domingo, 29 de abril de 2012

MARGARET

"Haverá pior solidão do que a ausência de si?"*

Quem?
Desde o início, quem?
Clarice Niskier.
Sei que vi uma mulher se despir e tirar a alma de dentro de si.
"A vida é como uma xícara de chá."*
Simples assim.
Foi assim:
A água ferveu e da ebulição do calor da Thais ela chegou.
Outra Clarice, outra mulher,  outra história.
Alguém que se desnuda para a vida,
Se desfaz e refaz a todo instante
Alguém que preserva,
Que detém a memória,
Que altera,
Que desmonta,
Que recria,
Que mantém a tradição
Através da brincadeira dos gestos e do olhar.
Tece fios,
Está dentro da casca da árvore com o tear da história da vida.
Enxerga,
Conduz,
Propaga,
Incendeia,
Chora,
Ri,
Sofre
E vive...
Nos ensinou um gesto Simples e Grandioso:
O de abrir mão...
Soltar,
Voar,
Respirar,
Esperar,
Seguir o curso...
Libertar.

Para a Margaret,
Que nos trouxe um sopro de Liberdade.
Feliz Aniversario
Com carinho,
Lagartixas.

"Nao há tradição sem traição"*
Para a nossa "Clarice Niskier" que se desnuda e desvenda a vida...
*Nilton Bonder


sexta-feira, 27 de abril de 2012



Querida Cláudia,
Esse dia é só seu! Feliz Aniversário e que cada minuto desse dia seja de comemoração, de receber o carinho de todos que lhe querem bem.
Nós todas, lagartixas, lhe prestamos nossas homenagens e logo mais levaremos nosso abraço, nosso carinho e a alegria de estarmos juntas no brinde à felicidade, ao amor, à leitura, às descobertas que nos tiram do norte e nos levam aos caminhos do Sul.
beijos, com carinho,
Angela

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Retorno à Laponia


Para a minha doce Confraria que não sai de mim...

Saudades! Essa é a palavra.

Retorno feliz,  cheio de amor, com histórias fantásticas dignas do nosso amigo JC!
Ela chegou!! E como chegou!
Chega direto de Paris, sai de um vôo e entra na sua cozinha mágica para receber sua confrades saudosas! Quanta magia, quanta beleza, QUANTA ENERGIA!
Estamos todas contaminadas, contagiadas pela Cláudia.
Ela nos recebe com aquele sorriso lindo, faz mais surpresas, se doa por completo para nós....Surpreendente! Preparou aquele robalo... sabe o robalo, também sonhei com ele...tava bom demais...
Aí ela vai para a poltrona, não é demais?! Linda!
Ah, todas ficamos encantada com o Paulo! Suspiros!
Temos a visita do Caio...mãe e filhos se abraçando é tão lindo!
O grupo sai, percebe o momento de família a se curtirem! É demais!!!
Amanhã tem mais.
beijocas com saudades
Silvia

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Leitura para próxima confraria (25/04/12)

Lagartixas,

"À sua maneira, este livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros..."
para o próximo encontro, ficou combinado de lermos o primeiro capítulo do jogo da amarelinha. Lembrando que o primeiro capítulo equivale ao capítulo 73 do livro. Como esse capítulo é bem curtinho, acho que poderíamos ler o capítulo 73 e 1 (ambos equivalendo ao primeiro e segundo capítulo).

Todas lagartixas prontas para brincar de amarelinha com os capítulos?

"O segundo livro deixa-se ler começado pelo capítulo 73 e continua..."

No aguardo de todas na casinha da Lapônia.

Com carinho

Carla

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Luz é como Água


por Gabriel García Márquez...






No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos...

De acordo – disse o pai – vamos compra-los quando voltarmos à Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

- Não – disseram em coro . Precisamos dele agora e aqui.

- Para começar – disse a mãe –, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remo com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário,  e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,

- O barco está na garagem – revelou o pai na hora do almoço. – O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.
No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram leva-lo até o quarto de empregada.

- Parabéns – disse o pai. E agora?

Agora, nada – disseram os meninos. – A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.
Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

- A luz é como a água – respondi. – A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram a navegar nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

- Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.

- disse o pai – Mas pior ainda é querer ter além disso um equipamento de mergulho.

- E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? – perguntou Joel.

- Não – disse a mãe, assustada. – Chega. O pai reprovou sua intransigência.

- É que esses meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever – disse ela - , mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por debaixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.

Na premiação final, os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante – É uma prova de maturidade – disse.

- Deus te ouça – respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama. Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de calda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígenes de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.




                                           (...)



Noite Amarela II

Muito boa noite ou boa madrugada, minhas doces Confrades!

Nossa noite de quarta foi muito Colorida, prevalecendo o Amarelo, muitas risadas, muitas surpresas (como sempre), uma anfitriã linda trajando uma avental "Voila", um jantar soberbo e quando nos foi pedido pela anfitriã tirar os sapatos...sim ela pediu e sabem por quê? Estão pensando que era para começar a sessão de Tai Chi, não! Era para não sujar o tapete maravilhoso onde depois percebemos o porque....vocês viram pelas fotos..a gente se esparrama nele!!!!
A Nequinha passou a noite fazendo os patês maravilhosos (sardela e berinjela), D. e Jú se incumbiram de um belo pavê desbundante de gostoso, Thais levou lisiantros brancos arroxeados para noite ser mais elegante, lindíssimos. Também levou um quiche que com cerveja era tudo de bom se eu pudesse beber...Angela levou o perfume e ansia de rever Juan mais os vinhos.
Ficaram com água na boca?
Aí falamos do nosso dandi Oscar Wilde e a Jú leu o conto no sofá do Gabo...
Surpresa! A Parisiense Cláudia presenteia a todas mais uma vez com o livro o Jogo de Amarelinha!
Lemos seu último email, nos emocionamos mais uma vez!
Então queríamos retribuir algo a ela que estava super mega acelerada mais do que o normal.
A Carla teve a idéia da homenagem. Todas as presentes como vocês podem ver pelas fotos e mais um vídeo que a Thais fez das confrades ausentes.... é aí que eu entro. Fui incumbida de representar todas!
Foi muito divertido e o legal que isso rolou com muita espontaneidade e alegria.
Carla, Parabéns. Tudo foi perfeito! Sua Casinha da Escandinavia é linda como você!!!
Obrigada! Eu me diverti muito e acredito que todas presentes também.
Agora a Mary Joey já me ameaçou....medo....
Termino aqui com um grande beijo no coração de todas e já com muitas saudades!
Com amor
Silvia Bejar

