quarta-feira, 9 de maio de 2012

MEDO - SOMBRAS DA INFÂNCIA


Lobisomens, Sombras, Gatos Negros, Mortos Vivos, Medos... Ele os espantou através das palavras. Quando se transformam, ganham cor e viram borboletas, brincadeiras do olhar.


MEDO - sombras da infância   
Julio Cortázar 
Por Cláudia Belintani

Interrogar-me sobre o medo em minha infância é abrir um território vertiginoso e cruel que inutilmente venho tentando esquecer (todo adulto é hipócrita frente uma parte de sua meninice), mas que volta em pesadelos noturnos e noutros pesadelos que fui escrevendo sob a forma de contos fantásticos.

A casa de minha infância estava tomada de sombras, recantos, andares e sótãos, e ao cair da noite as distâncias se tornavam desmedidas para este menino que devia ir ao banheiro atravessando dois pátios, ou trazer o que lhe pediam de uma dispensa remota. Sagas sangrentas de assassinos circulavam nas conversas de família após o jantar, o subúrbio transbordava de ladrões e vagabundos perigosos, mas isso tudo, que compreensivelmente aterrorizava minha mãe, somente incidiu marginalmente em meus medos. Numa idade que não consigo fixar, a solidão e a obscuridade desencadearam em mim outros temores jamais confessos; animalzinho literário desde então, o terror me chegou pelas leituras e não de crônicas vivas, inclusive nestas leituras o vórtice do pavor foi sempre a manifestação do sobrenatural, do que não se pode tocar, nem ouvir ou ver com os sentidos usuais, e que precipita sobre a vítima uma dimensão fora de toda lógica.

Assim, desarmado, nunca pude refugiar-me na confissão do temor que os mais velhos às vezes compreendem, ainda que quase sempre a rechacem em nome do senso comum, da hombridade e de outras cretinices; desde muito jovem tive que aceitar minha solidão nesse terreno ambíguo, onde o medo e a atração mórbida compunham meu mundo da noite. Consigo precisar hoje um marco seguro: a leitura clandestina, aos oito ou nove anos, dos contos de Edgar Allan Poe. Ali o real e o fantástico (digamos a rua Morgue e Berenice, o gato negro e Lady Madelaine Usher) se fundiram num horror unívoco que realmente me contaminou durante meses e do qual jamais me curei de todo. O folclore argentino também fazia das suas, através de tios e primas: o lobisomem, por exemplo, a possibilidade monstruosa do licantropo cada vez que me mandavam buscar algo no jardim em noite de lua cheia. Pouco me atemorizava a idéia de um criminoso que pudesse me apunhalar ou estrangular na sombra; esse criminoso estava do meu lado, inclusive minha ingenuidade me levava a crer-me capaz de defesa, com um direto na mandíbula ou uma patada letal. O medo era o outro, isso que a literatura anglo-saxã chama tão admiravelmente de the thing, "a coisa", o que não tem imagem nem definição precisa, roçar furtivo no cabelo, mão gelada no pescoço, risada percebida do outro lado de uma porta entreaberta. Contra isso não havia resposta possível senão correr, cumprir o encargo a toda velocidade e regressar sem alento para recolher irrisoriamente grandes elogios por minha diligência.

Meus companheiros de escola e de futebol tinham medo do que genericamente chamavam de fantasmas, que extraíam de relatos familiares e de péssimos novelões góticos. A idéia do fantasma típico, com lençol branco e ruído de correntes, nunca me preocupou; podia admitir sua existência, e até admitia, mas estava quase seguro de que não se incomodariam em manifestar-se, achava-os demasiadamente estereotipados e repetitivos. Minhas leituras pouco controladas pelos adultos caminhavam infalivelmente para formas mais sutis do sobrenatural e do mórbido; literatura da catalepsia e do sonambulismo, por exemplo, que abundava nas bibliotecas de minha infância; o Golem, que entrou prematuramente em minha vida; os duplos; os autômatos homicidas; e já no umbral da despedida infantil, o monstro filho de Mary Shelley e do doutor Frankenstein; além de Césare, a horrenda criatura de Caligari.

