terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Trate-me como um cachorro. Ou assim que for possível.

“Afinal, não seria o caso de o paciente vir para a análise a fim de reconstruir sua solidão por meio do outro, a solidão que só ele pode conhecer?” Adam Phillips, 1993.


Queridas lagartixas, li esse texto da nossa querida Elisa e resolvi compartilhar com vocês. Fala principalmente sobre solidão e a capacidade de lidar com ela. É um texto longo que merece uma leitura calma para ser entendido... Quando tiverem um tempinho livre, vale muito a pena. Mexeu bastante comigo... Percebi principalmente o quanto ainda preciso amadurecer emocionalmente.

Com carinho
Carla

Trate-me como um cachorro. Ou assim que for possível.
Elisa Maria de Ulhôa Cintra


Um paciente vem experimentar esta curiosa solidão “a dois” de uma análise para reconstituir um universo que só ele pode conhecer. Trata-se de restaurar a capacidade para estar só na companhia de alguém1, para entrar em contato consigo e com o outro, sem cair nesta deliciosa tentação de “virar uma só coisa” com a outra pessoa. Tal aventura pede que se entre em um estado não instrumental e não focado e receptivo às sensações, memórias e desejos presentes e passados, mas sem prender-se a nenhum deles. A meta é atravessar a realidade psíquica sensorial em direção a este lugar “sem memória e sem desejo” de que nos fala Bion, lugar muito remoto onde são engendrados os sonhos e a vida psíquica. No caminho até lá é preciso criar um espaço transicional, um playground onde o brincar mútuo descobrirá nexos e ligações entre sensações atuais e estímulos passados, entre elementos do sonho e da vigília, de dentro e de fora, de si e do outro.
Em seu texto “A capacidade para estar só” (1958), Winnicott evoca estes momentos de contato e silêncio que um paciente vive durante a análise. Talvez tenha sido a primeira vez na vida em que conseguiu ficar realmente só, sem sentir-se isolado ou fechado em si mesmo; a sensação é de uma intimidade prazerosa, uma capacidade de ocupar-se com suas próprias coisas, com seu mundo de objetos internos, com aquilo que pode absorvê-lo e apaixoná-lo mais profundamente. Uma criança mergulhada em seu brincar talvez tenha sido a primeira aparição do fenômeno. Se hoje perguntássemos a Winnicott “você considera a capacidade para estar só um critério de fim de análise?”, com certeza teria respondido “sim”, pois algo aparentemente tão corriqueiro exige um grau de autonomia e de desenvolvimento do sentimento de si e do outro que só se atinge depois de uma grande amplidão da vivência materna primária bem elaborada.
Este foi o percurso de Winnicott: pensar as raízes desta capacidade, suas condições de possibilidade. A capacidade para estar só enraíza-se, pois, na primeira relação com a mãe, e depara-nos com o paradoxo de que estar só exige a presença, a companhia relaxada de alguém, ali ao lado, à nossa disposição.
Quando sabemos que alguém está por perto, ausentemente disponível, alguém com quem podemos entrar em contato a qualquer momento, seja na realidade exterior, seja na realidade virtual de nosso mundo interior, e quando este último parece ser formado por seres bem vivos, vozes do passado e do presente que se encontram em relativa harmonia, formando um espaço de convivência que se parece mais a um cosmos do que a um caos – é justamente aí e então –, ou seja a partir deste mundo interno relativamente ordenado e vital, que adquirimos a capacidade para estar só, na presença de alguém.2 Em termos kleinianos isto significa uma introjeção segura do bom objeto, que como veremos adiante é muito diferente da presença, que não se deixa introjetar nem assimilar, do objeto ideal, que permanece como um enclave insolúvel.
