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| Esbarrar em Limites, Transcender, Alterar... Nós. |
Um Supermercado na Califórnia
Allen Ginsberg
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras a noite! Corredores cheios de maridos!
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em uma hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite? (Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
(Tradução de Cláudio Willer )
Na mitologia grega Lete é um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem ou até mesmo tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento.
Na mitologia grega, Caronte é o barqueiro do Hades,
que carrega as almas dos recém-mortos sobre as águas dos rios Estige e
Aqueronte que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Uma moeda
para pagá-la pelo trajeto, geralmente um óbolo ou danake, era por vezes
colocado dentro ou sobre a boca dos cadáveres, de acordo com a tradição
funerária da Grécia Antiga. Segundo alguns autores, aqueles que não
tinham condições de pagar a quantia, ou aqueles cujos corpos não haviam
sido enterrados, tinham de vagar pelas margens por cem anos. No mitema
da catábase, alguns heróis - como Herácles, Orfeu, Enéas, Dioniso e
Psiquê - conseguem viajar até o mundo inferior e retornar, ainda vivos,
trazidos pela barca de Caronte.
Ficou ainda mais conhecido mundialmente a partir das citações inseridas no enredo do filme Sociedade dos Poetas Mortos.
Na série No Fim do Mundo, alguns poemas de Leaves of Grass são lidos na rádio local, originando uma disputa entre o locutor e o proprietário da rádio a propósito das supostas inclinações sexuais de Whitman e da conotação sexual da obra.
Fernando Pessoa escreveu um poema de nome "Saudação a Walt Whitman".
"Introduziu uma nova subjectividade na concepção poética e fez da sua poesia um hino à vida. A técnica inovadora dos seus poemas, nos quais a idéia de totalidade se traduziu no verso livre, influenciou não apenas a literatura americana posterior, mas todo o lirismo moderno, incluindo o poeta e ensaísta português Fernando Pessoa."

Minha Lagarta Beat, que viagem!!!
ResponderExcluirObrigada pela noite e por inquietar...
Bj,
Claudia
Saudação a Walt Whitman
Álvaro de Campos/Fernando Pessoa
” . . .
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça para baixo, pendurado numa especie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inaccessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma…
Passo sem explicações…
Se fôr preciso metto dentro as portas…
Sim – eu franzino e civilizado, metto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilisado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que ha de passar porforça, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Mettam-me em gavetas essas emoções!
D’aqui pra fóra, politicos, literatos,
Comerciantes pacatos, policia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espirito que dá a vida.
O espirito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fóra até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é comtigo, deixa-me ir…
É commigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
. . . “
Fragmento do Magnífico Poema do Mestre Fernando Pessoa
Não é demais?!
ResponderExcluirLindo esses links que fazemos...agora temos muito mais a estudar.
Obrigada Cláudia pela postagem e imagem novamente. Será temporário esse tramite.
Bjkas
Sil Azul