terça-feira, 6 de agosto de 2013

Caminho Colorido

Na calçada caminho,  quase na rua. Na minha quase casa, ao lado da porta amarela.
Na minha quase casa, ao lado das janelas amarelas.
Sigo na linha do varal, na frente da minha casa azul.
As vezes sonho que o vento e o varal me puxaram para o céu azul, cor da minha quase casa.
Sigo na linha imaginária  colorida das nossas roupas no varal, se vou para direita ou esquerda não sei, só sei que quando pulo, posso agarrar meu vestido  florido e sair dançando em frente minha casa de nuvens , nuvens  que me levam pra longe, nas flores  que agora visto, coloridas  e felizes. Quando desperto, acabo  eu de novo na calçada do meu caminho.


Adri F.


sábado, 8 de junho de 2013

Liberdade comprometida


Polêmica, invisível...  sempre sedutora e duvidosa ideia de Liberdade.

A noção comum sobre ser livre é fazermos o que bem quisermos. E, de fato, é o que ela acaba por ser, na maioria dos relatos e percepções que tenho de outros. Mas creio que isso faça sentido nas primeiras linhas, para percebermos que é condição humana as infinitas possibilidades de ser, a abertura de poder ser outra coisa, o alívio na possibilidade outra. Temos tendências, família, temos medos, marcas, desejos e encantamentos, mas, mesmo tudo isso sendo uma grande teia que pode nos prender, um óculos que molda nossa visão e nos cega, podemos optar por sair desse lugar.



Mas, após essas primeiras noções de amplitude, surge uma nova página em branco...

E depois?

E depois de fazer tudo aquilo que quero? Por que essa liberdade não perdura? Será de fato por todos os clássicos argumentos ou será que nós mesmos colocamos um fim nela?

A liberdade pela liberdade, nessa ideia, é como o eu por mim mesmo sem envolver mais ninguém, me desagregando de outros que não sejam eu e minhas vontades. Até que ponto isso se mantém como alívio?

Não falo aqui apenas da vida desacompanhada, não partilhada, não somada com outros. Tal desagregação também precisa ser cuidada, mantida, trabalhada, também estará enredada, enteiada em algo para que possa continuar existindo. Seja uma profissão autônoma, seja a decisão de morar só, seja a decisão de romper laços com outros e buscar possíveis outros.

O depois do ato de libertação carrega certas consequências pouco pensadas no momento do ato.



Para literalmente vagarmos pelo mundo livres precisamos comer, transitar entre lugares, ter uma terra ou um dinheiro para que seja nossa fonte de manutenção. E, se formos humanos em meio a outros, iremos querer afeto de outros. Então no ato de libertação estaremos nos desagregando de algo para nos agregarmos a outro algo.

A liberdade de se desprender de relações, de costumes e lugares exige uma ação simples.
Não estar mais presente.

Mas hoje vejo que minhas maiores ameaças não vem desses todos que estão fora e dos quais quero me afastar. Esses, na realidade, não tem o poder de decidir por mim, de andar, respirar, sentir por mim. Eles podem ter esse intuito e saber maneiras de convencer-me de tais coisas, mas quem age de fato, quem se convence sou eu. Ninguém tem o poder de nos mudar, de nos controlar e nem mesmo de nos fazer mal. Se caimos nessas questões é por que parte de nós acredita nessas visões e orientações de outros. Se caimos nessa teia é porque fomos atraídos para ela e por lá nos deixamos ficar. Nossa condição de sempre possível nova escolha pode sim nos tirar dela.

Nesse sentido, se somos nós a estar nela, se é nosso corpo ali dentro, será justo culpar os que fora estão e nos iludir que, nos afastando deles, estamos nos livrando desse grande mal? Grande mal que nada mais é que nós mesmos. Os que fora estão apenas provocam ou inspiram o que nos afeta, nos comove, nos move. Podemos entender que esses tão abomináveis outros podem ser nossos grandes espelhos.

Vamos optar então por estar a sós com todos esses sentimentos? De não ter a chance de mostrá-los a alguém, de doar, de aliviar, de desmistificar no contato com o outro? Em nós mesmo ele só cresce, pois, aí sim, esse está preso a nosso ponto de vista, único.

