domingo, 15 de julho de 2012

A casa dos sonhos


“Quando nada mais fizer sentido, finalmente teremos começado a viver.”
O que queria dizer aquela frase, afinal? No entanto, não fora naquele momento que Joana conseguiu compreender o que ele havia dito. Na realidade, talvez ela nunca tenha conseguido entender o que Fabio dissera, mas com certeza a frase a deixou pensativa.
Os dois estavam presos na casa por conta da neve, que caía sem parar nos últimos três dias. A pior nevasca nos últimos anos, era o que se dizia. Joana estava exausta. Estava cobrindo todo o evento do Festival de Esportes de Inverno que acontecia na cidade, e a neve serviu para que pudesse pensar no rumo que sua vida havia seguido.
Jornalista esportista, como aquilo foi acontecer? Onde tinham ido parar os sonhos que cultivara praticamente durante toda sua vida? Com certeza, ela não conseguia responder com clareza qual havia sido o momento em que tinha desistido de desenvolver sua carreira e sua vida de acordo com aquele sonho de menina.
Fabio sabia exatamente quando isso tinha acontecido. E não porque julgar o outro é mais fácil; a clareza de Fabio só se dava por um simples detalhe: o desvio de rota de Joana acontecera no mesmo instante que o dele.
A princípio, a idéia de ficar longe da loucura do evento esportivo parecia a melhor opção. No entanto, já no primeiro dia Fabio percebeu que aquela casa acabaria revelando coisas que, depois de concebidas, mudariam por completo a vida do casal.
Os dois se conheceram na faculdade. Fabio já havia cursado Direito e Psicologia, mas sentia que nenhum daqueles cursos havia efetivamente contribuído com seu projeto individual: se compreender. Joana havia acabado o colégio não muito antes de Fabio desistir de sua segunda faculdade, e o encontro dos dois não poderia ter sido mais oportuno.
Fabio estava ficando exausto na sua busca de sentido. Tinha 24 anos na época, e não sabia se odiava ou amava o fato de ser tão diferente dos demais. De fato, sua compreensão e domínio da estrutura do mundo, bem como seus mecanismos e ferramentas, eram precisamente o vocabulário de Fabio. Alto, robusto e extremamente charmoso, a descrição física era o máximo que ele compreendia das pessoas.
Joana, por sua vez, era praticamente o oposto. Nunca havia levado sua formação acadêmica a sério, mas era capaz de compreender qualquer que fosse o assunto, desde que fosse de seu interesse. Apesar de não ter se empenhado no colégio, sua relação com os professores sempre tinha sido invejável: ela conseguia prever o que cairia nas provas simplesmente analisando a maneira que o professor falava do assunto.
Essa capacidade, aliada à sua desenvoltura e sensualidade, resultava numa pessoa extremamente cativante. Seu sonho era ser atriz, e já havia perdido a conta de quantos cursos já havia feito. Alta para uma mulher, Joana tinha o cabelo negro e curto, que junto com seus olhos azuis e radiantes seduziram Fabio logo no primeiro encontro.
O desenrolar da trama nada surpreende até chegarmos na casa coberta de neve: os dois se apaixonaram, dividiram sonhos e medos, fizeram planos e planos para o futuro mas acabaram esquecendo deles quando começaram a trabalhar como repórteres esportivos na maior emissora de televisão de sua cidade. O trabalho, com exceção do tema, agradava muito os dois: ganhavam bem, podiam continuar projetando seus sonhos e viajavam ao redor do mundo sem parar.
Mas e agora, que já estavam nisso há quase dez anos e mal se lembravam de tudo que queriam antes daquilo? O que havia dado errado, aonde foi que se perderam? E foi então que a conversa veio à tona:
“Fabio, você se lembra do que queria um dia antes de nos conhecermos? Quero dizer, você se lembra de quais eram os seus sonhos no dia anterior ao primeiro dia de aula de Jornalismo?”. Fabio já sabia aonde aquela conversa iria chegar, e francamente detestava ter que fazer esse balanço com sua própria vida. Pensou bastante antes de responder.
“Queria me descobrir e entender meus anseios, minhas motivações. Profissionalmente, queria qualquer coisa que me aproximasse de mim mesmo nessa busca. E emocionalmente, não tinha expectativas. Não conseguia imaginar me apaixonar por alguém mais novo que eu, mas de alguma forma também queria me surpreender nesse sentido. Minha arrogância da época jamais me permitiria assumir algo desse tipo, mas queria me entender. E até você, não sabia que o melhor jeito de conseguir isso é através do outro.”
“E hoje, você acha que conseguiu se entender?”
“Amor, no dia que te conheci entendi que isso não era algo que pode ser compreendido ou explicado. Ou se sente, ou não se entende.”
Joana se sentiu culpada por não sentir essa tranqüilidade. Queria poder dizer que lhe bastava a intimidade que tinha com o marido, mas ao mesmo tempo sentia que tinha fracassado em seu projeto individual em nome de uma vida a dois. Não que Fabio a impedisse de qualquer coisa, mas sentia que podia ter feito muita coisa diferente. Recomeçou:
“E você, não vai me perguntar a mesma coisa?”
“Joana, eu já sei a resposta. Já sei inclusive da sua aflição e do seu sentimento de fracasso. E sei que você se culpa por pensar assim, mas vê a nossa relação como uma potencial responsável pelo caminho que sua vida seguiu.”
A princípio, Joana negou. Se irritou, tentou argumentar o contrário, e depois, como num surto infantil, sentou no chão e começou a chorar. Chorava porque nada se encaixava. E foi quando Fabio disse aquela frase:
“Quando nada mais fizer sentido, finalmente teremos começado a viver.”
Joana se levantou e começou a socar Fabio, descompensada. E depois, soluçando, o abraçou e pôs-se a chorar. Como se o simples fato de Fabio ter sido o porta-voz de tamanha aflição o transformasse no culpado, e no segundo seguinte seu cúmplice para criar coragem e continuar a viver. Joana dormiu no colo dele, em meio ao seu choro descompensado e infantil.
A história do casal nunca foi bem vista pela família de Joana. Fabio tinha sido criado por sua mãe, que depois de se divorciar, nunca mais se relacionou com ninguém. Quando morreu, deixou uma herança significativa para o jovem Fabio, fruto de uma poupança do pai, que nunca conhecera. Essa aparente ausência de estrutura nunca agradou a família tradicional de Joana: pais, avós, irmãos, todos na mesma casa e todos muito dependentes entre si.
Escolher Fabio foi para Joana abrir mão daquela família para construir outra. Quando descobriu que não podia engravidar, três anos antes, pensou em se matar. Todos os seus cursos de interpretação não foram suficientes para ela se lembrar da primeira lição de todos eles: existe diferença entre a encenação e a vida real. No entanto, Fabio conseguiu mostrar para ela a semelhança entre as duas coisas: da mesma forma que construímos as características de uma personagem, construímos também as nossas próprias. As limitações, assim como as potencialidades, são precisamente as variáveis que nos diferem mas nos igualam. Não teve a chance de explicar seu raciocínio a Joana, mas certamente havia concretizado seu sonho de se entender.
É essa indefinição e ausência de sentido da vida que permite nos conhecermos. Mais do que isso, permite que nos alteremos de acordo com nossa própria vontade.

