sexta-feira, 27 de julho de 2012

ALINE LIMA

Nós te batizamos LAGARTIXA...

 
Aline Lima é formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pós-graduada em literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP).

Trabalhando sempre com a editoria de economia e finanças, passou pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 1999, nos cadernos Fundos e Cia e Suas Contas (Estadão) e foi repórter de política do Jornal da Tarde (SP).

No início da década de 2000, foi repórter de economia e finanças na revista Forbes Brasil, na revista Foco Economia e Negócios e na revista Istoé Dinheiro.

Em 2007, foi editora na Investidor Institucional. No ano seguinte, Aline fez matérias freelancers para publicações como a revista Você S/A, Exame e jornal Valor Econômico.

A jornalista participou da primeira equipe do jornal Brasil Econômico, em setembro de 2009. Sete meses depois, transferiu-se para o jornal Valor Econômico.


Hoje, faz parte da Confraria das Lagartixas, aquece nossas noites de quarta com seu sorriso e inteligência no olhar. Bem vinda! 




Rubem Braga

do livro 200 crônicas escolhidas

Por Aline Lima

 

O Pavão
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Novembro, 1958


O homem rouco
Deus sabe o que andei falando por aí; coisa boa não há de ter sido, pois Ele me tirou a voz.
Ela sempre foi embrulhada e confusa; a mim próprio muitas vezes parecia monótona e enjoada, que dirá aos outros. Mas era, afinal de contas, a voz de uma pessoa e bem ou mal eu podia dizer ao mendigo "não tenho trocado", ao homem parado na esquina "o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo", e ao garçom "por favor, mais um pedaço de gelo". Dizia certamente outras coisas, e numa delas me perdi. Fiquei dias afônico, e hoje me comunico e lamento com uma voz de túnel, roufenha, intermitente e infame.
Ora, naturalmente que me trato. Deram-me várias pastilhas e um especialista me receitou uma injeção e uma inalação que cheguei a fazer uma vez e me aborreceu pelo seu desagradável jeito de vício secreto ou de rito religioso oriental. Uma leitora me receitou pelo telefone chá de pitangueira, laranja-da-terra e eucalipto, tudo isso agravado por um dente de alho bem moído.
Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração.
Alguém me disse que se trata de rouquidão nervosa, o que me deixa desconfiado de mim mesmo.
Terei muitos complexos? Precisamente quantos? Feios, graves? Por que me atacaram a garganta, e não, por exemplo, o joelho? Ou quem sabe que havia alguma coisa que eu queria dizer e não podia, não devia, não ousava, estrangulado de timidez, e então engoli a voz?
Quando era criança, agora me lembro, passei um ano gago porque fui com outros moleques gritar "Capitão Banana" diante da tenda de um velho que vendia frutas e ele estava escondido no escuro e me varejou um balde d’água em cima. Naturalmente devo contar essa história a um psicanalista. Mas então ele começará a me escaranfunchar a pobre alma, e isso não vale a pena. Respeitemos a morna paz desse brejo noturno onde fermentam coisas estranhas e se movem monstros informes e insensatos.
Afinal posso agüentar isso, sou um rapaz direito, bem-comportado, talvez até bom partido para uma senhorita da classe média que não faça questão da beleza física mas sim da moral, modéstia à parte.
O remédio é falar menos e escrever mais, antes que os complexos me paralisem os dedos, pobres dedos, triste mão que... mas, francamente, página de jornal não é lugar para a gente falar essas coisas.
Eu vos direi, senhora, apenas, que a voz é feia e roufenha, mas o sentimento é límpido, é cristalino, puro – e vosso.
Setembro, 1948


Visão
No centro do dia cinzento, no meio da banal viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de insistir e espertar, e ficamos quietos, neutros, presos ao mais medíocre equilíbrio - foi então que aconteceu. Eu vinha sem raiva, nem desejo - no fundo do coração as feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica - eu vinha como um homem que vem e vai, e já teve noites de tormenta e madrugadas de seda, e dias vividos com todos os nervos e com toda a alma, e charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência dos pobres.
Eu vinha como um homem que faz parte da sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de longe, dobrando uma esquina - eu vinha como um elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana - eu vinha, portanto, extremamente sem importância, mas tendo em mim a força da conformação, da resistência e da inércia que faz com que um minuto depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua máquina, e a cidade apareça estranhamente normal - eu vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de regular saúde, e está com suas letras no banco regularmente reformadas e seus negócios sentiment ais aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para enfrentar eventualidades não muito excêntricas - e que cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda não começou a levar em conta a faina da própria morte - assim eu vinha, como quem ama as mulheres de seu país, as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar - quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer consequência, ou implicasse novo programa de atividades; nem uma revelação do Alto nem uma demonstração súbita e cruel da miséria de nossa condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro, uma figura de mulher que nesse instante me fitou e sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e boca fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios como se fosse dizer alguma coisa - e se perdeu, a um arranco do carro, na confusão do tráfego da rua estreita e rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o mar cantando ao sol.
Novembro, 1953


                                                O conde e o passarinho

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um Conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o Conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração (sem trocadilho).