Talvez a primeira solidão que alguém viva em sua infância seja a de habitar um corpo e uma história de maneira única e intransferível. Ao mesmo tempo, aprende a falar e a se comunicar com os outros que parecem entendê-lo, grande parte do tempo. Durante a vida desenvolve uma relação de maior ou menor intimidade com o seu corpo e com seus amores, ódios, desconfianças, certezas, culpas, perdões. Há momentos em que mergulha na sensação da mais profunda incomunicabilidade e todas as palavras são inúteis; parecem provocar mais barulho do que entendimento.
Então o encontro analítico convida o paciente a deitar-se no divã, a abandonar as regras habituais do convívio social e a entregar-se ao livre fluxo de suas associações. A sua posição – deitado no divã – olhando na direção deste lugar imprevisível para onde suas palavras o conduzem em uma espécie de viagem – ou vertigem- no tempo e no espaço, tudo isto transforma o divã em um veículo mágico, uma cama voadora como as que aparecem nos sonhos e nos quadros de Frida Kahlo. O convite assemelha-se mais a torná-lo um flanneur que vagueia, à deriva, em uma cidade desconhecida deixando para trás o roteiro habitual que o leva de casa a algum lugar conhecido, e a experimentar novos caminhos, novas vias de acesso.
Enquanto isto o analista permanece silencioso e em reserva, fica sempre um ou dois passos atrás, lembrando que muito daquela história já ficou para trás, que será preciso deixar para trás o passado, deixá-lo passar. Ele convida ao abandono das certezas, das grandes verdades. Está sempre um pouco incrédulo, com aquela cara de paisagem silenciosa que escuta e está sempre indagando: Será? - implantando pequenos hiatos de dúvida nas crenças mais certeiras. Ele está imóvel, é verdade, mas sua imobilidade sensório-motora é o próprio esforço de transformar toda a turbulência de sua vida psíquica em estado de abertura e escuta. Gosto de pensar que o analista quer se converter em abertura e enraizamento. Ele se prende ao que há de mais insólito: o fluxo e o dinamismo do outro, sem deixar de acompanhar, à distância, o seu próprio ritmo flutuante.
Além de Winnicott, um outro analista, Christopher Bollas, afirmou que “cada encontro com um paciente envia-me profundamente a mim mesmo, a uma área de solidão essencial regida por leis inaudíveis de densa complexidade mental”. 3
Na sessão de análise, o próprio fato de estarmos sós, assim no plural revela uma comunidade invisível, um estar-só bem acompanhado. Tudo isto começa com a qualidade da presença materna capaz de criar um ambiente de confiança e segurança que dá a liberdade de brincar, inventar e expressar-se corporal e verbalmente, mas que se mantém em reserva, não-invasiva, em um silêncio tranqüilo, criando o que foi chamado de um espaço potencial. Este é um estado de solidão diferente do desamparo e do isolamento.
Winnicott conta-nos que muitas vezes, ao estar diante de um problema difícil, recolhia-se a um espaço interior que chamava de “meu clube”, um lugar de intimidade e interlocução. Para um inglês, a idéia de pertencer a um clube de peers, ou pares, é a realização acabada do ideal de convivência pacífica e fecunda que este analista tanto praticou. Ter instalado dentro de si presenças humanas confiáveis sob a forma de um ambiente ou um “clima” amistoso exige a negação de presenças plenas, invasivas e barulhentas. A intuição do negativo4, um elemento presente no pensamento de Winnicott, e que foi trazido à tona por André Green, afirma a possibilidade de que a realidade, em sua plenitude sensorial, se deixe negar e esquecer, e só então, possa tornar-se realidade psíquica. Digamos que deixar-se negar e interiorizar-se são duas formas diferentes de falar do mesmo fenômeno. Assim também, apenas a presença humana capaz de desaparecer sem ausentar-se completamente, poderá tornar-se voz, nome, figura e memória assimilados pelo sujeito nascente, sob a forma de cimento e tijolos de uma nova subjetividade.