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Susto Matinal

Saio para caminhar e volto para o café,
Hora de dar comida para os cães Tyson e Cruela, tudo dentro da normalidade, mas a manhã vem com sobressaltos, de repente nosso cão ancião cai desfalecido, sim ele na sua empolgação canina corre desesperadamente para buscar o brinquedo, sua fixação matinal. Mas a sua força da juventude que ele ainda não esqueceu ou será que a os cães não realizam a velhice como nós, falhou por alguns instantes e seu coração gemeu. Caiu de lado tremendo, tentando entender o acontecimento com olhos de pergunta. Susto ! Sim ! Ele volta aos poucos, mas meu coração se aperta, é um cão, mas um grande  companheiro. Ele envelhece como nós, mas a grande diferença é a percepção do tempo, pra nós ela passa, na vitalidade, na pele, nos projetos de vida, no amadurecimento, nas alegrias conquistadas e partilhadas com as pessoas queridas, nas tristezas suportadas ao longo do caminho. A realidade da finitude do meu cão, me transporta para terra com as unhas agarradas ao chão, a possibilidade de voar quase inexistente, o Norte entranhado no meu corpo, na minha alma. Me esforço para voltar.  Vamos lá, penso eu, sair do redemoinho das angústias humanas. 
Toca o telefone, sim tenho que retornar, não há mais tempo para divagar, o cotidiano urge ... e a dor da perda presente ou futura precisa ser adormecida para seguir dizendo alô.

Desabafo de um susto e tristeza já sentida,

Bjs
Adri

Noite amarela

nos preparativos da receita mágica e Voilá
A noite de hoje foi muito especial... agora que todas foram embora fico sentindo a energia de tanta lagartixa feliz e do bem. A casinha da Escandinávia esta toda transmitindo luz, por isso foi escolhido esse título "noite amarela" com a ajuda da querida Julia.
Lagartixas da máfia, vai encarar?
Teve um pouco de tudo, entradinhas que a Nequinha trouxe, vinho branco delicioso da delicada Angela, caneca e receita de bolo de caneca também da Nequinha (coisa mais linda), Siltixa cheia de biscoitinhos de nata que derretem na boca que ela passou a noite inteira fazendo, uma travessa do tamanho do mundo de pavê de chocolate de mae e filha feito com amor e quiche de queijo cremoso e flores doces da Thaís.
Servindo a receita mais antiga da minha mae para a Niquinha...
Queria dizer que foi um prazer para mim receber todas vocês e que a casinha da Escandinávia estará sempre aberta para o sul... Para as lagartixas...
Todas de pés descalços e nossa surpresa amarelinha
Durante o jantar, disse o segredo do prato que escolhi: é a receita mais antiga que me lembro de minha mae ter feito. Eu simplesmente adoro esse macarrao, simples, saudável e delicioso.
Depois D. disse que reconhecia esse sabor... Como assim reconhecia? Foi entao que ela pergunta: "seu avô também nao fazia esse macarrao?" Essa foi uma surpresa inclusive para mim... mas me recordei... sim! Era ele quem fazia! Como pude me esquecer? Laços que nao se rompem... energia que permanece, saudade que fica...
sorrisos e beijos
A Angela disse que o Juan iria adorar a receita, logo em breve a receita estará aqui. E lembrem-se que essa é uma receita para ser servida a quem se ama, mais ou menos como o filme "como água para chocolate"
um alô para a lagartixa parisiense
Depois do jantar, nos sentamos no tapete felpudo para receber um presente da nossa querida lagartixa mor que mesmo estando longe fez questao em estar presente... e como estava!
Siltixa em sua sessao de tai chi a la Margareth
Nos sentamos ouvindo um conto delicioso que a Julia nos leu do Gabriel Garcia Marques (Ju, depois me passa ou posta) e ele era cheio de luz... muito amarelo (como disse Julia)... lendo com sua voz doce e seus óculos de leitura cheios de charme. Todas nós ja haviamos lido, mas foi ótimo rever!
sobremesa mais que especial de mae e filha
Depois da Ju no sofá, a Siltixa revelou seus dotes artísticos e imitou cada uma das ausentes (foi engraçadíssimo e a Thaís tem tudo registrado em vídeo e tudo...)

Depois foi a sessao de fotos faço questao em registrar no nosso blog.

nossa energia entrelaçada
Uma energia incrível e uma noite cheia de luz!


Obrigada todas pela presença e por toda discussao sobre o príncipe feliz do queridíssimo Oscar Wild que levou 13 beijos da nossa super lagarta esses dias...

Uma noite com sonhos a la Maria José... espero que todas nós consigamos tocar a areia das profundezas do mar e que tenham muitas cores esperando por nós!
Essa é uma homenagem a todas que nao vieram... A Nequinha representando a Claudia (no papel esta escrito: ...esse é gay... Enquanto aponta para o lobinho), a Julia representando a Maria José (com seus sonhos estranhos, enquanto abraça o Borges e esta de encontro marcado com a loucura), a D. representando a Adri (fazendo revoluçao com uma placa que diz: O Capital - Marx), a Sil representando a Margareth no tai chi e eu representando a Léa fazendo pose de ballet (a placa diz: Yo soy contra--- Pina). Ainda bem que a globo nao nos descobriu...

Com amor

Carlinha

terça-feira, 17 de abril de 2012

BEIJOS NO OSCAR W.

Para complementar o Paris e a Eternidade, 





De cuspido por alguns a beijado por milhares -o que Wilde diria disso? Na verdade, sem saber, ele já disse: "A única diferença entre um santo e um pecador é que o santo tem um passado e o pecador, um futuro".
RUY CASTRO

Para o esse Clube Maravilhoso !!!
Bjs
Adri

Paris e a eternidade


Em Nome das Lagartixas...
 
Caríssimas lagartixas:

Que saudades!!!!!!

Acho que deveríamos fazer nosso próximo retiro literário em Paris.

Estou tão feliz!!!!!

E penso em vcs a todo instante.

Isto aqui é o berço do pensamento, da arte, da inquietude, do amor...

Estamos parecendo ratos de metrô. Nunca andei tanto por baixo da terra como agora.

Chuva, frio, vento cortante, guarda chuva que se desmancha e perde as varetas, pedras antigas, gente linda de todas as cores e raças, senhorinhas com o olhar perdido dentro de livros, cultura, arte na rua, nos vagões de trens de repente alguém começa a cantar com microfone e tudo, cemitérios...

Sonhos que se realizam.

Fui lá, com chuva e frio, meu grupo atrás de mim com uma certa distancia respeitosa, mapa na mão, seguindo destemida e com o coração aos pulos, um olhar que se perdia de vez em quando para umas esculturas que me chamavam em silêncio.

