domingo, 19 de agosto de 2012

EM NOME DO PAI


Segundo Elisa Maria, as angústias chamavam a atenção de Klein. Após absorver tudo o que podia de Freud, ela criou uma teoria que focalizou em duas angústias básicas: a de ser perseguido e a de perder. "A questão da perda, talvez, centralize a obra dela", diz.

A TERCEIRA MARGEM DO RIO

Elisa Maria de Ulhôa Cintra

A partir do impacto produzido pelo atentado terrorista contra os Estados Unidos faz-se uma reflexão sobre a violência, o ódio e a intolerância usando o referencial psicanalítico de Melanie Klein e algumas idéias de Lévinas.
A metáfora da “terceira margem do rio”, retirada de uma história de Guimarães Rosa, é usada para pensar a parentalidade como “atividade de ser e de dar ser, de destinar a ser, de deixar o outro ser”.

Palavras-chave: Violência, Melanie Klein, alteridade, Lévinas

Neste terceiro milênio, ele mandou matar as americanas porque elas não cobrem o rosto, fumam, bebem, falam de igual para igual com os homens e ainda, suprema ousadia, escolhem os seus próprios parceiros sexuais, não se submetendo a casamentos arranjados pelo clã. Quem achar que aqui há exagero pode consultar os manifestos denunciando os maus-tratos contra as mulheres afegãs que circulavam pela Internet... (José Nêumane, O Estado de S. Paulo, 10.10.2001, p. A2.).


O recente atentado terrorista nos Estados Unidos levou-me a pensar que o trabalho mais importante para combater a expansão do ódio em escala mundial é um persistente e profundo trabalho do pensamento que possa expor e desmontar a lógica que sustenta o fundamentalismo1 e as práticas terroristas. Comparo este trabalho do pensamento à força milenar da erosão da água sobre a pedra: quanto mais dura for a rocha tanto mais surpreendente é este insidioso poder de amolecer e dissolver. Penso na terra fértil com seus lençóis freáticos, suas reservas de água que promovem o milagre da germinação. Penso em alguns momentos singulares de contato com o outro e com a sua alteridade.

Estava mergulhada em devaneios, antes de escrever este texto, quando uma pessoa muito querida veio me falar da “água da palavra” em uma canção de Caetano Veloso, A terceira margem do rio. “Mas este não é o título de uma história de Guimarães Rosa, naquele livro Primeiras estórias?” – perguntei-me. Sim, exatamente. A canção foi composta pensando na história de um pai de família que resolve retirar-se do convívio familiar adentrando-se em um horizonte invisível: terceira margem do rio.
Terceira margem do rio? Onde fica? É no meio da travessia? É um espaço transicional, lugar de possíveis? Para onde foi, o pai retirou-se da tagarelice, da positividade da presença? Retraiu-se para dar lugar ao outro, à sua alteridade? Questões que ficam por responder. Por enquanto, alguns versos esparsos da canção de Caetano: “Água da palavra, água calada pura. Água da palavra, água de rosa dura. Proa da palavra, duro silêncio, nosso pai. Margem da palavra. Entre as escuras duas Margens da palavra Clareira, luz madura Rosa da palavra Puro silêncio, nosso pai”.

Sou muito grata a esta pessoa que me apresentou o horizonte poético para pensar sobre ódio e intolerância. Desde este instante, sentia, à medida em que redigia, a força persuasiva, refrescante, correndo por trás das letras e pensamentos. Água da palavra. Misterioso poder de mitigar a sede e fazer brotar pensamentos. Havia encontrado a terceira margem e um rio de água viva surgia do encontro com o outro.

