| Primeiro: Ele é um Gato... |
Dodô Azevedo
Por Cláudia Belintani
(Texto do Balcão)
Imagine um romance que pode ser lido de duas formas. Capítulo a capítulo, página dois depois da um e assim por diante ou seguir uma sugestão do autor: Ler o capítulo um, em seguida pular para o 62, de volta para o 13o, pula para o 44o e assim por diante. Imagine que, lido de um modo, é uma história. Lido de outro modo, é outra história. Tudo isso usando as mesmas palavras palas quais você passou antes.
Agora imagine um romance que se passa em Paris. Eu sei, existem milhares de romances que se passam em Paris. Mas imagine que se passa numa Paris de sonhos, em plena revolução cultural dos anos 60, uma Paris habitada por jovens estudantes expatriados, uma cidade impressionista, abstrata, com sua aura romântica descrita em detalhes, a ponto de você, ao final do livro, conhecer Paris com a palma das mãos.
Agora imagine um livro que conte a história de seis jovens amigos expatriados em Paris, cada um com sua nacionalidade, e que resolvem criar um clube que consiste em reunir-se e passar as noites ouvindo Jazz em deliciosas virtrolas velhas, bebendo Vodca à luz de velas, e discutindo pintura, literatura, filosofia, ética, estética equanto a chuva cai lá fora.
Agora imagine um livro que conta a história de amor entre um estudante argentino e uma estudante uruguaia, mãe solteira, sua convivência full-time nesta Paris romântica, e imagine as maiores trepadas da literatura moderna, as maiores discussões a respeito de relacionamentos, destino, e o amor, essa palavra.
Imagine também um livro que descreve as músicas que os personagens ouvem de um modo tão atraente que te torna imediatamente fã das canções citadas na história?
Por fim, imagine um livro que pretende reconciliar o homem com o seu tempo. Com a modernidade, com a obrigação em ser intelectual, em conhecer e dominar todos os assuntos. E reconciliar o homem com o espaço, investigando o sentimento de deslocamento e desterro tão na moda hoje em dia - vide o filme "Encontros e desencontros"?
Isso tudo é Rayuela, "O Jogo da Amarelinha", obra-prima do escritor argentino Julio Cortázar que pra muitos é o maior romance escrito em língua latina. É uma alusão aquele jogo que a gente jogava quando criança, quando tínhamos que andar casas pra frente para atingir o céu.
O Céu, para os personagens de Cortázar, é a paz existencial. Quem é existencialista, ou seja, quem de vez em quando se sente deslocado do mundo, que volta e meia passa por aquele momento de tristeza em saber que você não faz a menor idéia do que está fazendo "aqui", sabe que essa paz é impossível. E é justamente essa impossibilidade de paz, essa pretensão infinita e dolorida em compreender o mundo, que torna os personagens de Rayuela humanos como você e eu, esse jogo infantil de chegar ao céu que nos damos conta de que continuamos jogando pelo resto da vida.
Meu primeiro contato com Cortázar foi com "O Jogo da Amarelinha". No primeiro parágrafo, uma frase que é meu lema romântico até hoje: "As pessoas que precisam marcar encontros exatos são as mesmas que precisam de caderno pautado para escrever ou que apertam o tubo da pasta de dentes pela parte de baixo". - essa subversão existencial é predicado de todos os personagens parisienses do livro: Ronald, Gregorovius, Babs, Wang, Perico, e finalmente, o casal Horácio e Lúcia, a Maga. Eles, por falta de dinheiro para curtir a Paris glamurosa, criam "O clube da Serpente", reuniões diárias para passar a noite batendo papo sobre o céu, a terra, a água e o ar, beber vodca barata, aquecer-se do frio e ouvir Jazz.
A medida que ia avançando pelas páginas, fui tornando-me um membro do clube. Me apaixonei pela vodca barata, depois pela madrugada, e enfim, pelo Jazz. Cortázar é um dos maiores especialistas no assunto, mas seus personagens descrevem a música de Bessie Smith, Oscar Peterson, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald com o coração, tornado familiar para qualquer leigo as impressões que aquela música vai dar a eles.
