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| Noite de Llosa com "Os Filhotes" - Foto: Xavier Miserachs |
Caras confrades,
Sob um vento acalorado que insistia em participar de mais
uma sessão gastronômica-literária, Cláudia, Carla, Thais e eu nos debruçamos
sobre Os filhotes, o conto do peruano Llosa.
A partir da percepção e da constatação de tantas ausências
numa noite de bruxas, imaginemos que Sandy e Halloween foram motivos que
desviaram tantas tixas das paredes de Moema.
E sem a nossa querida relatora-mor, Silvia, instalou-se
então uma substituição de improviso. E aí vou eu para o relato.
A abertura dos trabalhos veio com um ceviche de salmão,
salada, sopinha fria e os beliscos costumeiros com os goles de um branco
trincando. A assinatura da anfitriã e a assessoria afiada de Boaz nos
acompanharam uma vez mais.
O universo do conto
Filhotes é uma tradução de Cachorros. Em espanhol cachorro
significa filhote de qualquer bicho.
O conto, longo, traz o tema tabu em ritmo de um rap narrativo.
Já que o autor mistura primeira e terceira pessoas, deixando um terceiro
narrador à espreita. Isso deu ritmo à discussão. Engatamos nessa oralidade de
Llosa ao misturar fala e escrita numa história de aparência simplificada e
quase rotineira em se tratando do nascimento, vida e morte de uma turma de
meninos, de classe média latino-americana que gostavam de futebol meninas,
música, aventuras fortuitas, carros e diversão, sem nenhuma implicação com os
destinos políticos da cidade (lima, do país, Peru ou do continente, América Latina).
Tal ritmo da narrativa se confirma uma vez mais. Ou seja, o
autor seduz o leitor e nos faz dançar em seu ritmo.
Tema tabu, a castração do filhote Cuéllar, o Piroquinha
(apelido pra lá de sintomático), é o centro do conto. Acontece a tragédia nem a
escola, regida pelos padres, nem a família, tão pouco a turrrrma vai fundo no assunto. Nem mesmo a vítima, o garoto que
segue a vida sem o falo. Pois ele foi castrado por uma fera, curiosamente (?!)
batizado de Judas. Nada em vão, já que a crítica à educação católica é clara.
Uma vez mutilado ele tenta seguir a vida, porém, nos pareceu
uma morte anunciada, uma vez que, com algo diferente dos amigos da turma, ele
passa a ser “tolerado”, em função do problema. Deixa de se dedicar tanto aos
estudos, vai se excluindo de algumas festinhas e reuniões sociais, se esquiva
das meninas e vê um desafio maior ao enfrentar o garoto interessado na Tê, a
mocinha cheia de frufrus que chega na escola e na cidade, por quem ele se
interessa.
É nas ondas (semelhança com o cenário de Domingo) que
Cuéllar prova sua virilidade. Pegar uma onda de metros frente a uma galera, foi
o que pôde fazer, já que não podia chegar na menina, como os outros.
Sua trajetória de menino, adolescente e moço feito vai
acompanhada por seus pais que lhe asseguram os bens (dinheiro) e uma vida de
classe média burguesa bem boa: colégio particular, carros do ano, saídas para
as baladas. Uma forma de compensar sua perda maior (o falo, o poder, a
virilidade). Ele, por sua vez, tenta. Muda de comportamento, vai de bad boy a
mocinho direito e educado, elogiando as mães e tias das festinhas da turma. Mas
não se encaixa na vida. Vai cambaleando nos estudos e na sociedade. Faz que
trabalha, mas sai para beber e ficar com a moçada barra pesada das perifas.
Assexuado. Homossexual. Dúvidas que não se aclaram no conto.
Cada leitora pode repensar sobre o ponto. Afinal sem o bilau, como é que
poderia pôr sua sexualidade em dia?
Metáfora pura da castração da vida, como assinala Cláudia.
Castrada está a vida do moço. Tanto que chega à morte.
Mas também há outra castração no conto, a da geração de
Piroquinha , que na impossibilidade de transgredir fez/seguiu igualzinho aos
nossos pais, como diz a Elis e como destacou a Cláudia.
Questões implicantes de Llosa:
Crítica ao sistema educacional católico.
Crítica ao poder do ter. O pai do Cuéllar pode, então manda “sumir”
com o dinamarquês Judas assassino, então presenteia o filho com um carro do
ano, então tenta uma solução de uma possível cirurgia para o filho no exterior
(primeiro nos EUA, depois na Europa).
Poderoso mas ausente esse pai de Cuéllar. Nem no hospital,
quando do acidente, nem em casa nem nas saídas ele acompanha o filho. No máximo
está a mãe.
Ou seja, diante de uma temática
machista o pai não se envolve, apenas é o provedor.
O “não se fala mais nisso e todos consentem” leva o Cuéllar
a momentos de crise, como o ataque de choro, nos braços não de uma mulher mas
do volante de sua máquina. Ele tem no carro, o mesmo furor que o namorado de
Nina Daconte (Rastro do teu sangue na neve), ou seja, já que não tem mulher
(por imposição de um acidente de percurso).
Esta agonia que o conto provoca de que ninguém faz nada mais
além de um consentimento velado e
às vezes explícito (quando a turma quer ajudar e se esforça para que Cuéllar
“arranje” uma namoradinha vai acabando com a gente e nos fazendo refletir mais
e mais. Do micro para o macro. Do problema dele para vida e a sociedade.
