domingo, 30 de setembro de 2012

O DISCO - Borges


O Conto da Sílvia



O  DISCO
  (J. L. Borges)                                                               
               Sou lenhador. O nome não importa. A choça em que nasci e na qual logo hei de morrer fica à beira do bosque. Do bosque dizem que se estende até o mar que rodeia toda a terra e que nele existem casas de madeira iguais à minha. Tampouco vi o outro lado do bosque. Meu irmão mais velho, quando éramos pequenos, me fez jurar que nós dois derrubaríamos todo o bosque até não restar uma única árvore. Meu irmão morreu e agora procuro e continuarei procurando outra coisa. No rumo do poente corre um riacho em que sei pescar com a mão. No bosque há lobos, mas os lobos não me amedrontam e meu machado nunca me foi infiel. Não fiz o cálculo de meus anos. Sei que são muitos. Meus olhos já não vêem. Na aldeia, aonde já não vou porque me perderia, tenho fama de avaro, mas que pode ter amealhado um lenhador do bosque?
        Fecho a porta de minha casa com uma pedra para que a neve não entre. Uma tarde ouvi passos trabalhosos e depois uma batida. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto e velho, envolto numa manta puída. Uma cicatriz atravessava seu rosto. Os anos pareciam haver dado a ele mais autoridade que fraqueza, mas notei que lhe custava andar sem o apoio do bastão. Trocamos umas palavras que não lembro. Disse afinal:
        - Não tenho casa e durmo onde posso. Percorri toda a Saxônia.
        Aquelas palavras convinham à velhice dele. Meu pai sempre falava da Saxônia; agora as pessoas dizem Inglaterra.
        Eu tinha pão e peixe. Não falamos durante o jantar. Começou a chover. Com uns couros armei uma cama para ele no chão de terra, onde meu irmão morreu. Ao chegar a noite, dormimos.
        O dia clareava quando saímos de casa. A chuva cessara e a terra estava coberta de neve recente. Deixou cair o bastão e ordenou-me que o erguesse.
        – Por que devo te obedecer? - disse-lhe.
        – Porque sou um rei – respondeu.
        Julguei-o um louco. Apanhei o bastão e lhe dei.
        Falou uma voz diferente.
        – Sou o rei dos Secgens. Muitas vezes, levei-os à vitória na dura batalha, mas na hora marcada pelo destino perdi meu reino. Meu nome é Isern e sou da estirpe de Odin.
        – Não venero Odin – respondi. - Venero Cristo.
        Como se não me ouvisse, continuou:
        – Ando pelos caminhos do desterro, mas ainda sou rei porque tenho o disco. Queres vê-lo?
        Abriu a palma da mão, que era ossuda. Não havia nada na mão. Foi então que percebi que sempre a mantinha fechada.
        Olhando-me fixamente, disse:
        – Podes tocá-lo.
        Já com algum receio pus a ponta dos dedos sobre a palma. Senti uma coisa fria e vi um brilho. A mão fechou-se bruscamente. Eu não disse nada. O outro continuou com paciência, como se falasse com um menino:
       – É o disco de Odin. Tem um único lado. Na terra não existe outra coisa que tenha um só lado. Enquanto estiver em minha mão, serei rei.
        – É de ouro? - disse a ele.
        – Não sei. É o disco de Odin e tem um só lado.
        Então senti a cobiça de possuir o disco. Se fosse meu, poderia vendê-lo por uma barra de ouro e seria um rei.
        Disse ao vagabundo que ainda odeio:
       – Na choça tenho um cofre de moedas escondido. São de ouro e brilham como o machado. Se me deres o disco de Odin, eu te darei o cofre.
        Disse teimosamente:
        – Não quero.
        – Então – disse eu – podes prosseguir teu caminho.
        Deu-me as costas. Uma machadada na nuca bastou e sobrou para que vacilasse e caísse, mas, no cair, abriu a mão e vi o brilho no ar. Marquei bem o lugar com o machado e arrastei o morto até o riacho, que estava muito cheio. Atirei-o lá.
        Ao voltar para casa, procurei o disco. Não o encontrei. Faz anos que continuo à sua procura.

