quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SOB O SIGNO DE JOANA


Noite de Llosa com "Os Filhotes" - Foto: Xavier Miserachs


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Caras confrades,


Sob um vento acalorado que insistia em participar de mais uma sessão gastronômica-literária, Cláudia, Carla, Thais e eu nos debruçamos sobre Os filhotes, o conto do peruano Llosa.

A partir da percepção e da constatação de tantas ausências numa noite de bruxas, imaginemos que Sandy e Halloween foram motivos que desviaram tantas tixas das paredes de Moema.
E sem a nossa querida relatora-mor, Silvia, instalou-se então uma substituição de improviso. E aí vou eu para o relato.

A abertura dos trabalhos veio com um ceviche de salmão, salada, sopinha fria e os beliscos costumeiros com os goles de um branco trincando. A assinatura da anfitriã e a assessoria afiada de Boaz nos acompanharam uma vez mais.


O universo do conto

Filhotes é uma tradução de Cachorros. Em espanhol cachorro significa filhote de qualquer bicho.

O conto, longo, traz o tema tabu em ritmo de um rap narrativo. Já que o autor mistura primeira e terceira pessoas, deixando um terceiro narrador à espreita. Isso deu ritmo à discussão. Engatamos nessa oralidade de Llosa ao misturar fala e escrita numa história de aparência simplificada e quase rotineira em se tratando do nascimento, vida e morte de uma turma de meninos, de classe média latino-americana que gostavam de futebol meninas, música, aventuras fortuitas, carros e diversão, sem nenhuma implicação com os destinos políticos da cidade (lima, do país, Peru  ou do continente, América Latina).

Tal ritmo da narrativa se confirma uma vez mais. Ou seja, o autor seduz o leitor e nos faz dançar em seu ritmo.

Tema tabu, a castração do filhote Cuéllar, o Piroquinha (apelido pra lá de sintomático), é o centro do conto. Acontece a tragédia nem a escola, regida pelos padres, nem a família, tão pouco a turrrrma vai fundo no assunto. Nem mesmo a vítima, o garoto que segue a vida sem o falo. Pois ele foi castrado por uma fera, curiosamente (?!) batizado de Judas. Nada em vão, já que a crítica à educação católica é clara.
Uma vez mutilado ele tenta seguir a vida, porém, nos pareceu uma morte anunciada, uma vez que, com algo diferente dos amigos da turma, ele passa a ser “tolerado”, em função do problema. Deixa de se dedicar tanto aos estudos, vai se excluindo de algumas festinhas e reuniões sociais, se esquiva das meninas e vê um desafio maior ao enfrentar o garoto interessado na Tê, a mocinha cheia de frufrus que chega na escola e na cidade, por quem ele se interessa.
É nas ondas (semelhança com o cenário de Domingo) que Cuéllar prova sua virilidade. Pegar uma onda de metros frente a uma galera, foi o que pôde fazer, já que não podia chegar na menina, como os outros.
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Sua trajetória de menino, adolescente e moço feito vai acompanhada por seus pais que lhe asseguram os bens (dinheiro) e uma vida de classe média burguesa bem boa: colégio particular, carros do ano, saídas para as baladas. Uma forma de compensar sua perda maior (o falo, o poder, a virilidade). Ele, por sua vez, tenta. Muda de comportamento, vai de bad boy a mocinho direito e educado, elogiando as mães e tias das festinhas da turma. Mas não se encaixa na vida. Vai cambaleando nos estudos e na sociedade. Faz que trabalha, mas sai para beber e ficar com a moçada barra pesada das perifas.

Assexuado. Homossexual. Dúvidas que não se aclaram no conto. Cada leitora pode repensar sobre o ponto. Afinal sem o bilau, como é que poderia pôr sua sexualidade em dia?

Metáfora pura da castração da vida, como assinala Cláudia.
Castrada está a vida do moço. Tanto que chega à morte.
Mas também há outra castração no conto, a da geração de Piroquinha , que na impossibilidade de transgredir fez/seguiu igualzinho aos nossos pais, como diz a Elis e como destacou a Cláudia.

Questões implicantes de Llosa:

Crítica ao sistema educacional católico.
Crítica ao poder do ter. O pai do Cuéllar pode, então manda “sumir” com o dinamarquês Judas assassino, então presenteia o filho com um carro do ano, então tenta uma solução de uma possível cirurgia para o filho no exterior (primeiro nos EUA, depois na Europa).

Poderoso mas ausente esse pai de Cuéllar. Nem no hospital, quando do acidente, nem em casa nem nas saídas ele acompanha o filho. No máximo está a mãe.

Ou seja, diante de uma temática machista o pai não se envolve, apenas é o provedor.

O “não se fala mais nisso e todos consentem” leva o Cuéllar a momentos de crise, como o ataque de choro, nos braços não de uma mulher mas do volante de sua máquina. Ele tem no carro, o mesmo furor que o namorado de Nina Daconte (Rastro do teu sangue na neve), ou seja, já que não tem mulher (por imposição de um acidente de percurso).

Esta agonia que o conto provoca de que ninguém faz nada mais além de um consentimento  velado e às vezes explícito (quando a turma quer ajudar e se esforça para que Cuéllar “arranje” uma namoradinha vai acabando com a gente e nos fazendo refletir mais e mais. Do micro para o macro. Do problema dele para vida e a sociedade.

