quarta-feira, 17 de outubro de 2012

DRUMMOND e "A Origem do Mundo"


"O Amor Natural" - Uma Ode A Origem do Mundo


SUGAR E SER SUGADO PELO AMOR
 
Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante     boca milvalente
o corpo dois em um    o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
         no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
 
 
                                           DE ARREDIO MOTEL EM COLCHA DE DAMASCO
 
De arredio motel em colcha de damasco
viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
A morte, entre nós dois, tinha parte no coito.
O brinco era violento, misto de gozo e asco,
e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto. 
 
 
O QUE SE PASSA NA CAMA
 
(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)
 
É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono de pênis.
 
Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciam os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.


PARA O SEXO A EXPIRAR
 
Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
 
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
 
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
 
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.
 
  
(Carlos Drummond de Andrade in  O AMOR NATURAL.  Rio de Janeiro: Record, 1992)


Um comentário:

  1. Simplesmente Divino!
    Essa imagem esta maravilhosa!!!!!
    De novo, valeu Claúdia!
    bjs
    Sil

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