O OUTRO ENCONTRO

Chegara ao consultório, como em tantas outras sextas-feiras, para o habitual horário. Comecei a escutar a palavra daquele homem, a sua dor, o ritmo lento, pausado, de deixar sair as palavras da garganta de pedra, da garra impronunciável que nos mantém isolados uns dos outros. Algumas palavras começaram a pingar como chuva leve batendo com firmeza no chão, originando sons agudos de “tes” e “tus”, “other-ness”, “al- ter-idade”, batendo sobre a pedra como antimísseis da paz, ressoando, ecoando. Comecei a prestar atenção na música deliciosa, frágil, sobre a pedra dura que se amolecia embaixo, que vergava para o fundo. Eu me sentia derretendo por dentro sem saber ainda o que aquilo significava, mas podendo sentir o trabalho de dissolução de antigas certezas e algumas dores infantis e solitárias. Minhas fomes insaciadas cediam, o sentimento de humilhação e a opressão da necessidade experimentada, tudo, enfim, que tinha o poder de fazer de mim uma terrorista em potencial, tudo isto cedia. O ressentimento ia vergando sob o peso daquela água, e eu me sentia deliciosamente incapaz de detê-la. A palavra daquele homem era como uma água profunda e fecunda que fazia brotar certas reservas milenares de emoção: eu era simplesmente a sede daquele misterioso acontecimento. Como é possível ter tanto poder a palavra? Lavra silenciosa, sulco, marca Água da palavra, sopro da palavra. Capaz de dissolver um mundo e de fundar um outro. Senti que se não fizesse esse trabalho da palavra, se não o fizesse logo e com a maior urgência, estaria contribuindo pessoalmente para aumentar a violência do mundo.

Elucidar a própria violência é apenas parte do esforço maior que visa elucidar a violência infiltrada na lógica fundamentalista que conduz aos atos de terror. A questão é muito ampla e merece que se reúna tudo que foi, até hoje, pensado sobre a inesgotável violência dos homens e a dificuldade de lidar com o outro sem imediatamente querer assimilá-lo e devorá-lo para dentro das próprias crenças e valores.2

MELANIE KLEIN AJUDA A ELUCIDAR A VIOLÊNCIA

Neste sentido, o pensamento de uma psicanalista como Melanie Klein, que se debruçou de modo sistemático sobre a questão da agressividade e do ódio, tem sua contribuição a dar para esta elucidação. Um amigo me havia dito que depois da destruição e das mortes daquela terça-feira de setembro, eu podia dizer aos meus alunos que Melanie Klein tinha boas razões para ter construído sua teoria em torno do fenômeno do ódio e da destrutividade que arde incansavelmente nas mentes e corações.

Nestes tempos sombrios de terror e fundamentalismo a ênfase dada por ela à destrutividade e à agressividade é um ponto-chave que também chamou a atenção de Freud desde a época da Primeira Guerra Mundial e do estudo sobre a neurose obsessiva e a melancolia. Ele ficou profundamente impressionado com a presença de masoquismo, sadismo, agressividade e ódio, que dificilmente podiam ser derivados apenas da libido. Além da infinita e insaciável ânsia de amor (Sehnsucht) postulada por Freud, e talvez até mesmo em decorrência da impossibilidade de atender esta demanda insaciável, criam-se as condições para o surgimento de toda a forma de violência. Algumas formas têm origem no ambiente: violência da miséria que corta a circulação dos bens necessários à vida e deriva dos regimes de distribuição da riqueza e a violência dos sistemas ideológicos e religiosos que estabelecem e definem os modos de circulação dos bens, ao mesmo tempo que criam sistemas de valores e interdições que dão origem à exclusão e à adesão fanática. Do lado psíquico, a força das exigências pulsionais, a violência do imaginário e das interdições interiorizadas são capazes de reproduzir e amplificar, ao infinito, a violência da ideologia e da religião.

ANGÚSTIAS ARCAICAS

Para Melanie Klein a violência psíquica é anterior à capacidade de amar; antecede a capacidade de pensar, postergar, agir, gerar recursos e projetos. Antes de tudo somos isto: um feixe de violentas necessidades e exigências, mergulhado no mais aflitivo desamparo. Isto é, antes de chegar a perceber e desejar o outro como um outro, com capacidade de manter a distância e a diferença em relação a ele, somos um puro anseio vampiresco e voraz, um turbilhão de angústias e um tumulto de desejos arcaicos que nos tornam indiscerníveis uns dos outros; somos sede da mais pura violência do imaginário, o que nos coloca em pleno estado de desamparo.

A própria violência do anseio de incorporar e possuir o outro e a voracidade que caracteriza a mais primitiva forma de amar tornam o mundo perigoso e ameaçador, por meio do mecanismo da projeção, pois o mundo fica todo impregnado da ânsia de incorporação. Daí surgem as mais arcaicas angústias persecutórias. O que quer dizer com isto? As angústias persecutórias são assim chamadas pois originam a sensação de estar sendo perseguido e atacado. São terrores; como o terror sem nome de cair para sempre, de ser abandonado, de ter seu Eu aniquilado, de ser morto, invadido, devorado ou destruído por uma força monstruosa que ultrapassa a capacidade de defesa. As imagens de ser engolido por uma onda gigantesca, devorado por um tubarão ou outro monstro qualquer podem ser figurações das angústias persecutórias mais arcaicas.

