| Foto de Luis Tomasello (associação livre) |
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| Negro el 10 - Luis Tomasello |
Julio Cortázar
Tradução: Cassiano Vianna.
1
Começa por não ser. Por ser não. O Caos é negro.
Como é negro o nada.
2
Nasce a claridade, o galo esmigalha o céu,
Inflam-se as cores
vaidosas.
Mas o negro se finca primitivo. Toda luz
no carvão se abisma, no basalto.
3
Les physiciens appellent corps noirs tous ceux
qui absorbent intégralement les radiations reçues.
E.U.
Para melhor lançá-los ao assalto
do dia. (Goya poderia dizê-lo).
4
Escavação no sangue, na memória,
o negro sabe a palavra, é a tormenta
raivosa dos ódios e do ciúmes:
Othello, o blackamoor, o mouro negro
sempre, para o lívido Yago.
5
Pai profundo, peixe abissal das origens,
retorno ao qual começo,
Estigia contra o sol e seus espelhos,
final das trocas,
última estrela das mutações,
palavra do silêncio.
6
Seu palácio noturno: o sonho, a pálpebra
sedosa guilhotina do pavão-real diurno
para que apenas as similitudes
desdobrem seus tapetes de roxos, púrpuras e de
óxidos,
harém do negro, esperma dos sonhos.
7
Diria que ele gosta que o aplaquem, o despertem,
o estendam em
lisas superfícies, como se faz aqui. Diria que ama
ser o
trampolim de onde saltam as cores, seu calado
silêncio.
Tudo o mais contra o negro; tudo é menos quando falta.
8
Cedes a estas metamorfoses que uma mão enamorada
cumpre em ti, te enches de ritmos, rachaduras, te
transformas em tabuleiro, relógio de lua, muralhas de brechas
abertas ao que observa sempre o outro lado,
máquinas de contar cifras fora das cifras, astrolábio
e guia de portos para terras nunca abordadas, mar
petrificado no que resvala o peixe do olhar.
9
Cavalo negro dos pesadelos, machado do
sacrifício, tinta de palavra escrita, pulmão
do que desenha, serigrafia da noite,
negro, o dez: roleta da morte, que se
joga vivendo.
10
Tua sombra espera atrás de toda luz.
[Julio Cortázar, inverno de 1983/ Cassiano Viana, verão de 2005.]
Publicado originalmente por Cecilia Giannetti em 12/02/2007.

"Tua sombra espera atrás de toda a luz"
ResponderExcluirQue lindo!
Este foi o último poema escrito em 1983, na cama do hospital St. Lazare, em Paris. "Negro el Diez" foi criado para uma série de desenhos do artista plástico Luis Tomasello. Durante o Ano Cortázar (2004), foi publicado em uma edição de luxo, de apenas 60 exemplares em serigrafia.
Bjs meninas e visitem a exposição do Luis Tomaselli na Vila Madalena (dica do Gustavo que me inspirou a buscar isto tudo).
BJs
Eu não sabia (ou não lembrava) que tinha sido escrito no St. Lazare. Faz sentido... Ainda assim, não é um poema totalmente negativista. Pena que sem as ilustrações perde-se tanto da sua força!
ResponderExcluirOi Gustavo!
ExcluirVc tem as ilustrações?
A proximidade da morte, a vida sentida e partilhada, luz e sombra, alguém que viveu.
Bjs
Não tenho, não. As do "Elogio del 3" sairam nas "Obras Completas" da Galaxia Gutenberg. Mas as do "Negro el 10" não... Uma pena.
ExcluirNos encantamos por algo por identificação. O texto que fala comigo, que me faz os olhos marejar, que me leva à outras paradas me fisga porque me vejo lá. Algumas de suas frases poderiam ter sido escritas por mim se tivesse esta possibilidade de expressão .
ResponderExcluirMe encantou este poema... a beira da morte.
A beira da morte... "Tudo é menos quando falta".
Thais