terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

JOSÉ E PILAR

Amor Próprio

Dom de Conduzir

Saber para onde ir

E com quem caminhar... Pilar

Queridas:

Acabei de assistir ao filme José e Pilar, que achei lindo, envolvente, mas me deixou sufocada com a pressão que foi aplicada sobre ele (por ela), motivada por sua própria ambição, pautada pela energia que ela sentia com sua juventude, com pouquíssima consideração às necessidades e limites dele. Ela me pareceu uma pessoa bastante indelicada, às vezes até truculenta. Fiquei aviltada.  Acabei com um sentimento de rejeição a ela.

Não sei se foi assim que vcs sentiram.

O fato é que agora estou tendo que aguentar o Ricardo me chamar de Pilar cada vez que ele acha que estou 'mandando'....rsrsrssr......Eu peço, Ri me passa o saleiro, e ele responde, já vou, Pilar.... hahaha......

bjs, meninas, obrigada pelo filme, Claudia!

margaret

“Pilar e Jos”… Ops! Digo, “José e Pilar”


O título deste post já entrega a primeira impressão de “José e Pilar”, documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, uma coprodução O2 e El Deseo, que teve sua estreia mundial no Festival do Rio 2010.
Por meio de uma abordagem intimista, Miguel acompanha o dia a dia do casal Saramago na época em que o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura concebia o romance A viagem do elefante, lançado em 2008.
Ao devassarmos a rotina conjugal por meio das lentes do cineasta luso, forçosamente passamos a desmistificar Saramago, a enxergá-lo como um homem comum, com atitudes e demandas prosaicas, que tem sua agenda – e aqui utilizo o termo agenda em sentido amplo – controlada com mão de ferro pela voluntariosa jornalista espanhola Pilar Del Rio, sua esposa.
Se a produção viesse no formato 3D, a força da obra do escritor, ecos do Nobel que perdem seu significado em meio à burocracia e à logística de promoção da grife Saramago, “imposta” ao autor da obra-prima “Ensaio sobre a cegueira” (1995), funcionaria como substrato para aquela carpintaria estética. Em segundo plano viria o romance do casal, uma história de amor que germinou da semente da admiração. O que salta aos olhos, de modo que quase podemos tocar, é a onipresença e a (quase) onipotência de Pilar, força da natureza que envolveu Saramago e o arrasta consigo. Até a filha dele, Violente, tangencia a narrativa, tal a concentração na figura de Pilar.

“Pede a bênção, querido.”
E, por favor, essa análise passa longe do machismo. Quem me conhece sabe que acredito que as mulheres vão dominar o mundo. Já deixei isso claro em oportunidades anteriores. Sobre o filme, é somente a constatação de um fato. A balança estética de Miguel Gonçalves foi desregulada (acredito que acidentalmente) pela pungência da figura de Pilar.
Do seu refúgio na ilha de Lanzarote, nas Canárias, Saramago é catapultado pelo interesse em seu trabalho para os mais variados locais do mundo. Cético, ateu e comunista, ele, que expressa seu quixotismo no sarcasmo contra uma realidade que nunca atendeu suas expectativas, encontra no pragmatismo de Pilar, seu Sancho Pança, a bússola que direciona seu pessimismo para a produção. Só que as obrigações e deveres de cavaleiro e escudeiro de confundem.
Mal vista por uma ala do povo de Portugal – que a acusa de ser a responsável pelo êxodo do marido da terra de Camões para as Canárias − a impetuosa jornalista não se acanha com assuntos polêmicos e delicados. Debate política, religião, emancipação das mulheres, eleições, com desenvoltura e sem papas na língua. Ela inclusive mete o dedo na cara do governo de Cavaco Silva quando sabatinada por um jornalista acerca das razões da opção de Saramago por Lanzarote.
O filme é um trabalho muito benfeito que torna menos intangível e abstrata a figura do monstro da literatura. Não falta emoção, e sim direção e consistência para esse sentimento que nasce na literatura do mestre, mas se esvai na praticidade, algumas vezes deselegante (para nós, fãs), de Pilar.

No filme “O homem que matou o facínora” (1962) − dirigido por John Ford e roteirizado por James Warner Bellahh e Willis Goldbeck (baseado na história de Dorothy M. Johnson) −, uma linha de diálogo diz mais ou menos o seguinte: “Quando a lenda vira fato, imprima-se a lenda”. Ah, se Miguel tivesse seguido o conselho expresso no filmaço de Ford… O diretor americano era um cara que sabia das coisas…
Atrás do grande homem que foi o Nobel de Literatura nós não encontramos uma grande mulher, mas sim uma legião de fãs que não deixam de se encantar com as palavras do romancista. Pilar vai na frente, e Saramago, ladeado pela desilusão, encontra dificuldade em acompanhar o ritmo frenético da esposa – mesmo quando sua única certeza era ela. Lúcido, escreveu até o fim da vida, sempre buscando no que sorvia de pior na humanidade as matérias-primas para suas criações.
Apesar das reticências, o filme merece nosso prestígio. José Saramago é um dos responsáveis por alimentar minha paixão pela literatura. Engolindo a seco cada palavra das obras dele, crispadas pela ironia, sarcasmo, humor negro e descrença, entendi um pouco mais sobre nós mesmos.
Carlos Eduardo Bacellar
Postado por
Cláudia

5 comentários:

  1. Margaret:

    Eu e a Maria José partilhamos da mesma opinião.
    Foi engraçado pq vimos o filme e algo não desceu.

    Tomei a liberdade de postar seu comentário no blog e adicionei uma página do blog http://doidosporcinema.wordpress.com
    com um comentário do Eduardo Bacellar que condiz com o que sentimos. Aliás, nós tbm somos doidas por cinema e o blog é muito bem feito e atual.

    Quem mais viu o filme?
    Acho que a D.

    Assisti "A Dama de Ferro" e acabei ficando numa situação pior que a sua: O Paulo fica me chamando de Margareth!
    Aliás, que desempenho! A mulher encarnou a Thatcher. Nunca vi nada igual, aliás, a Hellen Mirren tbm encarnou "A Rainha".

    Essas Mulheres são poderosas.

    Bj,
    Cláudia

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Claudia, querida, ser chamada de Margaret é experiência que tenho desde que nasci...rsrss.....e este filme me fez orgulhosa do meu nome. Que mulher incrível, que visão de mundo!

      A Inglaterra deve a ela a não entrada na União Europeia, fato que a derrotou em sua última eleição e que hoje confirma uma sensibilidade quase premonitória.

      Quanto à Meryl Streep, eu pensei que ela já havia atingido o máximo em interpretação e que indicá-la ao Óscar seria quase que lugar comum, mas eis que então surge do Olimpo a deusa da dramaturgia para superar todos os limites que os mortais jamais ousaram conceber.

      Bjs e uma ótima semana!
      margaret

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  2. José e Pilar.
    Qdo assisti o filme achei mesmo que talvez eu não tivesse'pescado' algo. Fiquei com uma sensaç~çao de incômodo.
    D Quixote e Sancho Pança? O Sancho era bem mais doce...
    Bjos
    Maria José.

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  3. Claudia, após ler sua excelente crítica, estou pronta pra ver "José e Pilar"...

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