DEFESAS PRIMITIVAS

Neste quadro em que predomina a violência das pulsões e do imaginário, faz- se necessário construir defesas que possam diminuir e apaziguar em certa medida a intensidade das primeiras angústias. Um destes mecanismos de defesa é a cisão que consiste em separar de forma radical as experiências boas e más, isto é, as que promovem prazer das que provocam qualquer forma de desprazer, desconforto ou dor. Melanie Klein acredita que as experiências de prazer são atribuídas a uma pessoa, a mãe, que se constitui então como a mãe boa, capaz de prestar cuidados e amar. Por outro lado, as experiências más são atribuídas à mãe que frustra, castiga ou deixa a criança em estado de frustração. Isto quer dizer que nos primórdios da vida o psiquismo organiza suas experiências de prazer e desprazer polarizando ao máximo a distinção entre ambas e atribuindo-as, por um lado, a um objeto idealmente bom e, por outro, a um terrível perseguidor. Ora, o dinamismo que separa o bem purificado do mal radical está presente na lógica do fundamentalismo ao pregar a absoluta bondade de Deus em contraste com a maldade dos infiéis que devem ser sumariamente aniquilados. Ao constituir um “bem” absoluto e inalcançável, este fica protegido de toda possível contaminação e assim pode permanecer incorruptível; eterniza-se: torna-se uma reserva imaginária de “bem” que pode durar para sempre, o que responde a uma de nossas aspirações mais profundas.

Do outro lado, a grande vantagem de estar diante de um objeto absolutamente mau é que nenhuma dúvida se instala quanto ao que fazer com ele: só resta destruir e, impiedosamente, aniquilar o perseguidor. Ao constituir um objeto como sendo plenamente mau, consigo justificar qualquer ato de violência contra ele. Sobretudo se o estou aniquilando em nome do Supremo Bem, então toda e qualquer arbitrariedade contra ele será justificada, será considerada “santa” e “bendita”: aquele sobre quem projetei minha concepção de mal absoluto é completamente destituído de sua subjetividade, de seu direito à defesa, de seus direitos tout court; torna-se um objeto desprezível, mero dejeto.

Do outro lado, para constituir um objeto idealmente bom preciso negar toda falta ou precariedade que porventura haja nele; isto faz parte da idealização necessária para o surgimento do objeto imaculadamente bom e perfeito: será um verdadeiro Deus.

Melanie Klein considerava a negação um poderoso mecanismo de defesa arcaico que visa aniquilar percepções e aspectos indesejados das pessoas e está intimamente relacionada à idealização. Bem próximos do ideal máximo, Deus (ou Alá, como querem os muçulmanos), estariam os que conseguiram aproximar-se mais desta extrema qualidade do Bem: mártires, santos e sacerdotes e aí reside o perigo do fanatismo. Se Deus permanecesse inacessível em uma esfera metafórica de bem absoluto, jamais poderíamos vir a conhecer com muita certeza qual é, exatamente, a sua vontade. O perigo começa quando julgamos que os mullás ou sacerdotes são representantes legítimos e porta-vozes do Bem Absoluto: é o que nos leva a um movimento regressivo, colocando-nos cegamente submetidos a seus desígnios, da mesma forma que um dia, no passado, fomos obrigados a estar em relação a nossos pais. A partir deste instante, todas as arbitrariedades poderão ser cometidas em nome do Deus Supremo ao pronunciar-se por intermédio de seus oráculos e eleitos.

Desde a descoberta do diário de um dos terroristas que organizou o atentado americano, pode-se vislumbrar nele um estado de profunda convicção: ao matar e destruir os americanos, representantes de satã, estava cumprindo a vontade do Deus Supremo. Este discurso fanatizado revela aquela certeza absoluta que caracteriza os estados psicóticos: não há dúvida de que os americanos são satânicos e que o projeto de matá-los é um gesto de obediência ao Bem Supremo. Não há lugar para dúvida, indagação, crítica, meditação ou ponderação. O fundamentalismo taleban através da jihad (que sig- nifica obediência cega à vontade de Deus) transforma palavras e crenças em mísseis a serem atirados contra os outros, isto, é todos os que não participam das mesmas crenças e valores e que foram devidamente “satanizados”.