Estava lá, com uma árvore da idade do mundo na frente, cartas, flores, retratos, promessas e uma gaiola de vidro na frente para preservar a lápide que está se desfazendo em beijos. Nenhum guarda por perto (a chuva e o vento estavam a meu favor). Pedi licença para o morto ao lado e subi no seu túmulo para poder tocar no dele, passei batom e deixei treze beijos para Oscar Wilde.
Em Nome das Lagartixas.
Lágrimas nos olhos, me despedi.
Brindei ao Amor de todas as formas.
Brindei a Vida e os Homens.
Brindei estas mulheres inquietas que buscam.

Para vcs,
Com Amor,
Cláudia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Carlos Gardel e Alfredo Le Pera - Argentinos por destino

Com vocês, o brasileiro Alfredo Le Pera e o francês Carlos Gardel, música cantada pelo argentino Darín no filme espanhol "El Baile de La Victoria" (traduzido no Brasil por "A Dançarina e o Ladrão"):



El Dia Que Me Quieras

Acaricia mi ensueño
El suave murmullo de tu suspirar,
Como rie la vida
Si tus ojos negros me quierem mirar
Y si es mio el amparo
De tu risa leve, que es como um cantar,
Ella aquieta mi herida,
Todo, todo se olvida...!
El dia que me quieras,
La rosa que engalana,
Se vestirá de fiesta
Com su mejor color.
Al viento las campanas
Dirán que ya eres mia
Y locas las fontanas
Se cantarán su amor
La noche que me quieras,
Desde el azul del cielo,
Las estrellas celosas
Nos mirarán pasar
Y um rayo misterioso
Hará nido em tu pelo,
Luciérnaga curiosa
que vera que eres mi consuelo


Desacreditei na cena do filme. Cresci ouvindo essa música na voz enfeitada e afinada de minha abuela ucraniana. Só depois da cena no filme pude notar a letra, sempre a tive apenas como um som.

Maria José, você traduziria para nós ipsis literis? Não confio na internet...

Beijos!


(mosaico dos países citados: brasileira, com ascendência espanhola e ucraniana, batizada na argentina pela Confraria e considerada francesa pelo ar blasé)

Um brinde à mistura!

Melhor eu ir dormir, sono dá nisso...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

CUCURRUCUCU PALOMA


(Por Júlia Ramiro Belintani)
Uma Noite quente, 
um violão, 
um Almodóvar, 
um Caetano,
um homem,
uma mulher,
se
amando.

Bjs,
Lagartixas


FALE COM ELA


(Por Denise Ramiro)

Para você Júlia, que descobriu a chave do olhar.
Um beijo na sua nova fase.
Com carinho,
Lagartixas


O SONHO DA MJ


(Por Silvia Bellintani)

Impressionante como existe sintonia e sinfonia na vida.
Para vc MJ com amor.
Lagartixas


MOTIVOS PARA LER "O JOGO DA AMARELINHA"


Primeiro: Ele é um Gato...

O Jogo da Amarelinha
Dodô Azevedo
Por Cláudia Belintani 
(Texto do Balcão)

Imagine um romance que pode ser lido de duas formas. Capítulo a capítulo, página dois depois da um e assim por diante ou seguir uma sugestão do autor: Ler o capítulo um, em seguida pular para o 62, de volta para o 13o, pula para o 44o e assim por diante. Imagine que, lido de um modo, é uma história. Lido de outro modo, é outra história. Tudo isso usando as mesmas palavras palas quais você passou antes.

Agora imagine um romance que se passa em Paris. Eu sei, existem milhares de romances que se passam em Paris. Mas imagine que se passa numa Paris de sonhos, em plena revolução cultural dos anos 60, uma Paris habitada por jovens estudantes expatriados, uma cidade impressionista, abstrata, com sua aura romântica descrita em detalhes, a ponto de você, ao final do livro, conhecer Paris com a palma das mãos.

Agora imagine um livro que conte a história de seis jovens amigos expatriados em Paris, cada um com sua nacionalidade, e que resolvem criar um clube que consiste em reunir-se e passar as noites ouvindo Jazz em deliciosas virtrolas velhas, bebendo Vodca à luz de velas, e discutindo pintura, literatura, filosofia, ética, estética equanto a chuva cai lá fora.

Agora imagine um livro que conta a história de amor entre um estudante argentino e uma estudante uruguaia, mãe solteira, sua convivência full-time nesta Paris romântica, e imagine as maiores trepadas da literatura moderna, as maiores discussões a respeito de relacionamentos, destino, e o amor, essa palavra.

Imagine também um livro que descreve as músicas que os personagens ouvem de um modo tão atraente que te torna imediatamente fã das canções citadas na história?

Por fim, imagine um livro que pretende reconciliar o homem com o seu tempo. Com a modernidade, com a obrigação em ser intelectual, em conhecer e dominar todos os assuntos. E reconciliar o homem com o espaço, investigando o sentimento de deslocamento e desterro tão na moda hoje em dia - vide o filme "Encontros e desencontros"?

Isso tudo é Rayuela, "O Jogo da Amarelinha", obra-prima do escritor argentino Julio Cortázar que pra muitos é o maior romance escrito em língua latina. É uma alusão aquele jogo que a gente jogava quando criança, quando tínhamos que andar casas pra frente para atingir o céu.

O Céu, para os personagens de Cortázar, é a paz existencial. Quem é existencialista, ou seja, quem de vez em quando se sente deslocado do mundo, que volta e meia passa por aquele momento de tristeza em saber que você não faz a menor idéia do que está fazendo "aqui", sabe que essa paz é impossível. E é justamente essa impossibilidade de paz, essa pretensão infinita e dolorida em compreender o mundo, que torna os personagens de Rayuela humanos como você e eu, esse jogo infantil de chegar ao céu que nos damos conta de que continuamos jogando pelo resto da vida.

Meu primeiro contato com Cortázar foi com "O Jogo da Amarelinha". No primeiro parágrafo, uma frase que é meu lema romântico até hoje: "As pessoas que precisam marcar encontros exatos são as mesmas que precisam de caderno pautado para escrever ou que apertam o tubo da pasta de dentes pela parte de baixo". - essa subversão existencial é predicado de todos os personagens parisienses do livro: Ronald, Gregorovius, Babs, Wang, Perico, e finalmente, o casal Horácio e Lúcia, a Maga. Eles, por falta de dinheiro para curtir a Paris glamurosa, criam "O clube da Serpente", reuniões diárias para passar a noite batendo papo sobre o céu, a terra, a água e o ar, beber vodca barata, aquecer-se do frio e ouvir Jazz.

A medida que ia avançando pelas páginas, fui tornando-me um membro do clube. Me apaixonei pela vodca barata, depois pela madrugada, e enfim, pelo Jazz. Cortázar é um dos maiores especialistas no assunto, mas seus personagens descrevem a música de Bessie Smith, Oscar Peterson, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald com o coração, tornado familiar para qualquer leigo as impressões que aquela música vai dar a eles.