Narrativa
inovadora para a época, pois a leitura nos leva bem pertinho destes narradores em ritmo de rap, o
conto também nos mostra um cenário de época: o futebol e seus ídolos, o jornal
A Crônica, os filmes, os hit musicais (o clássico Quizás incluindo entre os
intérpretes o Nat King Cole (aí Adri), o rei do Mambo, Perez Prado (http://www.youtube.com/watch?v=2k6l2RQqqnU&feature=related
e sua orquestra que ganhou o mundo, as festinhas, a Cuba Libre (drinque
referência à revolução cubana, uma vez que mistura coca cola e rum (dois
poderes antagônicos).
Aqui um diálogo com dois dos maiores intérpretes cubanos, Omara
e Ibrahim, apenas um exemplo de tantas outras interpretações deste clássico.
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Castração – reprodução
Tema tabu, católico que o autor resolve com a substituição
de Judas, o cão, por dois coelhinhos fofos. (animal que representa a
fertilidade; a reprodução). Detalhe são brancos. Assim como é branco o vestido
da mãe de Cuéllar, assim como é branco o chão do banheiro que minutos depois ao
ataque de Judas, se transforma num rio vermelho, de sangue.
O frio. Quando Cuéllar sente medo, ele tem frio. Quando ele
se embebeda, sente frio.
Quando ele sai do eixo, ele sente frio. Comportamento de um
personagem de carne e osso, não acham?
Castrado este ser, igualmente com sua geração, não discute,
nem trata, nem comenta nada em relação às questões políticas
Intervenção carliniana
Como foi combinado, Carla, entremeou nossa discussão com
trechos de Freud sobre as questões narcisistas na categoria poltrona. Por que o
olhar narcísico conversa com o personagem protagonista? Carla Bellintani pode
esclarecer melhor ao vivo. Munida de seus apontamentos ela e Thais, em plena sintonia, nos trouxeram
vários pontos para futuras pensatas.
Intervenção claudiniana
Cláudia nos brindou com uma passagem de olhos comentada
sobre a trajetória intelectual e pessoal de Llosa, que também está aqui no blog,
em seguida, nos mostrou este vídeo:
Delicadeza dos traços versus dureza de tema. A castração de
novo à tona. Diante de um cenário e contexto judaicos que o filme nos
apresenta, uma beleza plástica nos cutuca para mais uma discussão sobre o
castrar. Vale?
Terminamos com a sobremesa, sorvete de doce de leite, a
cargo da Carla.
E fechamos para a próxima quarta a leitura de O Desafio do mesmo livro.
Por isso, confrades, seguindo a linha alfabética depois da
Adri deveria ser Aline e depois a Ângela, na impossibilidade das duas veio a
Carla. Então para o dia 7, quem irá para a poltrona e responderá pela sobremesa será uma das anteriores ou a
Cláudia?
O arremate da noite veio com as palavras doces de Nequinha
que nos enviou língua de gato e que tais para adoçar os pensamentos e as
palavras. Conhecedora do mundo das letras, a língua de gato em noite que o tema
era castração não poderia ter sido melhor.
O bilhetinho carinhoso teve leitura de Carla, a enfant engajada nas questões da psiquê
no nosso dia a dia.
Vamos seguir, seguir, seguir.
Bj
Joana

Joana:
ResponderExcluirNa falta (e que falta!) de um sorriso Azul, ganhamos um par de óculos em 4D.
Obrigada pela dimensão do seu olhar e da sua batuta que nos instiga a viajar e entender por trás de cada linha.
Me deixar levar pela literatura e depois poder trocar olhares me alimenta.
Mais uma vez, agradeço à Minha Doce Confraria pelo ingresso ao Sul.
Com carinho,
Cláudia
Joana,
ResponderExcluirQue retrato!
Tão rico e intenso quanto nossas noite uivaste de ontem.
E esta interpretação dos cubanos para "Quizas", Ro arrepiada....
Meninas queridas, muita falta de todas,
Bj grande
Thais
E o vestido Azul com girassóis que ela está usando?
ExcluirQue "diálogo"!!!
Muito bom.
Bj meninas.
Cláudia
"Na impossibilidade de transgredir..."
ResponderExcluirOnde o espaço se apequena, há a necessidade de sair, mudar, trocar de olhar, rever, modificar, expandir, ir.
Se a casca não se rompe, falta ar, algo deve ser cortado para que se possa permanecer.
“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Esse olhar é o da alma.”
A Alma Imoral - Nilton Bonder
Bj,
Cláudia
Meninas maravilhosas!
ResponderExcluirQue relato sensacional Joana!! Rico, muito rico. Aprendi mais um pouco.
Aí Cláudia, foi um mega conto bem elucidado por você no blog anteriormente com um grande fechamento da Joana!
Um petit comité que rendeu, isso é muito bom.
Perdi tudo isso e ainda o Dia das bruxas!
beijocas com muitas saudades
Silvia
Joana, adorei a análise do conto, rica, sensível e elucidativa. obrigada pela dedicação. li os dois contos "domingo e os filhotes" e gostei especialmente do estilo. estou curtindo conhecer um pouco mais do lhosa. dele, só li "a guerra do fim do mundo", como já comentei com vocês. é isso, vamos para o terceiro, com a promessa da presença no próximo encontro. beijos a todas, d.
ResponderExcluiresqueci de dizer: estou com este cd do ibrahim ferrer no carro, no qual ele canta "quizas" com Omara. amo, babo! é a ciranda da confraria que acaba nos abraçando onde quer que estejamos. mais beijos.
ResponderExcluird.