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| "Caim" O Primeiro Errante... |
Nao sei pq, lendo estes dois textos, me senti Caim (de Saramago).
Talvez porque ele tenha sido o primeiro errante.
Acho que estamos condenados a vagar pela Terra em busca de sabe-se lá o que.
Mas conto sempre com Janeiro...
Janeiro está lá, como um eterno recomeço, um começar de Novo Lindo e quente.
Como um Presente.
Bjs e boa leitura.
Com Carinho,
Cláudia Belintani Abbud
Vício
Francisco Daudt ("Cotidiano" - Folha de São Paulo 11/12/2012)
Francisco Daudt ("Cotidiano" - Folha de São Paulo 11/12/2012)
Afinal, quando é que os cientistas vão inventar a pílula da moderação? Incentivo é o que não lhes falta, pois quem descobrir sua fórmula vai se tornar multibilionário instantaneamente. Até lá, o único remédio que dispomos para combater o vício é a medieval abstinência.
Buscando uma definição para vício, pesquisadores de Harvard acompanharam um grupo aleatório de quatrocentos alunos, e, ao fim de SESSENTA ANOS, publicaram suas conclusões: é vício a atividade compulsiva que resulta em fazer merda repetitivamente, sobretudo para si, envolva ou não terceiros (eles que me desculpem pela concisão).
A base do vício é algo que produza algum barato instantâneo. Não é exclusividade da nossa espécie. Vários mamíferos africanos se embriagam com o fruto fermentado da marula, enquanto os haja (divirta-se no Youtube vendo "drunk from marula"). Mas a nossa é uma espécie desmesurada e excessiva por natureza, particularmente propensa a se viciar. Principalmente com:
1. entorpecentes/excitantes (álcool, tabaco, cafeína, cocaína, maconha etc.);
2. causadores de intensidade/adrenalina (paixão, sedução, sexo, jogo, riscos diversos, sadomasoquismo etc.);
3. engordativos (carboidratos com gordura).
Estes últimos são uma praga de tão bons. Pão com manteiga deve estar entre as dez maiores invenções da humanidade. Mas entendê-lo é fácil. Nossos genes são herdeiros dos que tiveram prazer com essa combinação na savana africana. Acumulavam reservas para os tempos de vacas magras (é uma metáfora, não um insulto). Nunca imaginaram que ela seria tão disponível, seja nas padarias, seja nos fast-foods, daí a epidemia de obesidade.
Já o sadomasoquismo me fascina pela complexidade. E não estou falando de tons de cinza, mas das formas viciantes e sutis do s&m, a mais comum delas aquilo que chamei, num livro, de "jogo fodão-merda", que chega a ser um estilo de vida apreciado nos Estados Unidos (lá chamado de winner-loser). Consiste em se estar obsessivamente preocupado em ser fodão/winner, e apavorado de virar merda/loser. Como subproduto desta preocupação, vem a atividade s&m em si: o merda se sente fodão se humilhar alguém, se conseguir fazer alguém mais por perto se sentir merda. Olhe em torno. Quantos casais conhecidos seus vêm jogando esta droga há anos? O pior é que o s&m produz mais bodas de ouro do que o amor, e não se cura com separação. Quantos chefes inseguros se valem deste expediente para afastar o fantasma da merda? Quantos alunos imbecis o usam (como bullying) para momentaneamente se sentirem superiores aos nerds?
Não conheço vício mais comum. É um fenômeno sociológico de larga escala, tornando-se epidêmico, sem respeitar etnia (!), religião (!), classe social ou gênero.
É verdade que ele é mais encontradiço em quem não está "na sua" e vive preocupado com a opinião alheia. Momentos frágeis da vida (adolescência, afirmação profissional) nos deixam vulneráveis ao jogo.
Há quem ache que "isso é a vida". Mas no Japão, adolescentes se suicidam por ele. Eu o considero um problema de saúde pública.
Apologia da flexibilidade
João Pereira Coutinho ("Ilustrada" - Folha de São Paulo 11/12/2012)
É sem dúvidas uma lamentável tragédia: Jacintha Saldanha era enfermeira em um hospital de Londres. Recebeu uma ligação de dois radialistas australianos que se fizeram passar pela rainha Elizabeth 2ª e seu filho, o príncipe Charles.
