domingo, 19 de agosto de 2012

ONDE O SILÊNCIO MORA


Rio, Pau Enorme, Nosso Pai..

A Terceira Margem do Rio
Caetano Veloso
 
Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira
Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas
Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai
Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Para Elisa Maria, com todo o nosso silêncio,
Lagartixas.

4 comentários:

  1. "Caetano Veloso, ao produzir, em 1991, a letra da canção homônima conferiu - sob a forma de poesia - ao conto uma abordagem crítico-criativa que defendo como instigantemente criativa e esclarecedora. Desprezando os índices mais evidentes e explícitos da abordagem teórico-contística, Caetano ateve-se ao processo de criação em arte, interpretando o conto sob a forma de uma nova criação. Enfim: valeu-se do conto para gerar um poema (uma letra de música) metacrítica e metacriativa. Ao que a música de Milton Nascimento vem somar-se em perfeita unidade composicional. (Por perfeita unidade composicional entendo aquilo que Luiz Tatit chama de "eficácia da canção": letra e música num bloco uno, tão engenhosamente construído, que se torna indissolúvel enquanto obra, sem perder, evidentemente, as qualidades específicas de cada código: o verbal e o musical).
    Nesta comunicação viso detalhar a ótica de abordagem de Caetano Veloso, buscando desvelar "o Rosa de Caetano". Quer seja: viso enfocar, comparativamente, a prosa do conto e a poesia da canção enquanto margens de um mesmo rio: o rio das linguagens artística e crítica - sempre sob o signo da semiótica.
    No conto a voz que fala é a da testemunha dos fatos: o filho, sem nome, que narra a posteriori - ora sob a ótica pessoal, ora sob a ótica dos familiares e amigos. Assim, a dubiedade se instaura onde mesmo se buscava mais objetividade: no ponto de vista do outro, em confronto com o do personagem-narrador. Acontece que tudo aqui passa pelo crivo do olhar e das palavras do filho. A fala das testemunhas chega ao leitor através do reconto do filho. Se o próprio título já remete o leitor a um universo indeterminado de significação, o personagem-narrador vem apenas bulir mais nestas águas nada límpidas. Para torná-las mais turvas. Ou seja: para que converta-se mais e mais no território da poesia - terreno fugidio, avesso a configurações delimitatórias, pleno de discursos antidiscursivos.
    Estamos, enfim, diante de um narrador tipicamente moderno, que convive simultaneamente, segundo Walter Benjamin, com estruturas arcaicas e modernas da narração. Acrescente-se: também das estruturas arcaicas e modernas da poesia. A subjetividade do narrador perpassa a forma tradicional de narrativa impingindo-lhe pseudo-objetividade."

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  2. "Na letra de Caetano é o barco quem fala. Melhor dizendo: é o oco de pau que diz. O ouvinte (estamos tratando de uma música popular) de imediato é mergulhado no universo poético das representações: aceitar que a madeira tenha voz é mergulhar no universo das representações poéticas e aceitar como verossímil, não a lógica dos acontecimentos, mas a analógica deles, arquitetada pelo próprio texto. Não a organização cartesiana do pensamento, mas a semiótica.
    Outra voz, todavia, se insere nesta narrativa: a de um eu-poético, um outro sujeito que se soma ao sujeito (objeto) madeira. Esta fusão, todavia, não se dá por exclusão de um dos narradores. Suas vozes entretecem-se num amálgama só, conferindo à canção novo nível de ambigüidade. Agora a informação através de outro canal, um canal igualmente poético, mas que ao surgir confere um distanciamento às informações da madeira. O eu-poético atua como autoridade. Melhor dizendo: atua como alteridade do discurso.
    O ouvinte sente o chão faltar-lhe, como se estivesse dentro de uma canoa, à revelia das águas. O movimento das águas iconiza-se neste titubear de compreensões. Enquanto no conto a terceira margem transparece como um mistério não-decodificado, desde o título, na letra de Caetano o significado rarefaz-se numa radial de significantes, como diria Sarduy. Há um desperdício de sonoridades, imagens e idéias (melopéia, fanopéia, logopéia, na terminologia poundiana) que levam o significante a índices de requinte e encantamento, próprios da música. E é isto que Milton Nascimento percebe bem na letra, ao isomorfizar numa melodia rítmico-melancólica, o objeto inominado e perdido. A harmonia é requintada, montada sobre acordes de delicadezas, de sutilezas próprias da canção popular pós Bossa Nova, em especial.
    A terceira margem não é, para Caetano Veloso, nenhum referente exterior ao conto: é a própria palavra, tema do conto e da canção que compôs. A voz do eu-lírico observador de terceira pessoa (meio a meio o rio ri) é também da personagem participante de primeira pessoa (por entre a risca da canoa / o rio viu, vi) que se funde na primeira pessoa do pretérito perfeito e/ou a segunda do plural do imperativo (ouvi, ouvi, ouvi / a voz das águas).
    O canto da palavra transparece claro ao final: a hora clara, nosso pai / quando não se diz nada fora da palavra. E a enumeração triádica final é também um qualificativo: rio, pau enorme, nosso pai. O rio, a canoa, o pai: os 3 elementos que formam as 3 margens. Ou, o rio, que é um falus enorme, é nosso pai. O rio enquanto metáfora do tempo. O tempo é nosso pai. O tempo que o próprio Caetano já definiu em outra canção como compositor de destinos, senhor de todos os ritmos."

    Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.).
    E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br

    Postado por Carla

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  3. Achei lindo as partes:
    "O barco que fala, o oco de pau que diz"...
    "A terceira margem é a própria palavra"...
    "O tempo é o compositor de destinos e senhor de todos os ritmos"...

    Bjs

    Carla

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  4. A CHEGADA DO GRANDE SILENCIO:
    https://www.youtube.com/watch?v=N5mgRTn4bMg

    EU RECOMENDO OUVIREM AMUSICADO CAETANO EM CIMA DESSE AUDIO

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