domingo, 4 de março de 2012

SHALIMAR - O EQUILIBRISTA

Noite da Poltrona da Margaret - Salman Rushdie

Meninas, olha eu aqui outra vez... e desta para cumprir a promessa de enviar os trechos do livro que li há algumas semanas atrás na poltrona.

Bjs, espero que curtam.

Deixo para nossa querida líder/blogueira-mor Claudia postar direitinho e bonitinho "comme il faut"... rsrssr

margaret

Trechos do livro Shalimar, o equilibrista

Salman Rushdie


Cap. 1. Índia

“Aos vinte e quatro anos a filha do embaixador dormia mal nas noites quentes e sem surpresas. Acordava com freqüência e mesmo quando o sono vinha seu corpo raramente estava em repouso, debatendo-se, agitado, como se quisesse libertar-se de horríveis algemas invisíveis. Às vezes era assustador como gritava numa língua que não falava. Homens haviam lhe dito isso, nervosos. Não eram muitos os homens que tiveram permissão de estar presentes enquanto dormia. As provas eram, portanto, limitadas, não havia consenso; porém um padrão veio à tona. Segundo um relato ela soava gutural, glótico-explosiva, como se estivesse falando árabe. Árabe-noturno, pensou, a língua de sonho de Sherazade.

....

Uma noite, com espírito de pesquisa, a filha do embaixador deixou o gravador ligado ao lado da cama, mas quando ouviu a voz na fita, aquela feiúra mortal, que era, de alguma forma, ao mesmo tempo familiar e alheia, ficou muito assustada e apertou o botão de apagar, que não apagou nada. A verdade ainda era a verdade.

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Então até a morte de seu pai, ela não fora uma mulher fácil de se dormir junto, embora fosse uma mulher com quem os homens queriam dormir. A pressão do desejo dos homens lhe era cansativa. A pressão de seus próprios desejos era em grande parte não aliviada. Os poucos amantes que havia tido eram de várias maneiras insatisfatórios e, assim, como que para declarar encerrado o assunto, ela logo limitou-se a um sujeito bem mediano e chegou a considerar seriamente a proposta de casamento dele. Então o embaixador foi massacrado na porta de sua casa como uma galinha para o jantar, sangrando até morrer por causa de um profundo ferimento no pescoço, feito com um único golpe da lâmina do assassino. Em plena luz do dia!

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Seu nome era Índia. Ela não gostava desse nome. Ninguém se chamava Austrália, chamava? Ou Uganda, ou Peru. Em meados dos anos sessenta, seu pai Max Ophuls, fora o mais querido, e depois o mais escandaloso, embaixador americano na Índia, mas e daí? As crianças não eram punidas com nomes como Herzegovina, Turquia ou Burundi, só porque seus pais tinham visitado essas terras. Ela havia sido concebida no Oriente – uma filha ilegítima nascida em meio a uma fogosa tempestade de ultraje que destruíra o casamento de seu pai e encerrara a sua carreira diplomática – mas se isso fosse desculpa suficiente, se fosse legal carregar o fardo de ter como nome o local de nascimento, então o mundo estaria cheio de homens e mulheres chamados Eufrates, Pisga, Wulumulu

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Em seu aniversário de vinte e quatro anos, o embaixador veio à sua porta. Ela olhou da sacada do quarto quando ele tocou lá embaixo e viu que estava esperando no calor do dia, usando aquele absurdo terno de seda como um coronel francês. E ainda um buquê de flores. “Vão pensar que você é meu amante”, Índia gritou para Max, “o namorado que vai me seqüestrar do berço”. Ela adorava quando o embaixador ficava embaraçado, o dolorido franzir da testa, o ombro direito subindo para a orelha, a mão levantada como que para aparar um golpe. Ela o viu se decompor em um arco íris de cores pelo prisma de seu amor.

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Ele mandou o motorista subir com as flores e ficou esperando Índia embaixo. O novo motorista. Com seu jeito cuidadosamente desapaixonado, Índia notou que esse era um homem bonito, até belo, quarenta e tantos anos, alto, tão gracioso de movimentos quanto o incomparável Max. Andava como se estivesse na corda bamba. Havia dor em seu rosto e ele não sorria, embora tivesse rugas de riso em torno dos olhos e olhasse para ela com uma intensidade não procurada que parecia um choque elétrico.

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O motorista desviou dela o olhar e olhou para o chão. Ele era, disse numa entrecortada resposta à pergunta dela, da Caxemira. O coração dela deu um salto. Um motorista do paraíso. O cabelo dele era um riacho de montanha.

...

O motorista desflorado esperou pacientemente ao lado do elevador, segurando a porta. Ela inclinou a cabeça para agradecer. Notou que as mãos dele estavam trêmulas., os punhos cerrados. As portas fecharam e eles começaram a descer.