Em pouco tempo a leitura de "O Jogo da Amarelinha" me isolou do mundo: passava a madrugada no quarto ouvindo Jazz no vinil, bebericando Vodca. Depois saía a rua para caminhar sozinho. "O Jogo da Amarelinha" ensina você a andar sozinho pela rua, em busca do conforto espiritual que primeiro encontrei na Vodca, e finalmente, como os personagens, no Jazz - "a música da metafísica".

Não há livro mais romântico que "O Jogo da Amarelinha". É um livro que nenhuma mulher deveria comprar. "O Jogo da Amarelinha" deve ser DADO a uma mulher por um homem, num ritual que dá sentido ao livro. Eu já dei mais de uma dúzia de "Amarelinhas" de presente. Uma pra cada mulher que achei que mereceu (quem sou eu, mas vá lá). Como dito no livro, é como sexo oral, só um beijo na boca dado por um homem que acabou de fazer sexo oral com uma mulher pode dar a ela a maior experiência de auto-conhecimento que uma mulher pode experimentar.

Ninguém trepa melhor em literatura como o casal Horácio e Maga. Ele, um jovenzinho metido a intelectual. Ela, uma jovem mãe solteira meio ignorante, mas capaz de conclusões sobre a vida mais valiosas que todos os outros personagens juntos. Estão todos por um fio, pronto para enlouquecer, os personagens parisienses de Rayuela. Quando você lê o livro, você dá voz e descarga aquela partezinha sua que está por um fio também. Faz catarse, análise, diabos, você economiza um dinheirão com a leitura das 800 páginas de "O Jogo da Amarelinha"

"O Jogo da Amarelinha" é um livro sobre amadurecimento. Sobre a superação de tudo isso descrito aí em cima. Cortázar escreveu o livro na Paris dos anos 60, quando explodia o movimento estudantil. Comiserou-se pelo espírito juvenil revolucionário mas compreendeu que o passo a frente, a casa posterior rumo ao céu da amarelinha riscada na calçada, era amadurecer, no caso do personagem principal, voltar para casa.

A segunda parte do livro se passa em Buenos Aires. No acerto de contas de quem volta pra casa, de quem vem fazer as pazes com suas raízes, com sua cultura. Amadurecer é voltar para casa. Cortázar nunca voltou para casa. Permaneceu em Paris até a sua morte, provavelmente porque seu objetvo era nunca chegar ao céu rabiscado na calçada, e sim continuar jogando amarelinha para sempre.

Leia o trecho do lendário capítulo 7 de "O Jogo da Amarelinha", quando Horácio observa Lúcia dormir ao seu lado, depois de uma noite de sexo maravilhosamente ressentido:

