quarta-feira, 21 de março de 2012

THOMAS MANN




"Desejo de Felicidade"
Thomas Mann
Por Adri Felden

Esta é a primeira história de Thomas Mann que tematiza o artista, aqui tratado sob a perspectiva do modernismo literário e da sátira social. A história traz em germe muitos dos motivos importantes que perpassam sua produção ficcional: o artista como produto exótico da mistura de sangue (Tonio Kroger), o artista como um moralista da perfeição (Morte em Veneza), a vida do artista contada por um colega de escola (Doutor Fausto). O título contém um estranho eco da noção nietzschiana de força vital, a "vontade de poder". Na visão de Mann, o artista deve morrer para viver na arte; e a "vontade de poder" do artista exclui a possibilidade de felicidade pessoal.

Publicada pela primeira vez em Simplicissimus, edições de 22 e 29 de agosto e 5 de setembro de 1896. Primeira publicação em livro em Der Kleine Herr Friedemann: Novellen (O pequeno senhor Friedemann: Novelas), Berlim, 1898.

Principais Obras (Por Javier Cercas Rueda):



Kröger e a vocação artística
Tonio Kröger é a imagem do artista que sofre, sobre o qual pesam, com a mesma intensidade, a sua própria existência e o mundo exterior. Sente de um modo mais profundo e intenso do que qualquer outra pessoa, dispõe do poder mais sublime da terra, o da palavra e o do espírito, que o torna mais perfeito, selecto, delicado, subtil, que se irrita contra tudo o que é banal, extremamente sensível em questões de delicadeza e gosto.
Em vez de representar o humano deve renunciar a fazer parte dele e interroga-se: «Pode afirmar-se, sem qualquer restrição, que o artista é um homem?». Mais adiante: «Quem me dera poder viver e amar as coisas na sua ditosa vulgaridade sem a maldita razão e sem o tormento da criação da criação artística». É o drama da solidão e da extravagância. Sem dúvida que esse foi, em boa parte, o caso de Thomas Mann e de outros escritores (não de estranhar que estas afirmações entusiasmem um sofredor por vocação, como o foi Kafka).


 
"Os Buddenbrook
A decadência de uma família e a da sua empresa ao longo de várias gerações. O talento artístico dos últimos descendentes vai substituindo a energia dos fundadores. É o romance de Mann mais próximo da realidade e, por esse motivo, o mais vibrante e, talvez, o de maior êxito popular. É um retrato do ambiente feito com uma perspicácia implacável e, por sua vez, um magistral estudo psicológico das personagens. A vivacidade de Johann dá lugar à melancolia de Jean, daqui ao perfeccionismo voluntarioso de Thomas, homem cheio de ambição que só poderá transmitir ao seu herdeiro, Hanno, a quarta geração, um carácter sensível e doentio, mas dotado para a arte do que para a acção.
O estilo é o mesmo dos outros romances, elaborado e elegante, mas há uma série de ideias que se tolera mais; paixões e personagens mais próximas da realidade e um tom menos ensaísta. Para Faulkner, leitor pouco dado a excessos nos seus comentários, trata-se do melhor romance do século XX.



Uma pequena obra-prima
A Morte em Veneza em que é narrado o triste final de um escritor maduro, austero e admirado, dedicado unicamente ao seu trabalho intelectual. A meio de uma viagem, a visão do menino polaco Tadzio, destrói, em poucos dias, a ordem ético racional que o mantinha. Não chega a tocar-lhe nem trocam uma palavra, mas descobre que na sua vida existem mais coisas do que aquelas que os outros admiram. Razão, ordem e valores contra os instintos.
Na sequência da publicação dos Diários de Mann não restaram dúvidas sobre a origem da inspiração para escrever esta obra. Nos Diários, Thomas Mann expõe o quanto sofreu, toda a sua vida, por causa das suas paixões por rapazes jovens, impulsos que manteve sempre, mas num registo platónico. (Adri, este negrito é meu.)



