sexta-feira, 29 de junho de 2012

Vamos comemorar Drummond

Confrades, Drummond faria 100 anos em 2012. Vamos comemorar esse grande poeta do amor, da política,  do meio ambiente, da alma humana. Abaixo, matéria que saiu no Valor sobre o poeta, beijos, D.



Mais que um retrato na parede

Por Marcos de Moura e Souza | De Itabira - Valor Econômico

Casarão onde Drummond morou em Itabira: só recentemente cresceu a estima pelo poeta, que por anos foi rejeitado pelos itabiranos por ir pouco à cidade e por causa de poema

Carlos Drummond de Andrade nasceu e viveu até os 18 anos em Itabira, a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte. Dezenas de seus poemas fazem referência direta a lugares, pessoas, histórias e à natureza que ele conheceu na cidade em sua juventude. Itabira se transformou por completo desde então. Dos 6 mil habitantes que havia quando nasceu Drummond são hoje 115 mil. Ruas que eram calçadas com pedras de minério de ferro deram lugar às de asfalto. Muitos dos casarões com características coloniais como aquele onde ele viveu com a família no início do século XX também se foram.
Mesmo assim, vários cenários convertidos em versos pelo poeta resistem em Itabira. Como num museu. E, hoje, ler os poemas nos lugares da cidade que lhe serviram de inspiração dá aos poemas e aos lugares um encanto diferente.
Drummond tem muitos fãs e estudiosos de seus textos na cidade. Uma delas, talvez a mais conhecida dos itabiranos, seja Maria das Graças Lage Lacerda, a Dadá Lacerda. Foi essa ex-diretora de escola, que pesquisa sobre a vida do poeta, quem coordenou um projeto chamado Caminhos Drummondianos, inaugurado em 1998. O projeto consistiu em instalar placas de ferro entalhadas com poemas do autor em pontos de Itabira descritos por ele. São 44 placas pela cidade.
Na semana passada, eu me encontrei com Dadá diante da escadaria do Hotel de Itabira, um sobrado imponente numa ruazinha estreita que pertenceu a tio de Drummond. O imóvel continua com a família; o dono do hotel é um primo de terceiro grau do poeta.
Sobre essa construção, o poeta escreveu o "Sobrado do Barão de Alfié": "Este é o Sobrado/ Existem outros, mas não se chamem/ O Sobrado, peremptoriamente./ A escada de duas subidas já define/ Sua importância: lembra um trono./ É casa de barão, entre plebeus./ Sob a cimalha vejo a estatueta/ De louça lusitana, vejo os vasos/ De azul-vaidade, contra o azul do céu".
A extração do minério de ferro de Itabira pela Vale, a partir de 1942, e a desfiguração da paisagem resultaram em poema lamentoso
Entre as filhas do barão estava Amarilis, por quem José, irmão de Drummond, se apaixonou perdidamente. Vendo-se rejeitado, invadiu certa vez, a cavalo, uma procissão que passava diante do sobrado para tentar, em vão, levá-la consigo. Um grande e saboroso escândalo que talvez, segundo Dadá, tenha servido como ingrediente para os versos de "José", de 1942: "E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?" Poema que termina com "Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, para onde?"
"Quando lançamos essa placa aqui [diante do sobrado] ela [Amarilis] ainda estava viva, tinha 94 anos, toda maquiada, viúva já, cheia de netos. E contou essa história com toda a exuberância, você precisa ver", relembra Dadá Lacerda.
Na mesma rua, um pouco mais adiante, perto da Igreja Matriz, outras inspirações de Drummond: a antiga Câmara Municipal, ("aqui se fazem leis/ aqui se fazem tramas..." começava ele no poema "Câmara Municipal") e em frente da grande casa branca com portas e janelas azul-marinho onde ele viveu a partir dos 2 anos. Para a qual o poeta escreveu "A Casa", uma descrição do imóvel, da organização social e familiar da época. "Há de dar para a Câmara,/ de poder a poder./ No flanco, a Matriz,/ de poder a poder..."
