(Por
Carla Belintani)
Bem acima do nível da cidade, ao alto de uma elevada coluna, erguia-se a estátua
do Príncipe Feliz. Coberta por uma camada de finas folhas de puro ouro, tinha no lugar de
olhos duas safiras brilhantes e na empunhadura de sua espada, um resplandecente rubi
vermelho. De fato, era muito admirada.
˗ É tão bonita quanto um cata-vento ˗ destacou um dos Conselheiros da Cidade,
procurando dar ao seu discurso um ar de quem conhecia das artes. ˗ Apesar de não ser lá
de toda utilidade ˗ acrescentou prudentemente, a fim de não fazer-se passar por homem
pouco prático, o que sem dúvida ele não era.
˗ Por que você não pode ser como o Príncipe Feliz? ˗ perguntou uma mãe sensata
ao seu pequeno garoto, que chorava por coisas que sua mãe não lhe podia dar
. ˗ Nunca
ocorreu ao Príncipe Feliz chorar por coisa alguma.
˗ Alegro-me de saber que há no mundo alguém que seja realmente feliz ˗
resmungou um homem desiludido ao contemplar a admirável obra.
˗ Parece realmente um anjo ˗ afirmaram as Crianças do Orfanato ao saírem da
catedral com seus aventais brancos e mantos de vivo escarlate
.
˗ Como vocês sabem? ˗ perguntou-lhes o Professor de Matemática. ˗ Vocês nunca
viram um anjo.
˗ Ah, mas em nossos sonhos sim! ˗ responderam as crianças, ao que o Professor
de Matemática reprochou franzindo o cenho e lançando-lhes um olhar severo, pois não
permitia que as crianças sonhassem.
Uma noite, voava pela cidade um pequeno Andorinho. Seus amigos haviam
migrado para o Egito seis semanas antes, mas ele preferira ficar, pois havia se
apaixonado pela mais bela Haste de Junco
. Havia-a visto pela primeira vez na primavera, enquanto voava para capturar uma grande mariposa amarela ao rio. Sentiu-se tão atraído pela singela cintura daquela linda Haste, que parou para conversar com ela.
˗ Posso amar você? ˗ perguntou-lhe o Andorinho, que gostava de ir direto ao
assunto, ao que ela respondeu afirmativamente, com uma reverência. Ele então passou a
voar e voar ao redor de sua amada, tocando as águas do rio e criando ondas de prata.
Assim começou seu namoro com ela, que durou todo o verão
˗ Que relação ridícula! ˗ contestavam seus amigos. ˗ Além de não ter dinheiro, ela
tem parentes demais. ˗ O rio, de fato, estava repleto de juncos.
Sentiu-se só após a partida de seus amigos, com a chegada do outono. Sua
amada já não lhe atraía mais e sentia-se enfadado com a situação.
˗ Ela não é de muita conversa e receio que seja coquete, pois está sempre
flertando com o vento. ˗ Sempre que ventava, a Haste fazia as mais graciosas
reverências.
˗ Reconheço que ela seja caseira ˗ continuou ˗ mas eu adoro viajar e minha mulher
deveria também gostar de conhecer outros lugares
˗ Você fugiria comigo? ˗ desabafou finalmente com ela, mas sua amada recusou,
meneando com a cabeça: era muito arraigada ao lar.
˗ Você não tem se importado comigo ˗ disse-lhe enfurecido. ˗ As pirâmides me
esperam, adeus! ˗ Bateu asas e se foi.
Voou durante todo o dia até que, enfim, chegou à cidade ao anoitecer.
˗ Onde eu poderia passar a noite? ˗ pensou. ˗ Espero que a cidade tenha feito os
preparativos para me receber.
Foi então que ele viu uma estátua sobre uma elevada coluna.
8˗ Já sei, vou passar a noite ali; é um lugar arejado, com bastante ar fresco. ˗
Pousou então entre os pés do Príncipe Feliz.
˗ Tenho um berço de ouro ˗ disse para si enquanto olhava em redor, preparandose para dormir. Mas, no exato momento em que colocava sua cabeçinha sob a asa, uma
grande gota de água caiu sobre ele.
˗ Que estranho! ˗ exclamou. ˗ Não há sequer uma nuvem no céu; as estrelas estão
claras e brilhantes, mas mesmo assim está chovendo. O clima na Europa do Norte é
realmente estranho. A Haste de junco costumava gostar de chuva, mas isto não passava
de um egoísmo seu.