Nosso destino é mesmo interiorizar as experiências significativas: “Nossa vida transcorre em metamorfose: sempre decrescendo, o exterior desaparece” (Rilke, 1922) e o progresso da vida obriga a reconstruir um mundo de objetos internos vivos, integrados e humanizados. São principalmente os cuidados maternos de sustentar e acalentar e a função paterna de separar e discriminar que precisam tornar-se ausentemente disponíveis, para que se possa viver em paz e tornar-se uma nova pessoa. O simples ato de ir dormir, de deixar-se adormecer - nos braços de Morfeu, desde a mitologia grega, lembram-nos - só é possível nos braços de alguém, nos braços visíveis ou invisíveis que mimetizam o colo aconchegante dos primeiros tempos. E ainda mais que adormecer, despertar exige estar nos braços de alguém; senão como encarar esse insuportável mundo real a cada manhã? Mais uma vez retorna o paradoxo de que estar só exige a presença real ou interiorizada de alguém capaz de segurar, cuidar, escutar.
Mas conviver no dia-a-dia exige também a capacidade para estar só. Alguém me conta sentir grande necessidade de ficar ao lado da namorada em estado de tranqüila indiferença, e como é muito difícil que entenda o seu desejo, dirige a ela um apelo extremo e ao mesmo tempo simples: “trate-me como um cachorro, e voltarei a falar com você assim que me for possível”. É o pedido de ser deixado de lado, brincando sozinho com seus pensamentos, de ter sua presença plena de certa forma negada, mas sem ausentar-se completamente. Não se trata, pois, de nenhum apelo masoquista para ser mal tratado, mas a necessidade de ser deixado em contacto com a sua animalidade mais pura, mergulhado em uma existência anterior ao universo verbal. E, além disto, é o convite de que ela venha juntar-se a ele no mesmo estado de tranqüila indiferença a toda manifestação explícita de amor ou consideração. É preciso suportar o sentimento de exclusão de uma parte da vida psíquica do outro, deixá-lo estar com o seu mundo de objetos internos que são desconhecidos e devem continuar a sê-lo. E sentir-se livre para excluir o outro, sem alimentar aquela culpa doentia que exige tudo dividir e participar.
Em um curto poema, Adélia Prado descreve um casal que depois de anos de convivência encontra-se neste estado de comunhão silenciosa, implícita:
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
De vez em quando os cotovelos se esbarram,
Ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
E faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
Atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
Vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
Somos noivo e noiva.
Na verdade, a capacidade para estar só na presença de alguém retoma o enigma do relacionamento entre as pessoas e a história de como cada um constrói o seu caminho de acesso até o outro, seu “próximo” (seu “nebenmensch” em Freud), tão familiar e tão estrangeiro... Quanta proximidade e quanta distância é preciso haver entre eu e outro para que exista amor e intimidade, reconhecimento e autorização entre as partes, ainda que esteja sempre rondando o risco de se ficar excessivamente dependente e dominado pelo outro? Ou ainda, como construir um mundo interno que torne possível reconhecer os outros sem se sentir por eles ameaçado, desautorizado, submetido, violentado, invadido ou ignorado? Como não ceder ao desejo de controlar ou possuir?
Um ambiente humano pacífico e pais que puderam autorizar-se um ao outro, favorecem a interiorização de figuras femininas e masculinas que mantém entre si contato e diferenciação. Cria-se uma tensão mínima que significa união, e ao mesmo tempo separação e cada um dos pólos – o masculino e o feminino – pode coexistir com o outro, sem anulação mútua. Por outro lado, um ambiente de desprezo, rivalidade, agressão e abandono irá favorecer a interiorização de um mundo caótico onde os personagens se atacam ou desprezam, e é muito freqüente que o masculino se torne despótico e autoritário, dirigindo-se contra o feminino desprezado; ou o in verso disto. As figuras de homem e mulher se combinam de forma sadomasoquista6, criando uma figura dos pais combinados7, onde não há nem diferenciação nem união.
