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| Para mim, um "Minotauro" que sabe o caminho... |
O Búfalo do Rio
Shaun Tan
Do livro Contos de Lugares Distantes
Por Júlia Ramiro Belintani
Quando eu era criança, um grande búfalo do rio vivia no terreno baldio no fim da nossa rua, aquele que ninguém cortava a grama. Ele ficava a maior parte do tempo dormindo e ignorava qualquer um que passasse, a não ser que nós resolvêssemos parar e pedir conselhos. Aí ele se levantava bem devagar, erguia a pata esquerda e apontava exatamente a direção certa. Mas ele nunca dizia para onde estava apontando, ou até onde tínhamos de ir, ou o que devíamos fazer ao chegar lá. Na verdade, ele nunca dizia nada, pois os búfalos do rio são assim: eles odeiam conversar.
Para muitos de nós, isso era frustrante. Quando alguém pensava em "consultar o búfalo", nosso problema costumava ser urgente e requeria solução imediata. A gente acabou parando de visitá-lo, e acho que pouco tempo depois ele foi embora: ficamos só com a grama alta.
É uma vergonha, sabe, porque sempre que seguíamos a pata pontuda dele nos surpreendíamos, aliviados e satisfeitos com o que encontrávamos. E toda vez a gente dizia exatamente a mesma coisa: "Como é que ele sabia?".
Por Júlia Ramiro Belintani
Quando eu era criança, um grande búfalo do rio vivia no terreno baldio no fim da nossa rua, aquele que ninguém cortava a grama. Ele ficava a maior parte do tempo dormindo e ignorava qualquer um que passasse, a não ser que nós resolvêssemos parar e pedir conselhos. Aí ele se levantava bem devagar, erguia a pata esquerda e apontava exatamente a direção certa. Mas ele nunca dizia para onde estava apontando, ou até onde tínhamos de ir, ou o que devíamos fazer ao chegar lá. Na verdade, ele nunca dizia nada, pois os búfalos do rio são assim: eles odeiam conversar.
Para muitos de nós, isso era frustrante. Quando alguém pensava em "consultar o búfalo", nosso problema costumava ser urgente e requeria solução imediata. A gente acabou parando de visitá-lo, e acho que pouco tempo depois ele foi embora: ficamos só com a grama alta.
É uma vergonha, sabe, porque sempre que seguíamos a pata pontuda dele nos surpreendíamos, aliviados e satisfeitos com o que encontrávamos. E toda vez a gente dizia exatamente a mesma coisa: "Como é que ele sabia?".
Tradução de Érico Assis

Como vcs devem ter notado, estou impossível.
ResponderExcluirMais ânima, mais caminhos, mais escolhas, mais certezas que são incertezas, mais coisas que só notamos a presença quando se vão.
Foi presente da Júlia, com um aviso: "cuidado com o que vc vai encontrar por aí" (mais ou menos isto).
De qqr forma, aí vai um inédito para a Quarta Bestiária.
Vai ser Noite de soltar os bichos.
Bjs,
Cláudia
" Shaun Tan é singular. É um artista de histórias curtas, mágicas e perfeitas, muitas vezes sem palavras. São, na verdade, sonhos que se pode trazer para o mundo da vigília, este em que vivemos, iluminando-o. São tramas que Kafka poderia ter contado, caso gostasse um pouco mais da vida. Shaun Tan cria beleza a partir das pequenas coisas e também daquilo que nunca existiu, mas que nem por isso é menos real. Inventa enredos inesquecíveis que, acredite, vão deixar sua vida um pouco mais mágica."
ResponderExcluirNeil Gaiman
Sobre "Contos de Lugares Distantes"
Quero ler esse livro. Bonito, delicado. A mágia sempre fez parte da minha vida, sempre acreditei no impossível, que hoje só se concreiza nos meus sonhos doidos.
ResponderExcluirAtualmente estou mais para Kafka.
MARIA JOSE.
Este "Búfalo" me lembra o seu "Mamute", volumoso, espesso, mas ao mesmo tempo de uma delicadeza e dignidade do tamanho dele.
ExcluirSaudades de vc, minha amiga entre "amigos"...
Bjs,
Cláudia