Outra gota então caiu sobre ele.
˗ Que utilidade tem uma estátua se nem evitar a chuva ela pode? ˗ afirmou. ˗
Preciso encontrar um bom abrigo em alguma chaminé. ˗ E assim decidiu voar para outro
lugar.
No entanto, antes mesmo de poder abrir as asas, uma terceira gota lhe acertou.
Ele então olhou para cima e... Ah! Era realmente verdade o que estava vendo?
Os olhos do Príncipe Feliz estavam repletos de lágrimas, que escorriam sobre sua
face dourada. Seu rosto ao luar era tão belo que o Andorinho encheu-se de pena.
˗ Quem é você? ˗ perguntou.
˗ Sou o Príncipe Feliz.
˗ Por que chora então? Você me deixou todo ensopado!
˗ Quando era vivo e tinha um coração humano ˗ respondeu a estátua – não
conhecia as lágrimas, porque vivia no Palácio de Sans-Souci, onde a tristeza não podia
entrar. Durante o dia, brincava com meus amigos no jardim e, à noite, conduzia a dança
no Grande Salão. Ao redor do jardim estendia-se um enorme muro, mas nunca me havia
interessado em saber o que havia além dele. Tudo a meu respeito era absolutamente
belo. Meus cortesões me chamavam de Príncipe Feliz, e feliz de fato eu era, se se pode
chamar o prazer de felicidade. Assim vivi, assim morri. E agora que me puseram aqui
neste local tão alto, posso ver o quão horrível e miserável é minha cidade; e embora meu
coração esteja feito de bronze, nada posso fazer senão chorar.
˗ O que?! Não é ele feito de ouro sólido? ˗ perguntou-se o Andorinho, que era
educado demais para fazer observações pessoais em voz alta.
˗ Em um lugar distante ˗ continuou a estátua em um tom musical ˗ em uma rua
estreita há uma casa humilde. Uma das janelas está aberta, através da qual vejo uma
mulher sentada em uma cadeira. Seu rosto é delgado e cansado. Suas mãos são ásperas
e avermelhadas, completamente feridas pela agulha, por ser ela uma costureira. Está
bordando flores de maracujá em um vestido de cetim para que a mais adorável dama de
honra da Rainha a vista em um baile na corte. Na cama, em um canto do quarto, jaz seu
filho doente. Ele arde em febre e pede a sua mãe laranjas. Ela, porém, nada tem a
oferecer-lhe senão a água do rio e, por isso, ele chora. Andorinho, Andorinho, querido
Andorinho, não poderia levar a ela este rubi que está na empunhadura de minha espada?
Meus pés estão presos neste pedestal, por isso não posso me mover.
˗ Esperam-me no Egito ˗ disse o Andorinho. ˗ Meus amigos estão agora voando
sobre o Nilo e flertando com flores de lótus. Daqui a pouco estarão se preparando para
dormir na tumba do grande Rei, que está lá, dentro de seu caixão pintado. Está
embrulhado com linho amarelo e embalsamado com especiarias. Ao redor de seu
pescoço há uma corrente de jade verde fosco e suas mãos são como folhas murchas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho, não poderia ficar esta noite comigo e
ser meu mensageiro? O garotinho tem sede e sua mãe está tão triste.
˗ Não sei se gosto de garotos ˗ respondeu o Andorinho. ˗ No verão passado,
quando estava à beira do rio, havia dois garotos muito grosseiros, filhos do dono da
moedeira, que não paravam de jogar pedras em mim. Nunca me acertaram, obviamente:
os Andorinhos podemos voar para bem longe e, além disso, sou de uma linhagem
conhecida pela agilidade, mas mesmo assim era um sinal de desrespeito.
Mas o olhar triste do Príncipe Feliz fez o Andorinho arrepender-se:
˗ Faz muito frio aqui, mas ficarei com você esta noite e serei seu mensageiro.
˗ Muito obrigado, querido Andorinho ˗ agradeceu o Príncipe.
Então o Andorinho pegou o grande rubi da espada do Príncipe e saiu voando
sobre os telhados da cidade com a pedra ao bico.
Passou pela torre da catedral, onde anjos de mármore branco estavam esculpidos.
Passou também sobre o palácio e ouviu a música do grande baile. Uma linda garota
surgiu à varanda com seu namorado.
˗ Que lindas estão as estrelas hoje ˗ disse o garoto a sua amada. ˗ E quão
poderoso é o poder do amor!