Outro mecanismo de defesa descrito por Melanie Klein para lidar com a turbulência emocional dos primeiros tempos, a fuga para o objeto bom, consiste em refugiar-se imaginariamente no “seio do bom objeto ideal”, o que permite negar a própria fragilidade e desamparo e lançar-se à deliciosa aventura de partilhar da onipotência divina. Tornar-se muito poderoso, na verdade onipotente, é a promessa mais sedutora do fundamentalismo. Este pode ser pensado como sendo sempre uma estratégia de resgatar poder e triunfar sobre a fragilidade da existência humana. Podemos admitir que o sentimento de onipotência no início da vida é uma importante defesa: nega a fragilidade, impotência e desamparo dos primeiros tempos, de modo que, quanto mais indefesa e imatura a criança, maior será o sentimento de onipotência e a sensação de ser o centro do universo. Melanie Klein mostrou que o desenvolvimento psíquico consiste no doloroso processo de perda do sentimento de onipotência, de descentramento; é a exigência constante de sair do lugar de “sua majestade, o bebê”. O princípio de realidade obriga cada um a confrontar-se com a ignorância, impotência e exigências da necessidade que estabelecem diferentes graus de dependência e aprendizado.

Ora, para aceitar que sou um ser de necessidade, sujeito ao adoecimento e à morte, incapaz de resolver sozinho a grande maioria de minhas necessidades, preciso necessariamente abdicar do sentimento de onipotência e de auto-suficiência. Este doloroso processo é um prolongado luto que me faz chorar e lamentar ao mesmo tempo em que continuo nutrindo os mais secretos desejos de voltar a ser poderoso e triunfar sobre o desamparo. Era tão prazeroso sentir-me o centro das atenções e o centro do mundo e é tão insuportável e tedioso viver um cotidiano medíocre ou até mesmo miserável quando comparado às grandiosas vivências de poder e plenitude dos primórdios da vida! É este o terreno que propicia adesão ao fanatismo religioso e ao fundamentalismo.

Quanto mais intenso for o desejo de recuperar a onipotência perdida e quanto mais profundo o desprezo por minhas aquisições cotidianas, tanto mais torno- me presa fácil para a sedução do fundamentalismo e de todas as formas de fascismo e nazismo. Estas ideologias prometem resgatar a perfeição e a onipotência originárias, associando-me a alguma figura todo-poderosa ou seus representantes aqui na terra.

O SUICÍDIO COMO PROMESSA DE RESGATE DA PLENITUDE

Entretanto, se eu permanecer aderida a uma aspiração cada vez mais forte e devoradora de recuperar o estado de onipotência e plenitude, começo a entrar na dinâmica vertiginosa que culmina com o suicídio de tipo melancólico. Muitos autores na psicanálise3 já escreveram a respeito desta experiência-limite. Matar-se significa neste caso destruir a precariedade de um corpo e uma existência que passaram a ser vividos sob o signo da falha, da precariedade e da insuficiência. É uma lógica asfixiante que vai produzir a insidiosa, silenciosa transformação do corpo e existência em dejetos. O vertiginoso percurso vai das mais leves formas de depreciar a vida, de frustrante, precária e imperfeita até considerá-la indigna, insuportável, até finalmente coisificar este corpo real a um ponto extremo, tornando-o matéria fecal e fazendo do suicídio um gesto glorioso, via expressa de recuperação da grandiosidade perdida. A morte passa a ser procurada não em si mesma, como extinção da vida, mas como via de acesso à verdadeira plenitude, caminho para fazer cessar conflito, necessidade e dor da existência: suicidar- se virou estratégia de recuperação da plenitude narcísica mais absoluta e optar pela morte não é tão difícil quando a vida foi depreciada até tornar-se equivalente à matéria fecal. O próprio corpo e a vida foram completamente coisificados e não é difícil empregá-los como preço a ser pago pelo maior bem. Há nisto a sensação grandiosa de estar a serviço da missão heróica de purificação e eliminação do mal. A grandiosidade da missão apaga a insignificância da existência; entrega-se o nada de sua vida atual pelo tudo da vida eterna. O suicida mata-se não para se destruir, mas para reconstituir a imaculada perfeição originária da existência. Há, nesta forma de morte, a busca de um sentido supremo e grandioso que possa preencher o vazio da vida; é o mais extremo ato de onipotência e recusa de assumir a condição humana e anônima. Representa o triunfo sobre a impotência, trivialidade e precariedade de uma existência cotidiana atravessada pela miséria e pela insignificância.

