Mais que um retrato na
parede
Por Marcos de
Moura e Souza | De Itabira - Valor Econômico
Casarão onde Drummond morou em Itabira: só recentemente cresceu a estima
pelo poeta, que por anos foi rejeitado pelos itabiranos por ir pouco à cidade e
por causa de poema
Carlos Drummond de Andrade nasceu e viveu até os 18
anos em Itabira, a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte. Dezenas de seus
poemas fazem referência direta a lugares, pessoas, histórias e à natureza que
ele conheceu na cidade em sua juventude. Itabira se transformou por completo
desde então. Dos 6 mil habitantes que havia quando nasceu Drummond são hoje 115
mil. Ruas que eram calçadas com pedras de minério de ferro deram lugar às de
asfalto. Muitos dos casarões com características coloniais como aquele onde ele
viveu com a família no início do século XX também se foram.
Mesmo assim, vários cenários convertidos em versos
pelo poeta resistem em Itabira. Como num museu. E, hoje, ler os poemas nos
lugares da cidade que lhe serviram de inspiração dá aos poemas e aos lugares um
encanto diferente.
Drummond tem muitos fãs e estudiosos de seus textos
na cidade. Uma delas, talvez a mais conhecida dos itabiranos, seja Maria das
Graças Lage Lacerda, a Dadá Lacerda. Foi essa ex-diretora de escola, que
pesquisa sobre a vida do poeta, quem coordenou um projeto chamado Caminhos
Drummondianos, inaugurado em 1998. O projeto consistiu em instalar placas de
ferro entalhadas com poemas do autor em pontos de Itabira descritos por ele.
São 44 placas pela cidade.
Na semana passada, eu me encontrei com Dadá diante
da escadaria do Hotel de Itabira, um sobrado imponente numa ruazinha estreita
que pertenceu a tio de Drummond. O imóvel continua com a família; o dono do
hotel é um primo de terceiro grau do poeta.
Sobre essa construção, o poeta escreveu o
"Sobrado do Barão de Alfié": "Este é o Sobrado/ Existem outros,
mas não se chamem/ O Sobrado, peremptoriamente./ A escada de duas subidas já
define/ Sua importância: lembra um trono./ É casa de barão, entre plebeus./ Sob
a cimalha vejo a estatueta/ De louça lusitana, vejo os vasos/ De azul-vaidade,
contra o azul do céu".
A extração do minério de ferro de
Itabira pela Vale, a partir de 1942, e a desfiguração da paisagem resultaram em
poema lamentoso
Entre as filhas do barão estava Amarilis, por quem
José, irmão de Drummond, se apaixonou perdidamente. Vendo-se rejeitado, invadiu
certa vez, a cavalo, uma procissão que passava diante do sobrado para tentar,
em vão, levá-la consigo. Um grande e saboroso escândalo que talvez, segundo
Dadá, tenha servido como ingrediente para os versos de "José", de
1942: "E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a
noite esfriou,/ e agora, José?" Poema que termina com "Sozinho no
escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/
sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, para
onde?"
"Quando lançamos essa placa aqui [diante do
sobrado] ela [Amarilis] ainda estava viva, tinha 94 anos, toda maquiada, viúva
já, cheia de netos. E contou essa história com toda a exuberância, você precisa
ver", relembra Dadá Lacerda.
Na mesma rua, um pouco mais adiante, perto da
Igreja Matriz, outras inspirações de Drummond: a antiga Câmara Municipal,
("aqui se fazem leis/ aqui se fazem tramas..." começava ele no poema
"Câmara Municipal") e em frente da grande casa branca com portas e
janelas azul-marinho onde ele viveu a partir dos 2 anos. Para a qual o poeta
escreveu "A Casa", uma descrição do imóvel, da organização social e
familiar da época. "Há de dar para a Câmara,/ de poder a poder./ No
flanco, a Matriz,/ de poder a poder..."