Estas fantasias primitivas surgem em cada nova criança que vem ao mundo e dão expressão à sua vida sexual e à sua destrutividade; elas vão sendo forjadas em uma combinação única, que reúne as influências do ambiente e as reações de cada um ao mundo de acontecimentos significativos de sua história. Tornar-se um novo sujeito é fazer-se herdeiro de tudo o que o ambiente oferece, inclusive de aspectos indigestos da vida sexual e da destrutividade parental. Às vezes, o que “o ambiente oferece” são formas muito idealizadas de perfeição e de poder que entram na composição do mundo interno sob a forma de objetos ideais, para o bem e para o mal. A criança pode sentir-se ou bem excluída e perseguida, “estão todos contra ela”, ou bem invadida de forma absoluta e mortífera, e o desamparo e a ameaça tornam-se muito grandes. Ou então ela pode, imaginariamente, formar uma dupla, ou um trio, com um dos pais, ou um dos irmãos “contra o mundo”. Nesses casos há sempre uma confusão de identidades, e os aspectos mais grandiosos ou ameaçadores das pessoas entram em combinação com essas mesmas tendências da criança, criando objetos internos ideais e violentos. Neste caso, fazer-se herdeiro é conseguir ultrapassar estas figuras internas grandiosas e cheias de arbítrio, dissolvendo-as e modificando-as.
Melanie Klein propunha que o desenvolvimento de uma nova subjetividade dependia da elaboração da posição depressiva e da introjeção do objeto bom, sobretudo durante os cinco primeiros anos de vida, embora isto devesse ser retomado ao longo de toda a vida em um contínuo processo de reconstrução de si mesmo. Vejamos o que significam estas teorias – elaborar a posição depressiva e introjetar o objeto bom – pois isto nos levará a compreender o mundo interno que precisa ser constituído, para que se possa estar só na presença de alguém.
Elaborar a posição depressiva é separar-se da simbiose originária e das demandas de amor mais violentas e thanáticas, moderando-as e erotizando-as, para que possam preservar a independência do outro amado e o projeto de emergir como um novo sujeito, pois o risco é sempre cair nos pólos extremos: ou fundir-se irremediavelmente às pessoas queridas e não nascer psiquicamente ou, para se defender desta espécie de morte psíquica, ignorar as pessoas e destruir seu valor, de maneira que passam a não ter mais nenhuma existência significativa - mas aí então, também não será possível subjetivar-se: ter-se-á destruído os tijolos vivos e a argamassa que podiam vir a ser alguém.
Muito cedo, Melanie Klein deu-se conta de que era preciso fazer um luto e uma ressurreição dos primeiros amores, para se chegar a nascer psiquicamente. Este processo de luto e separação presente na posição depressiva é semelhante à elaboração do complexo de Édipo, através do complexo de castração, tal como havia sido descrito por Freud.
Ronald Britton, um neo kleiniano, chega a afirmar que: “resolvemos o complexo de Édipo elaborando a posição depressiva e resolvemos a posição depressiva elaborando o Complexo de Édipo, que nenhum dos dois é jamais terminado e que ambos tem que ser trabalhados em cada nova situação de vida”(Britton, p.53).
Por que cada nova situação de vida e cada porção de seu próprio self requer, para surgir, tanto luto? É preciso matar os “deuses” da infância e a criança magnífica que parece perfeita e absoluta, ao lado dos pais, em uma tríade narcísica. É o abandono das necessidades mais absolutas de ser amado, e das representações mais idealizadas ou denegridas de si, e dos outros personagens edípicos, os pais e os irmãos.
O desejo de ser tudo para alguém, mantendo com ele um estado de fascinação passional tem que ser deixado para trás para se aceitar uma relação em que os parceiros têm vidas e prazeres próprios, independentes um do outro. Será preciso desembaraçar-se destes nós originários. Digamos que os momentos mais narcísicos, que precisam ser deixados para trás ,envolvem relações mútuas de fascinação e dependência, tanto entre duas como entre três pessoas – são as díades ou tríades narcísicas, tão intensas quanto aprisionadoras, constituindo o que podemos chamar de um objeto bom ideal – magnífico e absoluto, mas que rapidamente se torna ameaçador e persecutório, pois estabelece um padrão muito elevado de perfeição e exigência.