Odin
(Fonte: Wikipédia) 

Odin - deus Principal da Mitologia Nórdica

Seu papel, como o de muitos deuses nórdicos, é complexo; é o deus da sabedoria, da guerra e da morte.
A quarta-feira, dia que era/é dedicado ao deus, tomou as denominações, no inglês, wednesday (antigo saxão, wôdanes dag, anglo-saxão, vôdnes dag), no holandês, woensdag (médio-neerlandês, woensdach), no sueco e dinamarquês, onsdag (Old Norse, odinsdagr), e no dialeto da Vestefália, godenstag ou gunstag..
Como deus da guerra, era encarregado de enviar suas filhas, as valquírias, para recolher os corpos dos heróis mortos em combate,[5] os einherjar, que se sentam a seu lado no Valhalla de onde preside os banquetes. No fim dos tempos Odin conduzirá os deuses e os homens contra as forças do caos na batalha do fim do mundo, o Ragnarök. Nesta batalha o deus será morto e devorado pelo feroz lobo Fenrir, que será imediatamente morto por Vidar, que, com um pé sobre sua garganta, lhe arrancará a mandíbula.[6]

Odin - Marvel (Wikipédia)

Odin é um personagem fictício que aparece na Marvel Comics, ele possui 2 filhos: Loki (ilegítimo) e Thor (o preferido). Odin foi criado por Stan Lee.
Na Granideum (mitologia nórdica), Odin (Wotan) era o maior dos deuses vikings, governante de Asgard e senhor de todas as magias. Possuía a lança Gungnir, que nunca errava o alvo e cujo cabo havia runas que ditavam a preservação da lei. Possuía também um cavalo de oito patas chamado Sleipnir.
Odin também era o deus da sabedoria. Ele atirou um de seus olhos no poço de Mimir em troca de um gole de sabedoria. Ele se enforcou pendurando-se na árvore cósmica, Yggdrasil, para obter o conhecimento dos mortos e foi revivido por magia em seguida. Ele se mantinha informado sobre os acontecimentos em toda a parte através de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Munin (Memória), que vigiavam o mundo e contavam tudo o que se passa e o que já se passou no mundo.
Odin se tornou proeminente no panteão devido ao seu gosto pela batalha. Essa qualidade lhe conferiu popularidade entre os vikings quando eles começaram a atacar objetivos fora da Escandinávia. No salão de sua grande fortaleza, Valhala, ele reunia os abatidos em batalhas. Chamados de einherjars (mortos gloriosos), esses guerreiros eram preservados por Odin para ajudar os deuses na batalha final contra os gigantes no Ragnarok.
Tem diversas amantes e concubinas, mas a sua esposa é Frigga.
Odin não era exatamente um guerreiro, mas inspirava os guerreiros a se lançarem freneticamente na batalha, sem nenhum sentimento e nenhum temor. Os rituais de enforcamento faziam parte da veneração a Odin, sendo que o suicídio por enforcamento era considerado um atalho para o Valhala.
Odin é a figura central do panteão germânico, o rei dos deuses; os germânicos, povo dado a luta e guerras, viam nele o protótipo da bravura, da altivez e do valor; os escandinavos dos últimos séculos pagãos, os Vikings aventureiros, terror do ocidente cristão foram os derradeiros a combater invocando o nome de Óðinn (Odin). Ao lado do deus Loki, é a personagem de mais complexa personalidade dentro do panteão germânico, o que fez com que, embora seu nome fosse exaltado por muitos poetas, permanecesse obscuro para o camponês simples, mais identificados com Þórr (Thor) e Freyr devido a suas características de deuses agrários.
Odin era tido em alta consideração pelos jarls e outros membros da nobreza nórdica, embora as pessoas comuns o temessem e venerassem Thor.
Odin seria assassinado durante o Ragnarok por Fenrir, o lobo filho de Loki. A veneração a Odin diminuiu à medida que os vikings desistiram de atacar e optaram por ocupações mais pacíficas.

A estirpe dos anões
 
Dois Anões de uma edição do "Völuspá" (1895) por Lorenz Frølich.
 