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens - o Conde e o passarinho - foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.

Devo confessar preliminarmente que, entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O Conde não sabe gorjear nem voar. O Conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o Conde. O Conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o Conde é um industrial, e o Conde é Conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é Conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.

Entretanto, eu não quisera ser Conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser Conde. Não amo os Condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder.

Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?

Mas voltemos ao Conde e ao passarinho. Ora, o Conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O Conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de Conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do Conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.

O Conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito!

Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do Conde, varando as fábricas do Conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o Conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai.

Fevereiro, 1935

 


quinta-feira, 26 de julho de 2012

PERDER, GANHAR, VIVER




Carlos Drummond de Andrade
Por Denise Ramiro

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas... 
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas. Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982

domingo, 15 de julho de 2012

A casa dos sonhos


“Quando nada mais fizer sentido, finalmente teremos começado a viver.”
O que queria dizer aquela frase, afinal? No entanto, não fora naquele momento que Joana conseguiu compreender o que ele havia dito. Na realidade, talvez ela nunca tenha conseguido entender o que Fabio dissera, mas com certeza a frase a deixou pensativa.
Os dois estavam presos na casa por conta da neve, que caía sem parar nos últimos três dias. A pior nevasca nos últimos anos, era o que se dizia. Joana estava exausta. Estava cobrindo todo o evento do Festival de Esportes de Inverno que acontecia na cidade, e a neve serviu para que pudesse pensar no rumo que sua vida havia seguido.
Jornalista esportista, como aquilo foi acontecer? Onde tinham ido parar os sonhos que cultivara praticamente durante toda sua vida? Com certeza, ela não conseguia responder com clareza qual havia sido o momento em que tinha desistido de desenvolver sua carreira e sua vida de acordo com aquele sonho de menina.
Fabio sabia exatamente quando isso tinha acontecido. E não porque julgar o outro é mais fácil; a clareza de Fabio só se dava por um simples detalhe: o desvio de rota de Joana acontecera no mesmo instante que o dele.
A princípio, a idéia de ficar longe da loucura do evento esportivo parecia a melhor opção. No entanto, já no primeiro dia Fabio percebeu que aquela casa acabaria revelando coisas que, depois de concebidas, mudariam por completo a vida do casal.
Os dois se conheceram na faculdade. Fabio já havia cursado Direito e Psicologia, mas sentia que nenhum daqueles cursos havia efetivamente contribuído com seu projeto individual: se compreender. Joana havia acabado o colégio não muito antes de Fabio desistir de sua segunda faculdade, e o encontro dos dois não poderia ter sido mais oportuno.
Fabio estava ficando exausto na sua busca de sentido. Tinha 24 anos na época, e não sabia se odiava ou amava o fato de ser tão diferente dos demais. De fato, sua compreensão e domínio da estrutura do mundo, bem como seus mecanismos e ferramentas, eram precisamente o vocabulário de Fabio. Alto, robusto e extremamente charmoso, a descrição física era o máximo que ele compreendia das pessoas.
Joana, por sua vez, era praticamente o oposto. Nunca havia levado sua formação acadêmica a sério, mas era capaz de compreender qualquer que fosse o assunto, desde que fosse de seu interesse. Apesar de não ter se empenhado no colégio, sua relação com os professores sempre tinha sido invejável: ela conseguia prever o que cairia nas provas simplesmente analisando a maneira que o professor falava do assunto.
Essa capacidade, aliada à sua desenvoltura e sensualidade, resultava numa pessoa extremamente cativante. Seu sonho era ser atriz, e já havia perdido a conta de quantos cursos já havia feito. Alta para uma mulher, Joana tinha o cabelo negro e curto, que junto com seus olhos azuis e radiantes seduziram Fabio logo no primeiro encontro.
O desenrolar da trama nada surpreende até chegarmos na casa coberta de neve: os dois se apaixonaram, dividiram sonhos e medos, fizeram planos e planos para o futuro mas acabaram esquecendo deles quando começaram a trabalhar como repórteres esportivos na maior emissora de televisão de sua cidade. O trabalho, com exceção do tema, agradava muito os dois: ganhavam bem, podiam continuar projetando seus sonhos e viajavam ao redor do mundo sem parar.
Mas e agora, que já estavam nisso há quase dez anos e mal se lembravam de tudo que queriam antes daquilo? O que havia dado errado, aonde foi que se perderam? E foi então que a conversa veio à tona:
“Fabio, você se lembra do que queria um dia antes de nos conhecermos? Quero dizer, você se lembra de quais eram os seus sonhos no dia anterior ao primeiro dia de aula de Jornalismo?”. Fabio já sabia aonde aquela conversa iria chegar, e francamente detestava ter que fazer esse balanço com sua própria vida. Pensou bastante antes de responder.
“Queria me descobrir e entender meus anseios, minhas motivações. Profissionalmente, queria qualquer coisa que me aproximasse de mim mesmo nessa busca. E emocionalmente, não tinha expectativas. Não conseguia imaginar me apaixonar por alguém mais novo que eu, mas de alguma forma também queria me surpreender nesse sentido. Minha arrogância da época jamais me permitiria assumir algo desse tipo, mas queria me entender. E até você, não sabia que o melhor jeito de conseguir isso é através do outro.”
“E hoje, você acha que conseguiu se entender?”
“Amor, no dia que te conheci entendi que isso não era algo que pode ser compreendido ou explicado. Ou se sente, ou não se entende.”
Joana se sentiu culpada por não sentir essa tranqüilidade. Queria poder dizer que lhe bastava a intimidade que tinha com o marido, mas ao mesmo tempo sentia que tinha fracassado em seu projeto individual em nome de uma vida a dois. Não que Fabio a impedisse de qualquer coisa, mas sentia que podia ter feito muita coisa diferente. Recomeçou:
“E você, não vai me perguntar a mesma coisa?”
“Joana, eu já sei a resposta. Já sei inclusive da sua aflição e do seu sentimento de fracasso. E sei que você se culpa por pensar assim, mas vê a nossa relação como uma potencial responsável pelo caminho que sua vida seguiu.”
A princípio, Joana negou. Se irritou, tentou argumentar o contrário, e depois, como num surto infantil, sentou no chão e começou a chorar. Chorava porque nada se encaixava. E foi quando Fabio disse aquela frase:
“Quando nada mais fizer sentido, finalmente teremos começado a viver.”
Joana se levantou e começou a socar Fabio, descompensada. E depois, soluçando, o abraçou e pôs-se a chorar. Como se o simples fato de Fabio ter sido o porta-voz de tamanha aflição o transformasse no culpado, e no segundo seguinte seu cúmplice para criar coragem e continuar a viver. Joana dormiu no colo dele, em meio ao seu choro descompensado e infantil.
A história do casal nunca foi bem vista pela família de Joana. Fabio tinha sido criado por sua mãe, que depois de se divorciar, nunca mais se relacionou com ninguém. Quando morreu, deixou uma herança significativa para o jovem Fabio, fruto de uma poupança do pai, que nunca conhecera. Essa aparente ausência de estrutura nunca agradou a família tradicional de Joana: pais, avós, irmãos, todos na mesma casa e todos muito dependentes entre si.
Escolher Fabio foi para Joana abrir mão daquela família para construir outra. Quando descobriu que não podia engravidar, três anos antes, pensou em se matar. Todos os seus cursos de interpretação não foram suficientes para ela se lembrar da primeira lição de todos eles: existe diferença entre a encenação e a vida real. No entanto, Fabio conseguiu mostrar para ela a semelhança entre as duas coisas: da mesma forma que construímos as características de uma personagem, construímos também as nossas próprias. As limitações, assim como as potencialidades, são precisamente as variáveis que nos diferem mas nos igualam. Não teve a chance de explicar seu raciocínio a Joana, mas certamente havia concretizado seu sonho de se entender.
É essa indefinição e ausência de sentido da vida que permite nos conhecermos. Mais do que isso, permite que nos alteremos de acordo com nossa própria vontade.