SAIR DA ONIPOTÊNCIA INFANTIL: A POSIÇÃO DEPRESSIVA

Para Melanie Klein, a saída do estado de onipotência mais agudo é um longo processo de luto que começa a ser vivido desde o nascimento e prolonga-se até a morte. É verdade que os psicóticos, algumas personalidades muito narcísicas ou esquizóides e os fanáticos de qualquer seita nunca chegam a passar por este processo de transformação que Melanie Klein chamou de “posição depressiva”. Neste caso o termo “depressivo” não se refere ao quadro psicopatológico da depressão.

Usemos uma metáfora política para pensar um aspecto desta passagem. A divisão política do mundo era mais clara na época da guerra fria, quando de um lado estavam os Estados Unidos e do outro a União Soviética, e o mundo podia ser esquematicamente dividido em esquerda e direita. Ora, desde a queda do muro de Berlim e o desaparecimento do objetivo russo de levar a revolução comunista ao planeta, o panorama político revelou-se ser muito mais complexo e difícil do que se pensava até então. Diante do novo panorama geopolítico, a confusão tem sido tão grande que acaba acontecendo a volta ao funcionamento anterior (nós somos “do bem”, os outros são do mal) ou uma regressão mais profunda para atos isolados de destruição fanática que parecem gritos de desespero ou movimentos descoordenados e anárquicos. Algo análogo ocorre quando se entra na posição depressiva. Na posição anterior (chamada de esquizoparanóide) podia-se separar tão nitidamente o bom e o mau que as pessoas consideradas “más” podiam ser aniquiladas como perseguidores perigosos. As experiências desagradáveis e desconfortáveis podiam ser descarregadas e evacuadas ou projetadas sobre o mundo e os “outros”.

Na posição depressiva, entretanto, começa a acontecer uma confluência entre amor e ódio: os objetos já não são percebidos como exclusivamente bons e maus, perde-se a crença de que o mundo está dividido em vilões e santinhos, relativizam-se todas estas atribuições de valor positivo e negativo às pessoas e a si próprio. Surge o panorama modificado de uma realidade psíquica mais complexa, há um crescente reconhecimento da própria agressividade, tornando-se impossível acreditar que o “mal” está só no mundo e no “outro”.

A realidade psíquica passa a caracterizar-se por um maior grau de tensão, pela presença de conflito que origina culpa, remorso e desejos de reparação. Uma grande decepção é vivida pois o objeto ideal, perfeito e absolutamente doador deixa de existir. A criança começa a dar- se conta de que a mãe que alimenta é a mesma que frustra, que não existe uma pessoa infalível e inesgotável; ocorre uma mudança muito perturbadora na qualidade do objeto bom. A mãe perfeita e onipresente é substituída por alguém que funciona “suficientemente bem”, mas também falha e angustia. Surge uma nova imagem parental contaminada em sua perfeição e danificada em sua completude. Há um profundo pesar e um angustiante sentimento de responsabilidade com relação as outras pessoas. Diminui a necessidade de ser atendido e receber cuidados e aumenta o desejo de cuidar e proteger o outro. Desenvolve-se um maior grau de tolerância com relação às falhas dos outros.

A posição chama-se “depressiva” porque nela cumpre-se um processo de luto. Este consiste na aceitação da perda dos aspectos ideais das pessoas e na capacidade de abrir mão das representações mais radicais que exigem “tudo, absolutamente bom” para aceitar e enraizar em si representações de “alguma coisa, relativamente boa”, morte da criança magnífica, gestação de nova subjetividade. É também a passagem da posição do “berço esplêndido” para uma postura de implicar-se e responsabilizar-se.

Porém, a passagem para a posição depressiva é a mais difícil das transformações, envolvendo todo tipo de regressões à posição anterior. Não é simples perder o status de criança magnífica e entrar no regime da realidade, com as exigências de postergar a satisfação das necessidades, trabalhar, reconhecer o outro em sua diferença e desenvolver a capacidade de tolerar frustrações, pensar e sentir. As angústias que povoam os primeiros tempos somam-se às novas angústias da posição depressiva, e os problemas tornam-se infinitamente mais complexos: isto origina um forte movimento regressivo, na direção da posição esquizoparanóide, perceptível através das defesas maníacas. Tais defesas sinalizam justamente a dificuldade de entrar no processo de luto da onipotência, são tendências a recuperar o status perdido e voltar a uma organização mais simples e dualista do mundo.

