quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

LIMITES

Somos as primeiras
gerações de pais decididos a não repetir com os filhos os erros de nossos progenitores. E com o esforço de abolir os abusos do passado, somos os pais mais dedicados e compreensivos mas,  por outro lado, os mais bobos e inseguros que já houve na história.

O grave é que estamos lidando com crianças mais "espertas", ousadas, agressivas e poderosas do que nunca.
Parece que, em nossa tentativa de sermos os pais que queríamos ter, passamos de um extremo ao outro. Assim, somos a última geração de filhos que  obedeceram a seus pais e a primeira geração de pais que obedecem a seus filhos...

Os últimos que tivemos medo dos pais e os primeiros que tememos os filhos. Os últimos que cresceram sob o mando dos pais e os primeiros que vivem sob o jugo dos filhos. E o que é pior, os últimos que respeitamos nossos pais e os primeiros que aceitamos (às vezes sem escolha...) que nossos filhos nos faltem com o respeito.

Na medida em que o permissível substituiu o autoritarismo, os termos das relações familiares mudaram de forma radical, para o bem e para o mal. Com efeito, antes se consideravam bons pais aqueles cujos filhos se comportavam bem, obedeciam a suas ordens e os tratavam com o devido respeito. E bons filhos, as crianças que eram formais e veneravam seus pais.
Mas, à medida que as fronteiras hierárquicas entre nós e nossos filhos foram se desvanecendo, hoje, os bons pais são aqueles que conseguem que seus filhos os amem, ainda que pouco os respeitem. E são os filhos quem, agora, esperam respeito de seus pais, pretendendo de tal maneira que respeitem as suas idéias, seus gostos, suas preferências e sua forma de agir e viver. E, além disso, os patrocinem no que necessitarem para tal fim.

Quer dizer; os papéis se inverteram, e agora são os pais quem tem que agradar a seus filhos para ganhá-los e não o inverso, como no passado. Isto explica o esforço que fazem hoje tantos pais e mães para serem os melhores amigos e "dar tudo" a seus filhos. Dizem que os extremos se atraem.

Se o autoritarismo do passado encheu os filhos de medo de seus pais, a debilidade do presente os preenche de medo e menosprezo ao nos ver tão  débeis e perdidos como eles.

Os filhos precisam perceber que, durante a infância, estamos à frente de suas vidas, como líderes capazes de sujeitá-los quando não os podemos conter, e de guiá-los enquanto não sabem para onde vão. Se o autoritarismo suplanta, o permissível sufoca.
Apenas uma atitude firme, respeitosa, lhes permitirá confiar em nossa idoneidade para governar suas vidas enquanto forem menores, porque vamos à frente liderando-os e não atrás, carregando-os, e rendidos à sua vontade.

É assim que evitaremos que as novas gerações se afoguem no descontrole e tédio no  qual está afundando uma sociedade que parece ir à deriva, sem parâmetros nem destino.
Os limites abrigam o indivíduo. Com amor ilimitado e profundo respeito.
"Retirantes" - Cândido Portinari


Monica Monasterio (Madrid-Espanha)
Publicado no Portal da Família em 28/01/2008
Sugestão de Lea De Luca

5 comentários:

  1. Queridas meninas
    Sei que nem todas tem filhos e nem todas foram mães assim, como esse texto descreve -- mas eu me sinto exatamente assim, e talvez algumas de vocês também.
    E para as que, entre vocês, se sentem assim também... acho que pode haver um consolo...
    as vezes penso que nossos filhos sim terao o poder de fazer com os filhos deles o que nao soubemos fazer com os nossos.
    As vezes penso que se há algo de bom nessa criação torta que demos a eles, foi a segurança de se sentirem poderosos -- o que os tornará, talvez, mães melhores que nós!
    Tomara que essa nova geração saiba equilibrar o autoritarismo dos nossos pais com o nosso permissivismo.
    Se assim for, ao menos, valeu. O mundo será melhor.
    Beijos!!! Lea

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  2. Lea, bom dia!



