| Pablo Picasso 1936 - Composición con Minotauro |
Labirinto
Jorge Luiz Borges
Não haverá nunca uma porta.
Estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro,
Que obstinadamente se bifurca em outro,
Tenha fim.
É de ferro teu destino
Como teu juiz.
Não aguardes a investida
Do touro que é um homem
E cuja estranha forma plural
Dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida
Não existe.
Nada esperes.
Nem sequer
No negro crepúsculo
A fera
(Elogio da Sombra)
Neste dia cinza, um pouco de luz para vocês.
Com carinho, Cláudia
Caras:
ResponderExcluirAbaixo, uma análise da obra do Picasso. Como podemos ver, o outro, a sombra, o duplo, está inserido no crepúsculo do ser.
"A imagem do Minotauro volta sem cessar à mente de Picasso. Nesta obra o Minotauro é dominado, lançado ao chão pela representação obsessiva da mulher, sempre dominante. A surrealista, a mulher é representada como idealisada ou fálica. Os surrealistas eram também um grupo revolucionário cuja obra tem um senso político: eles traduzem uma força inconsciente e uma certa evolução da sociedade que prefigura a explosão da família contemporânea, quando não da sociedade em si mesma. O que está oculto é aqui colocado no primeiro plano da cena, como a própria extravagância inerente à raça humana.
O apego de Picasso ao Minotauro não é de ordem formal, ainda que ele tenha o gosto da metamorfose dos corpos, nem de ordem cultural, ainda que ele adore histórias e tradições; o retorno ao mito só é interessante na medida em que revela, em parte, a motivação íntima de um homem ou mesmo de uma época. A finalidade da presença do Minotauro é admitir e fazer admitir que somos duplos: é a inevitável e necessária presença da bestialidade em nós, mesmo se ela nos choca, e a transgressão picassiana consiste em exprimir e em viver, mais ou menos serenamente, aquilo que nos assusta, mas que palpita dentro de nós, em particular no domínio sexual."
Fonte: (trecho)
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2004/picasso/texto_do_catalogo.shtml
A desconstrução do labirinto. Desatar as amarras estruturais da essência, permitir-se viver e aceitar sua condição de passante implica num ceticismo matemático, numa crença em algo menos espiritual mas ao mesmo tempo com maior potencial edificante.
ResponderExcluirSe reanalisarmos as experiências sob essa perspectiva, não há mais um roteiro a ser seguido, uma fórmula que seja capaz de unir "essências" mal concebidas - toda a subjetividade parte da idéia de liberdade, mas se somos todos livres por que afirmamos nossas identidades da mesma forma capital e materialista que permeia as relações sociais?
Aceitar essa nova forma de submissão material é, no mínimo e na melhor das hipóteses, extremamente desconfortável. Aceitar que nossa liberdade se restringe pela semelhança que nos afirmarmos não gera qualquer solução, apenas deprime perante a nova realidade que se diz superficial ou vazia.
O rumo que pretendo tomar é menos poético do que gostaria, mas muito mais verdadeiro e empírico. Assim, para os românticos, peço que parem de ler e entendam o desfecho de meu raciocínio como algo lindo e belo, algo como o poema de Drummond (http://poesiaeluta.blogspot.com/2007/04/flor-e-nusea-calos-drummond-de-andrade.html) que acredita numa flor individual que sobressai aos percalços consumistas e, mesmo que errante, traz vida pela sua singularidade efêmera.
O real desfecho de meu raciocínio tange a verdade. Dado o fato que todos os nossos Deuses e Heróis estão mortos (e "mortos" aqui sem a menor conotação de que já foram vivos, apenas como a conclusão de uma desconstrução), a realidade passa a ser o que conseguimos absorver delas. Não pela nossa suposta essência repleta de subjetividades que se depara com algo que a edifica, mas sim pelas experiências humanas que vivenciamos diariamente e que sempre nos passam desapercebidas, nunca geram repercussões da magnitude que lhe seriam coerentes, e que são a síntese de nossa existência - a troca com o outro, no seu sentido mais banal, depara dois seres que se relacionam, subjetivos ou alienados, mas que vivem, que sentem, que choram, que querem, que não querem, que tentam viver e que vivem.
Talvez pareça que meu desfecho é ainda mais poético que o de Drummond, mas entenda: o ganho aqui se dá pela compreensão de que a vida está baseada na imprevisibilidade, na indefinição, em sistemas abertos e nem sempre ponderáveis, nos encontros e nos desencontros.