Os mecanismos de defesa da posição esquizoparanóide envolviam cisões radicais entre o Bem Absoluto e o Mal Radical e estratégias de evacuar e destruir tudo que causava desconforto, ao passo que na posição depressiva a criança busca novos métodos para trabalhar o caos psíquico e a violência pulsional. São métodos mais introjetivos: desenvolve-se maior tolerância ao desconforto de se ver bombardeado por pulsões contraditórias e amplia-se a capacidade de suportar o conflito entre diferentes aspectos da experiência. Isto tudo quer dizer que mais trabalho psíquico e maior capacidade de postergar a vivência de prazer tornam-se necessários. O resultado é que ao fim deste penoso trabalho de implicação e responsabilização de si nos acontecimentos, há um melhor aproveitamento da energia pulsional e maior integração desta ao Ego.

Os mecanismos da posição depressiva podem ser comparados a um lento processo de gestação, pois há criação de novo espaço potencial ou “espaço” psíquico onde as representações pictóricas e verbais serão trabalhadas e modificadas, evitando a pura descarga das energias instintivas através de atos.

A metáfora de “espaço” psíquico é sempre precária: leva-nos diretamente ao registro visual, para as imagens e o imaginário com suas violentas estratégias de captura e cristalização do pensar. Talvez possamos pensar em um espaço virtual, um lugar escondido e invisível, um não-topos ou “lugar nenhum” em que possamos ficar relativamente livres da captura e da prisão do imaginário. Para entender esta passagem das imagens idealizadas da infância à solidão relativa e à plena capacidade de pensar da maturidade, por meio da posição depressiva, podemos recorrer à história da terceira margem do rio. Entrar nesta posição já não é fácil; porém é ainda mais difícil atravessá-la: se as margens são crenças absolutas, será preciso desprender-se delas, soltá-las em direção ao meio do rio. A posição depressiva exige deixar morrer deuses e demônios e abandonar crenças infantis de que há um bem e um mal absolutos que podem ser perfeitamente localizados em estado purificado. Só há verdadeiro crescimento à medida que os ídolos declinam e desaparecem juntamente com a idéia de um pensamento mágico e imediatista. No lugar deste último será preciso desenvolver um verdadeiro trabalho de pensar, sentir e elaborar conflitos. E ainda criar uma grande capacidade de conviver com o estrangeiro, tolerar dor e frustração e aceitar a condição humana de desamparo, transitoriedade e finitude. Estas são tarefas para uma vida inteira, por isso, dizem, nunca terminamos de elaborar a posição depressiva. É o mergulho na direção da face escura do outro, desalojamento de certezas, lugar da dúvida.

TERCEIRA MARGEM DO RIO: LUGAR DE POSSÍVEIS

A terceira margem do rio é o lugar da palavra, da água da palavra. Casa da palavra. Onde o silêncio mora. Na estória de Guimarães Rosa, o pai retira-se para este lugar fora do alcance do familiar, lugar enigmático, margem inexistente do rio. O que dizer disto? Que o pai retirou- se para lugar inacessível, inapreensível; não quer deixar-se apreender em nenhum esquema ou código. Não vai permitir compreensão totalizante.

A tradição judaica fala do caráter impronunciável do nome de Deus. Não poder pronunciar o seu nome corresponde ao “lugar nenhum” da terceira margem; é exigência de que “o pai” possa ficar inacessível, em uma certa dimensão, ao imaginário que petrifica. A interdição de “imaginarizar” Deus é um importante limite para a insaciável atividade imaginária e linguageira, é forma de impor silêncio nas margens da palavra: meta de desubstantivar Deus, fazê-lo passar de substantivo a verbo.

No tempo verbal, “pai” é princípio doador de vida, é a parentalidade, ou o que alguns chamam o significante ser pai; isto é, capaz de gerar vida, de dar vida, tornar-se capaz de autoria: é um princípio vital. É preciso pensar parentalidade no plano metafórico, como capacidade de gerar fruto, frutificar. Pensar no pai em termos de pura atividade, atividade de dar ser: da imagem estática ao movimento que sugere instantaneidade, presentidade sempre recomeçando; incessante brotar de água na fonte.

