sábado, 28 de julho de 2012

CRÔNICA DE UM DESEJO CRÔNICO


Londres -  julho/2012 - Foto: Caio Belintani



Crônica de Um Desejo Crônico
Caio Belintani
  
Queria comprar um navio. Quem sabe velejar ao redor do mundo não seja uma boa idéia? Só eu, com meus livros pendentes, e o mar inteiro à disposição para me servir frutos do mar frescos e apetitosos, todos grelhados na churrasqueira do próprio barco.
Que magnífico seria, um tempo só para mim, sem ter que me preocupar sequer com o lugar que estou, seria só eu comigo mesmo, sem pátria nem cultura. Seria um momento para mim, e para mais ninguém.
Ora, mas e a solidão? Dizem que é pior para quem fica sem a minha presença, afinal, eu estarei vivenciando uma série de novas experiências, nem terei tempo de sentir falta de alguma coisa. Certo, quem sabe do meu banheiro e do meu conforto. E de dormir sem balançar de acordo com as ondas, isso provavelmente também entraria na lista de algo a sentir falta. Claro, não poderia deixar de dizer a troca com o outro, mas pelo menos terei o benefício de trocar comigo mesmo. Há quanto tempo não me permito algo assim? Será que alguma vez já cheguei a viver isso?
Não sei, sinto que seria muito difícil existir sem o olhar do outro. E me vêm à cabeça a piada da ilha deserta e da modelo número um e da melhor marca: que graça teria ter alguma experiência única com ela e nunca poder contar para ninguém? Mas não seria isso o ápice da dependência? E dependência de quê, simplesmente de outro alguém? Acho que seria o cúmulo da falta de auto-suficiência.
Ora, mas quem se basta sozinho? Os exemplos que me vêm à cabeça sempre resultam em algo trágico ou enlouquecedor. Somos seres coletivos, estamos inseridos em uma sociedade, a interação é pré-requisito de nossa mente cultural, que pressupõe uma correspondência com algum fator externo à nossa própria existência. Nossa existência é previamente compreendida como uma vivência mediada pela sociedade e pela cultura, sejam elas quais forem.
Mas não seria isso uma grande contradição? Fico pensando, e não consigo entender de onde vem então essa minha vontade de ter um barco e viver só comigo mesmo e de acordo com as minhas próprias expectativas. Ou quem sabe pelo menos conhecê-las. Mesmo, de onde vêm essa vontade tão contraditória? Não seria um contra-senso acreditar em algum êxito se parto de um pressuposto tão distante do cotidiano real?
Cotidiano real. O que é isso senão a articulação de uma história forjada e adaptada a cada circunstância? Cotidiano real. E agora penso em como o cotidiano é relatado nos jornais. Cada país com sua particularidade, manipulando o acontecimento de acordo com a mentalidade padrão da população. Um pouco mais sensacionalista, ou quem sabe mais filosófico, o que sobra por trás dessas articulações? Quais são os fatos que definem o “cotidiano real” por trás das máscaras da cultura?
Pois bem, vamos a um exemplo prático para tentarmos extrair alguma conclusão:

“Atirador mata pessoas que desrespeitaram sua visibilidade durante a estréia do Homem-Morcego.”

“Fã-compulsivo de Batman, a sociedade hoje presenciou o resultado da indústria do consumo e da ilusão do individualismo. Conseqüência: mortos no filme, mortos na sala, faturamento da produção superior ao que permitiria um livre acesso à educação com mais qualidade.”

“TERRORISMO? Homem suspeito de cultivar relações com organizações mafiosas assassina cidadãos comuns em plena sala de cinema.”