O menino é o pai do homem, e quem ler estas linhas reconhecerá algumas das atmosferas que surgem de meus contos e de alguma novela (onde se trata de vampiros que, coisa estranha, não circularam muito nas noites de minha infância, sem dúvida por falhas bibliográficas). Se o medo cobriu de infelicidade minha meninice, por outro lado multiplicou as possibilidades de minha imaginação e me levou a exorcizá-lo através da palavra; contra meu próprio medo inventei o medo para outros, resta saber se os outros me agradecerão.
Em todo caso, creio que um mundo sem medo será um mundo demasiado seguro de si mesmo, excessivamente mecânico.
Desconfio dos que afirmam nunca ter sentido medo; ou mentem, ou são robôs dissimulados, e que medo me dão os robôs.

(Julho de 1983)
Julio Cortázar (1914-1984) é um dos escritores argentinos mais importantes deste século.
Autor de Jogo da amarelinha, Bestiário, História de Cronópios e de Famas, entre outros.
Este texto foi cedido pela Agência EFE. (Tradução de Reynaldo Dama)

5 comentários:

  1. Mais bichos...
    Pq é madrugada de quarta-feira.

    bjs

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  2. "O menino é o pai do homem".
    não é sensacional esse nosso amor comum?
    beijos a vc Claudia e pro nosso amigo amado Julio. D.

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    1. Impressionante a veracidade desta frase.

      Fiquei com ela a noite inteira.

      Lembrei do "Desejo de Felicidade" de Thomas Mann (seu primeiro conto), onde estão todos os personagens futuros e seu próprio labirinto de intrigas, do Oscar Wilde com seu estudante egocêntrico e narcisista em "O Rouxinol e a Rosa", em "Cem Anos de Solidão" do Gabriel Garcia Marquez onde a Macondo que ele cria nada mais é do que ecos da visão do menino que ele foi e colocando os personagens "para fora", se exorciza dos próprios demônios.

      Depois me vem a Carlinha com um estudo sobre o livro "Na Natureza Selvagem",de Jon Krakauer, onde ela finaliza o trabalho com a frase: "E assim termina a trágica e emocionante história de Chris McCandless, jovem inteligente, carismático, sensível e corajoso que reconheceu seu próprio limite, tarde demais." - Onde a ausência do limite (aqui, medo) que "nos" imputamos fragiliza de forma irreversível nossos caminhos?

      O que fazemos com os medos?

      Estariam guardados embaixo da nossa pele assim como o casaco da raposa?

      Ou metamorfoseados em Búfalos de Rios envolto em grama alta? Que quando vamos consultá-lo, ele sempre sabe o caminho, mas não fala, só aponta, nós é que temos que encará-lo e transformá-lo em outro caminho, assim como fez o Cortázar.

      Ou o medo de fora (ou de dentro) é tão presente que nos enamoramos do espelho até sangrar ou morrer? (O Outro Narciso de JC).

      Concluo celebrando os medos e a solidão, tão necessários para nosso crescimento interior, mas atenção: partilhem tudo isto para transformá-los em búfalos, cisnes, mamutes, morcegos e lobisomens, pq senão eles nos engolem.

      Bjs cheios de medos meus que carinhosamente posso (que bom!!!) partilhar com vcs.

      Cláudia

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  3. Como eu entendo esse cara! os vampiros que faltaram na infancia dele sobraram na minha.Morria de medo das sombras da noite, principalmente das janelas, e durante boa parte de minha infancia tb tive que percorrer um longo corrdor para ir ao banheiro à noite.
    A coisa desconhecida, os casos de catalepsia me dão medo até hoje, e eu tb lia livros escondida, ligando muitas vezes uma lanterna sob os lençois à noite, ou, é claro no banheiro, onde às vezes passava horas e minha mãe dizia que um dia ia sair uma mão da privada e me puxar p baixo.
    Ah, tb ivemos ums empregada mineira que contava umas história de arrepiar, que eu adorava, mas minha irmã começou a ter pesadelos e minha mãe mandou-a embora.
    "A coisa" nos espia......

    Bjos

    MJ

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    1. Quando eu era pequena, passávamos as férias num sítio de uma tia querida no interior de São Paulo. Era uma "tribo" de crianças que não tinha fim. Uma noite, a filha de um colono nos foi "por na cama"... Para nos embalar, ela contou esta história: "Se vcs abrirem os olhos o diabo espeta as unhas neles até sangrar. Estão ouvindo este barulho que parece tic-tac de relógio? São as unhas afiadas do demônio andando pela casa esperando um olho aberto".
      Nunca mais esqueci.
      Até hoje, se ouço um tic-tac, não consigo dormir.
      Ainda bem que inventaram os relógios digitais.

      Bjs,
      Cláudia

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