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| Gustave Courbet: O desesperado (autorretrato), 1843-45 |
Courbet nasceu numa família de milionários na França. Depois de
frequentar um colégio no Marrocos, começou a ter aulas de pintura e
iniciou seus estudos de direito em Paris[1]. Finalmente decidiu estudar desenho e pintura por iniciativa própria, copiando os grandes mestres no Louvre, principalmente Hals e Velázquez. Suas primeiras obras foram uma série de auto-retratos. Em 1844 expôs pela primeira vez no Salão de Paris e dois anos mais tarde apresentou os quadros Enterro em Ornans e O Ateliê do Artista,
que lhe custaram críticas severas e a recusa do Salão de Paris devido
aos seus temas demasiadamente prosaicos. Courbet não se deu por vencido e
construiu um pavilhão perto do Salão, onde expôs quarenta e quatro de
suas obras, que chamou de realista, fundando assim esse movimento.
O público não viu com satisfação essa nova estética das classes
trabalhadoras. Courbet, enquanto isso, se reunia para compartilhar
opiniões com seus amigos, entre eles o pintor e notável teórico
anarquista Proudhon, o escritor Baudelaire e o irônico caricaturista Daumier.
Já se discutiu muito sobre os motivos que teriam levado Courbet a
escolher os trabalhadores como tema. De fato, os homens de seus quadros
não expressam nenhuma emoção e mais parecem parte de uma paisagem do que
seus personagens. Courbet se manteve, nesta etapa realista, muito longe
do colorismo romântico, aproximando-se, em compensação, do realismo
tenebroso espanhol do barroco, com uma profusão de pretos, ocres e marrons, banhados por uma pátina cinza. Comprova-se isto no seu quadro mais importante, O Ateliê do Artista (1855), em que manifestou sua desaprovação em relação à sociedade.
Por volta de 1850, o realismo de Courbet foi se apagando e deu lugar a uma pintura de formas voluptuosas e conteúdo erótico, de figuras femininas no estilo de Ingres,
mas mais descarnadas. A elas seguiu-se uma série de naturezas-mortas,
quadros de caça e paisagens marinhas que confirmaram sua capacidade
criativa e técnica impecável. Por volta de 1870, Courbet foi acusado de
ter destruído uma coluna da praça Vendôme, o que levou o pintor a se mudar para Viena. Em Paris, suas obras foram rejeitadas, e o ateliê do artista foi leiloado para pagar a restauração da coluna. Fonte: Wikipédia
A Origem do Mundo
"Eis uma breve trajetória da obra. A origem do mundo foi
encomendada a Courbet, um pintor do realismo, por um diplomata turco
chamado Khalil-Bey. Colecionador de imagens eróticas, ele pediu um nu
feminino retratado de forma crua. E Courbet lhe entregou um par de coxas
abertas, de onde despontava uma vagina após o ato sexual. A obra teria
sido instalada no luxuoso banheiro do milionário, atrás de uma cortina
que só se abria para revelar o proibido para uns poucos escolhidos.
Khalil-Bey teria perdido a pintura em uma dívida de jogo, momento em que
a tela passa a viver uma série de peripécias.
O quadro teve vários donos e, ao que parece, todos o escondiam atrás de
uma cortina ou de uma outra pintura. Na II Guerra Mundial, algumas
versões afirmam que chegou a ser confiscado pelos nazistas do
aristocrata húngaro ao qual pertencia. Em seguida, passou uma temporada
nas mãos do Exército Vermelho. Até que, após uma acidentada jornada, em
1954 foi comprado por Lacan e instalado na sua famosa casa de campo.
Até mesmo Lacan, um personagem pródigo em excentricidades e sempre
disposto a chocar as suscetibilidades alheias, ocultava o quadro com uma
outra pintura, encomendada ao pintor surrealista André Masson com esse
objetivo. Como uma porta de correr, esse “véu” retratava uma vagina tão
abstrata que só um olhar atento a adivinhava. Apenas visitantes
especiais ganhavam o direito de desvelar e acessar a vagina “real”.
Segundo Elisabeth Roudinesco, a biógrafa mais notória de Lacan, o
psicanalista gostava de surpreender os amigos deslocando o painel.
Anunciava então “A origem do mundo”, com a seguinte declaração: “O falo
está dentro do quadro”.
Eliane Brum
Eliane Brum
"O quadro de Gustave Courbet, "A Origem do Mundo", de 1866, só foi
exposto ao público em 1991. Até então, um número ínfimo de pessoas vira o
original, que por isso guardava uma aura de mistério mítico. Seu último
proprietário foi Jacques Lacan, dono de uma coleção importante de arte.
"A Origem do Mundo", porém, não era mostrada: Lacan conservava a tela
numa edícula, recoberta por outra tela, de André Masson. O psicanalista a
exibia somente a alguns eleitos.
James Lord e Dora Maar presenciaram uma dessas cerimônias. Sua descrição
é reveladora: atitude grave ("A atmosfera podia ser tudo, menos
alegre"); conversas em voz baixa, repetição da liturgia ("Depois do
almoço, acompanharam-nos até uma construção fora da casa, onde ficava o
ateliê de Lacan. Dora sussurrou: "Ele vai nos mostrar seu Courbet");
palavras sacramentais ("Agora, vou lhes mostrar algo de
extraordinário"); rito de exposição, quando o proprietário retira o
disfarce que cobre o quadro; enfim, resposta ritual do fiel ("Proferi as
exclamações admirativas esperadas").
Há um caráter religioso em tudo isso. É verdade que Courbet, ao eliminar
a cabeça e os membros do modelo, concentrando-se no sexo, evitou tudo o
que não fosse pura exposição. Transformou assim o espectador em puro
contemplador, ou em contemplador puro. A imagem se impõe como evidência e
permite a sacralização por sua essencialidade.
O vínculo entre obsceno e sagrado se tece graças aos laços entre os
iniciados: é uma cerimônia religiosa, no sentido mais etimológico de
"religare" (unir). Ora, exposição (de qualquer obscenidade) pressupõe a
cumplicidade entre quem expõe e quem vê."
Jorge Coli
"Não consigo dissociar "A Origem da Vida" do Colbert, da cena do filme Fale com Ela do Almodóvar, em que o homem diminui, percorre o corpo da mulher e se perde na floresta para sempre..."
Cláudia Belintani Abbud
"Segundo Erich Neumann (1999, pp.50-70), o caráter elementar do Grande Feminino não contém, de maneira alguma, somente traços positivos. Assim, como a Grande Mãe não é só a mãe bondosa mas também a mãe terrível, o Grande Feminino não é só doador e protetor da vida, mas também retém e retoma. É, ao mesmo tempo, a Deusa da vida e da morte. O Grande Feminino contém os opostos e o mundo efetivamente vive pelo fato de que combina em si a terra e o céu, a noite e o dia, a vida e a morte. Os mistérios da morte, porquanto considerados mistérios da Mãe Terrível, apóiam-se na sua função devoradora-aprisionadora, que retoma para si novamente a vida e o indivíduo. O útero, nesse caso, torna-se a mandíbula devoradora e os símbolos conceituais da diminuição."
Beatriz Schiffer Durães

Lindo demais! Que história sensacional, agora entendo o que você quis transmitir ontem, estou encantada!!!
ResponderExcluirbeijocas
Silvia