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

O PRÍNCIPE FELIZ - Oscar Wilde





(Por Carla Belintani)
Bem acima do nível da cidade, ao alto de uma elevada coluna, erguia-se a estátua
do Príncipe Feliz. Coberta por uma camada de finas folhas de puro ouro, tinha no lugar de
olhos duas safiras brilhantes e na empunhadura de sua espada, um resplandecente rubi
vermelho. De fato, era muito admirada.
˗ É tão bonita quanto um cata-vento ˗ destacou um dos Conselheiros da Cidade,
procurando dar ao seu discurso um ar de quem conhecia das artes. ˗ Apesar de não ser lá
de toda utilidade ˗ acrescentou prudentemente, a fim de não fazer-se passar por homem
pouco prático, o que sem dúvida ele não era.
˗ Por que você não pode ser como o Príncipe Feliz? ˗ perguntou uma mãe sensata
ao seu pequeno garoto, que chorava por coisas que sua mãe não lhe podia dar
. ˗ Nunca
ocorreu ao Príncipe Feliz chorar por coisa alguma.
˗ Alegro-me de saber que há no mundo alguém que seja realmente feliz ˗
resmungou um homem desiludido ao contemplar a admirável obra.
˗ Parece realmente um anjo ˗ afirmaram as Crianças do Orfanato ao saírem da
catedral com seus aventais brancos e mantos de vivo escarlate
.
˗ Como vocês sabem? ˗ perguntou-lhes o Professor de Matemática. ˗ Vocês nunca
viram um anjo.
˗ Ah, mas em nossos sonhos sim! ˗ responderam as crianças, ao que o Professor
de Matemática reprochou franzindo o cenho e lançando-lhes um olhar severo, pois não
permitia que as crianças sonhassem.
Uma noite, voava pela cidade um pequeno Andorinho. Seus amigos haviam
migrado para o Egito seis semanas antes, mas ele preferira ficar, pois havia se
apaixonado pela mais bela Haste de Junco
. Havia-a visto pela primeira vez na primavera, enquanto voava para capturar uma grande mariposa amarela ao rio. Sentiu-se tão atraído pela singela cintura daquela linda Haste, que parou para conversar com ela.
˗ Posso amar você? ˗ perguntou-lhe o Andorinho, que gostava de ir direto ao
assunto, ao que ela respondeu afirmativamente, com uma reverência. Ele então passou a
voar e voar ao redor de sua amada, tocando as águas do rio e criando ondas de prata.
Assim começou seu namoro com ela, que durou todo o verão
˗ Que relação ridícula! ˗ contestavam seus amigos. ˗ Além de não ter dinheiro, ela
tem parentes demais. ˗ O rio, de fato, estava repleto de juncos.
Sentiu-se só após a partida de seus amigos, com a chegada do outono. Sua
amada já não lhe atraía mais e sentia-se enfadado com a situação.
˗ Ela não é de muita conversa e receio que seja coquete, pois está sempre
flertando com o vento. ˗ Sempre que ventava, a Haste fazia as mais graciosas
reverências.
˗ Reconheço que ela seja caseira ˗ continuou ˗ mas eu adoro viajar e minha mulher
deveria também gostar de conhecer outros lugares
˗ Você fugiria comigo? ˗ desabafou finalmente com ela, mas sua amada recusou,
meneando com a cabeça: era muito arraigada ao lar.
˗ Você não tem se importado comigo ˗ disse-lhe enfurecido. ˗ As pirâmides me
esperam, adeus! ˗ Bateu asas e se foi.
Voou durante todo o dia até que, enfim, chegou à cidade ao anoitecer.
˗ Onde eu poderia passar a noite? ˗ pensou. ˗ Espero que a cidade tenha feito os
preparativos para me receber.
Foi então que ele viu uma estátua sobre uma elevada coluna.
8˗ Já sei, vou passar a noite ali; é um lugar arejado, com bastante ar fresco. ˗
Pousou então entre os pés do Príncipe Feliz.
˗ Tenho um berço de ouro ˗ disse para si enquanto olhava em redor, preparandose para dormir. Mas, no exato momento em que colocava sua cabeçinha sob a asa, uma
grande gota de água caiu sobre ele.
˗ Que estranho! ˗ exclamou. ˗ Não há sequer uma nuvem no céu; as estrelas estão
claras e brilhantes, mas mesmo assim está chovendo. O clima na Europa do Norte é
realmente estranho. A Haste de junco costumava gostar de chuva, mas isto não passava
de um egoísmo seu.
Outra gota então caiu sobre ele.
˗ Que utilidade tem uma estátua se nem evitar a chuva ela pode? ˗ afirmou. ˗
Preciso encontrar um bom abrigo em alguma chaminé. ˗ E assim decidiu voar para outro
lugar.
No entanto, antes mesmo de poder abrir as asas, uma terceira gota lhe acertou.
Ele então olhou para cima e... Ah! Era realmente verdade o que estava vendo?
Os olhos do Príncipe Feliz estavam repletos de lágrimas, que escorriam sobre sua
face dourada. Seu rosto ao luar era tão belo que o Andorinho encheu-se de pena.
˗ Quem é você? ˗ perguntou.
˗ Sou o Príncipe Feliz.
˗ Por que chora então? Você me deixou todo ensopado!
˗ Quando era vivo e tinha um coração humano ˗ respondeu a estátua – não
conhecia as lágrimas, porque vivia no Palácio de Sans-Souci, onde a tristeza não podia
entrar. Durante o dia, brincava com meus amigos no jardim e, à noite, conduzia a dança
no Grande Salão. Ao redor do jardim estendia-se um enorme muro, mas nunca me havia
interessado em saber o que havia além dele. Tudo a meu respeito era absolutamente
belo. Meus cortesões me chamavam de Príncipe Feliz, e feliz de fato eu era, se se pode
chamar o prazer de felicidade. Assim vivi, assim morri. E agora que me puseram aqui
neste local tão alto, posso ver o quão horrível e miserável é minha cidade; e embora meu
coração esteja feito de bronze, nada posso fazer senão chorar.
˗ O que?! Não é ele feito de ouro sólido? ˗ perguntou-se o Andorinho, que era
educado demais para fazer observações pessoais em voz alta.
˗ Em um lugar distante ˗ continuou a estátua em um tom musical ˗ em uma rua
estreita há uma casa humilde. Uma das janelas está aberta, através da qual vejo uma
mulher sentada em uma cadeira. Seu rosto é delgado e cansado. Suas mãos são ásperas
e avermelhadas, completamente feridas pela agulha, por ser ela uma costureira. Está
bordando flores de maracujá em um vestido de cetim para que a mais adorável dama de
honra da Rainha a vista em um baile na corte. Na cama, em um canto do quarto, jaz seu
filho doente. Ele arde em febre e pede a sua mãe laranjas. Ela, porém, nada tem a
oferecer-lhe senão a água do rio e, por isso, ele chora. Andorinho, Andorinho, querido
Andorinho, não poderia levar a ela este rubi que está na empunhadura de minha espada?
Meus pés estão presos neste pedestal, por isso não posso me mover.
˗ Esperam-me no Egito ˗ disse o Andorinho. ˗ Meus amigos estão agora voando
sobre o Nilo e flertando com flores de lótus. Daqui a pouco estarão se preparando para
dormir na tumba do grande Rei, que está lá, dentro de seu caixão pintado. Está
embrulhado com linho amarelo e embalsamado com especiarias. Ao redor de seu
pescoço há uma corrente de jade verde fosco e suas mãos são como folhas murchas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho, não poderia ficar esta noite comigo e