Será de fato que adianta mudar o que existe hoje para ter que futuramente também lidar com outras diversas e difíceis questões de outros? A libertação seria o rompimento com o outro e não com nossos pontos indesejáveis?

Isso para mim é liberdade. Domar o que em mim está e que não quero que fique. E, enquanto eu não tiver força de parar de sentir tais questões, de tirá-las do barco, que eu consiga domá-las. E, um dia, quando essas virem que não tem mais função por ali, que deixem o barco e a mim para ir embora de vez, sem despedidas, deixando espaço para novas coisas entrarem, as quais eu convidei.

Acredito ser desafio o suficiente encararmos quem somos de fato e nos dedicar ao que queremos ser, para perder tempo entrando em conflitos com outros que nada mais são que eles mesmos.

Nesse sentido, a liberdade exige um grande comprometimento. Escolher por algo é desejar que esse algo esteja ali e, para isso, precisamos assumir e cuidar dessa escolha. Lembro de um caso em psicologia de um menino de 15 anos que estava decidindo em terapia se continuaria ou não na escola. Poder não estar na escola é uma opção, mas ele bancaria essa atitude com todas as implicações que ela tem? Ele descobriu, sozinho, que no caso dele não. Então muitas vezes queremos nos libertar de algo que, no fundo, não queremos de fato ou de algo que não é possível, pois as consequências que essas teriam exigiriam de nós algo que nos aprisionaria ainda mais.

Então acredito que libertar-se exige comprometer-se com essa liberdade para que ela perdure.Isso dá trabalho, é singular, não tem manual pronto. É como um trabalho em uma empresa e um trabalho autônomo. O segundo exige muito mais que o primeiro e é muito mais apetitoso. Portanto acredito nesse conceito de liberdade. Terei liberdade a partir do momento em que eu me comprometer com ela, em que eu me comprometer comigo mesma.

  Lutar com nossos tigres de bengala não é fácil. Quando penso que estou trilhando meus caminhos, olho as discretas migalhas que marcam esse trajeto e percebo como esses farelos marcam o percurso. Mas elas são discretas a ponto de que, caso eu não olhe para trás, eu não as perceba e elas continuem marcando meus passos.

Creio que minha liberdade está em decifrar um labirinto. Não só ir buscando a saída, sem a menor ideia do que vem, mas sim olhar para trás e ver qual trajeto fiz até aquele determinado ponto, tentar perceber que curvas escolhi fazer, por onde vim, para ver se me ajuda a escolher para onde vou ou, ao menos, saber o caminho de volta e começar de novo.

Minha liberdade e meu desafio é poder escolher acima de meus impulsos. De poder, deles sim, livrar-me e escolher quem quero ser.




Quero ser árvore com rodas, que siga sob o céu fechado...



Por Jú Ramiro Belintani.










quarta-feira, 8 de maio de 2013

PRENDA-ME...


Um olhar em carne viva...

O que vi?
O que senti?
O que apreendi?

Violência,
Frio,
Medo,
Tormenta, 
Manipulação,
Poder,
Prisão,
Barbárie,
Abandono,
Drogas,
Morte...

Também
 doçura,
Amor,
Cuplicidade,
Desapego,
Meiguice,
Olhares,
Mulheres,
Pais e Filhos,
Companheiros,
Amantes,
Sorrisos,
Liberdade,
Vida...

Tudo isto se passa em uma sala escura de uma delegacia.
 A fabulosa Miou Miou transcende o humano com a sofrida e querida tenente de plantão.
O diretor filma em primeira pessoa, ou seja - a câmera se coloca no lugar da protagonista. A atriz (Sophie Marceau), sustentou o aparelho acoplado em sua cabeça. A sensação que se tem é de estar vivendo os fatos juntos com ela. Colocar-se no lugar do outro e sentir simultaneamente. 
Tem horas em que vc quer sair da sala e ir embora, tamanho o claustro da dor.

Mas...
Tem a cumplicidade feminina, apesar das vivências difusas que se encaixam no final. 
Tem neuroses intransponíveis, mas uma vontade infinita de acreditar e deixar semeado no caminho algo parecido com flores. 
Que semente? que trilha? o que afinal plantamos na vida?
Filme duro.
Mas imperdível.

Não poderia deixar de registrar algo tão humano.

Bj,
Cláudia Belintani Abbud