Filho de um rico proprietário de terras, Drummond
descreve assim, num filme de Fernando Sabino, o status que tinha sua família em
Itabira: "...minha família tinha uma certa importância social, importância
essa muito relativa diante da importância, por sua vez, também reduzida da
cidade no quadro de Minas Gerais".
A cidade, porém, passou por uma rápida e intensa
transformação quando da criação e do início das operações da Vale (a então
estatal Vale do Rio Doce, em 1942). O minério de ferro que a empresa começou a
extrair do solo de Itabira transtornou o poeta. As montanhas que circundam a
cidade foram se desfigurando. Drummond completava 40 anos no ano de criação da
Vale. Vivia no Rio fazia tempo. Nas décadas que se seguiram, seu incômodo com a
desfiguração da paisagem natal parece não ter diminuído e rendeu, entre outros,
os versos do lamentoso "O Maior Trem do Mundo".
"O maior trem do mundo/ Leva minha terra/ Para
a Alemanha/ Leva minha terra/ Para o Canadá/ Leva minha terra/ Para o Japão/ O
maior trem do mundo/ Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel/ Engatadas
geminadas desembestadas/ Leva meu tempo, minha infância, minha vida/ Triturada
em 163 vagões de minério e destruição/ O maior trem do mundo/ Transporta a
coisa mínima do mundo/ Meu coração itabirano".
Foi quase uma ironia que a Vale tenha adquirido uma
fazenda que pertenceu ao pai de Drummond em Itabira para inundar a região com
uma enorme lagoa de rejeito. A casa foi reconstruída em outro ponto da cidade
como parte das festividades do centenário de nascimento do poeta em 2002.
O melhor lugar de Itabira para ver os morros
recortados pela Vale, como o Pico do Cauê, a lagoa e parte da área urbana é o
Pico do Amor, onde os namorados da época de Drummond e os de hoje frequentavam
e frequentam. Com uma enorme diferença, explica Dadá Lacerda: naqueles anos, as
meninas que subiam até o cruzeiro pelos degraus de canga, rejeito de minério,
corriam o risco de ficar malfaladas. Talvez lembrando de alguma visita que aqui
tenha feito acompanhado de alguém que não fosse seu amor de jovem, Drummond
anos depois escreveu: "Subir ao Pico do Amor/ e lá em cima/ sentir
presença de amor./ No Pico do Amor/ amor não está./ Reina serenidade de nuvens/
sussurrando ao coração: Que importa?...", trecho dos versos de
"Ausência".
Como explicar que um poeta como Drummond, que
escreveu tanto sobre sua terra natal, tenha sido, digamos, rejeitado durante
anos, pelos próprios itabiranos? "Havia um sentimento de repúdio. Todo
mundo falava: 'Ele mora lá no Rio, ele não gosta de Itabira. Era um ranço, uma
crítica sem base'", conta Solange Duarte Alvarenga, coordenadora do
Memorial Carlos Drummond de Andrade. Esse sentimento parece ter se alastrado ao
longo dos anos alimentado pelo fato de que Drummond voltou poucas vezes à
cidade depois que se mudou para Belo Horizonte e mais tarde para o Rio. Uma
frase na última estrofe do poema "Confidência do Itabirano", no qual
ele descreve o jeito de ser de seus concidadãos e dele mesmo, parece, dizem
Dadá e Solange, ter também contribuído para esse mal-entendido entre a cidade e
seu poeta. "Tive ouro, tive gado, tive fazendas/ Hoje sou funcionário
público/ Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!"
Uma fotografia na parede? Muitos itabiranos leram a
frase como uma ofensa. Drummond, no entanto, vem sendo revigorado nas escolas e
faculdades locais e hoje sua imagem é muito melhor. "Foi ele quem deixou o
nosso maior legado, ao ter cantado a cidade em seus versos", diz Solange.
Itabira
é um museu de poesia e suas galerias são o sobrado, a Câmara, as montanhas, o
Pico do Amor...
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