sexta-feira, 6 de abril de 2012

PAPÉIS INESPERADOS


"... e sente medo como sempre sentiu medo por si mesmo, você a vê partir tão frágil e branca numa bicicleta de fumaça, gostaria de estar com ela, alcançá-la em alguma curva e apoiar a mão no guidom e dizer que você também saiu, que você quer chegar ao sul,..." J.C.


(Escultura de David Gerstein)
(Por Cláudia Belintani)


DEPOIS É PRECISO CHEGAR
Julio Cortázar
(Por Maria José dedicado ao Sul, num dia frio)

Pode-se partir de qualquer coisa, uma caixa de fósforos, um golpe de vento no telhado, o estudo número 3 de Scriabin, um grito lá embaixo na rua, essa foto da Newsweeek, a história do gato de botas,

o risco está nisso, em que se pode partir de qualquer coisa mas depois é preciso chegar, não se sabe bem a que mas chegar,

chegar não se sabe bem a quê, e o risco consiste em que numa hora final você descubra que andou voou correu reptou quis esperou lutou e então, entre as suas mãos estendidas no esforço último, um prêmio literário ou uma mulher biliosa ou um homem cheio de apartamentos e de caspa

em vez do peixe, em vez do pássaro, em vez de uma resposta com fragrância de samambaias molhadas, cabelo crespo de uma criança, focinho de filhote ou simplesmente um sentimento de reunião, de amigos em volta do fogo, de um tango que resume sem ênfase à soma dos atos, à pobre e bela saga de ser homem.

Não há discurso no método, irmão, todos os mapas mentem menos o do coração, mas onde está o norte neste coração voltado para os rumos da vida, onde o oeste, onde o sul. Onde está o sul neste coração golpeado pela morte, debatendo-se entre cães de uniforme e horários de escritório, entre amores de interregno e lutos expedidos por cartão,

onde está a autoestrada que leve a um Katmandu sem cânhamo, a um Shangri-la em pactos de renúncia, onde está o sul livre de hienas, o vento da costa sem cinzas de urânio,

de nada vai lhe adiantar olhar em volta, não há onde aí fora, só esses ondes que inventam com plexigas e Guia Azul> O onde é um peixe secreto, o onde é aquilo em que em plena noite mergulha você na maranha equívoca dos pesadelos onde (onde do onde) talvez um amigo morto ou uma mulher perdida do outro lado de canais e de névoas o induzem lentamente à pior das abominações, à traição ou à desistência, e quando você sai desse pântano viscoso com um grito que o atira para este lado, o onde estava lá, havia estado lá em sua contrapartida absoluta para lhe mostrar o caminho, para orientar essa mão que só agora vai buscar um copo d´água e um calmante, porque o onde está aqui, e o sul é isto, o mapa com as estradas nesse tremor de náusea que sobe até sua garganta, mapa do coração tão poucas vezes escutado, ponto de partida que é chegada.

E na vigília também está o sul do coração, exaurido de telefones e primeiras páginas, encharcado no cotidiano. Você quer ir embora, quer correr, você sabe que pode partir de qualquer coisa, de uma caixa de fósforos, de um golpe de vento no telhado, do estudo número 3 de Scriabin, para chegar não sabe bem a quê mas chegar. Então, viu, às vezes uma garota sai de bicicleta, você a vê de costas afastando-se por um caminho (a Gran Via, King´s Road, a Avenue de Wagram, uma trilha entre álamos, uma passagem entre colinas?), bonita e jovem você a vê de costas indo embora, menor agora, escorregando para a terceira dimensão e indo embora,

e você pergunta se chegará, se saiu para chegar, se saiu porque queria chegar, e sente medo como sempre sentiu medo por si mesmo, você a vê partir tão frágil e branca numa bicicleta de fumaça, gostaria de estar com ela, alcançá-la em alguma curva e apoiar a mão no guidom e dizer que você também saiu, que também você quer chegar ao sul,