O chamado “objeto bom ideal” é a construção monstruosa de um dinamismo que reúne tudo que há de mais passional em nossa demanda de amor, amalgamado ao que há de mais primitivo e absoluto na demanda de amor do outro: o resultado é uma fascinação recíproca. As díades acontecem quando vivemos a fantasia de plenitude a dois e a tríade mais primitiva é aquela que formamos com o casal parental – mas há nisto sempre uma grande dose de indiferenciação entre homem e mulher, filhos e pais, sexo e ternura, ou seja: confusão entre identidades sexuais e gerações. De um lado, um sexual separado de ternura e do outro lado, uma ternura dessexualizada, pois o estado narcísico também dá origem a oposições radicais em que um pólo tem que anular e recusar o outro. Vêem-se por esta descrição que estes “bons objetos ideais” são nós indiferenciados de desejos e exigências de perfeição, que precisam ser desembaraçados para que se possa ter uma “mente própria”. 8
Em contraste com os objetos ideais, o objeto simplesmente bom nasce de uma experiência diferente da paixão sem medida, da ilusão de tudo ser que se torna tão absoluta a ponto de negar os aspectos miúdos e corriqueiros da experiência de amar. O objeto “suficientemente bom” corresponde à elaboração do Édipo e da posição depressiva. Ele é tanto a origem, quanto a meta da capacidade para estar só. O objeto bom é o nome de uma experiência de prazer, acolhimento e segurança. Ele é a presença residual de um dinamismo relacional, a memória de que no início havia ali duas pessoas, uma delas tinha necessidade de algo que a ela foi entregue pela outra pessoa, por quem a primeira sente gratidão. Aqui há uma diferenciação e uma aliança maiores entre o masculino e o feminino, o parental e o filial.
O objeto bom é um nome, com a propriedade que os nomes têm de nos transportar de um lugar para outro. Pensando sobre isto compreendo melhor a insistência de Lacan sobre a metáfora paterna, o “nome do pai”. O significante ser pai é o que nos transporta para um outro lugar, para a dimensão simbólica, metaforizante. A experiência imediata é lançada para novos sentidos potenciais. O nome é algo que nos transporta. Quais são as funções do pai? Interdição, regulação, mediação. Proteger, dar segurança, prover, criar e distribuir os bens necessários à vida, como em uma obra de arquitetura primitiva que transporta água de longe para mais perto, que inventa instrumentos para canalizar, construir, suprir. (Há um filme “O despertar de uma paixão” que se passa na China em uma localidade rural onde uma epidemia de cólera mata grande parte da população e quase toda a água está contaminada, até que um jovem médico inglês que tenta combater a epidemia e projeta uma obra arquitetônica simples, feita com hastes de bambu para transportar água não contaminada para o vilarejo.) Não é difícil lembrar dos deslocamentos criativos de um poema, ou da ficção inspirada, capaz de renomear e ressignificar um mundo de fatos insignificantes ou paralisantes.
O objeto suficientemente bom é um memorial, é um rumor de distâncias atravessadas. No eco, na distância de ser lembrado, ele será assimilado, dando a ser uma nova pessoa. Ele ainda vai ser. Talvez seja esta sua maior virtude: o seu tempo futuro e o seu desejo de alterar-se, de tornar-se outro, diferenciar-se. Em contraste com isto, o pai da horda primitiva10 é uma explosão de poder arbitrário e egoísmo. Imagino o pai cruel da horda primitiva como um grande bloco de granito ocupando o interior da nova subjetividade, como um enclave indissolúvel. Ao construir sua nova “casa”, o jovem arquiteto, incapaz de remover aquela imensa rocha de granito não tem outra saída senão deixá-la por ali ocupando espaço vital da sala de visitas, ou do quarto de dormir e, um pouco sufocado, constrói as paredes de si em torno deste grande obstáculo inamovível. Ao contrário disto, o bom objeto origina as fundações estáveis e sutis de uma nova subjetividade, mas encontra-se tão dissolvido no solo do novo sujeito que ninguém mais pode enxergá-lo com nitidez. O enclave insolúvel do objeto ideal revela que, incorporado, dificilmente pode ser introjetado e integrado ao eu nascente, e permanece como um modelo a imitar ou a contrariar, uma voz que julga e condena, tirando toda a luz, como Freud descreveu em um tom trágico: “a sombra do objeto caiu sobre o eu”.