A Montanha Mágica
Hans Castorp é um jovem que vai visitar o seu primo a uma sanatório suíço em Davos. Hans deveria permanecer algum tempo com esse seu primo. Essa estada no sanatório que, em princípio, era para ser de três semanas, foi-se prolongando até sete anos. Algumas das pessoas que conhece contribuem para aumentar as suas inquietações intelectuais e para moldar a sua personalidade: o italiano Settembrini, directo e provocador, o jesuíta Naptha, a senhora Chaucat, por quem se apaixona. O tempo tem outra dimensão lá em cima e a variada sequência de refeições, passeios, tratamentos, conversas e reflexões concedem um valor desconhecido a todas as coisas cá de baixo aos olhos do ainda moldável Castorp, transbordante (pletórico), pela primeira na sua vida, de ímpetos morais. O estilo é perfeito e pormenorizado até à minúcia, as descrições são extensas e cheias de profundidade e conteúdo as longuíssimas conversas Castorp-Settembrini-Naptha. Humanismo, civilização e democracia perante a religião, totalitarismo e comunismo.
Seria infindável enumerar os assuntos tratados neste romance, em que a própria narrativa já não tem a ver, directamente, mais com algum deles, mas com o tempo, a morte, ou as relações interpessoais.
Doença, dor, botânica, honra; Naphta, opositor, na altura, do republicanismo ateu e mação do hábil Settembrini, debate a metafísica, a história, a economia, a teoria do conhecimento; mais ainda: o espiritismo, anti-semitismo, guerra. Estão em confronto, mundo, duas forças, a razão, a ciência e o direito contra a força e a superstição; a liberdade contra a tirania, movimento e progresso contra o conservadorismo. É o que se debate durante todas as conversas, nas quais se analisam as consequências desta luta nos campos do amor, da política ou da arte; isto tudo com um brilhantismo que se pode esperar de personagens tão bem preparados como o seu próprio criador e que já estão livres das preocupações dos de cá de baixo, distância que refina a sua lucidez sem diminuir o seu entusiasmo (teórico) por cada uma das questões.
É um romance de dimensões que pode espantar qualquer um, sobretudo quando o rigor e a elevação intelectual do seu riquíssimo conteúdo nos deixam, praticamente, sem respiração. Apenas uma declaração de amor, um suicídio e um duelo é pouco conteúdo para mil páginas. Aqui encontramos um Thomas Mann exuberante, com personagens e temas de sobra, gigantesco como a montanha em que os situa, que nos diz que estamos perante um «romance de formação», que nada tem a ver - e assim é realmente - com um romance no sentido habitual do termo.



Doktor Faustus
Adrian Leverkhün (1885-1941) é o fruto da sua imaginação mais amado por Thomas Mann. Serenuns Zeitblom conta a vida do compositor por quem sente uma exaltada e inabalável devoção. Adrian revela, desde jovem, um grande talento para a música, com preferência pelos sistemas e matemática, com arrogância em relação aos outros e indiferente a quase tudo.
Os méritos naturais não são devidos a ele próprio, são dons de Deus que o demónio se encarrega de fazer esquecer; se não formos humildes, a complacência para com o outro torna-se ingratidão para com aquele que nos dá esses dons. Adrian é advertido mas não faz caso e estabelece pactos com Satanás que aperfeiçoa o seu talento cobrando, no entanto, um preço muito elevado.
O demónio e a sua relação com o génio (com o louco, com o artista, com o criminosos), a luta entre o bem e o mal, a tentação, o talento, a liberdade; o alemão, a afirmação do carácter nacional, os judeus, a religião, a moral (no sentido mais espiritual do que ético) formam os ingredientes do romance mais intelectual de um escritor de romances de ideias, embora consiga agradar mais no plano romanesco do que A Montanha Mágica. A Montanha Mágica é um romance extremamente interessante e digno de ser estudado, mais duvido que se deva analisá-lo em termos de gostar ou não. O Doktor Faustus tem, a esse nível, mais força. O mistério da vida de Leverkhün fica a conhecer-se a partir da metade do livro, mas a personagem consegue cativar: fica-se com curiosidade de saber em que é que vai dar a sua natureza enigmática, a atmosfera tensa e de solidão que o torna tão atraente como inacessível aos outros."

Um comentário:

  1. Gênio é gênio.
    O cara tinha apenas 21 anos e o embrião de todas as suas obras já estavam inseridos nele.
    Neste conto, vemos um prenúncio de tudo o que Thomas Mann escreveria ao longo de sua vida.
    A paixão secreta pela morte, o "poder" de controlar a vida; o amor casto, distante, consumado numa única noite; a arte como um dom que o imortalizava, tendo que se diferenciar dos demais e abrir mão dos desejos mortais; o pacto com o diabo de poder controlar a própria morte; a burguesia- nota-se uma aristocracia nos gestos do protagonista; o menino fóbico que não podia ser contrariado em seus desejos e a tormenta da percepção do desejo pelo mesmo sexo.

    Muito bom!!!
    Obrigada Adri.
    Bj,
    Cláudia

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