˗ Espero que minha roupa esteja pronta até o dia do Baile Oficial ˗ respondeu ela. ˗
Pedi que flores de maracujá fossem bordadas em meu vestido, mas as costureiras são
tão preguiçosas.
O Andorinho sobrevoou o rio e viu as lanternas acesas nos mastros dos navios.
Passou sobre o Gueto e viu alguns judeus barganhando e pesando dinheiro sobre
balanças de cobre. Enfim, chegou àquela casinha humilde e olhou seu interior. O
garotinho agitava-se febrilmente sobre a cama, e sua mãe havia caído no sono, devido ao
cansaço. O Andorinho então entrou e colocou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do
dedal da mulher. Logo depois, voou suavemente ao redor da cama, abanando com as
asas a fronte do garoto.
˗ Como me sinto mais refrescado ˗ disse o menino. ˗ Devo estar melhorando. ˗ E
mergulhou em um delicioso sono
O Andorinho então voou de volta para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia

feito.
˗ É engraçado ˗ afirmou-lhe. ˗ Sinto-me aquecido agora, mesmo estando frio.
˗ É porque você acabou de fazer uma boa ação ˗ respondeu-lhe o Príncipe. E o
Andorinho começou a pensar e também caiu no sono. Pensar sempre o deixava
sonolento.
Assim que o dia amanheceu, voou em direção ao rio e tomou um banho.
˗ Que fenômeno singular ˗ exclamou o Professor de Ornitologia, enquanto passava
sobre a ponte. ˗ Um Andorinho no inverno! ˗ E o professor então decidiu escrever um
longo artigo sobre isto no jornal local. Todos na cidade o mencionavam, mas o texto
estava repleto de palavras que ninguém podia entender.
˗ Esta noite vou para o Egito ˗ disse o Andorinho, que estava ansioso por causa da
expectativa. Visitou todos os monumentos públicos e sentou-se por um longo tempo no
topo do campanário da igreja. Sempre que aparecia por lá, os Pardais gorjeavam, dizendo
uns aos outros: ˗ Que ilustre estrangeiro! ˗ e ele sentia-se o todo-todo.
Quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.
˗ Tem algum recado para o Egito? ˗ perguntou. ˗ Vou partir agora mesmo
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você não ficaria
mais uma noite comigo?
˗ Esperam-me no Egito ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Amanhã os meus amigos
voarão para a Segunda Catarata. É ali que o hipopótamo descansa entre as plantas
aquáticas, e o Deus Memnon repousa em um grande trono de granito
. Todas as noites ele contempla as estrelas, e quando a estrela da manhã brilha, solta um grito de alegria e
emudece novamente. Ao meio dia, leões amarelos dirigem-se à margem do rio para beber
água. Seus olhos são como berilos verdes, e o seu uivo é tão forte quanto o bramido da
catarata.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Em um lugar
distante, do outro lado da cidade, vejo um jovem em um sótão. Está debruçado sobre uma
mesa cheia de papéis, e em um copo a seu lado há um ramo de violetas murchas
. Seu cabelo é castanho e ondulado, e seus lábios são vermelhos como uma romã; e seus
olhos, grandes e sonhadores. Está tentando terminar uma peça para o Diretor do Teatro,
mas ele tem tanto frio que é incapaz de continuar a escrever. Não há mais fogo na lareira,
e a fome o fez perder a consciência.
˗ Ficarei aqui com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho, que realmente
tinha um coração bom. ˗ Devo levar ao garoto outro rubi?
˗ Céus! Não me resta mais nenhum rubi! ˗ exclamou o Príncipe. ˗ Meus olhos são
o que tenho neste momento. São feitos de safiras raras, que foram trazidas da Índia mil
anos atrás. Arranque uma delas e leve-a ao garoto. Ele certamente levará a um joalheiro,
e então poderá comprar comida, lenha e terminar a peça.
˗ Querido Príncipe ˗ disse o Andorinho ˗ não posso fazer isso. ˗ E pôs-se a chorar.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
E o Andorinho arrancou um dos olhos do Príncipe e voou em direção ao sótão
onde se encontrava o garoto. Era extremamente fácil adentrar o recinto, pois havia um
buraco no teto, através do qual teve acesso ao quarto. O garotinho tinha a cabeça sobre
as mãos e por isso não pôde ouvir o bater de asas do Andorinho. Assim, quando olhou
para cima, viu uma linda safira sobre as violetas murchas.