A intenção dos radialistas era obter informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Jacintha acreditou na pegadinha, passou a ligação a uma colega do hospital. Que revelou o estado de saúde da duquesa com pormenores.
Ninguém sabe o que se passou nas horas seguintes. Exceto que Jacintha Saldanha lidou mal com a brincadeira e apareceu morta. A polícia suspeita de suicídio.
Existem duas formas de olhar para o caso. A primeira é seguir o coro dos indignados, denunciar a cultura pop pela sua vulgaridade mendaz e até pedir a cabeça dos dois radialistas.
Mas existe uma segunda forma de olhar para o mesmo caso. De preferência, lendo um pequeno grande livro que até a circunspecta revista "The Economist" elegeu como um dos melhores do ano.
Foi escrito pela psicanalista Philippa Perry e o título diz tudo: "How to Stay Sane" (como se manter são, Macmillan, 160 págs.).
Primeiras conclusões: a "sanidade" não pode ser confundida com noções pedestres de "felicidade individual", vendidas por analfabetos infelizes em manuais de autoajuda.
Muito menos se confunde com variações mais modestas de "normalidade": a pretensão de definir o que é a "normalidade" não passa de um sintoma de anormalidade.
Para Philippa Perry, que escreve o ensaio com um pé na neurologia, outro na psicanálise, sem esquecer os ensinamentos imperecíveis dos Clássicos, "sanidade" pressupõe equilíbrio entre a rigidez dos nossos princípios e o caos da vida como ela é.
Ou, em linguagem platônica, "sanidade" é saber usar a razão para que nenhum dos dois cavalos que puxam a quadriga da alma -o cavalo do Espírito e o cavalo do Apetite- possam tomar, por si só, as rédeas da marcha.
Claro que os genes e a constituição orgânica do indivíduo têm uma importância decisiva nesse grau de sanidade.
A esse respeito, relembro um texto lido há uns anos, num tratado sobre a história da loucura, e escrito por um médico do hospício inglês de Bedlam em 1816 que nunca mais esqueci. Cito de cor: os pensamentos desarranjados, escrevia o doutor William Lawrence, têm a mesma relação para o cérebro que os vômitos para o estômago, a asma para os pulmões e qualquer outra maleita para o seu órgão correspondente.
Quando li essa passagem, sublinhei-a com um ponto de exclamação. Ou talvez com um ponto de lamentação: quantas vidas não teriam sido poupadas à culpabilização, à vergonha e ao sofrimento se as neurociências, pateticamente entretidas a aplicar "mitos gregos às partes íntimas" (obrigado, Nabokov), tivessem olhado mais cedo para o seu órgão correspondente?
Divago. Ou talvez não: porque se os genes têm importância para certas maleitas, não terão para todas.
E, por vezes, somos nós, seres racionais, que devemos procurar a palavra mais importante na gramática da sanidade. "Flexibilidade", escreve Philippa Perry.
Que o mesmo é dizer: olhar para os nossos princípios com uma boa dose de ceticismo e ironia. Não nos levarmos demasiado a sério. E, sobretudo, não levar a vida -frágil, fugaz e nem sempre rósea- demasiado a sério.
Na triste história de Jacintha Saldanha, é fácil criminalizar os dois radialistas. É fácil criminalizar uma brincadeira. É fácil acreditar que, sem uma pegadinha daquelas, a vida de Jacintha continuaria harmoniosa e feliz.
Duvido. Muito. E a única coisa que lamento é não ter existido ninguém -um colega de hospital, um amigo, um familiar, até um doente - que não tenha conferido a uma mera brincadeira a sua real dimensão.
E que, mesmo respeitando os princípios de verdade e honradez que faziam parte do código da enfermeira, não a tenha levado a rir de uma simples pegadinha. Porque nenhuma pegadinha daquelas justifica um suicídio.
No fundo, talvez seja essa a única moral da história: quando não temos a flexibilidade necessária para nos rirmos da vida, é a morte que acaba por se rir de nós.

Caim
ResponderExcluirCaim
Caim...
Bjs
Nossa... esse texto mexeu comigo.
