sábado, 8 de junho de 2013

Liberdade comprometida


Polêmica, invisível...  sempre sedutora e duvidosa ideia de Liberdade.

A noção comum sobre ser livre é fazermos o que bem quisermos. E, de fato, é o que ela acaba por ser, na maioria dos relatos e percepções que tenho de outros. Mas creio que isso faça sentido nas primeiras linhas, para percebermos que é condição humana as infinitas possibilidades de ser, a abertura de poder ser outra coisa, o alívio na possibilidade outra. Temos tendências, família, temos medos, marcas, desejos e encantamentos, mas, mesmo tudo isso sendo uma grande teia que pode nos prender, um óculos que molda nossa visão e nos cega, podemos optar por sair desse lugar.



Mas, após essas primeiras noções de amplitude, surge uma nova página em branco...

E depois?

E depois de fazer tudo aquilo que quero? Por que essa liberdade não perdura? Será de fato por todos os clássicos argumentos ou será que nós mesmos colocamos um fim nela?

A liberdade pela liberdade, nessa ideia, é como o eu por mim mesmo sem envolver mais ninguém, me desagregando de outros que não sejam eu e minhas vontades. Até que ponto isso se mantém como alívio?

Não falo aqui apenas da vida desacompanhada, não partilhada, não somada com outros. Tal desagregação também precisa ser cuidada, mantida, trabalhada, também estará enredada, enteiada em algo para que possa continuar existindo. Seja uma profissão autônoma, seja a decisão de morar só, seja a decisão de romper laços com outros e buscar possíveis outros.

O depois do ato de libertação carrega certas consequências pouco pensadas no momento do ato.



Para literalmente vagarmos pelo mundo livres precisamos comer, transitar entre lugares, ter uma terra ou um dinheiro para que seja nossa fonte de manutenção. E, se formos humanos em meio a outros, iremos querer afeto de outros. Então no ato de libertação estaremos nos desagregando de algo para nos agregarmos a outro algo.

A liberdade de se desprender de relações, de costumes e lugares exige uma ação simples.
Não estar mais presente.

Mas hoje vejo que minhas maiores ameaças não vem desses todos que estão fora e dos quais quero me afastar. Esses, na realidade, não tem o poder de decidir por mim, de andar, respirar, sentir por mim. Eles podem ter esse intuito e saber maneiras de convencer-me de tais coisas, mas quem age de fato, quem se convence sou eu. Ninguém tem o poder de nos mudar, de nos controlar e nem mesmo de nos fazer mal. Se caimos nessas questões é por que parte de nós acredita nessas visões e orientações de outros. Se caimos nessa teia é porque fomos atraídos para ela e por lá nos deixamos ficar. Nossa condição de sempre possível nova escolha pode sim nos tirar dela.

Nesse sentido, se somos nós a estar nela, se é nosso corpo ali dentro, será justo culpar os que fora estão e nos iludir que, nos afastando deles, estamos nos livrando desse grande mal? Grande mal que nada mais é que nós mesmos. Os que fora estão apenas provocam ou inspiram o que nos afeta, nos comove, nos move. Podemos entender que esses tão abomináveis outros podem ser nossos grandes espelhos.

Vamos optar então por estar a sós com todos esses sentimentos? De não ter a chance de mostrá-los a alguém, de doar, de aliviar, de desmistificar no contato com o outro? Em nós mesmo ele só cresce, pois, aí sim, esse está preso a nosso ponto de vista, único.

Será de fato que adianta mudar o que existe hoje para ter que futuramente também lidar com outras diversas e difíceis questões de outros? A libertação seria o rompimento com o outro e não com nossos pontos indesejáveis?

Isso para mim é liberdade. Domar o que em mim está e que não quero que fique. E, enquanto eu não tiver força de parar de sentir tais questões, de tirá-las do barco, que eu consiga domá-las. E, um dia, quando essas virem que não tem mais função por ali, que deixem o barco e a mim para ir embora de vez, sem despedidas, deixando espaço para novas coisas entrarem, as quais eu convidei.

Acredito ser desafio o suficiente encararmos quem somos de fato e nos dedicar ao que queremos ser, para perder tempo entrando em conflitos com outros que nada mais são que eles mesmos.

Nesse sentido, a liberdade exige um grande comprometimento. Escolher por algo é desejar que esse algo esteja ali e, para isso, precisamos assumir e cuidar dessa escolha. Lembro de um caso em psicologia de um menino de 15 anos que estava decidindo em terapia se continuaria ou não na escola. Poder não estar na escola é uma opção, mas ele bancaria essa atitude com todas as implicações que ela tem? Ele descobriu, sozinho, que no caso dele não. Então muitas vezes queremos nos libertar de algo que, no fundo, não queremos de fato ou de algo que não é possível, pois as consequências que essas teriam exigiriam de nós algo que nos aprisionaria ainda mais.

Então acredito que libertar-se exige comprometer-se com essa liberdade para que ela perdure.Isso dá trabalho, é singular, não tem manual pronto. É como um trabalho em uma empresa e um trabalho autônomo. O segundo exige muito mais que o primeiro e é muito mais apetitoso. Portanto acredito nesse conceito de liberdade. Terei liberdade a partir do momento em que eu me comprometer com ela, em que eu me comprometer comigo mesma.