Em pouco tempo a leitura de "O Jogo da Amarelinha" me isolou do mundo: passava a madrugada no quarto ouvindo Jazz no vinil, bebericando Vodca. Depois saía a rua para caminhar sozinho. "O Jogo da Amarelinha" ensina você a andar sozinho pela rua, em busca do conforto espiritual que primeiro encontrei na Vodca, e finalmente, como os personagens, no Jazz - "a música da metafísica".
Não há livro mais romântico que "O Jogo da Amarelinha". É um livro que nenhuma mulher deveria comprar. "O Jogo da Amarelinha" deve ser DADO a uma mulher por um homem, num ritual que dá sentido ao livro. Eu já dei mais de uma dúzia de "Amarelinhas" de presente. Uma pra cada mulher que achei que mereceu (quem sou eu, mas vá lá). Como dito no livro, é como sexo oral, só um beijo na boca dado por um homem que acabou de fazer sexo oral com uma mulher pode dar a ela a maior experiência de auto-conhecimento que uma mulher pode experimentar.
Ninguém trepa melhor em literatura como o casal Horácio e Maga. Ele, um jovenzinho metido a intelectual. Ela, uma jovem mãe solteira meio ignorante, mas capaz de conclusões sobre a vida mais valiosas que todos os outros personagens juntos. Estão todos por um fio, pronto para enlouquecer, os personagens parisienses de Rayuela. Quando você lê o livro, você dá voz e descarga aquela partezinha sua que está por um fio também. Faz catarse, análise, diabos, você economiza um dinheirão com a leitura das 800 páginas de "O Jogo da Amarelinha"
"O Jogo da Amarelinha" é um livro sobre amadurecimento. Sobre a superação de tudo isso descrito aí em cima. Cortázar escreveu o livro na Paris dos anos 60, quando explodia o movimento estudantil. Comiserou-se pelo espírito juvenil revolucionário mas compreendeu que o passo a frente, a casa posterior rumo ao céu da amarelinha riscada na calçada, era amadurecer, no caso do personagem principal, voltar para casa.
A segunda parte do livro se passa em Buenos Aires. No acerto de contas de quem volta pra casa, de quem vem fazer as pazes com suas raízes, com sua cultura. Amadurecer é voltar para casa. Cortázar nunca voltou para casa. Permaneceu em Paris até a sua morte, provavelmente porque seu objetvo era nunca chegar ao céu rabiscado na calçada, e sim continuar jogando amarelinha para sempre.
Leia o trecho do lendário capítulo 7 de "O Jogo da Amarelinha", quando Horácio observa Lúcia dormir ao seu lado, depois de uma noite de sexo maravilhosamente ressentido:
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
"E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."
ResponderExcluirAi meu Deus!!!!
Só esta frase já basta para acender a vontade de caminhar entre o céu e o inferno...
Bjs,
Cláudia enfeitiçada
claudia, o que dizer desse homem? que lindo que ele é, suas palavras, suas porçoes de sul e norte! beijos, d.
ResponderExcluirEle alucina.
ResponderExcluirVai ter casinha da Escandinávia na quarta e vc vai abraçar minha cria...
bj d.
Obrigada.
Agora nao temos mais desculpas...
ResponderExcluirtodas as lagartixas vao jogar amarelinha juntas.
estou ansiosa para começar...
bjos
Carla
Eu já estava convencida a ler esse livro há tempos...
ResponderExcluirEsse Dodô Azevedo me fez decidir começar...
A tia me deu acesso...
Agora é só mergulhar!
Beijo curioso!
Jú.
tá na minha lista desde o ano passado. depois de ler uma das melhores resenhas sobre um livro, percebi que a melhor coisa a se fazer é tirar o exemplar da estante e viajar na leitura. excelente texto!
ResponderExcluir