ResponderExcluirAcredito que ter flexibilidade é praticar a resiliência.
Toda vez que me deparo com meu lado ruim descubro que ele também vive ali e então é preciso escutá-lo e entender o que ele tem para dizer... Tudo para que ele não se sufoque e para que eu consiga encontrar o equilíbrio.
Muitas vezes me deparo com vontades próprias que não são corretas e que me fazem mal... acredito que as vezes por causa de todas as proibições elas se tornem ainda mais tentadoras e irresistíveis!
Isso me lembra um pouco a música do Chico (Fado Tropical):
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto.
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa".
A contradição que carregamos dentro de nós... O bom e o mau brigando eternamente entre si... A natureza e a graça...
Muito lindo o texto. Gostei muito!
Vocês me ajudam a procurar o equilíbrio e encarar a vida de uma forma mais leve e tentar dar risada de tudo, afinal que graça teria a vida se não fosse assim?
Beijos com carinho
Carla
Começar de novo.
ResponderExcluirÉ engraçado como me identifico com isso. O recomeço, o frescor de um ano novo, as resoluções para uma nova fase, o fim de um ciclo e o começo de outro.
Parece que, quanto mais o tempo passa, menos podemos aprender com a História. Antes, achava que todos os fatos tinham acontecido numa ordem linear e lógica, e que a compreensão poderia ser absoluta e unívoca. Mas pense bem: você é capaz de explicar o conflito em Israel? Os suicídios no Japão? A lealdade culposa da enfermeira? O excesso de consumo e a banalização das relações?
Não, não é. Você tem teorias a respeito, todos temos. Você articula o repertório que constituiu ao longo da sua vida, das suas experiências e das suas próprias interpretações para estabelecer um parecer.
E se, em vez de ter vivido sua própria vida, você tivesse nascido em Cuba? Seu parecer seria o mesmo? Acho que não.
Isso tudo para dizer que "essência" faz sentido só a posteriori: não tenha a ilusão de uma alma transcendental e absoluta, não ache que seu destino é uma combinação cósmica de sua interioridade e da conjectura social correspondente à sua existência. Menos.
Destino, se fôssemos usar essa palavra, serviria apenas para explicar a casualidade do que você é no momento. Acho que temos um problema em nossa língua, extremamente pernicioso:
Veja, para dizer em inglês que eu ESTOU feliz, utilizo a mesma construção quando digo que SOU alguém. I am happy; I am Caio.
Não que os falantes da língua inglesa tenham alguma vantagem sobre nós nesse sentido, mas o exemplo é suficiente para ilustrar nossa confusão. Não existe nenhuma rigidez na idéia de ser, que se aproxima cada vez mais de um estado transitório e passageiro. Flexibilizar essa concepção em nossas vidas torna-se a chave de libertação para uma existência mais leve.
Passei boa parte da minha vida sendo educado para moldar meu repertório independentemente do que eu penso, simplesmente para fornecer a resposta certa a uma pergunta absurda. Ora, que propriedade minha professora de História tem que os professores orientais não têm? A propriedade da cultura ocidental. Será?
Disse no começo que cada vez menos podemos aprender com a História. Reformulo: cada vez menos podemos aprender. Cada vez menos podemos aceitar verdades absolutas e tomá-las para nós como irrefutáveis, isso só gera rigidez: ninguém entende nada igual a ninguém, almejar essa utopia é como acender um isqueiro ao lado de um vazamento de gás – eventualmente, alguma coisa vai explodir.
ResponderExcluirPodemos, sim, cada vez mais apreender colocações, opiniões, pensamentos, divagações e pareceres à nossa própria vida. Precisamos flexibilizar, como pontuou João Pereira Coutinho. No entanto, Francisco Daudt deixou bem claro que, infelizmente, o único método que dispomos para essa moderação é a “medieval abstinência”.
Abster, nesse sentido, é fazer um esforço para aceitar o indefinido, o estado transitório das coisas e de nós mesmos, bem como a absoluta relativização de tudo isso.
Estamos falando de Caim, de errantes, de “sem traição, não existe tradição”.
Eu fico pensando no quanto vou mudar até eu estar casado e criando meus filhos: espero que eu tenha revisto todos os meus valores, e mais do que isso – espero que eu tenha a tranqüilidade para saber que eles ainda vão mudar muito até o fim da minha história.