O nome pelo qual atendia, o nome que ele disse quando ela perguntou, era Shalimar. Seu inglês não era bom, apenas funcional. Ele provavelmente não entenderia essa expressão: apenas funcional. Tinha olhos azuis, pele de um tom mais claro que a dela, cabelo grisalho com uma lembrança de loiro. Ela não precisava saber sua história. Não hoje. Outro dia perguntaria se eram lentes de contato azuis, se aquela cor de cabelo era natural, se ele estava afirmando um estilo pessoal, ou se era um estilo imposto a ele pelo pai dela, que a vida inteira soubera fazer tais imposições com tamanho charme que as pessoas as aceitavam como se fossem idéias delas próprias, autênticas. Sua mãe falecida também era da Caxemira.

......

Shalimar da Caxemira. Ele era legalizado? Tinha os documentos? Tinha carteira de motorista? Por que havia sido contratado? Tinha um pau grande, um pau que valesse a pena ver em um hotel tarde da noite? O pai dela perguntara o que ela queria de presente de aniversário. Ela olhou para o motorista e por um momento quis ser o tipo de mulher capaz de fazer a ele perguntas pornográficas, ali mesmo no elevador, segundos depois de terem se conhecido; capaz de falar indecências para aquele belo homem, sabendo que ele não entenderia uma só palavra, que ele daria o sorriso concorde  de empregando sem saber com que estava concordando.

.....

Ela havia sentido que o motorista quisera tocá-la no elevador, sentira seu desejo choroso. Isso era intrigante. Não, não era intrigante. O que era intrigante era que a necessidade dele não desse a sensação de ter uma carga sexual. Ela sentiu-se transformada em uma abstração. Como se, querendo encostar a mão nela, ele esperasse atingir alguém mais, através de dimensões desconhecidas, de memórias tristes e acontecimentos perdidos. Como se ela fosse apenas uma representante, um signo. Ela queria ser o tipo de mulher capaz de perguntar a um motorista: quem é que você quer tocar quando quer tocar em mim.? Quem, quando você se abstém de me tocar, não está sendo tocada por você? Toque-me, ela queria dizer para aquele sorriso de não compreensão, serei seu condutor, sua bola de cristal. Podemos fazer sexo no elevador e nunca mais falar nisso. Quando trepar comigo, você vai estar trepando com ela, seja ela quem for ou foi, não quero saber. Não vou nem estar aqui, serei seu canal, seu médium. E o resto do tempo, esqueça, você é empregado do meu pai. Ela não dissera nada para o homem dolorido de desejo, que não teria mesmo entendido, a menos claro, que entendesse, ela realmente não sabia do nível das habilidades lingüísticas dele, por que estava fazendo essas suposições, por que estava inventando essa história, soando ridícula? Saíra do elevador, soltara o cabelo e fora para a rua.

Era o último dia que ela e o pai passariam juntos. Na próxima vez que o visse, seria diferente. Essa era a última vez.”

6 comentários:

  1. Margaret:

    O elevador ficou em mim.

    Foi uma noite linda.

    Obrigada,
    Bj,
    Cláudia

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  2. Margaret, Ma, Margarida, Margy, Margaretchi, Mágui, Morgana, Morgause, Melanie, Manga e "Índia" (vc me remete à personagem do elevador, sua sede, seu olhar,seu desejo, sua paixão pelo seu pai, seu sonho inserido no outro criando um quadro cheio de vida e de luz).

    Vou ler "Shalimar, o equilibrista", da Caxemira, um condutor que nos leva ao Paraíso, que tem um riacho de montanha por trás do pensamento, que foi talhado na Terra da Mãe.

    Aliás, nossa confraria é composta de mulheres multifacetadas, sombra, luz, doce, sal, vida, morte, fadas, sacerdotisas, anjos e demônios, dia, noite, madrugada e v i d a ...

    Bj minhas meninas e obrigada por acender meus balões e me levar para "longe, muito longe, onde o sol da beleza do mundo se esconde..."
    Cláudia

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  3. interessante a história se passar no elevador, que é ao mesmo tempo um ambiente formal, mas do qual não se tem como sair por conta própria. sendo assim, o pensamento voa, como quem está em transe. muito interessante esse autor, adorei doce margy! beijos, d.

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    1. d, o elevador despenca, vai para o fundo, desaba num segundo e quando a porta se abre, o Norte invade o momento mágico e entorna a realidade.
      Bj
      Cláudia

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  4. Uau!!!!! Adorei isso Claudia.

    M José

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  5. Esse negócio de elevador é danado. Da muitas idéias...fobias, vontades, desejos (alías acho que o desejo prevalece sempre), gostei muito desse livro acho que devemos ler!
    Valeu Margy!
    A ilustração ficou bárbara Cláudia!!!
    bjcoas
    Silvia

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