    Sem dúvida que houve essa inversão de papéis na Sociedade em decorrência de tantas outras mudanças, pela ausência dos pais, que estão priorizando sua vida profissional, deixando uma lacuna na educação dos filhos, que ficam entregues às babás, aos professores e à vida. Mas creio que entre nós, desse grupo da leitura, há muitas privilegiadas, com filhos queridos, que nos amam e nos respeitam.... são aquelas exceções que confirmam as regras. Ainda que em alguma fase da infância ou da adolescência tenhamos lidado com alguma rebeldia, isso faz parte da vida. E agora, que eles estão já adultos, como é gratificante constatar a admiração e respeito que eles têm por nós. Essa relação é das mais poderosas e compensadoras que há.



    Bjs.

    Angela

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  3. Caras:

    Acho que houve uma mudança enorme nos limites. Antigamente nem existia nenhum "tratado sobre a infância".
    As crianças (as mais abastadas) tinham mães de leite e eram relegadas aos bastidores da cozinha. Não sentavam à mesa com os pais e só participavam (apareciam) da vida adulta quando estivessem prontas para casar (as mulheres) e ou trabalhar (os homens).
    Hoje, os "bebes" conseguem (temos que ser feliz a qqr preço), através do choro manipular os pais. Não se pode mais chorar, ser contrariado, não ter o brinquedo anunciado, o tênis que acende, o celular da moda, sob o risco de não estar inserido, não ter tribo (mas que tribo?).
    As mães namoram junto com as filhas, os filhos dividem o papel de pai, os pais se esfolam correndo atras da "felicidade" dos filhos e está proibido contrariar (p os pais) e ser contrariado (para os filhos).
    É uma geração "poderosa", cheia de super homens e mulheres maravilhas, mas que ao menor dissabor, entram em pânico.
    Temos filhos inteligentes, que ultrapassam a linha (pq permitimos e permitimos pq nos perdemos), que também se perdem, que levantam a voz para que não tenham que levantar para eles mesmos.
    Penso sempre no ninho da águia, onde ela alimenta a prole e depois, no tempo certo, não os alimenta mais. Eles alçam vôo e solitários, alcançam a linha tênue do crepúsculo.
    Não somos águias, somos mães humanas.
    Vai dar tudo certo.
    Bj e um dia lindo de primavera. Cláudia

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  4. Lea, acabo de ler o que vc mandou. É muito sério, acontece que é mais fácil permitir, negar dá trabalho, causa dor, e permitir cria as " coisas" de pessoas que vemos por aí, que não aceitam ser contrariados. É dificil lutar contra o " todo mundo vai, todo mundo deixa, menos vc". Os pais, a meu ver, não deveriam ser amigos dosa filhos, oa pais são o porto seguro, a mão de que impede que se caia no abismo, que dá colo e enxuga as lágrimas, ou simplesmente chora junto.
    è muito difícil, cansativo, desgastante, mas qdo vc recebe um abraço apertado e houve um "obrigado mão, pai por ter me aconselhado", chegamos á conclusão que a luta valeu a pena. Temos que deixar que voem sozinhos, mas eles tem que saber que se caírem estaremos lá para ampara-los.
    As crianças querem limítes, eles os pedem a toda hora, nos testam.
    Somos humanos, e qdo eles crescem se dão conta disso. Esse 'amor' que tudo dá e nada nega, que tudo compreende e nada reprime, tb enforca em seu laço cor de rosa.
    Bjos
    Maria José

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  5. Estabelecer limites é tão difícil... acredito que em qualquer relação, seja liderando uma equipe no trabalho, na faculdade com os amigos fazendo trabalhos, dizendo não para o gato... Quantas vezes me vi quase gritando Não para o coitado do gato que me olhava fazendo cara de coitadinho... mas acredito que o mais difícil dos limites é aquele que se estabelece com as pessoas que se ama. Acho que o papel de ser mãe hoje em dia, é extremamente complicado... Observo constantemente as pessoas responsabilizando terceiros por seus atos... é tão mais fácil culpar o outro. Se algo deu errado a culpa nunca é nossa e sim principalmente de quem nos autoriza ou orienta... por isso acho que o envolvimento mãe e filho é algo que exige um cuidado ainda maior. O cuidado de deixar o filho ser livre e ter plena consciência de que somente ele é responsável por seus atos... Mas isso exige uma coragem maior a de abrir mão (como diz nossa querida Margareth)...
    Esse é meu olhar como filha e quem sabe futura mãe.
    Com carinho
    Carla

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