A estirpe dos anões (dvergar) formou-se no subterrâneo, onde tomaram vida como vermes na carne morta do gigante Ymir, em seu sangue tornado água e seus ossos que se transformaram em pedra. Odin e seus irmãos Víli e Vé, reunidos num conselho, deram a estas criaturas um aspecto antropomorfo e a inteligência. Os anões foram então habitar a terra e a lama, além das pedras e entre as rochas. Temiam a luz do sol que podia transformar-lhes novamente na pedra da qual eram feitos. Sua moradia era o reino subterrâneo de Nidavellir, um dos nove mundos ligados à árvore do mundo, Yggdrasill. Geralmente eram considerados egoístas, ávidos e astutos. Eram hábeis ferreiros e ourives e os criadores da maior parte dos artefatos dos deuses, tanto os Æsir quanto os Vanir.
Entre suas criações mais famosas estão a lança Gungnir e o anel de ouro Draupnir de Odin, o martelo Mjöllnir de Thor, os cabelos de ouro de Sif, o colar Brísingamen de Freyja e a nave Skíðblaðnir de Freyr.
Os anões fabricam também certos tipos de elmos chamados huliðshjálmr (elmos invisíveis ou 'que escondem'), ou às vezes um manto, que podia tornar quem o usava invisível.
Podiam ser divindades menores, como os elfos (da luz), o que pode sugerir o motivo pelo quel adquiriram o nome de 'elfos negros' ou 'escuros'. Os anões Norðri, Suðri, Austri e Vestri sustentam os Quatro Pontos Cardeais. Nýi e Niði governam respectivamente a Lua Crescente e a Lua Minguante. 
 
John Rhys-Davies como o anão Gimli em "O Senhor dos Anéis"
 
Por fim, descobri que Thomas Mann escreveu um livro de Breves Relatos intitulado De La Estirpe de Odín. Só existe em Sebo.
 
Assim que puder, publico...
 Bjs,
Lagartixa

7 comentários:

  1. Tixa Cláudia!
    Você fez todo o meu dever de casa?!Foi além....
    Agradeço muito!
    Te devo mais essa, rs.
    beijocas e até breve
    Sil Azul

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  2. LINDO.
    Odin era protetor dos exercitos, dos mortos em batalha, da magia, dos magos e dos andarilhos.
    Outra coisa que achei foi que a palavra SECGENS é uma palavra derivada do ingles antigo. Secgan significa contar, dizer. Desse verbo deriva a palavra Saga. assim poderiamos dizer que " O Rei dos Secgens"poderia ser interpretado como " rei dos contadores de estórias".
    E tb o nome Iserns poderia significar " Much iron" = força.
    Já tinha lido esse conto, e acho que ele tem uma visão fatalista sobre a vida e a morte, e que a idéia de proteção divina é uma ilusão.
    Para mim o disco significa poder, controle, imortalidade, o que vemos que foi falso no final.
    A existencia do disco era uma questão de fé e magia.
    Fé.
    Acho que isso é muito do Borges que sempre falou de Deus ou deuses sem nunca ter acreditado nele, acho eu, tanto que ele disse:'Qdo eu morrer quero morrer por inteiro".

    Mil bjos lagartixas queridas.
    MJ

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  3. Tem uma frase do Guimarães no conto 'A Parida do Audaz Navegante' em que a pequena protagonista diz:...─“Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?” ─ Brejeirinha especulava".
    Podemos ter conhecimento sem ter vivido?
    Dissertar a respeito sem ter sentido?
    Acho que podemos fazer uma idéia.
    O que o lenhador conhece e entende da vida é sobre a busca.
    Busca destruir todas as arvores do bosque, assim como jurou ao irmão morto fazer.
    Depois de ter cobiçado o disco de um só lado, mono, único, poderoso, faz o que todo predador sabe fazer: mata para obter, comprar a barra de ouro que reluz e se coroar Rei.
    O brilho guardado na mão ossuda, se desfaz com a morte.
    Acho que não morremos por inteiro.
    O velho ficou guardado no lenhador e o Borges enraizado com sua ávida busca de conhecimento e contador de historias nos seres que tbm buscam.
    O Santo Graal, o Anel, a Espada Mágica.
    O homem busca o brilho, a luz, o poder e a vida eterna.
    deuses errantes e solitários perdidos no meio da natureza selvagem, com lobos, sombras e arvores decepadas.
    Pronto: abri a porta do fascínio pelo negro.
    Que tbm me ilumina.
    Bjs