Quando Joana acordou, estava no sofá da sala com uma carta no seu colo:

“Querida,
Queria te dizer que tenho uma concepção muito simplista acerca da existência humana. Aprendi com você, ou melhor, com a nossa história, que alimentar um sonho que não condiz com os nossos nunca aproximará nossa realidade de nossos desejos.
Quero dizer que conquistei o que queria um dia antes de te conhecer. E sinto por ter dito diferente, mas hoje percebo que o meu sonho era conhecer alguém que me entendesse no meio de tanta indefinição. Quando falei aquilo sobre começarmos a viver a partir do momento que nada mais faz sentido, quis dizer o seguinte: só depois que reconhecemos a vida como uma completa indefinição que podemos defini-la de acordo com o que queremos.
Sou completamente apaixonado por você porque foi o seu jeito de ser que me mostrou tudo isso com tanta leveza. Mas não acho justo não poder te dar a chance de optar, seria muito egoísmo da minha parte. Sei que nossa relação é o que mais te prende na vida que levamos, e por isso quero que você tenha a chance de escolher como quer definir sua própria indefinição.
Estou com todas as minhas coisas na suíte 207 do Plaza Internacional. Se quiser trazer as suas e transformá-las em nossas, estarei esperando. Se não, espero que você aprenda a olhar para seus próprios sonhos e consiga aproximá-los da indefinida realidade.
Te amo,
Fabio."

No entanto, Joana nunca chegou a ler a carta. A nevasca daquela noite sucumbiu a casa muito antes que Joana despertasse. Ao menos foi o que Fabio me contou, quando finalmente o conheci. Casado com uma atriz, ele hoje é pai de três filhos adotivos e trabalha como escritor na mesa ao lado da minha. Com exceção do fato que trabalho em casa, e o único colega de trabalho que tenho aqui é o papel. Certamente, a vista da minha janela para o jardim, onde vejo meus filhos brincando, é minha maior inspiração.
Pelo menos foi assim que resolvi definir a minha vista, e certamente prefiro ocultar que na realidade estou apenas vendo o pátio do presídio.

By Caio Belintani, quero opiniões!