Quando Joana acordou, estava no sofá da sala com uma carta no seu colo:

“Querida,
Queria te dizer que tenho uma concepção muito simplista acerca da existência humana. Aprendi com você, ou melhor, com a nossa história, que alimentar um sonho que não condiz com os nossos nunca aproximará nossa realidade de nossos desejos.
Quero dizer que conquistei o que queria um dia antes de te conhecer. E sinto por ter dito diferente, mas hoje percebo que o meu sonho era conhecer alguém que me entendesse no meio de tanta indefinição. Quando falei aquilo sobre começarmos a viver a partir do momento que nada mais faz sentido, quis dizer o seguinte: só depois que reconhecemos a vida como uma completa indefinição que podemos defini-la de acordo com o que queremos.
Sou completamente apaixonado por você porque foi o seu jeito de ser que me mostrou tudo isso com tanta leveza. Mas não acho justo não poder te dar a chance de optar, seria muito egoísmo da minha parte. Sei que nossa relação é o que mais te prende na vida que levamos, e por isso quero que você tenha a chance de escolher como quer definir sua própria indefinição.
Estou com todas as minhas coisas na suíte 207 do Plaza Internacional. Se quiser trazer as suas e transformá-las em nossas, estarei esperando. Se não, espero que você aprenda a olhar para seus próprios sonhos e consiga aproximá-los da indefinida realidade.
Te amo,
Fabio."