Filho de um rico proprietário de terras, Drummond descreve assim, num filme de Fernando Sabino, o status que tinha sua família em Itabira: "...minha família tinha uma certa importância social, importância essa muito relativa diante da importância, por sua vez, também reduzida da cidade no quadro de Minas Gerais".
A cidade, porém, passou por uma rápida e intensa transformação quando da criação e do início das operações da Vale (a então estatal Vale do Rio Doce, em 1942). O minério de ferro que a empresa começou a extrair do solo de Itabira transtornou o poeta. As montanhas que circundam a cidade foram se desfigurando. Drummond completava 40 anos no ano de criação da Vale. Vivia no Rio fazia tempo. Nas décadas que se seguiram, seu incômodo com a desfiguração da paisagem natal parece não ter diminuído e rendeu, entre outros, os versos do lamentoso "O Maior Trem do Mundo".
"O maior trem do mundo/ Leva minha terra/ Para a Alemanha/ Leva minha terra/ Para o Canadá/ Leva minha terra/ Para o Japão/ O maior trem do mundo/ Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel/ Engatadas geminadas desembestadas/ Leva meu tempo, minha infância, minha vida/ Triturada em 163 vagões de minério e destruição/ O maior trem do mundo/ Transporta a coisa mínima do mundo/ Meu coração itabirano".
Foi quase uma ironia que a Vale tenha adquirido uma fazenda que pertenceu ao pai de Drummond em Itabira para inundar a região com uma enorme lagoa de rejeito. A casa foi reconstruída em outro ponto da cidade como parte das festividades do centenário de nascimento do poeta em 2002.
O melhor lugar de Itabira para ver os morros recortados pela Vale, como o Pico do Cauê, a lagoa e parte da área urbana é o Pico do Amor, onde os namorados da época de Drummond e os de hoje frequentavam e frequentam. Com uma enorme diferença, explica Dadá Lacerda: naqueles anos, as meninas que subiam até o cruzeiro pelos degraus de canga, rejeito de minério, corriam o risco de ficar malfaladas. Talvez lembrando de alguma visita que aqui tenha feito acompanhado de alguém que não fosse seu amor de jovem, Drummond anos depois escreveu: "Subir ao Pico do Amor/ e lá em cima/ sentir presença de amor./ No Pico do Amor/ amor não está./ Reina serenidade de nuvens/ sussurrando ao coração: Que importa?...", trecho dos versos de "Ausência".
Como explicar que um poeta como Drummond, que escreveu tanto sobre sua terra natal, tenha sido, digamos, rejeitado durante anos, pelos próprios itabiranos? "Havia um sentimento de repúdio. Todo mundo falava: 'Ele mora lá no Rio, ele não gosta de Itabira. Era um ranço, uma crítica sem base'", conta Solange Duarte Alvarenga, coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade. Esse sentimento parece ter se alastrado ao longo dos anos alimentado pelo fato de que Drummond voltou poucas vezes à cidade depois que se mudou para Belo Horizonte e mais tarde para o Rio. Uma frase na última estrofe do poema "Confidência do Itabirano", no qual ele descreve o jeito de ser de seus concidadãos e dele mesmo, parece, dizem Dadá e Solange, ter também contribuído para esse mal-entendido entre a cidade e seu poeta. "Tive ouro, tive gado, tive fazendas/ Hoje sou funcionário público/ Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!"
Uma fotografia na parede? Muitos itabiranos leram a frase como uma ofensa. Drummond, no entanto, vem sendo revigorado nas escolas e faculdades locais e hoje sua imagem é muito melhor. "Foi ele quem deixou o nosso maior legado, ao ter cantado a cidade em seus versos", diz Solange.
Itabira é um museu de poesia e suas galerias são o sobrado, a Câmara, as montanhas, o Pico do Amor...

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