quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

RAYUELA

A Boca, o espaço de tempo, a morte...

Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura.
E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

 Julio Cortázar
por Maria José

9 comentários:

  1. Tremular como uma lua na água... Que lindo!

    O beijo tinha um valor tão maior antes...

    As mudanças no tipo de beijo mostrados no cinema representavam todo um contexto social, cultural, religioso... como em Cinema Paradiso, com as cenas cortadas.

    Em seguida, se banalizou o beijo...

    É lindo ver um amor tão delicado em Medianeras sem ser mostrado um só beijo entre o casal, o filme envolve tanto que não precisa da cena clássica do beijo...

    Maria José, você nos trouxe um pouco do tempo da delicadeza... um olhar atento para um beijo, com uma grande beleza, cheia de sentido...

    Uma vez o Franklin disse que o beijo é como na fase oral, em que buscamos nos alimentar, disse que buscamos nos alimentar do outro no beijo...

    Bj grande!

    Jú.

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    1. Selar com os lábios
      Lentamente, nos emaranhamos no outro e nos tornamos um...
      Um sopro, um mergulho, um caminho, um mar, uma vida
      O Cortázar desnuda de novo o gesto, o movimento do amor.

      Isso Jú, um alimento que infelizmente está em desuso.
      A fase virtual eliminou a magia do toque.
      Viver de verdade é se deixar sentir, envolver, tocar.

      Bj,
      Cláudia

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  2. Estou sem ar!!!
    Virou um comixão, para não dizer outra coisa!
    Já fui no site e li mais, uau, que delícia!
    Pena não ser da epóca de Cortazar.....suspiros
    Até a noite
    Saudades
    Silvia

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    1. Silvia querida, somos todos do mesmo caldeirão.
      O tempo, a distância se desfaz para formarmos uma ciranda mágica que fascina.
      "Meia Noite em Paris", um ponto vélico onde viajamos para todos os mundos e dividimos a vida.
      Bj menina azul.
      Até mais.
      Cláudia

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  3. Esse foi o primeiro pedaço de Cortázar que li. (Considero mesmo um pedaço dele, aí estão tantas características fundamentais de sua escrita e sua visão de mundo)

    Quando li isso sabia que tinha de ler o livro todo... mas, embora nunca tenha sido um leitor preguiçoso, ler 640 páginas me assustava. Era muita coisa. Quando li "O Jogo da Amarelinha", foi muito mais rápido do que muitos livros "curtos" que li.

    Uma curiosidade sobre mim, que mesmo quem convive comigo às vezes não nota. Tenho uma camiseta estampada com esse capítulo. A letra ficou de tamanho normal, então as pessoas não se dão ao trabalho de ler. Mas gosto de sair com ela, me sinto especialmente cortazariano.

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  4. Esta ai um próximo livro que poderíamos ler: "o jogo de amarelinha".
    O que acham?

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  5. É longo. Mas vale muito a pena. Aliás, a gente nem sente que o livro é tão longo. Vocês costumam ler o JC em português ou em espanhol?

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  6. Eu leio em espanhol. Assim posso ouvi-lo.
    Maria José
    A maioria le em portugues,mas às vezes lemos trechos em espanhol.

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