Qual é o cotidiano real, afinal? O que define esse atirador/compulsivo/terrorista? A simples articulação circunstancial?  A forma como a cultura de cada lugar relata o ocorrido interfere na compreensão de sua existência? Não consigo compreender, se eu estivesse no barco e ouvisse que um homem matou pessoas durante a estréia de um filme, pelo simples fato de que elas estavam levantando durante a sessão, eu provavelmente entenderia a irritação do homem. Ora, se estou no cinema, em plena estréia de um filme super produzido e pessoas resolvem atrapalhar esse meu momento mágico, o que eu faria? E se um dos mortos tivesse alguma relação comigo, ou mesmo se eu não suportasse Batman? No mínimo, exigiria justiça.
Justiça? Mas como, se dependeria das leis do país que ocorreu o ato? E que pena seria coerente, a minha própria ou a do local? E quem foi que disse isso? Espere um instante. Se eu estivesse no barco, nem sequer saberia do ocorrido. Está bem, sentiria falta de saber dos acontecimentos cotidianos, seja lá o que isso quer dizer.
Acho que tenho um problema com essa vida social, mas me incomoda a contradição de não me imaginar feliz fora dela. O que é a felicidade senão uma ilusão de compatibilidades com algum referencial estabelecido?
Acho que prefiro ser feliz sabendo que não sei se essa “felicidade” representa a minha própria definição de felicidade do que ter que correr o risco de nunca conseguir defini-la. Mas preciso de uma definição para conseguir experimentá-la? Preciso estabelecer alguma conclusão da vivência individual, ela não se basta em si própria? Caso se baste, me assusta. Não tenho essa autonomia a ponto de estabelecer minha própria cultura e minha própria forma de vivê-la.
Que conclusão patética, digo que sinto vontade de ao menos saber as minhas próprias motivações e a possibilidade de que elas não existam me arremessa ao social e cultural de novo. Pior que isso, me arremessa ao medo do incerto. Que vai e vem, e que falta coragem para enfrentar esse mar. Mar de incertezas ou ancorar na marina? Pelo menos estaria no barco, querendo ou não. Quem vai e vem, o mar ou as articulações?
Acho que vou comprar uma bicicleta. Esse balanço do mar é muito natural. De bicicleta, posso procurar um lugar asfaltado, devidamente delimitado, quem sabe até com um mapa para encarar alguma aventura aparentemente libertadora. Chegou a hora de encarar essa libertação: não existe homem fora da sociedade. Homem fora da sociedade não se chama “homem”, se chama o que você quiser.
Se tiver coragem de olhar para a sua própria resposta, não me diga qual foi. Não me interessa a resposta, quero saber de onde foi que veio a coragem.

Londres, julho de 2012

7 comentários:

  1. Vai...

    Falta só um pouco.

    Tem asfalto, concreto, histórias que se inseriram no ar e outras que suas rodas podem desenhar, mas vai... tem ninho, carinho, lugar quentinho para voltar. mas vai... sai do barco, dói só um pouquinho (o suficiente para entender que além da estrada curva, temos que nos curvar...), mas vai, vai filho, vai... acredite que pode ter cor no papel em branco, pode ser além de lápis de cor, pode ter mais... junto com o mais, algo que ninguém te tira mais...

    Amor,
    Mãe

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  2. Primo,

    reconheço teus questionamentos, pelo simples fato de que eles têm sido protagonistas em meu dia a dia há meses. Você deu voz, ou melhor, deu letra a meus pensamentos e angustias, assim como no primeiro que escreveu, estou para comentá-lo há tempos inclusive, mexeu tanto comigo que minhas palavras se embaralharam e ainda não se encontraram para eu escrever...

    Penso que muito desse sentimento de encurralamento ou de falta de opção (do conversão do um ao todo ou do abandono do todo para ser um)é por uma limitação de olhar nossa, a qual fomos ensinados a ter. Antes tinhamos que ser para o social, agora é a ditadura do eu, individual, autosuficiente. Somos ensinados, como comentei no TCC, a aprender respostas e não a fazer as perguntas e nem a descobrir nossas próprias respostas.

    Estamos acostumados a dar satisfação e explicação, aos outros e a nós, a conceitualizar a vida que está na verdade em movimento. Como transformar uma diversidade de sensações e reflexões em uma palavra ou uma série delas, em um conceito fechado? Como e, principalmente, porque definir o que é felicidade? Ela é diversa, aparece sem aviso.

    Estamos sufocados, hoje em dia não sei mais a quem cabe a responsabilidade por isso. Somos engolidos, manipulados, na maioria das vezes sem perceber. Mas, hoje vejo, que não só a sociedade nos engana. Esse desejo crônico, que nos faz ter motor, que nos faz questionar, que é fundamental, pode também nos aprisionar. Os desejos são viciosos, insistentes, assim como as marcas que ganhamos com nossas vivências. Medos, inseguranças... marcam e é preciso a todo momento lembrar que elas estão ali para não nos manipularem. Cabe a nós saber canalizar nossos desejos de forma que eles possam, ao máximo, serem realizados. Para tanto, é sim, sem dúvida, um jogo nada claro entre o pessoal e o coletivo, entre o próprio e o que é alteridade. Com criatividade vamos dando vasão aos desejos, sob a forma que é possível ser aceita, assim como nos sonhos, que são codificados e simbolizados de modo a passarem pela censura do consciente.

