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| "As Profundezas da Alma Feminina... |
Yasunari Kawabata
Obra que serviu de inspiração
para o aclamado Memória de mis putas
tristes, de Gabriel García Márquez
Imbuída de um erotismo
inusitado, esta obra, escrita em 1961, demonstra a maturidade estilística
do autor, que se utiliza de sua virtuose descritiva para contar a história
de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “casa das belas
adormecidas”, uma espécie de bordel onde moças encontram-se em
sono profundo, sob efeito de narcóticos. Apesar da idade avançada, o
protagonista parte em busca dos prazeres perdidos e se depara com moças
virgens, que os visitantes podem tocar, mas são proibidos de corromper.
Daí derivam passagens antológicas de rememorações pessoais
e fantasia.
Kawabata procura desvendar o
enigmático universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao
inalcançável, investigando as dores da solidão a partir da
sutileza de um erotismo expressivo, constantemente atravessado por passagens de
fina ironia e perturbadora consciência da passagem do tempo, do vazio
existencial que permeia as relações humanas.
* * * * *
É objeto de consenso na
crítica literária mundial que Yasunari Kawabata descreveu com
meticulosa concisão as profundezas da alma feminina e revelou o corpo da
mulher em seu mais sutil esplendor. Dono de uma capacidade de
observação única, nenhum detalhe, nenhuma verdade escapam de seu
olhar incomum. Em A casa das belas adormecidas, Kawabata dedicou-se
obsessivamente a esta marca de sua literatura. Imbuído do matsugo no me,
que talvez pudéssemos traduzir por “o olhar derradeiro”,
Kawabata nos dá a impressão de pintar em cores vivas as últimas
imagens de quem vai partir deste mundo.
A sexualidade na idade madura
aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não
mais pode procurá-lo por conta própria. Contrapartida mais fantasiosa
e ao mesmo tempo mais radical, apresenta um inegável parentesco com Diário de um velho louco, de Jun’ichiro
Tanizaki, outro grande mestre da literatura japonesa moderna. Se este
último trata da sensualidade a priori contida que acomete um idoso no
cotidiano, Kawabata nos leva aqui em singela exploração sensorial do
corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado. Os meandros da
sexualidade — assim como a inexistência dela — em
situações limite, da repressão do desejo e do autocontrole
exacerbado compõem um jogo perverso que assume todo seu significado quando
o protagonista tem de lidar com a noção de virgindade em seu sentido
mais amplo. Temos aqui um indício de até que ponto Kawabata, sempre
fiel a si mesmo, foi deliberadamente aos alicerces das estruturas mentais.
Yukio Mishima, que louvava Kawabata, escreveu de forma reveladora em seu
prefácio à edição norte-americana desta obra: “E
será que a impossibilidade de obtenção não coloca
definitivamente o erotismo e a morte no mesmo nível? E se nós
romancistas não estamos do lado da ‘vida’ (se estamos
confinados a uma abstração de certo tipo de neutralidade
perpétua), então ‘a radiação da vida’ somente
pode aparecer onde morte e erotismo caminham juntos.”
Trecho
“Uma mulher mergulhada no
sono, que não fala nada, que não ouve nada: não seria, por outro
lado, o mesmo que falar tudo, escutar tudo de um velho que já não tem
virilidade para fazer companhia a uma mulher? Para Eguchi, entretanto, essa era
sua primeira experiência com uma mulher desse tipo. A garota, por certo,
já devia ter experiência de deitar-se com velhos como ele.
Entregava-se totalmente e ignorava tudo, mergulhada no sono letárgico tal
como uma morte aparente, deitada com um rosto quase infantil e respirando com
tranqüilidade.” (p. 22)
“A decrepitude hedionda dos
pobres velhotes que procuravam aquela casa ameaçava atingi-lo dentro de
alguns anos. Quanto da imensurável amplitude do sexo, da insondável
profundidade do sexo ele teria tocado na sua vida de 67 anos? Além disso,
em volta dos velhotes nasciam incontáveis peles renovadas de mulheres,
peles jovens, de garotas bonitas. Os desejos de sonhos impossíveis, o
lamento pelos dias que lhes escaparam e que estavam perdidos para sempre
não estariam impregnando os pecados daquela casa secreta? Eguchi já
havia pensado que as garotas adormecidas o tempo todo seriam uma eterna
liberdade para os velhotes. As garotas adormecidas e mudas certamente lhes
falavam tudo que eles gostariam de ouvir.” (p. 43)
“Eguchi afrouxou o
braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e
ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o
abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e
permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase
um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade
sentidos pelos velhotes que freqüentavam a casa. Ali eles não
sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam
se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo
limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer
por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo
corpo da jovem mulher.” (p. 53-4)
“Quando se deitavam em
contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do
seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se
aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles
também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade
no lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores. Decerto os velhotes
não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar.
Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem
lágrimas frias, se desmanchassem em choro convulsivo ou berrassem, a
garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria.” (p. 80)![]() |
| Kawabata ficou conhecido como alguém que "pintava as palavras" de branco. A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes. |
Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é
considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século
XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente
clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.
Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial
de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária
influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo
francês.
Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde
os ideais dacorrente neo-sensorialista (shinkankakuha), que visava
uma revolução nas letras japonesas e uma nova estética
literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol
de uma escrita lírica, impressionista, atravessada por imagens nada convencionais.
Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e
o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas
associações e metáforas táteis, visuais e auditivas
que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser
humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos
da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.
Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade
humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda
sucessiva de todos seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições
de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade
do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos,
doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.
Outras Obras:
Contos da Palma da Mão
O País das Neves
Nuvens de Pássaros Brancos
O Som da Montanha
Meijin


Ual, fantático o link entre os escritos...!
ResponderExcluirEle existindo na inexistência dela, a virgindade, as idades extremas, o velho, a ainda criança/adolescente, que não desabrocha, cede lugar ao desabrochar tardio do homem...
Tem um filme que passou esse ano no cinema, não assisti, mas parece muito relacionado, bem, para começar, se chama "Bela Adormecida". O filme mostra uma casa em que homens pagam para estar com as mulheres adormecidas, dopadas, mas tem uma conotação mais pesada, de homens com desejos sexuais necrófilos, buscam essas mulheres idealizando-as desacordadas, mortas... a protagonista é uma jovem, bem jovem e virgem. Posso estar falando bobagem, pois não vi o filme, me pautei pelas críticas... um pouco perigoso...
Parece que as coisas estão só esperando nosso olhar para se entrelaçar, que teia!
Que doido ele, Kawabata, se suicidar. De tanto temer a morte, quis antecipar-se e não ficar sujeito a ela...
Mulheres, noite deliciosa, encantada...
Beijos de bela despertada!
Jú.
Meninas, quem consegue penetrar na verdadeira essencia do ser humano, dificilmente aguenta o tranco.
ResponderExcluirBjos.
MJ
Isso faz muito sentido, Mary...
ResponderExcluirBj,
Juju.
Me apaixonei por esse japones.Ontem comprei 2 livros dele:BELEZA E TRISTEZA e MIL TSURUS.
ResponderExcluirEu nem sabia, mas ele recebeu o premio Nobel em 1968.
Bjos.
MJ
Minha MJ
ExcluirSaudades...
Na segunda parte da postagem, tem um breve relato da vida dele.
Tbm fiquei enfeitiçada e li uma parte do "Contos da Palma da Mão".
Fascínio puro.
Podemos penetrar na verdadeira essência através da Graça. Ela nos protege. Porém, se penetrarmos através da sombra, não tem volta.
A delicadeza aliada à visceralidade que ele se expõe escraviza.
Bjs,
Cláudia