Narrativa inovadora para a época, pois a leitura  nos leva bem pertinho destes narradores em ritmo de rap, o conto também nos mostra um cenário de época: o futebol e seus ídolos, o jornal A Crônica, os filmes, os hit musicais (o clássico Quizás incluindo entre os intérpretes o Nat King Cole (aí Adri), o rei do Mambo, Perez Prado (http://www.youtube.com/watch?v=2k6l2RQqqnU&feature=related 
e sua orquestra que ganhou o mundo, as festinhas, a Cuba Libre (drinque referência à revolução cubana, uma vez que mistura coca cola e rum (dois poderes antagônicos).

Aqui um diálogo com dois dos maiores intérpretes cubanos, Omara e Ibrahim, apenas um exemplo de tantas outras interpretações deste clássico.

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Castração – reprodução

Tema tabu, católico que o autor resolve com a substituição de Judas, o cão, por dois coelhinhos fofos. (animal que representa a fertilidade; a reprodução). Detalhe são brancos. Assim como é branco o vestido da mãe de Cuéllar, assim como é branco o chão do banheiro que minutos depois ao ataque de Judas, se transforma num rio vermelho, de sangue.

O frio. Quando Cuéllar sente medo, ele tem frio. Quando ele se embebeda, sente frio.
Quando ele sai do eixo, ele sente frio. Comportamento de um personagem de carne e osso, não acham?

Castrado este ser, igualmente com sua geração, não discute, nem trata, nem comenta nada em relação às questões políticas

Intervenção carliniana

Como foi combinado, Carla, entremeou nossa discussão com trechos de Freud sobre as questões narcisistas na categoria poltrona. Por que o olhar narcísico conversa com o personagem protagonista? Carla Bellintani pode esclarecer melhor ao vivo. Munida de seus apontamentos ela  e Thais, em plena sintonia, nos trouxeram vários pontos para futuras pensatas.

Intervenção claudiniana


Cláudia nos brindou com uma passagem de olhos comentada sobre a trajetória intelectual e pessoal de Llosa, que também está aqui no blog, em seguida, nos mostrou este vídeo:


Delicadeza dos traços versus dureza de tema. A castração de novo à tona. Diante de um cenário e contexto judaicos que o filme nos apresenta, uma beleza plástica nos cutuca para mais uma discussão sobre o castrar. Vale?

Terminamos com a sobremesa, sorvete de doce de leite, a cargo da Carla.
E fechamos para a próxima quarta a leitura de O Desafio do mesmo livro.
Por isso, confrades, seguindo a linha alfabética depois da Adri deveria ser Aline e depois a Ângela, na impossibilidade das duas veio a Carla. Então para o dia 7, quem irá para a poltrona e responderá pela sobremesa será uma das anteriores ou a Cláudia?

O arremate da noite veio com as palavras doces de Nequinha que nos enviou língua de gato e que tais para adoçar os pensamentos e as palavras. Conhecedora do mundo das letras, a língua de gato em noite que o tema era castração não poderia ter sido melhor.
 

O bilhetinho carinhoso teve leitura de Carla, a enfant engajada nas questões da psiquê no nosso dia a dia.

Vamos seguir, seguir, seguir.

Bj
Joana
 


7 comentários:

  1. Joana:

    Na falta (e que falta!) de um sorriso Azul, ganhamos um par de óculos em 4D.

    Obrigada pela dimensão do seu olhar e da sua batuta que nos instiga a viajar e entender por trás de cada linha.

    Me deixar levar pela literatura e depois poder trocar olhares me alimenta.

    Mais uma vez, agradeço à Minha Doce Confraria pelo ingresso ao Sul.

    Com carinho,
    Cláudia



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  2. Joana,

    Que retrato!
    Tão rico e intenso quanto nossas noite uivaste de ontem.
    E esta interpretação dos cubanos para "Quizas", Ro arrepiada....
    Meninas queridas, muita falta de todas,
    Bj grande
    Thais

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    1. E o vestido Azul com girassóis que ela está usando?

      Que "diálogo"!!!

      Muito bom.

      Bj meninas.
      Cláudia

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  3. "Na impossibilidade de transgredir..."

    Onde o espaço se apequena, há a necessidade de sair, mudar, trocar de olhar, rever, modificar, expandir, ir.

    Se a casca não se rompe, falta ar, algo deve ser cortado para que se possa permanecer.

    “Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Esse olhar é o da alma.”
    A Alma Imoral - Nilton Bonder

    Bj,
    Cláudia

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  4. Meninas maravilhosas!
    Que relato sensacional Joana!! Rico, muito rico. Aprendi mais um pouco.
    Aí Cláudia, foi um mega conto bem elucidado por você no blog anteriormente com um grande fechamento da Joana!
    Um petit comité que rendeu, isso é muito bom.
    Perdi tudo isso e ainda o Dia das bruxas!
    beijocas com muitas saudades
    Silvia

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  5. Joana, adorei a análise do conto, rica, sensível e elucidativa. obrigada pela dedicação. li os dois contos "domingo e os filhotes" e gostei especialmente do estilo. estou curtindo conhecer um pouco mais do lhosa. dele, só li "a guerra do fim do mundo", como já comentei com vocês. é isso, vamos para o terceiro, com a promessa da presença no próximo encontro. beijos a todas, d.

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  6. esqueci de dizer: estou com este cd do ibrahim ferrer no carro, no qual ele canta "quizas" com Omara. amo, babo! é a ciranda da confraria que acaba nos abraçando onde quer que estejamos. mais beijos.
    d.

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