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  4. Acabei de subir. Estava andando na esteira e assistindo A Lista De Schindler. Na realidade revendo. Não choro àtoa, mas torci p que ninguem entrasse na sala de ginástica. Não consegui segurar as lágrimas.
    Poder. O homem quer o poder, quer ser rei aqualquer custo.l O lenhador estava quieto até que oandarilho insinuou-lhe o poder, ser rei.O Disco por poderes mágicos podia conceder-lhe isso, mas amaldade triunfou, foi preciso matar o andarilho para obter o disco que lhe concederia de maneira torta todo o poder.
    Temos visto isso ao longo da história da humanidade.O homem é mau .
    No filme que assisti Oskar diz ao nazista: " Vc quer é poder, e poder é perdoar alguém qdo vc sabe que pode matá-lo".
    O andarilho que possuia o Disco de Odin tampouco o via, e o outro, ao matá-lo teve só um leve vislumbre, embora o tvesse tocado e sntido uma superfície fria.De alguma forma ele existia.
    Um, dicipulo de Odin, o outro , de Jesus. Embora não o vissem bem acreditavam nele, e por ele se matou.
    Não é realmente assim que as coisas funcionam?
    Acho que a conotação religiosa é grande. O lenhador ofereceu paõ e peixe para o andarilho.
    Jesus tb foi morto por se intitular rei de um reino desconhecido, e de certa forma tb era um andarilho Sei lá. Tem muito assunto isso.
    Bjos.
    MJ

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  5. Vejo a maldade cultivada gerando o solitário, o solo, pois se queres poder, queres sozinho tê-lo. O poder uma vez alcançado pode iludir com a crença de que se alcançará a admiração dos outros ou que terá fiéis seguidores. Esses outros, para mim, só querem é chegar no seu lugar e estão, em realidade, invejando teu poder ou germinando uma revolta contra ti, pois ninguém gosta de ser mandado por alguém pelo simples fato de esse alguém ter o poder. Entrar nesse ciclo é a via direta, a mais fácil, a mais sincera muitas vezes.

    Mas minha visão é outra...

    A maldade para mim não é princípio, mas sim reação. Reação à rejeição, reação à percepção de que não somos onipotentes e que não somos o centro do mundo. Para mim vem, como princípio, a necessidade de afeto e de atenção. Como não temos isso constantemente, nos rebelamos e entramos no ciclo dos injeitados feridos, sendo que, se cultivarmos a doação, é mais provável recebermos mais doação que maldade... e, se não quisermos ser solos, afinal, somos animais/humanos que necessitam viver em grupo ou em companhia, que não entremos no buraco negro, mas sim num labirinto apenas, que almeja sempre uma esperança de abertura.

    Beijo,

    Jú.

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  6. Não renego a sombra e nem sua importância em mesmo grau que a luz.

    A sombra nos protege, nos ensina, nos coloca no lugar, nos move e muito imensamente nos inspira, afinal "pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza". Nos inspira pois é motor de busca de sentido de tanta loucura, de tanta inconstância e imprevisibilidade... a arte, a literatura, o cinema, o sonho e tudo mais que for simbólico, é uma porta aberta em que possamos nos permitir ser o que não somos em realidade diária. Minha mãe mandou para mim hoje:

    "O sonho permite que cada um de nós possa ficar louco, de uma maneira segura e tranquila, a cada noite de nossas vidas" - William C. Dement, professor de psiquiatria, nascido em 1928

    E, como diz Quintana:
    "Fosse o mundo um paraíso
    Paraíso de verdade
    Morreria sem saber
    o que é felicidade"

    A inércia da alegria constante não move e entedia. O motor é a busca pela felicidade, pelo sentido, pelo além do que está agora.

    (...)

    Bj,

    Jú.

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  7. Jú, para mim a maldade está no dna do homem, esperando por um estímulo para despertá-la.
    Em algum lugar li que Borges acha que somos uma cópia malfeita de Deus.
    Bjo.
    MJ

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