Claudia Furiati
(Texto extraído do blog doidos por cinema)
"Rendo-me, estranha.
Resisto ao juízo final. Não sei se gostei, sabe? Nada sei.
Percebo sim – percebo? -, mais ou menos, espectadores que se vão em compasso Malick. Talvez esbarrem em mim… e me previno ao lado do baleiro. Entrego-me à espera da visão de meus filhos na porta do Leblon.
A visão de meus filhos, é o que basta. E digo: Não sei se vi um filme ou uma prece, se foi poesia ou maravilha. Não é roteiro, é um argumento; não é história, é um tema; não é narrativa, é fenômeno. Aquilo não é a província, é uma passagem. Um fenômeno sem data, sem hora e sem cortes. Os narradores não estão e a câmera valsa, infinita. A representação não é: Não há personagens, pois eles são criaturas (divinas). “A Árvore da Vida” me lança nos códigos além dos sentidos.
Outra dimensão, a da experiência artística. Remeto-me aos estudos de teoria da história e recordo-me de um pensamento meu ao conhecer a fenomenologia de Husserl: Isto é cinema, isso aí. E agora não sei como foi possível ali traduzir filosofia, teologia, natureza e graça; como foi atravessar o olhar pelos cantos e pelas bordas, jogar–nos ao fundo da tela e chegar à criação. Rendo-me sim – agora sem restrição – à ousadia desse artista em plena indústria cultural, que desconhece receitas e parâmetros, e também todos os gostos. Entendo o senhor que, atrás de mim, ao findar o filme, desabafou revoltado: esse crítico é louco… É.
A familia de Malick é a minha, a sua, a nossa. É – de fato ? – o ser família. A propósito: as fronteiras entre casas e jardins não existem, a despeito da tentativa do pai Pitt. Tampouco há fronteira entre o dentro e o fora – de casa e dos seres -, é quase o mesmo plano, sem cortes. Poder e Perda, Abismo e Luz, Ódio e Amor, as energias fundadoras ali estão em família, como arquétipo da criação do mundo. Totems e tabus, as grandes contradições como matéria de refundação: a repressão pode ser amor, generosidade pode ser complacência, Ciência é Fé. Forças contrárias caminham embaladas ao mistério. Ao começo de tudo. Malick nos convoca à essência, enfim descrédulo da “realidade”. Inicia-nos na regressão e na transcendência, ensina-me a recomeçar. Rendo-me, enfim, à visão de meus fillhos. BIG BANG. Chama."
O ser humano fotografado em carne viva, cheio de dúvidas, culpa e medo.
Sei que o filme gera polêmica, mas a fotografia é de uma magnitude sem fim.
Um pouco da "Graça" da vida para vocês.
Bj de manhã de quarta-feira cheia de Sol e de Sul.
Cláudia
O Milagre da Vida
Labirintos
Caim e Abel
Como num espelho de Sombras
Porque somos o que vivemos,
Desejamos,
E amamos...


O Conto de hoje me levou para "A Árvore da Vida". Talvez pelas sombras, pelas fadas, pela busca.
ResponderExcluirA crítica da minha xará Cláudia Furiati, jornalista e historiadora me tocou fundo.
bjs,
Cláudia
Amei o texto sobre o filme. Ela diz : "Não é roteiro, é um argumento; não é história, é um tema; não é narrativa, é fenômeno. Aquilo não é a província, é uma passagem."
ExcluirEu tenho vontade de acrescentar uma palavra: jornada. Para mim este filme é uma jornada. É abrir-se para o fluxo de nossos pensamentos, sentimentos, percepções, dores, amores. No ritmo que eles nos vêm, ao sabor de nossa humanidade.
Uma jornada que vale a pena.
bjs, margaret
Enfim assisti ao filme no cinesesc, que está exibindo os melhores filmes do ano!
ResponderExcluirO filme foi para mim sensorial, o senti na minha pele, ora arrepiada, ora aquecida.
Desacreditei quando vi, nadando rapidamente no fundo da água... nosso querido Axolot. Vocês notaram? Lá estava ele, o monstrinho mais charmoso das águas.
Obs:(Tenho 90% de certeza, os 10 % de dúvida é por conta do tamanho dele, um pouco maior do que dizem ter eles (30 centímetros). Mas a câmera amplia tanto as imagens que pode ser por isso minha sensação...)
Curiosa a inquietude da platéia, com pessoas se mexendo, saindo do filme, comentando incomodadas. Minha amiga, da primeira vez que viu, disse que dois terços do público deixou o cinema.
Achei imenso, é uma jornada como disse, Marg. Um fenômeno, um retrato em movimento da vida. De certa forma, ver essa grandeza me traz calma. Somos tão frágeis diante de tudo isso, muitas vezes à deriva de, sujeitos a... mas o que impressiona é nossa capacidade de enfrentar, de nos adaptar. Nossa força frágil, que sustenta mas demora a parar de doer.
Uma das frases mais lindas e completas que já ouvi: NA VIDA TEMOS DOIS CAMINHOS - O DA NATUREZA OU O DA GRAÇA.
E as crianças? O mini Brad Pitt, idêntico à ele de aparência? E o outro, o odiando e sendo idêntico à ele de jeito? E a cena do menino vendo o menor chegar ao mundo, que olhares que ele faz, que olhar à mãe quando ela cura seu machucado no pé...
Ual, que filme... se o podemos chamar assim.
Beijo!
Jú.