  Lutar com nossos tigres de bengala não é fácil. Quando penso que estou trilhando meus caminhos, olho as discretas migalhas que marcam esse trajeto e percebo como esses farelos marcam o percurso. Mas elas são discretas a ponto de que, caso eu não olhe para trás, eu não as perceba e elas continuem marcando meus passos.

Creio que minha liberdade está em decifrar um labirinto. Não só ir buscando a saída, sem a menor ideia do que vem, mas sim olhar para trás e ver qual trajeto fiz até aquele determinado ponto, tentar perceber que curvas escolhi fazer, por onde vim, para ver se me ajuda a escolher para onde vou ou, ao menos, saber o caminho de volta e começar de novo.

Minha liberdade e meu desafio é poder escolher acima de meus impulsos. De poder, deles sim, livrar-me e escolher quem quero ser.




Quero ser árvore com rodas, que siga sob o céu fechado...



Por Jú Ramiro Belintani.










4 comentários:

  1. O Medo

    Certa manhã, ganhamos de presente um coelhinho das Índias.
    Chegou em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola.
    Voltei para casa ao anoitecer e o encontrei tal e qual o havia deixado: gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.

    (Eduardo Galeano)

    Diego Chilio

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  2. Prima, sempre me identifico com as suas postagens!
    Encarar a vida como uma travessia, aprender a domar todos os nossos tigres, reconhecer o caminho, se perder e se achar nos labirintos, tecer e não se prender, participar da sua própria vida, se aceitar e saber se olhar, a raiz que não te prende, o movimento que ilumina...

    "The nuns taught us there were two ways through life - the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you'll follow.
    Grace doesn't try to please itself. Accepts being slighted, forgotten, disliked. Accepts insults and injuries.
    Nature only wants to please itself. Get others to please it too. Likes to lord it over them. To have its own way. It finds reasons to be unhappy when all the world is shining around it. And love is smiling through all things.
    The nuns taught us that no one who loves the way of grace ever comes to a bad end."

    "Vou mostrando como sou
    E vou sendo como posso,
    Jogando meu corpo no mundo,
    Andando por todos os cantos
    E pela lei natural dos encontros
    Eu deixo e recebo um tanto
    E passo aos olhos nus
    Ou vestidos de lunetas,
    Passado, presente,
    Participo sendo o mistério do planeta"

    "Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio.
    Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. (...)
    O maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada."

    Luiz Felipe Pondé



    NA SOMBRA DE UMA ÁRVORE

    Não sei,

    ando tão perdido.

    Confuso,

    como se tudo não passasse de um sonho.

    Parece que estou sempre à espera de algo,

    como se a solução da minha ansiedade

    fosse o contentamento com a indefinição.

    Quanta ausência de sentido,

    Quanta solidão.

    Em meio às noites frias,

    torço pela companhia da Lua.

    A escuridão que escorre

    pela luz que emana;

    Em meio à luz, em meio aos astros,

    À meia-noite:

    Um olho que fecha,

    outro que arregala.

    Silêncio.

    Todos dormem.

    Alguns cães uivam para o céu.

    Uns se arrepiam com o barulho;

    Outros embalam no vazio dos sonhos;

    Sonhos que estarão ofuscados pela luz da manhã.

    Abençoados esses que entregam seu inconsciente à noite:

    Sigo com o meu espalhado pelo céu,

    como uma constelação que me ilumina.

    O Sol?

    Transforma tudo numa coisa só.

    Torna parte de um imenso céu azul

    Pequenos pontos de luz

    De uma mesma escuridão.

    Quando a claridade ilumina demais,

    Poucos são aqueles que se desbravam,

    no mistério silencioso da noite,

    E emanam luz própria.

    Quem sabe se encontrar quando as luzes se apagam

    Não precisa temer a ofuscação do sol.

    Quando dia é luz e escuridão é noite,

    Brilho só existe na sombra.


    (Caio Belintani)

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  3. Primo,

    ual... adorei as palavras, as escritas e as citadas!

    Esse trecho do "Árvore da Vida" é o ponto mais forte do filme para mim, o ponto que me fez chorar de reconhecimento e aceitação. Que bom ter ele escrito agora por aqui.

    Acabei voltando para seu texto "Crônica de um desejo crônico", que é como uma conversa com esse texto meu. Relendo, vi sobre seu questionamento sobre felicidade. Nunca gostei dessa pergunta e nunca parei para pensar em sua resposta, pois acreditava que não existia em palavras, só em sensações. Mas um dia, em uma roda de 4 mulheres, cada uma de uma idade, como uma escada, aconteceu essa pergunta e a resposta me veio...

    Para mim felicidade é uma força. A força de saber que o que vier poderei receber ou enfrentar, que estou em minhas bases, a força de ser menos atingida, recebendo mais o que for bem vindo e sabendo lidar com o devido valor com o que for intruso. Isso parece leveza e alienação, mas descobri que é na realidade uma grande força.

    Essa é a felicidade que perdura, do tipo "você é feliz?", sim ou não a partir dessa força. Agora as felicidades desavisadas, de sortes, de encontros, de surpresas, essas são puro presente para o sentimento.

    (Jú)

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  4. Adorei a citação do Galeano Di,

    se repararmos bem o passarinho solto parece sempre inquieto... Não tem a calmaria, e o marasmo, do engaiolado.

    Beijo lindo.

    (Jú)

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