˗ Acho que alguém está gostando de mim ˗ exclamou o garoto. ˗ Isto deve ser um
presente de um grande admirador. Agora posso terminar minha peça. ˗ E o garoto ficou
muito feliz.
No dia seguinte, o Andorinho voou para o porto. Pousou no mastro de um grande
navio e viu os marinheiros içando grandes caixas para fora do porão. ˗ Puxando carga! ˗
gritavam eles, a cada caixa que subia
˗ Estou indo para o Egito! ˗ gritou o Andorinho, mas ninguém pareceu importar-se.
Quando a lua voltou a aparecer, ele voou de volta para o Príncipe Feliz.
˗ Voltei para dizer-lhe adeus ˗ disse-lhe.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ respondeu o Príncipe. ˗ Você não
ficaria comigo uma noite mais?
˗ Já é inverno ˗ respondeu o Andorinho ˗ e logo, logo, a neve fria estará aqui. No
Egito, o sol é quente sobre as palmeiras verdes, e os crocodilos descansam sobre a lama,
preguiçosamente. Meus companheiros estão construindo um ninho sobre Templo de
Baalbek, e os pombos brancos assistem seu trabalho, arrulhando uns aos outros. Querido
Príncipe, preciso realmente deixá-lo agora, mas nunca o esquecerei. Na próxima
primavera trarei duas lindas joias para substituir as que você doou. O rubi há de ser
vermelho como uma rosa; e a safira, azul, como o infinito oceano.
˗ Logo ali na praça ˗ disse o Príncipe Feliz ˗ há uma garotinha que vende fósforos,
os quais estragaram depois de ela tê-los deixado cair na valeta. Seu pai a castigará se ela
não trouxer algum dinheiro para casa, e por isso ela chora. Ela não tem tênis ou meia, e
sua cabecinha está desprotegida contra o frio. Arranque o olho que me resta e o dê a ela,
assim seu pai não a castigará.
˗ Ficarei com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho ˗ mas de maneira
alguma arrancarei o olho que lhe resta: você ficará completamente cego.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
Ele então arrancou-lhe o outro olho partiu como uma flecha. Ao avistar a garotinha,
o Andorinho baixou em sua direção e soltou a joia sobre a palma de sua mão.
˗ Que lindo cristal! ˗ exclamou ela, e saiu correndo alegremente para casa.
O Andorinho então voltou para junto do Príncipe e disse-lhe:
˗ Você agora está cego, e por isso vou ficar sempre com você.
˗ De maneira alguma, querido Andorinho ˗ respondeu o pobre Príncipe. ˗ Você
precisa ir para o Egito.
˗ Ficarei com você para sempre ˗ afirmou o Andorinho, adormecendo logo em
seguida aos pés Príncipe.
Durante todo o dia seguinte, ele permaneceu sobre o ombro do Príncipe Feliz,
contando-lhe histórias que havia visto em terras estrangeiras. Contou-lhe sobre as íbis,
aves que formavam longas filas às margens do Nilo para capturar peixinhos dourados;
sobre a Esfinge, que é tão velha quanto o mundo, vive no deserto e conhece tudo; sobre
os comerciantes, que caminham lentamente ao lado de seus camelos e carregam
miçangas de âmbar em suas mãos; sobre o Rei da Montanhas da Lua, que é negro como
o ébano e louva um grande cristal; sobre a grande serpente verde que dorme em uma
palmeira e vinte sacerdotes lhe dão de comer bolinhos de mel; sobre os pigmeus, que
navegam em um grande lago sobre folhas largas e achatadas, e sempre estão em guerra
contra as borboletas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você me conta
histórias surpreendentes; porém, mais surpreendente ainda é o sofrimento dos homens.
Não há Mistério maior que a Miséria. Voe sobre minha cidade, querido Andorinho, e digame o que lá vê.
O Andorinho então sobrevoou a grande cidade e viu os ricos divertindo-se em
suas lindas casas, enquanto mendigos sentavam-se ao pé do portão. Passou por becos
escuros e viu os rostos brancos de crianças famintas olhando desinteressadamente as
ruas obscuras. Sob a arcada de uma ponte dois garotos estavam deitados, abraçando-se
um ao outro de modo a se aquecerem.
˗ Que fome temos! ˗ diziam.
˗ Não podem ficar aqui! ˗ ordenou-lhes o Vigia; e eles então tiveram que
perambular na chuva
Voltou para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia visto.