No entanto, Joana nunca chegou a ler a carta. A nevasca daquela noite sucumbiu a casa muito antes que Joana despertasse. Ao menos foi o que Fabio me contou, quando finalmente o conheci. Casado com uma atriz, ele hoje é pai de três filhos adotivos e trabalha como escritor na mesa ao lado da minha. Com exceção do fato que trabalho em casa, e o único colega de trabalho que tenho aqui é o papel. Certamente, a vista da minha janela para o jardim, onde vejo meus filhos brincando, é minha maior inspiração.
Pelo menos foi assim que resolvi definir a minha vista, e certamente prefiro ocultar que na realidade estou apenas vendo o pátio do presídio.

By Caio Belintani, quero opiniões!


6 comentários:

  1. Antes de falar com vc, vou postar uma coisa que aprendi com a Joana Rodrigues: O que sente o leitor? O que pensou quando passou o olhar pelas linhas do conto?

    Busca, encontro, desencontro, sonho, realidade, verdades de cada um.

    O final me surpreendeu.
    Fui na linha do sonho da cinderela e no minuto seguinte, o "autor" me puxou o tapete e me tirou do sonho, mergulhei numa realidade cruel, que a vida não ordena - uma realidade selvagem.

    Bom Caio, muito bom!!!

    Nem só de "coelhos" vivem os mágicos. Coisas surpreendentes podem sair de suas mangas...

    Bjs,
    Lagarta Mãe

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  2. Vou comentar, mas ainda estou processando...esse final me arrasou...depois falamos.
    bjcas
    SIlvia Bejar

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  3. Caio,

    Que agradável surpresa!!!
    Exercício fantástico de criatividade, elaboração, bom uso do teu incrível potencial!!!
    Adorei a forma e to pensando sobre o conteúdo...
    Ta frio aí, né? Engraçado estraga pensando ontem em Londres, frio, jogos olímpicos... e vc acaba enrredando tua narrativa neste cenário. Muito, muito bom. Inspiração!
    Caio já falou com minha amiga, Orit?- se precisar que regale com ela, me diga,, ok?
    Continua, foi ótimo te ler...
    Bj grande
    Thais

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  4. " O que era realidade? O que era sonho? Quem foi que não aguentou a verdade?
    Uma vida tão perfeita.....jovens, ricos, bonitos , inteligentes...meio irreal.
    Muito bom Caio, final excelente, como diz o Cortazr- um conto para ser bom deve dar ao leitor um murro na cara- Vc conseguiu isso garoto.
    Bjo.

    MJ

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  5. Caio,
    Eu gostei muito do seu conto! Demorei para entender o Grand Finale!
    Achei fantástico, surpreendente não esperava isso.
    Agora, quem pirou na maionese?
    E preciso de confidenciar que esse momento da Joana (tô nele), é uma coisa de louco. Parece que estou na contra mão.
    Já disse e repito, você escreve muito bem!
    Se você precisa de ares londrinos para escrever, se inspirar, se achar; acredito que você sua imersão será um sucesso!
    Beijocas com carinho
    Sil Azul

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  6. Caiãotixo,
    Deixa eu ver se eu entendi, ele mata a mulher? É isso mesmo?
    Estou confusa...
    Adorei a parte da indefinição. Achei também que tem muito de você aqui... Muito muito!
    Seduz os professores, escreve o que eles querem que respondam... Você é uma mistura de Fábio e Joana certo?
    Fabiana! Messalina parte de jornalista esportivo tem mais a ver comigo... Rsrsrsrsrs. Nunca me esqueço de uma redação que vc fez quando estava no colégio... Impressionante!
    Gostei bastante desse!!! Você esta passando frio? Eu senti frio lendo seu conto cheio de nevasca... Quero saber se interpretei certo o final...
    Amo vc muito e estou com saudades!
    Milhões de beijos
    Ps- comecei a ler tia Júlia...
    Não para de escrever não!!!!

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