quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Gustav Klimt e as Mulheres

Judith

     A atmosfera da Viena do início do século XX devia estar impregnada de algum pó mágico, soprado pelas supremas divindades feminas, Atena, Afrodite… afinal, grandes austríacos pareciam estar decididos a redimir a mulher de sua condição de escrava submissa ou enfeite vivo que lhes cabia em séculos anteriores.
    O primeiro e mais contundente destes austríacos foi Sigmund Freud, que criou a psicanálise com o auxílio de sua curiosidade angustiante sobre o mundo feminino. Embora Freud não viesse a mergulhar a fundo no mar do qual abriu as portas para outros, deve-se a ele uma visão da mulher como um ser de uma riqueza  e um mistério superior – Freud chegou a afirmar que o homem é um ser rude demais para dar às mulheres os prazeres e aspirações pelas quais anseiam - exceto talvez o prazer da maternidade.
    Freud tateava o mundo ainda pouco explorado da psiquê humana,  e escrevia com a hesitação dos pioneiros e a imaginação dos que não enxergam muito bem seu objetivo - por isso sua obra vem sendo constantemente revisitada e aperfeiçoada ao longo dos anos. Mas o mesmo não se pode dizer de seu contemporâneo e conterrâneo Gustav Klimt – a visão artística que Klimt deixou das mulheres resiste ao tempo, resistiu à queda da estética que ele empregava- e, principalmente, não encontrou quem possa aperfeiçoá-la.

Adele Bloch-Bauer

    Klimt amava as mulheres. Não apenas com amor puramente formal dos artistas do Renascimento, ele as admirava, as revenciava e as colhia como jóias preciosas. Sua biografia registra um sem-número de aventuras amorosas, algumas ligações estáveis, e até algumas provavelmente platônicas – embora procurasse sempre manter-se discreto e proteger suas mulheres do escândalo e da opinião pública. Klimt nunca casou-se formalmente, mas teve vários filhos (ao menos três, outras fontes chegam a atribuir-lhe a paternidade de mais de dez descendentes). Klimt via a mulher como um ser superior, dominante, nitidamente acima dos homens. As mulheres de Klimt são quase sempre poderosas (não à toa, pintou Judite segurando a cabeça decepada do Rei Holofernes, rosto altivo exalando poder), e mesmo quando as retrata aparentemente submissas aos homens (O Beijo, por exemplo), esta submissão parece uma concessão – como se as mulheres cedessem com nobreza à fraqueza masculina em resistir a seus encantos.


O Beijo

   As mulheres de Klimt são sempre sensuais, de forma explícita (Danae) ou velada (O retrato de Adele Bloch Bauer). Ocasionalmente o pintor provocava algum grau de escândalo pela representação de nus ou atitudes eróticas, não tanto pela sua natureza gráfica, mas pela nítida segurança e grandeza de suas mulheres.

Danae

   Os nus de Klimt não eram aqueles nus de mulheres recatadas, envergonhadas ou relutantes – que davam a impressão de mulheres surpreendidas ou constrangidas a despir-se. As mulheres de Klimt são exuberantemente nuas, têm orgulho do fato de serem mulheres, e fazem questão de iluminar o mundo com esta transcendência feminina.
    Klimt, filho de um ourives, utilizava ouro em suas obras – as belíssimas composições entre o metal dourado, as formas geométricas e as cores exuberantes são sempre o segundo plano de uma figura feminina realista – como se as mulheres merecessem o traço fiel de uma beleza que não necessitava de nenhuma outra subjetividade, e todo o restante precisasse ser representado de outra forma para adequar-se à sua beleza.


Medicina (um desenho feito do painel original, destruído na década de 40)

    Em 1894 Klimt foi encarregado de pintar três painéis para a Universidade de Viena: Filosofia, Medicina e Justiça. Ao contrário da expectativa geral (e para críticas em turbilhão), Klimt entregou painéis com  mulheres onipotentes e sensuais, que dominavam a cena e diminuíam a “força” dos temas e das ciências que deveriam ter sido objeto principal da obra. Não à toa, os painéis foram destruídos pelos nazistas durante a Segunda Guerra.
   Não sei dizer se Klimt é o artista visual que mais me atrai, depende do momento e do ângulo, mas talvez seja o único que jamais deixou de me fascinar e de causar uma impressão de concordância absoluta. Há outros grandes expressores da beleza feminina – mas nenhum me parece ter alcançado o grau de expressão tão completo, corpo e alma, deste essencial feminino.  Nunca vi alguém que traduzisse esse conceito de uma forma tão simples e contundente em outras formas de arte.
    E, talvez o mais importante, Klimt parece ter sido um artista que conciliou o grande objeto de sua arte com sua própria vida – amou as mulheres tanto com seus pincéis quanto com seus próprios braços, com uma provável saciedade reverente… e não esqueceu de pagar a elas um tributo que resistirá à passagem de muitas gerações de homens que lhe tiram o chapéu, como eu.

2 comentários:

  1. Falando em brilho, no que reluz, Klimt adornava suas mulheres com "ouro".

    Tocante esta página do Rockenbach.

    No último quadro, a um segundo da sombra, o nu feminino repousa e segura a Terra e dá vida às cores, flores e amores.

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  2. Não sei o que escrever...

    Só sei que, como menina-mulher, me vejo nos quadros dele... me sinto representada. Na força e na fragilidade, na profusão de cores e possibilidades, no círculo, no ciclo que nuncatem ponto de chegada...

    Como queria estar na exposição dele que está tendo, de 100 anos de Klimt... tomara que venha para cá!

    Beijos!

    Jú.

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