sábado, 11 de agosto de 2012

ADÉLIA PRADO


Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis." Drummond


Tixas queridas, bom dia de sol!

A escolhida para a nossa próxima ciranda é a querida poetisa Adélia Prado, contemporânea nossa. Quem sabe um dia a gente não se anima para dar um pulinho até Divinópolis e conhecer essa senhora tão inspiradora, cuja obra foi admirada por Drummond?

Não sei se vocês já ouviram falar de Adélia ou leram algo dela. A peça de teatro Dona doida foi inspirada em seus textos. Pincelei apenas quatro poemas, mas podemos ler mais durante o encontro, escolher alguns de forma aleatória, o que seria também bastante divertido.

PS - um desses poemas dedico especialmente à Claudia (ela saberá qual é). Outro dedico a todas nós, lagartixas transformadoras-regeneradoras.

Beijos!
Aline

Óculos, Dimensões, Caleidoscópios, Olhar... Uma Lagarta em 3D

COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

"O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo..."

CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir. Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

"Borboletas provocando risos, coceira, beijos..." O amor de vez em quando é uma borboleta.

GUIA
A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem – sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

"Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher."

ENSINAMENTO
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

O Posicionamento do Feminino...

"O PAPEL DA MULHER?: Eu acho que a glória do feminino, continuo achando, é uma discussão complicada, porque mexe nos afetos, não é? Toda vez que você cuida disso, você não dá conta de ficar só no acadêmico ou na filosofia. Você mexe nos afetos, nas minorias espoliadas, aí vem tudo junto e ninguém pensa mais, começa: “Ah, um absurdo”. Mas eu acho exatamente isso. O feminino... assim como o ato criador é masculino, para mim, eu sinto as coisas assim, o papel do feminino é o papel do segundo lugar, é o do segundo, é o do serviço, do anonimato mais perfeito. É isso que para mim é o feminino. É a permissão para que o homem aconteça. É que, no caso, num sentido muito profundo mesmo. Sem isso, se nós, mulheres, aqui no caso, que somos até aparentemente, externamente mulheres, se esse feminino não se realizar em nós, da ordem espiritual e psicológica, o homem que está do meu lado não acontece. Porque há uma – como é que se fala? –, uma diluição dos papéis. Eu acredito que há um papel feminino, sim, e que é o papel do serviço. Agora, é muito fácil confundir o papel do serviço com escrava, doméstica etc, como confundir aquilo que eu disse, que o ato criador é masculino, [achando que] é macho. É a mesma confusão que se faz."

4 comentários:

  1. Uma Lagarta Amarela...

    Apaixonante, Feminina, Mulher.

    Boa Viagem no Amor, no Sonho e na Realidade.

    ResponderExcluir
  2. "Não tenho mais tempo algum, ser feliz me consome."

    Li que essa frase é dela também! Eu simplesmente adoro essa frase!

    "O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
    (Adélia Prado)

    Adélia Luzia Prado de Freitas é natural de Divinópolis/MG, nascida em 13/12/1935.
    Casada desde 1958 com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A., tem 5 filhos: Eugênio, Rubem, Sarah, Jordano e Ana Beatriz.

    Adélia diz que:
    "Uma das mais remotas experiências poéticas que me ocorre é a de uma composição escolar no 3º ano primário, que eu terminava assim: "Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles...".
    A professora tinha lido este evangelho na hora do catecismo e fiquei atingida na minha alma pela sua beleza. Na primeira oportunidade aproveitei a sentença na composição que foi muito aplaudida, para minha felicidade suplementar. Repetia em casa composições, poesias, era escolhida para recitá-las nos auditórios, coisa que durou até me formar professora primária. Tinha bons ouvintes em casa. Aplaudiam a filha que tinha "muito jeito pra essas coisas". Na adolescência fiz muitos sonetos à Augusto dos Anjos, dando um tom missionário, moralista, com plena aceitação do furor católico que me rodeava. A palavra era poderosa, podia fazer com ela o que eu quisesse."

    Professora, começou a escrever em 1950. Por essa época, entediada de seu próprio estilo, começa a escrever de forma torrencial, dando veios às influencias literárias recebidas das leituras de Drummond, Guimarães Rosa, Clarisse Lispector.

    O que mais chama a atenção na literatura produzida por Adélia Prado é a religiosidade embutida e/ou subentendida em seus textos. Ela trata e retrata as coisas do cotidiano com perplexidade, entendimento e pureza.
    Sua obra é atemporal, moderna, transformando em lúdico a realidade descrita, fazendo com que os fatos mais corriqueiros ganhem uma beleza poética de grande extraordinariedade.

    Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá.

    "Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português."

    Qual a contribuição de Adélia Prado para a literatura brasileira? Para a época em que sua poesia foi divulgada : a revalorização da identidade feminina, como ser pensante e ser maternal. Aqui, o grande valor desta poeta. Ou seja, Adélia conseguiu conciliar a intelectual com a mãe, esposa e dona-de-casa; ela conseguiu o equilíbrio entre o feminismo ( movimento agressivo) com o feminino (natureza intrínseca).
    Em seus poemas, estão muito bem colocadas as figuras masculinas ( pai, marido, filho), sem observamos sinais de conflito, fato este que não se observa nas poetas mais atuais.
    A característica de sua poética? Lírica, suave, simples, leve. E com um estilo próprio, diferente de Cecília Meireles (considerada, ainda, o grande expoente feminino da poesia brasileira).

    Achei interessante esse artigo... Gostei bastante da indicação Aline! Parabéns!

    Beijos beijos

    Carla

    ResponderExcluir
  3. "fiquei atingida na minha alma pela sua beleza."

    "A palavra era poderosa, podia fazer com ela o que eu quisesse."

    Fiquei impressionada com a definição de papéis e o posicionamento entre o feminino e o masculino.

    Aliás, Aline, me perdoa.
    Fiquei tão encantada com ela que acrescentei alguns poemas em sua página.

    E a leveza?
    Será que um dia alcanço algo semelhante?

    Papéis definidos, café passado, barriga cheia e sono profundo.

    Bj

    ResponderExcluir
  4. Borgata Hotel Casino & Spa - JTR Hub
    Located in Atlantic City, Borgata goyangfc Hotel Casino & www.jtmhub.com Spa offers the finest in amenities dental implants and entertainment. 토토사이트 It also provides a seasonal outdoor swimming หารายได้เสริม

    ResponderExcluir