A metáfora espacial da gestação de um “espaço psíquico” começa então a temporalizar-se: o pai é agora atividade de ser e de dar ser, de destinar a ser, de deixar o outro ser. Para deixar o outro ser é preciso manter-se retraído, “cancelado”, em reserva, por isso na “terceira margem do rio”, em estado “ausentemente disponível”.

Muitos para quem contei a história da terceira margem do rio ficavam indignados com a indiferença do pai, no meio daquele rio. Será que isto é indiferença ou abertura de espaço, verdadeiro endereçamento ao outro? Uma certa indiferença, alguma descontinuidade é necessária à função paterna para dar lugar à mais plena emergência do filho: ser pai como quem dissesse aos filhos “Après vous, mes enfants”.

TERCEIRA MARGEM E TERCEIRA PESSOA

Penso que estas são lições aprendidas de Lévinas, em Totalidade e infinito, quando propõe deixar que um germe de infinito venha a dissolver o totalitarismo do imaginário. Este pai que não se fenomenaliza, internando-se no invisível é um princípio de infinitude que vem quebrar desejos de onipotência, aspiração à perfeição e o totalitarismo do Eu.

Infinito é o que ainda está por fazer, é um princípio de inacabamento. Sendo inacabado está ainda por vir, está sempre vindo de nova maneira. Este pai, alteridade invisível, vem relativizar, descentralizar, desestabilizar o Eu de sua posição despótica, imerso na ilusão de auto-suficiência.

Sendo o “totalmente outro”, pura diferença, desejo de diferir, este pai aparece como a terceira margem que ultrapassa sempre o mergulho narcísico do eu no tu e do tu no eu. Alteridade que rompe a mesmice instalada no “face a face” especular e sedutor da pulsão escópica; terceira margem que relativiza o fascínio, a sideração do Grande Outro.

O pai que vai para a terceira margem do rio, em vez de presentificar-se, dissolve- se no inaparente, no horizonte dos possíveis, no informe. Lembra a noção lévinasiana de “Terceira Pessoa”, Ele, eleidade, dimensão do outro e de si que sempre nos escapa à apreensão e permanece enigmática; sem a “eleidade” do outro e de si, núcleo indissolúvel de alteridade, nada resistiria à voracidade assimilativa do Eu.

O pai enigmático da terceira margem do rio é o estrangeiro, o excedente de sentido inassimilável pelo eu-mesmo: é sobretudo o silêncio que põe em movimento a indagação, a dúvida, a incerteza. Ao adentrar-se nesta borda invisível o pai experimenta um modo “outramente que ser” de retrair-se, para deixar o outro ser. A terceira margem é o lugar propício à atividade de dar ser.

PURO SILÊNCIO, NOSSO PAI

Considerando os efeitos do fanatismo terrorista, pergunto-me: se o Deus fundamentalista, em sua majestade triunfante e em sua mais obscena monstruosidade pode originar tanto sangue, para que precisamos ainda de satã? Basta este Deus Todo-poderoso, todo manchado de sangue, obscenidade e volúpia de destruição, a exigir a mais radical passividade e a mais completa obediência (jihad) à sua vontade. A culminação do projeto fundamentalista é sempre o suicídio ritual pois o dinamismo deste Deus leva à morte: a sinuosa estratégia de infiltrar ódio e desprezo ao corpo e à vida é um convite a desencarnar-se.

Por outro lado, a figuração deste pai silencioso da terceira margem do rio serve para se contrapor às mais arcaicas e totalitárias imagos paternas que oprimem com sua sombra esmagadora. Puro silêncio, nosso pai. Para se contrapor a um Deus triunfante e mortífero é preciso ir ao encontro da terceira margem do rio, um horizonte capaz de desalojar a certeza passional e sanguinária e desmanchar a reivindicação de ser tudo, onipresente. Melanie Klein diria que ao atravessar a posição depressiva dá-se um remanejamento de todos os ídolos: mãe e pai todo-poderosos e a criança magnífica e despótica. Há perda de brilho e grandiosidade e ganho de um sentimento de consideração para com o outro, estrangeiro para mim. Isto me faz pensar que falta aos fundamentalistas deixar morrer o seu deus poderoso, sanguinário e narcísico e descobrir como adentrar a terceira margem do rio ao encontro do silêncio do Pai.

