dedos, pobres dedos, triste mão que... mas, francamente, página de jornal não é lugar para a gente falar essas coisas.
Eu vos direi, senhora, apenas, que a voz é feia e roufenha, mas o sentimento é límpido, é cristalino, puro – e vosso.
Setembro, 1948


Visão
No centro do dia cinzento, no meio da banal viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de insistir e espertar, e ficamos quietos, neutros, presos ao mais medíocre equilíbrio - foi então que aconteceu. Eu vinha sem raiva, nem desejo - no fundo do coração as feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica - eu vinha como um homem que vem e vai, e já teve noites de tormenta e madrugadas de seda, e dias vividos com todos os nervos e com toda a alma, e charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência dos pobres.
Eu vinha como um homem que faz parte da sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de longe, dobrando uma esquina - eu vinha como um elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana - eu vinha, portanto, extremamente sem importância, mas tendo em mim a força da conformação, da resistência e da inércia que faz com que um minuto depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua máquina, e a cidade apareça estranhamente normal - eu vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de regular saúde, e está com suas letras no banco regularmente reformadas e seus negócios sentiment ais aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para enfrentar eventualidades não muito excêntricas - e que cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda não começou a levar em conta a faina da própria morte - assim eu vinha, como quem ama as mulheres de seu país, as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar - quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer consequência, ou implicasse novo programa de atividades; nem uma revelação do Alto nem uma demonstração súbita e cruel da miséria de nossa condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro, uma figura de mulher que nesse instante me fitou e sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e boca fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios como se fosse dizer alguma coisa - e se perdeu, a um arranco do carro, na confusão do tráfego da rua estreita e rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o mar cantando ao sol.
Novembro, 1953


                                                O conde e o passarinho

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um Conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o Conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração (sem trocadilho).

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens - o Conde e o passarinho - foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.

Devo confessar preliminarmente que, entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O Conde não sabe gorjear nem voar. O Conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o Conde. O Conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o Conde é um industrial, e o Conde é Conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é Conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.

Entretanto, eu não quisera ser Conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser Conde. Não amo os Condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder.

Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?

Mas voltemos ao Conde e ao passarinho. Ora, o Conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O Conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de Conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do Conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.

O Conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito!

Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do Conde, varando as fábricas do Conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o Conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai.

Fevereiro, 1935

 


9 comentários:

  1. Um dos contos do Rubem Braga me arrebatou: Visão.
    Amei de paixão.
    Aquele momento onde sentimos os espaços, ouvimos o som, captamos olhares e gestos.
    São momentos incríveis, inverbalizáveis, onde o fora é mais intenso que o dentro. Mas ele conseguiu descrever sem reduzir.
    Obrigada, Aline!
    Margaret

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  2. AMEI o conto do Pavão.
    Resume tanta coisa para mim, de um jeito que felizmente não precisa ser explicado!

    Segue minhas considerações, obrigado pelos presentes.

    Caio

    O Pavão: simplicidade da pureza do sentimento compartilhado. Alteridade. As duas capacidades notoriamente humanas aliadas: a fascinação estética e a compreensão de sua estrutura de modo a constituir uma realidade, uma existência, um sentimento. Síntese assustadoramente perfeita, ao meu ver, do homem contemporâneo.

    O Homem Rouco: Ceticismo de Pirro. Aphoria e ataraxia. Substituição da moral ao invés da lógica. Isenção da noção de modéstia, que é um sentimento coletivo e fundamentado pelo julgamento alheio. Formulação de uma existência mais individual e fundamentada em si própria. Os sentimentos, esses jamais serão neutros: são meus e também são vossos, e não são meus e nem são vossos. A questão do conflito com essa aparente relatividade se justifica pela imposição de cada lei, costume, hábito, cultura: “mas, francamente, página de jornal não é lugar para a gente falar dessas coisas.”

    A Visão: me remeteu demais ao conto de Clarice Lispector, da cadela e da ruiva (acho que o nome era “A Passante”) – “força da conformação, da resistência e da inércia“ – anestesia da nossa condição de passante na vida, e como muitas vezes ficamos nesse limbo: “Eu vinha sem raiva nem desejo” (...) “um elemento altamente banal” (...) “e que cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda não começou a levar em conta a faina da própria morte.”

