domingo, 4 de novembro de 2012

EM NOME DO PAI - O DESAFIO


James Dean e a vida por um fio...

Mário Vargas Llosa escreveu "O Desafio" (titulado inicialmente como "Arreglo de cuentas") em 1957. Tinha 20 anos e seu maior sonho era ir até Paris conhecer seu escritor predileto Jean Paul Sartre. Houve um concurso de contos de uma revista francesa cujo prêmio seria uma viagem de quinze dias a Paris. Llosa saiu vencedor. Não conheceu Sartre, mas esteve com Albert Camus.

Novamente meninos,  masculinidade, ritos de passagens que podem podar a vida de forma prematura.
Qual bandeira que esta tribo tinha nas mãos? 

Honrar a palavra através do gesto masculino, delimitar espaço, o poder através da luta, da luz da navalha que resplandece na noite sem lua, sem luz. Olhares submersos na neblina, no escuro, na hora em que o dia se confunde com a noite, a um passo da madrugada.

O rapazola que deixa mulher e filho na espera para resolver um problema de macho ( reparem que a mulher o alerta da proximidade do dia através do trabalho). 

A morte foi anunciada, o gole de cerveja partilhado na mesa do bar, a estrutura familiar sendo posta de lado em nome do pacto, do desafio. 

O Manco que no calor da luta clama o pai para intervir, mas este se mantém duro, apesar de pressentir a morte do filho, não intervem, manda o manco calar e lutar. 

A dança do acasalamento se faz na luta. 
O narrador evoca dois amantes em meio à escuridão. 
O gozo se dá através de um grunhido gutural: o arroto ( existe pio mais másculo do que isto?).
A testosterona a flor da pele, a vida que segue implacável, a coragem de se expor à morte sem ter muita noção da sua presença, pois o que vale é o desafio.

No final, o herói que sai com a bandeira do filho morto no colo é o Pai - que assistiu a vida do filho se esvair sem se pronunciar como tal.
Pelo que se nota através da narrativa, Justo foi criado pelo pai para pelear.

De novo vemos a juventude mutilada,  numa época em que meninos são talhados para matar ou morrer em nome do Pai (inclua-se nesta palavra o social, o político e a estrutura familiar).

Aliás, de uma outra forma, temos Pete Postlethwaite e Daniel Day-Lewis numa dança de amor entre pai e filho no excelente filme " Em Nome do Pai" do irlandês Jim Sheridan. Só que neste filme (baseado em uma história real), o filho rebelde se perde do seu papel e o pai vai resgatá-lo com amor e coragem num ambiente que expõe a violência extrema da justiça inglesa contra inocentes em busca de saciar a ira da população.

Daniel Day-Lewis Em Nome do Pai

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SOB O SIGNO DE JOANA


Noite de Llosa com "Os Filhotes" - Foto: Xavier Miserachs


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Caras confrades,


Sob um vento acalorado que insistia em participar de mais uma sessão gastronômica-literária, Cláudia, Carla, Thais e eu nos debruçamos sobre Os filhotes, o conto do peruano Llosa.

A partir da percepção e da constatação de tantas ausências numa noite de bruxas, imaginemos que Sandy e Halloween foram motivos que desviaram tantas tixas das paredes de Moema.
E sem a nossa querida relatora-mor, Silvia, instalou-se então uma substituição de improviso. E aí vou eu para o relato.

A abertura dos trabalhos veio com um ceviche de salmão, salada, sopinha fria e os beliscos costumeiros com os goles de um branco trincando. A assinatura da anfitriã e a assessoria afiada de Boaz nos acompanharam uma vez mais.


O universo do conto

Filhotes é uma tradução de Cachorros. Em espanhol cachorro significa filhote de qualquer bicho.

O conto, longo, traz o tema tabu em ritmo de um rap narrativo. Já que o autor mistura primeira e terceira pessoas, deixando um terceiro narrador à espreita. Isso deu ritmo à discussão. Engatamos nessa oralidade de Llosa ao misturar fala e escrita numa história de aparência simplificada e quase rotineira em se tratando do nascimento, vida e morte de uma turma de meninos, de classe média latino-americana que gostavam de futebol meninas, música, aventuras fortuitas, carros e diversão, sem nenhuma implicação com os destinos políticos da cidade (lima, do país, Peru  ou do continente, América Latina).

Tal ritmo da narrativa se confirma uma vez mais. Ou seja, o autor seduz o leitor e nos faz dançar em seu ritmo.

