segunda-feira, 5 de março de 2012

Um pouco de Melanie Klein


Melanie Klein - "tudo tem Dois lados..."

A psicanálise kleiniana, como qualquer outra, mas mais decisivamente do que em muitos outros casos, nos exige fazer a diferença entre a criança e o infantil. (...) A "criança" é uma categoria eminetemente temporal: a criança esta no tempo e, por isso, um belo dia a infância já ficou para trás. O "infantil" permanece, embora ele também seja objeto de transformações e elaborações. (...)
"E é desse infantil que se trata no que mais chama a atenção de todos os leitores de Klein: a força da libido, da destrutividade e do superego está na raiz da crueza conceitual e imagética de seus relatos, o que provoca um contato de início insuportável com as fantasias e os desejos mais arcaicos, gerando uma inevitável onda de resistência. (...)
Depois do grande choque que fora a descoberta freudiana da sexualidade infantil, Melanie Klein introduziu um horror maior ainda, ao descrever o cortejo do corpos despedaçados e outras fantasias sádicas, isto é, a avalanche de imagens do infantil que invadiram a cena analítica, colocando-nos em contato com a criança em sua onipotência, sua raiva, seu desespero, seu desamparo, seu abandono, seu combate com os fantasmas, os bons e os maus objetos introjetados, triturados, destruídos ou hipostasiados. Combate com o anjo, combate com o demônio, combate com as imagens, estes inatos que se constroem, evoluem e não deixam em paz, que nenhum exorcismo será, jamais, capaz de abolir." (Smirnoff, p 88)
(...) Entretanto, por meio de Melanie Klein aprendemos a reconhecer a mesma incomensurabilidade nas potências destrutivas. Desejo de atacar, destruir, picar, esquartejar, engolir e defecar o obejto como se fosse um simples dejeto. Essa fantasmagoria que levou Lacan a chamar Melanie Klein de "açougueira inspirada" é o aspecto de sua obra que nos dá acesso à violência e ao grotesco do pulsional "que não tem sossego, nem nunca terá". Essa autora nos convida a deixar de lado nossos preconceitos estéticos e a necessidade de uma bela teoria, e nos chama a fazer com ela precisamente isso: um movimento de rebaixamento,de degradação do que é abstrato para o plano material e corporal. (...)
"Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão com a terra em um movimento concebido como um princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de nascimento: quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente: mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor. Degradar significa entrar em comunhão com a vida da parte inferior do corpo, a do ventre e dos órgãos genitais, e portanto com atos como o coito, a concepção, a gravidez,o parto, a absorção de alimentos e a satisfação das necessidades naturais. A degradação cava o túmulo corporal para dar lugar a um novo nascimento. E por isto não tem somente um valor destrutivo, negativo, mas também positivo, regenerador: é ambivalente, ao mesmo tempo negação e afirmação. Precipita-se não apenas para baixo, para o nada, a destruição absoluta, mas também para o baixo produtivo no qual se realizam a concepção e o renascimento e onde tudo cresce profundamente. O realismo grotesco não conhece outro baixo: o baixo é a terra que "dá vida", o seio corporal: o baixo é sempre o começo." (Texto de Bahktin)

Trechos do livro Melanie Klein- estilo e pensamento

6 comentários:

  1. Em homenagem a semana da mulher.
    Com carinho,
    Carla

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  2. Só podia ser uma mulher para se inserir na terra desta forma.
    Com vermes, dejetos, enraizar-se e ... dar vida.
    "Concepção e Renascimento" onde tudo cresce profundamente.
    O menino do conto da Clarice que a Maria Inês nos trouxe fala sobre isto. "O Menino" da Lygia odeia com nojo a mãe e renasce para o pai. O instinto primal é abafado, não aceito. Toda criança é tida como "anjo", sem pecado. Porém, a natureza é má, a Graça vem com o reconhecimento dela.
    Bj e obrigada dona futura Melanie.
    Cláudia

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  3. Carlinha, como disse sua mãezinha no comentário acima, só uma mulher pra admitir a maldade sem medo de se expor. nós, mulheres, não temos medo de mostrar o que sentimos, por isso às vezes nos damos mal. mas esse mal sabe ser doce também. beijos minha doce menininha, d.

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  4. Acho que um dia poderemos chegar a atingir a Graça, aí então seremos seres plenos. Acrdito nisso, que um dia conseguiremos dar um salto tão alto que chegaremos a ser aquilo que talvez, eu creio, fomos planejados para ser.Não precisaremos mais nos arrastar no chão.
    Não sou uma pessoa otimista achando que o mundo é um lugar bom, muitas vezes acho que não temos solução. Mas algo, muito lá dentro de mim, me diz que é possível.
    Acho que sou uma pessimista louca.

    Bjos.

    M José

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    1. rs rs rs...
      Minha louca linda, vc é a pessoa que mais acredita na "Graça" que conheço.
      A ponto de iluminar uma casinha inserida no sexto andar da Lapônia Paulistana.
      Bj minha Maga cheia de Graça.
      Cláudia

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  5. Também acho que reconhecendo o nosso lado malvado, podemos estar em contato com a graça.
    Admitir que temos isso como nossa natureza exige coragem...
    Essa casinha da Lapônia nos faz olhar para nosso eu de uma maneira menos exigente e menos critica.
    Abrir a porta dos fundos, olhar o que tem lá dentro e aceitar.
    Aceitação de nós mesmos diante de tanta coisa que nos envergonha...
    É tão bom poder dividir, acho que é isso que Melanie diz quando temos que "pensar as feridas" em outro texto de sua autoria.
    Beijo grande a todas, com um poquinho de escuro e luz

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