Hoje, não tenho essa tranqüilidade. Sou ansioso, quero resolver as coisas pra ontem, quero me apegar a uma certeza estável e seguir com ela até o final, sem mudanças, sem surpresas, sem novidades. Mas ontem fui surpreendido por uma colocação genial:
“Existem as coisas que devemos fazer, e as coisas que podemos fazer. Entender porque nossa possibilidade é diferente da nossa necessidade é o caminho, e admitir isso envolve uma simples escolha: querer cuidar de si mesmo.”
Estou lendo um livro que discute diferentes noções do tempo. Parecido com “Cidades Invisíveis”, “Os Sonhos de Einsten” apresenta várias idealizações de mundos diferentes, cada um deles com uma diferente perspectiva de temporalidade. Um desses mundos me interessou demais: as pessoas ficam presas, cada uma em um momento da vida, e não conseguem nunca mais sair de lá:
“The tragedy of this world is that no one is happy, whether stuck in a time of pain or joy. The tragedy of this world is that everyone is alone. For a life in the past cannot be shared with the present. Each person who gets stuck in time gets stuck alone.”
“A tragédia desse mundo é que ninguém é feliz, esteja preso em um momento de dor ou de felicidade. A tragédia desse mundo é que todos são sozinhos. Uma vida no passado não pode ser compartilhada com o presente. Cada um que fica preso no tempo fica preso sozinho.”
E que venha 2013, cheio de mudanças, incertezas, indefinições: FLEXIBILIDADE.
Lagartixas, obrigado pelo espaço de troca para as minhas crises internas, é sempre um prazer!
Beijos,
Caio
"Existem as coisas que queremos fazer e as coisas que podemos fazer..."
Excluir"Há distância entre intenção e gesto..."
"Caim" do Saramago, é também um viajante do tempo.
ExcluirComo um anjo caído, está condenado a "errar" pela Terra e acompanhar a Ira de Deus.
Também fica "preso" em mundos diversos, num ir e vir que testemunha a incoerência da Vida.
Estabelecer Limites de alguma forma, é abster-se de algo.
Faz parte, este é o ponto que nos diferencia do todo - a capacidade de escolha e de dizer não ao jogo.
"Entender porque nossa possibilidade é diferente da nossa necessidade é o caminho, e admitir isso envolve uma simples escolha: querer cuidar de si mesmo.”
Muito bom te ler, meu menino.
E que 2013 te traga Flexibilidade e muita capacidade de rir da vida.
Filhote de Lagartixa é Lagartixo.
Bem Vindo.
Amor,
Mãetixa
Caião, que sintonia!!!
ResponderExcluir"Existem coisas que devemos fazer e as coisas que podemos fazer..."
Te amo
Beijos
Carla
" A tagédia deste mundo é que ninguem é feliz, esteja preso em um momento de dor ou de felicidade. A tragédia deste mundo é QUE TODOS SÃO SOZINHOS. Uma vida no passado não pode ser compartilhada com o presente. Cada um fica preso no tempo, fica presp SOZINHO."
ResponderExcluirUfa! que palavras!!!
Acho que flexibilidade é uma coisa que eu tb preciso cultivar, pois estou mais para a música do Chico: qdo vi, já foi, se eu pensar antes posso me arrepender.
'Qdo n~ao temos a flexibilidade de rir da vida, a morte acaba por rir-se de nós".
Tenho que treinar....
Bjos.
MJ
Maria José, que vontade de te abraçar...
ExcluirMuito verdadeiro e lindo tudo que escreveu.
Se precisar de companhia para dar risada, por favor conte comigo!!!
Beijo no seu coraçao
Carla
Galera, vou desejar muita flexibilidade a todos, pois me parece que é essencial ter essa habilidade. E escrevo mais, mesmo tendo um pouco de flexibilidade, ainda sim as vezes o riso não vem, a solidão parece ser maior do é, a banalização cega, a mediocridade nos paralisa...eca que horror. Vamos fazer um treino e flexibilizar mais, faremos disso um hábito bom!
ResponderExcluirbjs
Sil Azul