O resultado prático disso é o rebaixamento de todas as paredes cuidadosamente construídas por nós, desfazendo por completo a solidez do labirinto. O breu de incerteza que surge desse processo pode deprimir os céticos que o entendem como fim da existência (a morte da essência nem sempre agrada), mas aos que superam que nem a "Fera" aparecerá "No Negro crepúsculo" posso dizer: adoraria ter uma conclusão, mas isso iria contra todo o meu raciocínio que entende a eterna dialética dos relacionamentos como a melhor maneira de se atingir o verdadeiro "eu", a verdadeira "essência", enfim, a existência nua e crua - você escolhe como vestí-la, você escolhe qual será o ponto dela.
Não veja nisso um potencial mecanismo de cobrança, desconstruímos a necessidade de verdades absolutas e passamos a aceitar o imprevisível, o que foge dos nossos cálculos. Acho que ter a consciência de que estamos em algum lugar e que chegaremos a outro pela somatória de nossas ações é o suficiente como Deus, como Ordem, como Herói, como Referência, como Religião, como Religiosidade. A vida é o que é e o que não é.
A vida é.
Caio Belintani
Filho...
ResponderExcluirEstou atônita.
Como assim?
Tanta visão, tanta lucidez, tanta realidade crua vindo de um menino de 19 anos que se solta das amarras (no texto) e vê além do que vivemos?
Onde está vc?
Como é que vc pode reter isto tudo dentro de vc e não partilhar?
A partir de um único estímulo, de um fio de novelo, vc se desenrola, desfaz as paredes, desmistifica heróis e pisa no asfalto com tamanha desenvoltura e maturidade, que me assusto.
Não vejo o menino perdido, vejo o homem se reconstruindo e tentando se achar em meio ao cinza, pescando luz na realidade (agora o "Garoto da Bicicleta").
Como vc pode "olhar" de forma tão madura e ter uma vida e uma pele que não condiz com este olhar?
O que fazer com tudo isto?
Vc deveria ler, devorar a vida de outra forma, deixar sair esta música que faz com que as flores que brotam do asfalto sejam únicas e extremamente belas (dentro).
Como não temer a fera? Como transpor as paredes com tanta desenvoltura e segurança qto vc denota? Como assim?
Se desfazer de Deus e de Heróis com sua idade? Entender que eles existem pq o construimos? Que caminhos vc trilhou para chegar nisto?
Vc fala de "escolhas", de como vesti-las, da metamorfose da essência através de trocas, dos acasos através da descrença das verdades absolutas e conclui brilhantemente dizendo que somos o que somos pela somatória de nossos atos.
Este é vc que me escapa do que não é vc.
Tô num lugar em que o celular não pega, mas li e reli o que vc escreveu muitas vezes e te confesso que não estava crendo no que lia.
Vou postar no blog.
Muita filosofia séria para ficar só entre nós.
Vou ter que sair daqui, mas digo que tenho muiiiiito orgulho de vc.
Amor, Mã
Caiao, vc acabou comigo também...
ResponderExcluiradoro o jeito que vc escreve... nosso Drumond de 19 anos... amo vc.
Vou escrever o olhar de Focault sobre Borges:
“As utopias consolam, porque, se não dispõem de um tempo real, disseminam-se, no entanto, num espaço maravilhoso e liso; abrem cidades de vastas avenidas, jardins bem cultivados, países fáceis, mesmo que o acesso a eles seja quimérico. As heterotopias inquietam, sem duvida, porque minam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque quebram os nomes comuns ou os emaranham, porque de antemão arruínam a ‘sintaxe’, e não apenas a que constrói as frases, mas também a que, embora menos manifesta, faz ‘manter em conjunto’(ao lado e em frente uma das outras) as palavras e as coisas. É por isso que as utopias permitem as fábulas e os discursos: elas situam-se na própria linha da linguagem, na dimensão fundamental da fabula: as heterotopias (como as que se encontram tão frequentemente em Borges) dissecam o assunto, detém as palavras sobre si mesmas, constestam, desde a sua raiz, toda a possibilidade de gramática; desfazem os mitos e tornam estéril o lirismo das frases. O que faz rir quando se le Borges aparenta-se por certo ao profundo mal-estar daqueles cuja linguagem se arruinou: ter perdido o ‘comum’ do lugar e do nome. Atopia, afasia...”
Caião, é em sua homenagem já que suas palavras também me deixaram inquieta...
Com amor de irmã
Caio querido, como disse sua mãe: como cabe tanta efervescência e inquietação tantos labirintos dentro de um menino tão novo? Surpresa! Como disse você, a vida é.
ResponderExcluirBjs!