ser meu mensageiro? O garotinho tem sede e sua mãe está tão triste.
˗ Não sei se gosto de garotos ˗ respondeu o Andorinho. ˗ No verão passado,
quando estava à beira do rio, havia dois garotos muito grosseiros, filhos do dono da
moedeira, que não paravam de jogar pedras em mim. Nunca me acertaram, obviamente:
os Andorinhos podemos voar para bem longe e, além disso, sou de uma linhagem
conhecida pela agilidade, mas mesmo assim era um sinal de desrespeito.
Mas o olhar triste do Príncipe Feliz fez o Andorinho arrepender-se:
˗ Faz muito frio aqui, mas ficarei com você esta noite e serei seu mensageiro.
˗ Muito obrigado, querido Andorinho ˗ agradeceu o Príncipe.
Então o Andorinho pegou o grande rubi da espada do Príncipe e saiu voando
sobre os telhados da cidade com a pedra ao bico.
Passou pela torre da catedral, onde anjos de mármore branco estavam esculpidos.
Passou também sobre o palácio e ouviu a música do grande baile. Uma linda garota
surgiu à varanda com seu namorado.
˗ Que lindas estão as estrelas hoje ˗ disse o garoto a sua amada. ˗ E quão
poderoso é o poder do amor!
˗ Espero que minha roupa esteja pronta até o dia do Baile Oficial ˗ respondeu ela. ˗
Pedi que flores de maracujá fossem bordadas em meu vestido, mas as costureiras são
tão preguiçosas.
O Andorinho sobrevoou o rio e viu as lanternas acesas nos mastros dos navios.
Passou sobre o Gueto e viu alguns judeus barganhando e pesando dinheiro sobre
balanças de cobre. Enfim, chegou àquela casinha humilde e olhou seu interior. O
garotinho agitava-se febrilmente sobre a cama, e sua mãe havia caído no sono, devido ao
cansaço. O Andorinho então entrou e colocou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do
dedal da mulher. Logo depois, voou suavemente ao redor da cama, abanando com as
asas a fronte do garoto.
˗ Como me sinto mais refrescado ˗ disse o menino. ˗ Devo estar melhorando. ˗ E
mergulhou em um delicioso sono
O Andorinho então voou de volta para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia
feito.
˗ É engraçado ˗ afirmou-lhe. ˗ Sinto-me aquecido agora, mesmo estando frio.
˗ É porque você acabou de fazer uma boa ação ˗ respondeu-lhe o Príncipe. E o
Andorinho começou a pensar e também caiu no sono. Pensar sempre o deixava
sonolento.
Assim que o dia amanheceu, voou em direção ao rio e tomou um banho.
˗ Que fenômeno singular ˗ exclamou o Professor de Ornitologia, enquanto passava
sobre a ponte. ˗ Um Andorinho no inverno! ˗ E o professor então decidiu escrever um
longo artigo sobre isto no jornal local. Todos na cidade o mencionavam, mas o texto
estava repleto de palavras que ninguém podia entender.
˗ Esta noite vou para o Egito ˗ disse o Andorinho, que estava ansioso por causa da
expectativa. Visitou todos os monumentos públicos e sentou-se por um longo tempo no
topo do campanário da igreja. Sempre que aparecia por lá, os Pardais gorjeavam, dizendo
uns aos outros: ˗ Que ilustre estrangeiro! ˗ e ele sentia-se o todo-todo.
Quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.
˗ Tem algum recado para o Egito? ˗ perguntou. ˗ Vou partir agora mesmo
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você não ficaria
mais uma noite comigo?
˗ Esperam-me no Egito ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Amanhã os meus amigos
voarão para a Segunda Catarata. É ali que o hipopótamo descansa entre as plantas
aquáticas, e o Deus Memnon repousa em um grande trono de granito
. Todas as noites ele contempla as estrelas, e quando a estrela da manhã brilha, solta um grito de alegria e
emudece novamente. Ao meio dia, leões amarelos dirigem-se à margem do rio para beber
água. Seus olhos são como berilos verdes, e o seu uivo é tão forte quanto o bramido da
catarata.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Em um lugar
distante, do outro lado da cidade, vejo um jovem em um sótão. Está debruçado sobre uma
mesa cheia de papéis, e em um copo a seu lado há um ramo de violetas murchas
. Seu cabelo é castanho e ondulado, e seus lábios são vermelhos como uma romã; e seus
olhos, grandes e sonhadores. Está tentando terminar uma peça para o Diretor do Teatro,
mas ele tem tanto frio que é incapaz de continuar a escrever. Não há mais fogo na lareira,
e a fome o fez perder a consciência.
˗ Ficarei aqui com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho, que realmente
tinha um coração bom. ˗ Devo levar ao garoto outro rubi?
˗ Céus! Não me resta mais nenhum rubi! ˗ exclamou o Príncipe. ˗ Meus olhos são
o que tenho neste momento. São feitos de safiras raras, que foram trazidas da Índia mil
anos atrás. Arranque uma delas e leve-a ao garoto. Ele certamente levará a um joalheiro,
e então poderá comprar comida, lenha e terminar a peça.
˗ Querido Príncipe ˗ disse o Andorinho ˗ não posso fazer isso. ˗ E pôs-se a chorar.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
E o Andorinho arrancou um dos olhos do Príncipe e voou em direção ao sótão
onde se encontrava o garoto. Era extremamente fácil adentrar o recinto, pois havia um
buraco no teto, através do qual teve acesso ao quarto. O garotinho tinha a cabeça sobre
as mãos e por isso não pôde ouvir o bater de asas do Andorinho. Assim, quando olhou
para cima, viu uma linda safira sobre as violetas murchas.
˗ Acho que alguém está gostando de mim ˗ exclamou o garoto. ˗ Isto deve ser um
presente de um grande admirador. Agora posso terminar minha peça. ˗ E o garoto ficou
muito feliz.
No dia seguinte, o Andorinho voou para o porto. Pousou no mastro de um grande
navio e viu os marinheiros içando grandes caixas para fora do porão. ˗ Puxando carga! ˗
gritavam eles, a cada caixa que subia
˗ Estou indo para o Egito! ˗ gritou o Andorinho, mas ninguém pareceu importar-se.
Quando a lua voltou a aparecer, ele voou de volta para o Príncipe Feliz.
˗ Voltei para dizer-lhe adeus ˗ disse-lhe.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ respondeu o Príncipe. ˗ Você não
ficaria comigo uma noite mais?
˗ Já é inverno ˗ respondeu o Andorinho ˗ e logo, logo, a neve fria estará aqui. No
Egito, o sol é quente sobre as palmeiras verdes, e os crocodilos descansam sobre a lama,
preguiçosamente. Meus companheiros estão construindo um ninho sobre Templo de
Baalbek, e os pombos brancos assistem seu trabalho, arrulhando uns aos outros. Querido
Príncipe, preciso realmente deixá-lo agora, mas nunca o esquecerei. Na próxima
primavera trarei duas lindas joias para substituir as que você doou. O rubi há de ser
vermelho como uma rosa; e a safira, azul, como o infinito oceano.