e sentir-se afinal acompanhado porque a está acompanhando, longa será a jornada mas lá no alto o ar é limpo e não há papéis nem latas no chão, de manhã no fundo do vale se desenhará o olho celeste de um lago. Sim, isso também você sonha acordado no seu escritório ou na cadeia, enquanto o aplaudem num palco ou numa cátedra, subitamente vê o rumo possível, vê a garota partindo na bicicleta ou o marinheiro com sua sacola no ombro, então é verdade, então há gente que vai embora, que parte para chegar, e é como um açoite de pombas que passa em seu rosto, por que você não, há tantas bicicletas, tantas sacolas de viagem, as portas da cidade ainda estão abertas,

e você esconde a cabeça no travesseiro, talvez chore. Porque, são coisas que se sabem, a estrada do sul leva à morte,
lá, como um poeta a viu, vestida de almirante espera, ou vestida de sátrapa ou de bruxa, a morte coronel ou general espera
sem pressa, gentil, porque ninguém se apressa nos aeródromos, não há cadafalsos nem piras, ninguém faz dobrar os tambores para anunciar a condenação, ninguém venda os olhos dos réus nem há sacerdotes que dêem um crucifixo para que a mulher amarrada na estaca o beije, isso não é nem Rouen e não é Sing-Sing, não é la Santé,

lá a morte espera disfarçada de ninguém, lá ninguém é culpado da morte, e a violência

é uma vácua acusação de subversivos contra a disciplina e a tranquilidade do reino,

lá é terra de paz, de conferências internacionais, de copas de futebol, nem mesmo as crianças vão revelar que o rei anda nu nos desfiles, os jornais falarão da morte quando souberem que está longe, quando se puder falar de quem morre a dez mil quilômetros, então sim falarão, os telex e as fotos falarão sem mordaça, mostrarão como o mundo é um necrotério fedorento enquanto o trigo e o gado, enquanto a paz no sul, enquanto a civilização cristã.

Coisas que talvez saiba a garota perdendo-se ao longe, já intangível silhueta no crepúsculo, e você queria estar e perguntar-lhe, estar com ela, ter certeza de que sabe, mas como alcançá-la quando o horizonte é uma linha vermelha única diante da noite, quando em cada encruzilhada há múltiplas opções enganosas e nem sequer uma esfinge para fazer as perguntas rituais.

   Terá chegado ao Sul?
   Irá alcançá-la algum dia?
   Nós, chegaremos?

   (Pode-se partir de qualquer coisa, uma caixa de fósforos, uma lista de desaparecidos, um vento no telhado -)

   Chegaremos algum dia?

   Ela partiu na sua bicicleta, você a viu a distância, não virou a cabeça, não se afastou do rumo. Talvez tenha entrado no Sul, viu-o sujo e golpeado em quartéis e ruas mas sul, esperança de sul,

   sul esperança. Estará sozinha agora, estará falando com gente como ela, olhando ao longe para ver se outras bicicletas desapontaram afiada?,

   (-um grito lá embaixo na rua, essa foto da Newsweeck-)

   Chegaremos algum dia?

   (Buenos Aires, 23 de novembro de 1977)
   Júlio Cortázar
   Texto para uma pasta de litografias de Oscar Mara

   Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht

2 comentários:

  1. É na violência do exílio que a dor aflora.
    Este poema (?) me foi oferecido pela MJ num dia frio. Frio de passear pelas geleiras da vida, de procurar sentir o cheiro doce do leite num focinho de filhote, de respirar o verde e viajar numa bicicleta de fumaça que de repente é amparada por borboletas que me enfeitam a sala e a vida. Um dia lagartas, um dia lagartixas.
    "Pode-se partir de qualquer coisa..." Meu Sul se ampara no Norte que forma nossa ciranda, nosso cordão de mulheres inquietas que buscam.
    Para vcs, meu conto de quarta-feira.
    Ele viajou com a gente para o retiro, mas reler o Sul me transporta sempre para algo além.
    Bjs,
    Cláudia

    ResponderExcluir
  2. MINHA QUERIDA, AS BORBOLETAS É QUE VEM ATÉ VC.
    ANDO PENSANDO...
    CITANDO PAUL VALERY:
    "HÁ MOMENTOS... EM QUE A SOLIDÃO E O SILENCIO SE TORNAM MEIOS DE LIBERDADE."
    FELIZ PÁSCOA
    BJS
    MJ

    ResponderExcluir