No seio do pai, é preciso discernir o filho. O Deus do século vinte e um é uma criança gritando de fome e sede, frágil, desamparada; precisa de água da palavra. Entregou aos homens adultos a tarefa de pacificar o mundo. Sem apelação. “Hora da palavra, Quando não se diz nada, Fora da palavra, Quando mais dentro aflora. Asa da palavra, asa parada agora. Casa da palavra. Onde o silêncio mora. Puro silêncio, nosso pai.”4

1. A versão islâmica do fundamentalismo é, infelizmente, apenas uma das possíveis aparições desta forma de pensar; há também as versões cristãs e judaicas. Por outro lado, adesão cega a princípios sagrados, pretensão à verdade última e a ordem de odiar e destruir os “infiéis” pode derivar, também, de uma adesão fanática a qualquer forma de ideologia.

2. Entre os muitos filósofos e pensadores que precisam ser revisitados neste esforço de pensar a violência do homem civilizado, creio que Lévinas é um dos nomes mais importantes para explicitar as fontes de nossa intolerância para com o estrangeiro e com o que é diferente de nós mesmos.

3. Entre eles, destaco os textos de Grunberger em Le narcisisme: essais de psychanalyse.

4. Palavras da canção de Caetano Veloso, A terceira margem do rio.

 REFERÊNCIAS

Grunberger, B. Le narcisisme: essais de psychanalyse. Paris: Payot, 1993.

Artigo recebido em outubro/2001 Versão aprovada em novembro/2001

Editado por Cláudia Belintani

Um comentário:

  1. Cláudia, que postagem mais linda.

    Sou suspeita para falar, pois sou sua fã.
    Obrigada.

    Vou ressaltar algumas partes que realmente mexeram comigo:
    1) “(...) quanto mais indefesa e imatura a criança, maior será o sentimento de onipotência e a sensação de ser o centro do universo (...).”
    2) “(...) Era tão prazeroso sentir-me o centro das atenções e o centro do mundo e é tao insuportável e tedioso viver um cotidiano medíocre ou até mesmo miserável quando comparado as grandiosas vivências de poder e plenitude dos primórdios da vida! (...)”
    3) “(...) nunca terminamos de elaborar a posição depressiva. É o mergulho na direção da face escura do outro, desalojamento de certezas, lugar de dúvida.”
    4) “(...) o pai é agora atividade de ser e de dar ser, de destinar a ser, de deixar o outro ser. Para deixar o outro ser é preciso manter-se retraído, cancelado, em reserva, por isso na terceira margem do rio, em estado ausentemente disponível.”
    5) “No seio do pai, é preciso discernir o filho. O Deus do século vinte e um é uma criança gritando de fome e sede, frágil, desamparada; precisa de água e de palavra. Entregou aos homens adultos a tarefa de pacificar o mundo sem apelação.”
    6) “Hora da palavra, Quando não se diz nada, Fora da palavra, Quando mais dentro aflora. Asa da palavra, asa parada agora. Casa da palavra. Onde o silêncio mora. Puro silêncio, nosso pai.”
    1) A criança que ainda vive em mim algumas vezes se esquece que não é a única no mundo. Acredito que não só para a criança, mas como também para os adultos, esse estado também pode ocorrer... Acredito que pensar no outro, se colocar no lugar do mesmo, seja um exercício, logo precisa ser praticado e elaborado. Muitas vezes percebo que as dores e as dificuldades que sinto e que vivencio são extremamente semelhantes com outras histórias de outras pessoas... Isso não é ruim... Pelo contrário, é também para mim uma forma de enfrentar a solidão...
    2) A renuncia ao poder... Admitir que estamos em constante conflito com nós mesmos e o mundo. A vida se torna mais leve e a cobrança diminui...
    3) A eterna elaboração de conflitos... A eterna busca do equilíbrio e paz interior...
    4) Acho essa parte sensacional! Deixar o outro crescer é abrir espaço para a vida... Se livrar do controle, mas estar ali... Ajudando na medida do possível para que a pessoa faça suas próprias escolhas e tenha autonomia para isso. Dói, mas no final sempre os responsáveis pelas nossas escolhas somos nós e mais ninguém...
    5) O que é Deus? Como trazer a paz em um mundo quase que dominado pela competição e pelo individualismo?
    6) Olhar para dentro de nós, escutar o silêncio... Lindo... Lindo!
    Essas foram minhas impressões que estão longe de serem verdades absolutas, mas são como as sinto...

    com carinho,

    Carla

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