˗ Logo ali na praça ˗ disse o Príncipe Feliz ˗ há uma garotinha que vende fósforos,
os quais estragaram depois de ela tê-los deixado cair na valeta. Seu pai a castigará se ela
não trouxer algum dinheiro para casa, e por isso ela chora. Ela não tem tênis ou meia, e
sua cabecinha está desprotegida contra o frio. Arranque o olho que me resta e o dê a ela,
assim seu pai não a castigará.
˗ Ficarei com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho ˗ mas de maneira
alguma arrancarei o olho que lhe resta: você ficará completamente cego.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
Ele então arrancou-lhe o outro olho partiu como uma flecha. Ao avistar a garotinha,
o Andorinho baixou em sua direção e soltou a joia sobre a palma de sua mão.
˗ Que lindo cristal! ˗ exclamou ela, e saiu correndo alegremente para casa.
O Andorinho então voltou para junto do Príncipe e disse-lhe:
˗ Você agora está cego, e por isso vou ficar sempre com você.
˗ De maneira alguma, querido Andorinho ˗ respondeu o pobre Príncipe. ˗ Você
precisa ir para o Egito.
˗ Ficarei com você para sempre ˗ afirmou o Andorinho, adormecendo logo em
seguida aos pés Príncipe.
Durante todo o dia seguinte, ele permaneceu sobre o ombro do Príncipe Feliz,
contando-lhe histórias que havia visto em terras estrangeiras. Contou-lhe sobre as íbis,
aves que formavam longas filas às margens do Nilo para capturar peixinhos dourados;
sobre a Esfinge, que é tão velha quanto o mundo, vive no deserto e conhece tudo; sobre
os comerciantes, que caminham lentamente ao lado de seus camelos e carregam
miçangas de âmbar em suas mãos; sobre o Rei da Montanhas da Lua, que é negro como
o ébano e louva um grande cristal; sobre a grande serpente verde que dorme em uma
palmeira e vinte sacerdotes lhe dão de comer bolinhos de mel; sobre os pigmeus, que
navegam em um grande lago sobre folhas largas e achatadas, e sempre estão em guerra
contra as borboletas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você me conta
histórias surpreendentes; porém, mais surpreendente ainda é o sofrimento dos homens.
Não há Mistério maior que a Miséria. Voe sobre minha cidade, querido Andorinho, e digame o que lá vê.
O Andorinho então sobrevoou a grande cidade e viu os ricos divertindo-se em
suas lindas casas, enquanto mendigos sentavam-se ao pé do portão. Passou por becos
escuros e viu os rostos brancos de crianças famintas olhando desinteressadamente as
ruas obscuras. Sob a arcada de uma ponte dois garotos estavam deitados, abraçando-se
um ao outro de modo a se aquecerem.
˗ Que fome temos! ˗ diziam.
˗ Não podem ficar aqui! ˗ ordenou-lhes o Vigia; e eles então tiveram que
perambular na chuva
Voltou para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia visto.
˗ Estou coberto com puro ouro ˗ segredou-lhe o Príncipe. ˗ Retire-o folha por folha
e dê-o aos pobres: os homens têm o costume de pensar que o ouro pode deixá-los mais
felizes.
Folha por folha o Andorinho ia retirando o ouro, até que o Príncipe ficou
completamente cinza e desinteressante. Folha por folha o Andorinho passou a distribuí-
las aos pobres. As faces das crianças enrubesciam, e de tanta alegria os pequenos riam e
brincavam na rua.
˗ Agora temos pão! ˗ gritavam de alegria.
Mas a neve logo chegaria, e com ela a geada. As ruas pareciam feitas de prata, de
tão claras e cintilantes que eram. Pedaços de gelo pendiam das calhas das casas como
adagas de cristal. Todos passeavam em casacos de pele, e os meninos, com seus gorros
escarlates, patinavam no gelo.
O pobre Andorinho sentia cada vez mais frio, mas isto não o impedia de continuar
com Príncipe: seu amor por ele era muito grande. Sempre que o padeiro se distraía, o
Andorinho ia lá e pegava ao pé de sua porta miolos de pão, e agitava as asas a fim de
manter-se aquecido.
Mas aos poucos ele percebia que a morte se aproximava: sobravam-lhe apenas
forças para voar pela última vez aos ombros do Príncipe.
˗ Adeus, amado Príncipe! ˗ murmurou-lhe. ˗ Você permitiria que eu beijasse sua
mão?
˗ Sinto-me contende de saber que finalmente você vai para o Egito, querido
Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você já ficou tempo demais aqui. Mas beije-me nos lábios,
pois eu amo você.
˗ Não é ao Egito que estou indo ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Vou para junto da
Morte; afinal, ela é a irmã do Sono, não é?
Dito isto, ele beijou os lábios do Príncipe e sucumbiu, logo em seguida, morto aos
seus pés.
Naquele momento, ouviu-se um barulho estranho vindo de dentro da estátua,
como se algo houvesse se quebrado. E foi exatamente o que aconteceu: o coração do
Príncipe partira-se em dois. Sem dúvida havia sido a terrível geada.
Na manhã seguinte, o Prefeito passeava pela praça em companhia de seus
Assessores. Ao passarem pela coluna, olhou para cima, em direção à estátua, e
exclamou assombrado:
˗ Santo Deus! Que miserável aspecto tem o Príncipe!
˗ Miserável mesmo! ˗ responderam os Assessores, que sempre concordavam com
o Prefeito. Eles então subiram para conferir de perto.
˗ O rubi caiu de sua espada; seus olhos se foram; e ele não é mais feito de ouro ˗
afirmou o Prefeito, asseverando logo em seguida:
˗ Sua sorte é um pouco melhor que a de um mendigo!
˗ Pouco melhor que a de um mendigo ˗ repetiram os Assessores.
˗ Há até um pássaro morto a seus pés! ˗ continuou o Prefeito. ˗ Devemos
urgentemente lançar um decreto que proíba os pássaros de morrerem aqui. ˗ E o
Escrevente da cidade tomou nota da sugestão.
Eles então incumbiram-se de derrubar a estátua do Príncipe Feliz.
˗ Não sendo mais belo, deixa de ser útil ˗ declarou o Professor de Artes da
Universidade.
Decidiram, enfim, derreter a estátua em um forno, e o Prefeito solicitou uma
reunião da Corporação a fim de decidir o que haveria de ser feito com o metal.
˗ Devemos ter outra estátua, obviamente, e esta estátua será a minha ˗ concluiu.
˗ Será a minha ˗ repetiram os Assessores, um a um, o que acabou provocando
uma grande briga entre eles. Desde a última vez que soube notícia deles, estavam
brigando ainda.
˗ Que coisa mais curiosa! ˗ disse o supervisor do trabalhador da fundição. ˗ Este
coração de bronze não quer derreter no forno. Teremos que jogá-lo fora. E atiraram-no
em uma pilha de lixo onde se encontrava também o Andorinho morto
˗ Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade ˗ ordenou Deus a um de seus
Anjos, que Lhe trouxe um coração de bronze e um passarinho morto.
˗ Você fez a escolha certa ˗ disse Deus. ˗ Por isso, no jardim do Paraíso este lindo
pássaro há de cantar para todos ouvirem, e em minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há
de louvar-me.