    Passei agora pela pior confusão que já vivi. Sempre ouvi minhas intuições, meus motores, meus desejos. Porém, comecei a confundir medo com intuição, isso também é um aprisionamento, enorme e incansável. Esses vêm para nos proteger de novas frustrações, mas essas defesas, totalmente autênticas e pessoais, também nos limita, nos mascara, nos impede.

    Isso foi a descoberta mais assustadora. Não só tenho que lutar (pois é uma luta, de forças mesmo) para identificar quando o social me engole, como identificar quando eu mesma me engulo, me torno ostra e prejudicial e mim mesma. Assumir que por vezes tenho que duvidar de mim mesma, é assustador... Mas quando saímos de nós e ouvimos o outro, o que está fora, segurando um espelho diante de nós e essa visão de fora faz sentido para nós, é dolorido demais. Mas, conseguir passar por isso e mudar um jeito de ser seu, para um novo jeito de ser, que é também seu, mas que foi iluminado, possível de ver por um outro, é libertador. Isso é a alegria para mim, se eu tiver que definir. Ver que está nas minhas mãos e que, além disso, existem sim outros que nos apoiam.

    Hoje penso que não é tão difícil ser si mesmo, quando se é questionador como você, pois o insuportável é o contrário, não ser. Acho só que é uma falta de fazer, as pessoas não enxergam essa possibilidade, são preguiçosas e acomodadas. Compartilho com você um pequeno textinho que escrevi em uma madrugada inquieta, sobre máscaras, está um pouco estranho, pois escrevi numa tacada só, eu estava indignada.

    Vai no comentário a baixo, esse não permite, pois ultrapassará o tamanho...

    Beijo!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Aí vai minhas letras sobre máscara:

    Desmascarados

    A máscara nos traz a aparência que se mostra necessária, nos camufla, inspira, nos encanta com sua força, sua definição e sua beleza.
    Sob uma máscara nos permitimos ser sem culpa, assumimos um papel. Como nos permitimos ter essa liberdade? Pois caso algo que se expresse exija justificativa, a responsabilidade vai para a máscara, afinal, estamos sob seu efeito. Sob seu efeito estamos sujeitos. Mas a máscara que “liberta” pode aprisionar, limitar, faz expressar de infinitos modos, mas por mais que cada um desses mostre um pouco de nós, pois de comum têm as máscaras a abertura nos olhos, ela esconde as expressões da face. Nos camufla de nós mesmos.
    O jogo de máscaras me parece uma perda de tempo, que desgasta, desacredita, fere e desestimula. Escolhemos uma máscara, quando ela cai diante de nós ou de outros, sofremos e assumimos uma outra. De jovens on the road a conservadores cidadãos, todos estão igualmente vestidos com um sobrepeso, guiados por um estilo de ser que vem proposto de fora, o que nos faz curvar, nos deixa corcundas.
    Um texto com frases indiretas, enfeitadas, mesmo os poemas, me incomodam. Parecem que não querem se mostrar, se embolam num enigma que está tão aberto a todas as possibilidades que no fim não pode ser lido, mas apenas contemplado com a suposição de um sentido.
    Me encanta a prosa, as entrelinhas, a cara limpa e disforme, a clareza de lavar o rosto, a facilidade de ser desmascarado. Se responsabilizar, se assumir, ser. Mas no fundo é a maior das simplicidades e alegrias.

    Beijo!

    Jú.


    Obs: Primo, continue escrevendo!

    Foto lindissima!

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  5. Jú, minha linda, o jogo de máscaras é um jogo perverso. É difícil tirá-las e ver-se sem elas,mas eu te garanto que é possível, doído, mas possível. Para mim é um ato de coragem, nos mostramos e assumimos as consequencias. Às vezes vale a pena, outras não . Algumas vezes é melhor usá-las e seguir em cena.
    Caio,meu menino, não pense que algum dia vc vai ter todas as certezas, ou saber exatamente que caminho seguir. Vou te deixar uma frase de um poeta que eu gosto muito Paul Valery, " Ha momentos infelizes(difíceis), em que a solidão e o silencio se tornam meios de liberdade".

    Mil bjos p os dois.

    MJ

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  6. Querida,

    amei seu recado, concordo em tudo. Por vezes não vale a pena a cara limpa, por vezes as consequências pesam demais e não permitem prosseguir.

    Querendo ou não, assumir a cara limpa é um ato egocêntrico e, por isso, pode ser egoísta.

    Ai, ai... vamos lá, em frente!

    Bj!

    Jú.

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    1. Temos que saber nos recolher.
      Isto também não deixa de ser um ato de coragem.

      Bj meu menino, minha menina e minha querida amiga encantada.

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