˗ Estou coberto com puro ouro ˗ segredou-lhe o Príncipe. ˗ Retire-o folha por folha
e dê-o aos pobres: os homens têm o costume de pensar que o ouro pode deixá-los mais
felizes.
Folha por folha o Andorinho ia retirando o ouro, até que o Príncipe ficou
completamente cinza e desinteressante. Folha por folha o Andorinho passou a distribuí-
las aos pobres. As faces das crianças enrubesciam, e de tanta alegria os pequenos riam e
brincavam na rua.
˗ Agora temos pão! ˗ gritavam de alegria.
Mas a neve logo chegaria, e com ela a geada. As ruas pareciam feitas de prata, de
tão claras e cintilantes que eram. Pedaços de gelo pendiam das calhas das casas como
adagas de cristal. Todos passeavam em casacos de pele, e os meninos, com seus gorros
escarlates, patinavam no gelo.
O pobre Andorinho sentia cada vez mais frio, mas isto não o impedia de continuar
com Príncipe: seu amor por ele era muito grande. Sempre que o padeiro se distraía, o
Andorinho ia lá e pegava ao pé de sua porta miolos de pão, e agitava as asas a fim de
manter-se aquecido.
Mas aos poucos ele percebia que a morte se aproximava: sobravam-lhe apenas
forças para voar pela última vez aos ombros do Príncipe.
˗ Adeus, amado Príncipe! ˗ murmurou-lhe. ˗ Você permitiria que eu beijasse sua
mão?
˗ Sinto-me contende de saber que finalmente você vai para o Egito, querido
Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você já ficou tempo demais aqui. Mas beije-me nos lábios,
pois eu amo você.
˗ Não é ao Egito que estou indo ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Vou para junto da
Morte; afinal, ela é a irmã do Sono, não é?
Dito isto, ele beijou os lábios do Príncipe e sucumbiu, logo em seguida, morto aos
seus pés.
Naquele momento, ouviu-se um barulho estranho vindo de dentro da estátua,
como se algo houvesse se quebrado. E foi exatamente o que aconteceu: o coração do
Príncipe partira-se em dois. Sem dúvida havia sido a terrível geada.
Na manhã seguinte, o Prefeito passeava pela praça em companhia de seus
Assessores. Ao passarem pela coluna, olhou para cima, em direção à estátua, e
exclamou assombrado:
˗ Santo Deus! Que miserável aspecto tem o Príncipe!
˗ Miserável mesmo! ˗ responderam os Assessores, que sempre concordavam com
o Prefeito. Eles então subiram para conferir de perto.
˗ O rubi caiu de sua espada; seus olhos se foram; e ele não é mais feito de ouro ˗
afirmou o Prefeito, asseverando logo em seguida:
˗ Sua sorte é um pouco melhor que a de um mendigo!
˗ Pouco melhor que a de um mendigo ˗ repetiram os Assessores.
˗ Há até um pássaro morto a seus pés! ˗ continuou o Prefeito. ˗ Devemos
urgentemente lançar um decreto que proíba os pássaros de morrerem aqui. ˗ E o
Escrevente da cidade tomou nota da sugestão.
Eles então incumbiram-se de derrubar a estátua do Príncipe Feliz.
˗ Não sendo mais belo, deixa de ser útil ˗ declarou o Professor de Artes da
Universidade.
Decidiram, enfim, derreter a estátua em um forno, e o Prefeito solicitou uma
reunião da Corporação a fim de decidir o que haveria de ser feito com o metal.
˗ Devemos ter outra estátua, obviamente, e esta estátua será a minha ˗ concluiu.
˗ Será a minha ˗ repetiram os Assessores, um a um, o que acabou provocando
uma grande briga entre eles. Desde a última vez que soube notícia deles, estavam
brigando ainda.
˗ Que coisa mais curiosa! ˗ disse o supervisor do trabalhador da fundição. ˗ Este
coração de bronze não quer derreter no forno. Teremos que jogá-lo fora. E atiraram-no
em uma pilha de lixo onde se encontrava também o Andorinho morto
˗ Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade ˗ ordenou Deus a um de seus
Anjos, que Lhe trouxe um coração de bronze e um passarinho morto.
˗ Você fez a escolha certa ˗ disse Deus. ˗ Por isso, no jardim do Paraíso este lindo
pássaro há de cantar para todos ouvirem, e em minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há
de louvar-me.