Em uma análise, o analista torna-se receptivo às projeções e às demandas infantis do paciente, deixa-se embaraçar nelas para, mais tarde, desembaraçar-se através de suas interpretações e de sua paixão por conhecer o funcionamento daquela pessoa, tanto em suas necessidades mais profundamente narcísicas quanto em seu desejo de ter “mente própria”. Quais são as primeiras? O narcisismo saudável é o desejo de pertencer, de união, de ser compreendido, amado e reconhecido. Torna-se patológico quando se deseja ser plenamente compreendido e que o outro possa estar ali completa mente “a seu dispor”, atento a seus mínimos movimentos internos – sejam medos ou desejos – e pronto a suavizá-los ou atendê-los, sem descanso e sem demora. Qual é a maior aspiração do narcisismo patológico? Encontrar aquela alma gêmea completamente transparente que em nada se diferencia de mim, que nada esconde, nada retém para si. É, portanto, uma exigência de equiparação, de que não haja nenhuma diferença significativa entre eu e o “outro”. Que “outro”? A alteridade precisa ser abolida. Ou então, que esta alma gêmea seja como o gênio da lâmpada de Aladim, que transforma em ordens todos os meus desejos. É o desejo de empatia absoluta, cumplicidade, solidariedade total por parte do outro, independente do que eu tenha feito ou dito. É o movimento que leva um paciente a apropriar-se daquilo que lhe foi dito pelo analista tornando-o, imediatamente, algo seu, por um processo de indiferenciação, por um desejo de ser igual, de ser um com o “outro”.
E além das demandas narcísicas mais absolutas, o que significa este desejo de ter “mente própria”, de que nos fala Caper? Trata-se do desejo de separar-se do outro, entrar em contato com a solidão que só cada um de nós poderá conhecer, de reencontrar a paixão por seus objetos internos. Envolve re-descobrir o prazer de cuidar de si e de responsabilizar-se por sua própria felicidade antes de cobrar isto do mundo; exige, pois, sair de um universo mágico. Leva a perceber o outro como alguém separado de mim e a manter um relacionamento diferente da fusão narcísica, embora guardando espaço para a empatia, a possibilidade de comunicação, para os aspectos mais saudáveis do narcisismo. Os afetos aí suscitados são complexos e há a dor de perceber que o outro me exclui, que ele tem vida própria, que não se torna nunca completamente transparente e acessível a mim, mas pensa por conta própria e move-se independentemente de meu controle e do meu desejo. Corresponde a um desejo de autonomia e de liberdade que convive lado a lado com a aspiração narcísica de ser reconhecido, de pertencer e igualar-se.
O analista se propõe a conhecer e nomear estes diferentes desejos e demandas, a construir pontes e nexos entre eles para que, envolvendo-se no jogo, o paciente acabe por transportar sentidos das nascentes mais férteis até os lugares mais secos e abandonados.
Ora, toda vez que, na convivência miúda do dia-a-dia, alguém pode se esquecer de si e deixar-se esquecer por parte do outro, converte-se, ele também, em algo assimilável, nutriente. O mesmo processo de conjunções e disjunções, de mortes e renascimentos que descrevemos acima, estará acontecendo ou sendo retomado quando se pode estar assim: só, na presença de alguém.
É a difícil arte de tratar e ser tratado como um cachorro. Tudo isto para combater a tentação maior de um dia querer ser tudo o que o seu cachorro pensa que você é.

   
 

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