    O Conde e o Passarinho: E pra não dizer que não falei das flores (ou dos pássaros! rs), cito Drummond, que me lembrou bastante o conto. Só me assusta pensar na época em que foi escrito 10 anos depois que o de Rubem Braga. Achei bem político, entristecido, esperançoso, pessoal e incomodado. “A flor e a Náusea” ou o pássaro ou o urubu.
    http://poesiaeluta.blogspot.com/2007/04/flor-e-nusea-calos-drummond-de-andrade.html

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  3. Correção, fui no embalo e não revi os meus comentários. Na parte do "O Homem Rouco", queria ter me alongado um pouco mais para explicar a relação que achei estabelecer com o ceticismo, e também errei o nome dos conceitos (Em vez de Aphoria e Ataraxia, quis dizer APHASIA e ATARAXIA). http://www.filoinfo.bem-vindo.net/filosofia/modules/lexico/entry.php?entryID=2063
    Bj,
    Caio

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  4. Queridas lagartixas,

    Achei a noite de ontem muito especial. Nos focamos bem nos autores (gabo e rubem) e conseguimos explorar pontos fundamentais para o entendimento e discussão.
    Ainda não entendi a diferença entre crônica e conto, mas as dicas de ontem valeram bastante! Acho que só vou entender lendo mais crônicas.

    Um beijo de Lagarto,
    Carla

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  5. Caras,
    Foi uma noite muito especial.
    Os encantos do sabor se espalharam pelos aportes da moça que cuida bem do Braga. E nós desfrutamos de mais uma dose de boa literatura, regada com muita sensibilidade.
    Viva as lagartixas.
    Bj
    Joana

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  6. Aproveitando, a noite foi realmente muito especial, e como todas as outras muito enriquecedora. Imagino com água na boca como será o prazer de uma grande dose literária.

    Bjos
    Tania

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  7. Boa noite minhas queridas, todas bem?

    Ontem tivemos uma noite e tanto, não foi não?
    A Joana fez um fechamento do conto “Um rastro de sangue na neve”. E ficamos de falar mais sobre GGM, no retiro literário agora chá litetrário. rsrsr
    Dez bacantes reunidas a ouvir a bacante Aline a falar de Rubem Braga. Poder aprofundar nas crônicas como fizemos é muito gostoso e lembrar de fatos da nossa história, (Adri) Intentona Comunista, também conhecida como Revolta Vermelha de 35 e Levante Comunista, foi uma tentativa de golpe contra o governo de Getulio Vargas realizada em novembro 1935 pelo PCB em nome da Aliança Nacional Libertadora, através da crônica O Conde e o Passarinho (1935), foi fantástico!
    Eu gostei da Visão, mas o preferido foi O Pavão.
    A Tânia fez um convite a confraria para fazermos um retiro em Ibiuna e agora aguardamos quem poderá ir.

    Decidido para a próxima semana:

    Denise vai para a poltrona e leremos Ana Cristina César que a Joana vai passar para nós.
    Ah, lembrete: Não pode faltar quem vai ler o conto e quem sugere.

    Maria José, Angela, Margaret e Julia saudades!
    Vamos pensar no chá literário da Cláudia!

    Beijocas com carinho
    Sil Azul

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  8. Meninas queridas,

    Realmente a ultima quarta foi especial.
    Joana, muito obrigada por dividir conosco de forma tao agradavel seu conhecimento.
    É muito interessante aprender além de interpretar!!!
    Aline, adorei. Nunca tinha lido Rubem Braga obrigada por nos trazer mais um autor, sua história e seu talentoso trabalho.
    Eu adoro crônicas, agora que entendi como chama este gênero literário, rsrsr...
    Claudia, a relação que fez entre o Handel (el Castrato) e o Pavão de Rubem Braga, foi genial. O Pavão ficou ainda mais radiante, quanta luz!!
    Tânia, que convite generoso...

    Queridas, bom findi,
    Bj
    Thais

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  9. queria agradecer mais uma vez a você claudia, pelo jeito "quentinho" que você nos recebe, cheio de cuidados e mimos. também queria te dizer que estou contigo no que se refere ao comprometimento. a literatura tem que ser o prato principal.
    queria igualmente agradecer a gentileza da joana por dividir conosco o seu conhecimento sobre o gabo, saí com vontade de estudar..... saí com a grata sensação de que um conto não é só um conto, mas um universo de mistérios. obrigada joana!
    agradeço ainda a minha amiga aline lima que nos encantou a todas com seu rubem braga. e com o seu jeitinho meigo, de sotaque capixaba. sempre soube que vocês se apaixonariam pela aline, ela é demais!
    finalmente queria agradecer a todas as confrades por tornarem minha vida mais rica.
    beijos no coração de todas vocês e um final de semana iluminado e cheio de poesia. d.

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