RED



(Por Silvia Bellintani)

Como prometi, aí está a história da Chapeuzinho.
Vermelha e Visceral.
Bjs,
Cláudia


LITERATURA COMESTÍVEL


Panelas... Sonhos em Ebulição.


Por Thais Roitman


Se uma madalena «mergulhada na infusão de chá preto ou de tília» pôde desencadear em Proust «recordações tanto tempo abandonadas longe da memória» que o levaram a escrever Em busca do tempo perdido, como não poderá a minha visita ao novo mercado de Portimão servir de pretexto para esta crónica comestível  cuja matéria verbal se dispõe, primeiro, em bancas como as que me foram dadas ali observar? Até porque, como escreve Vásquez Montalbán, «o gourmet devora duas vezes ao mesmo tempo, aquilo que come e aquilo que comeu» [in Contra los gourmets]. Ao que eu acrescentaria uma terceira, aquilo que leu, consistindo esse terceiro momento, para nosso deleite e instrução, a sublimação pela literatura, cuja ilustração nos foi oferecida por Karen Blixen nesse delicioso romance Festa de Babette, levado depois ao cinema por Gabriel Axel, que celebra o aparecimento da grande cuisine da viragem pós-revolução francesa.
Visito, então, o novo mercado de Portimão acabado de inaugurar e dou-me conta da estranha presença das coisas ali dispostas. A geometria das bancas, a perfeita distribuição de áreas e produtos, a boa disposição dos vendedores, as pessoas conversando. Um acontecimento feliz. Caminho como um recém-chegado através das suas ruas interiores e constato a inteligência e a ficção das coisas desta nova realidade quotidiana posta ali em sossego ao meu dispor como um território ainda por explorar mas doravante habitual, donde recolherei a matéria ficcional com que, depois, elaborarei uma retórica pessoal dos sabores. Na perfeita distribuição dos produtos expostos, vou encontrando os peixes, as carnes, os frutos, os legumes e as ervas aromáticas que me hão-de proporcionar o devotado exercício gastronómico que vou mentalmente ensaiando em imaginários menus por fazer.
Na peixaria escolho um bom sargo do mar de Sagres que grelharei com ervas aromáticas como ensina Colette: «Prepare a vassoura, é assim que eu chamo ao ramo de cheiros com louro, hortelã, segurelha, tomilho, rosmaninho, salva… mergulhe-a num pote cheio de azeite misturado com vinagre de vinho [...]. O alho [...] esmagado, até ficar com uma consistência cremosa, realça a mistura, como convém. Um pouco de sal, bastante pimenta» [in Prisons et paradis]. No talho, peço que me cortem uns bifes tenros que cozinharei, para o jantar, na figideira, à lisboeta, com o molho a pedir aquele pão caseiro que comprarei em seguida e o ovo a cavalo, de preferência de galinhas do campo; e enquanto o talhante vai cortando o coração da carne, lembro-me do bife com batatas fritas de Roland Barthes [in Mitologias], que não é uma receita, antes uma espécie de leitura antropológica sobre o bifteck cujo «prestígio resulta, de toda a evidência, da sua natureza de carne quase crua». Para a sobremesa, se fosse época, escolheria uns figos que cortaria à maneira de D. H. Lawrence que embora não sendo algarvio conhecia «a maneira correcta de comer um figo à mesa», ou de Herbert Helder que lhe mudou o poema para português: «é parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,/ E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,/ desabrochada em quatro espessas pétalas.» [«Figos», in Poesia toda, Herberto Helder]. Levarei, então, laranjas de Silves para o almoço. E para o jantar, farei um arroz-doce «disposto» - como no poema de Háfiz Dimashki – «em longas tiras sobre o/ prato, a brancura do leite [...]/O acúcar espalhado sobre os bordos/ cintila como um raio/ de luz solidificado.» [«Celebração do arroz-doce», Háfiz Dimashki  (1134-1176).
Eis, então, no final do seu primeiro dia, o novo mercado de Portimão, recuperado como matéria ficcional desta crónica em que se conclui que também se pode ir a um mercado como se vai a uma livraria.
Dezembro 17, 2007
Autor: João Ventura

POLTRONA DA THAIS


A Busca...

O rei e a omelete
Walter Benjamin
(Tradução: L. Konder) 
Por Thais Roitman


Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não
se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico.
Um dia ele chamou o seu cozinheiro preferido e disse : "Você tem cozinhado muito bem
para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que eu lhe sou
agradecido. Agora, porém, quero que você me dê uma última prova de sua arte. Você deve me
preparar uma omelete de amoras iguais àquelas que eu comi há cinqüenta anos, na infância.
Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir:
viajamos dia e noite através da floresta, onde afinal acabamos nos perdendo. Estávamos
famintos e cansadíssimos, quando chegamos a uma cabana onde morava uma velhinha que nos
acolheu generosamente. Ela preparou para nós uma omelete de amoras, quando a comi, fiquei
maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração. Na época eu era
criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, vasculhei todo o reino, porém não
foi possível localizá-la. Agora quero que você me atenda esse desejo: faça uma omelete de
amoras igual à dela. Se você conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu
sucessor no trono. Se você não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo".
Então, o cozinheiro falou: "Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco. É claro que eu
conheço todo o segredo da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os
temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são
batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas não me impedirá de ser executado, porque a
minha omelete jamais será igual à da velhinha. Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção
da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da
hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do presente
estranho e do futuro incerto".
Assim falou o cozinheiro. O Rei ficou calado, durante algum tempo.
Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e
despediu-o do serviço real.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Casinha da Escandinávia

Queridas lagartixas,

na ausência da casinha da Lapônia, venho através desta convidar a todas para o próximo encontro das lagartixas na minha casinha da Escandinávia que é bem pequenininha mas tem espaço para todas (que fica na mesma rua da casinha da Lapônia e o número muda para 741 apto 32).
Não haverá aula na PUC semana que vem, então conseguirei me organizar.
Posso escolher um conto e publicar no blog. Quem será a próxima para a poltrona?
A noite de ontem foi cheia de surpresas. Mesmo chegando depois de todas terem jantado, a comida estava uma delícia! Acredito que todas nós ontem voltamos literalmente para o sul, até com algumas emoções afloradas em pele de lagartixa emocionada.
A chapeuzinho vermelho não me deixou dormir, resultado disso foi atraso no dia seguinte no trabalho e mais bagunça pela casa.... mesmo assim não me arrependo desse atraso, que para mim eu chamo de descobertas de vida. É isso que todas vocês são para mim, cada uma.
Conto com o carinho de todas na minha semana orfã.
Beijos beijos beijos
Agora preciso voltar...

Carla

quarta-feira, 11 de abril de 2012

VUELVO AL SUR

Capítulo 7, do Jogo da amarelinha (Rayuella), na voz de Júlio Cortázar. A música de fundo é Vuelvo al sur, de Astor Piazzola e Fernando Solanas, executada pelo Gotan Project. 


Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.
Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.


7
Júlio Cortazar
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer e tudo recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.”
Tradução de Fernando Castro Ferro. O jogo da amarelinha, Julio Cortázar, Civilização Brasileira, 2009. Pág. 7.

Vuelvo al sur
Fernando Solanas e Astor Piazzola
Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.
Llevo el Sur,
como un destino del corazón,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.
Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.
Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Te quiero Sur,
Sur, te quiero.
Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.
Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur…

LEÃOZINHO


Faltou o "Leãozinho" no CD da Pina Bausch.

Como disse, vcs vão ter que me aguentar por um bom tempo.

Com carinho,


Cláudia

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MÊNADE


Para a nossa Mênade, com carinho.

Silvia, nossa bacante que tem fome de vida...

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando
se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão 
profunda que a presença é pouco: quer-se absorver
a outra pessoa toda. Essa vontade de ser o outro
para uma unificação inteira é um dos sentimentos
mais urgentes que se tem na vida."
Clarice Lispector

Que o azul do seu olhar esteja sempre presente.
Feliz Aniversário!!!
Bjs, bjs, bjs,
Lagartixas

CHORE, GRITE, AME...


Para você MARIA INÊS, que embala e aquece.
 
Nossa Lagartixa cheia de Cor e Luz...


"Chore, grite, ame.
Diga que valeu, que doeu, que daqui pra frente só vai melhorar.
Perdoe, insista, ame novamente.
Não leve a vida tão a sério.
Descomplique.
Quebre regras, perdoe rápido beije lentamente.
Ame de verdade, ria descontroladamente e nunca lamente nada que tenha feito você sorrir..."
Vinícius de Moraes


Com dengo, presença e aconchego,
Feliz Aniversário!!!
Lagartixas