sexta-feira, 9 de agosto de 2013

MIA

'Duas mulheres taitianas' - Paul Gauguin

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"
        


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Leda Hamparian

Feira de Sonhos...

Foi assim:

Ela chegou
pertinho,
devagarinho, 
com um "Pote Vazio" 
nas mãos
e
sussurrou para mim
que
organizava 
uma
feira 
de 
sonhos...

Bastava 
um
espaço qualquer
para amontoar
livros
e
o sonho
acontecia.

Com vocês,
Leda
Labriola
Hamparian

A Livreira.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Caminho Colorido

Na calçada caminho,  quase na rua. Na minha quase casa, ao lado da porta amarela.
Na minha quase casa, ao lado das janelas amarelas.
Sigo na linha do varal, na frente da minha casa azul.
As vezes sonho que o vento e o varal me puxaram para o céu azul, cor da minha quase casa.
Sigo na linha imaginária  colorida das nossas roupas no varal, se vou para direita ou esquerda não sei, só sei que quando pulo, posso agarrar meu vestido  florido e sair dançando em frente minha casa de nuvens , nuvens  que me levam pra longe, nas flores  que agora visto, coloridas  e felizes. Quando desperto, acabo  eu de novo na calçada do meu caminho.


Adri F.