Tema tabu, a castração do filhote Cuéllar, o Piroquinha (apelido pra lá de sintomático), é o centro do conto. Acontece a tragédia nem a escola, regida pelos padres, nem a família, tão pouco a turrrrma vai fundo no assunto. Nem mesmo a vítima, o garoto que segue a vida sem o falo. Pois ele foi castrado por uma fera, curiosamente (?!) batizado de Judas. Nada em vão, já que a crítica à educação católica é clara.
Uma vez mutilado ele tenta seguir a vida, porém, nos pareceu uma morte anunciada, uma vez que, com algo diferente dos amigos da turma, ele passa a ser “tolerado”, em função do problema. Deixa de se dedicar tanto aos estudos, vai se excluindo de algumas festinhas e reuniões sociais, se esquiva das meninas e vê um desafio maior ao enfrentar o garoto interessado na Tê, a mocinha cheia de frufrus que chega na escola e na cidade, por quem ele se interessa.
É nas ondas (semelhança com o cenário de Domingo) que Cuéllar prova sua virilidade. Pegar uma onda de metros frente a uma galera, foi o que pôde fazer, já que não podia chegar na menina, como os outros.
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Sua trajetória de menino, adolescente e moço feito vai acompanhada por seus pais que lhe asseguram os bens (dinheiro) e uma vida de classe média burguesa bem boa: colégio particular, carros do ano, saídas para as baladas. Uma forma de compensar sua perda maior (o falo, o poder, a virilidade). Ele, por sua vez, tenta. Muda de comportamento, vai de bad boy a mocinho direito e educado, elogiando as mães e tias das festinhas da turma. Mas não se encaixa na vida. Vai cambaleando nos estudos e na sociedade. Faz que trabalha, mas sai para beber e ficar com a moçada barra pesada das perifas.

Assexuado. Homossexual. Dúvidas que não se aclaram no conto. Cada leitora pode repensar sobre o ponto. Afinal sem o bilau, como é que poderia pôr sua sexualidade em dia?

Metáfora pura da castração da vida, como assinala Cláudia.
Castrada está a vida do moço. Tanto que chega à morte.
Mas também há outra castração no conto, a da geração de Piroquinha , que na impossibilidade de transgredir fez/seguiu igualzinho aos nossos pais, como diz a Elis e como destacou a Cláudia.

Questões implicantes de Llosa:

Crítica ao sistema educacional católico.
Crítica ao poder do ter. O pai do Cuéllar pode, então manda “sumir” com o dinamarquês Judas assassino, então presenteia o filho com um carro do ano, então tenta uma solução de uma possível cirurgia para o filho no exterior (primeiro nos EUA, depois na Europa).

Poderoso mas ausente esse pai de Cuéllar. Nem no hospital, quando do acidente, nem em casa nem nas saídas ele acompanha o filho. No máximo está a mãe.

Ou seja, diante de uma temática machista o pai não se envolve, apenas é o provedor.

O “não se fala mais nisso e todos consentem” leva o Cuéllar a momentos de crise, como o ataque de choro, nos braços não de uma mulher mas do volante de sua máquina. Ele tem no carro, o mesmo furor que o namorado de Nina Daconte (Rastro do teu sangue na neve), ou seja, já que não tem mulher (por imposição de um acidente de percurso).

Esta agonia que o conto provoca de que ninguém faz nada mais além de um consentimento  velado e às vezes explícito (quando a turma quer ajudar e se esforça para que Cuéllar “arranje” uma namoradinha vai acabando com a gente e nos fazendo refletir mais e mais. Do micro para o macro. Do problema dele para vida e a sociedade.

Narrativa inovadora para a época, pois a leitura  nos leva bem pertinho destes narradores em ritmo de rap, o conto também nos mostra um cenário de época: o futebol e seus ídolos, o jornal A Crônica, os filmes, os hit musicais (o clássico Quizás incluindo entre os intérpretes o Nat King Cole (aí Adri), o rei do Mambo, Perez Prado (http://www.youtube.com/watch?v=2k6l2RQqqnU&feature=related 
e sua orquestra que ganhou o mundo, as festinhas, a Cuba Libre (drinque referência à revolução cubana, uma vez que mistura coca cola e rum (dois poderes antagônicos).

Aqui um diálogo com dois dos maiores intérpretes cubanos, Omara e Ibrahim, apenas um exemplo de tantas outras interpretações deste clássico.

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Castração – reprodução

Tema tabu, católico que o autor resolve com a substituição de Judas, o cão, por dois coelhinhos fofos. (animal que representa a fertilidade; a reprodução). Detalhe são brancos. Assim como é branco o vestido da mãe de Cuéllar, assim como é branco o chão do banheiro que minutos depois ao ataque de Judas, se transforma num rio vermelho, de sangue.

O frio. Quando Cuéllar sente medo, ele tem frio. Quando ele se embebeda, sente frio.
Quando ele sai do eixo, ele sente frio. Comportamento de um personagem de carne e osso, não acham?

Castrado este ser, igualmente com sua geração, não discute, nem trata, nem comenta nada em relação às questões políticas

Intervenção carliniana

Como foi combinado, Carla, entremeou nossa discussão com trechos de Freud sobre as questões narcisistas na categoria poltrona. Por que o olhar narcísico conversa com o personagem protagonista? Carla Bellintani pode esclarecer melhor ao vivo. Munida de seus apontamentos ela  e Thais, em plena sintonia, nos trouxeram vários pontos para futuras pensatas.

Intervenção claudiniana


Cláudia nos brindou com uma passagem de olhos comentada sobre a trajetória intelectual e pessoal de Llosa, que também está aqui no blog, em seguida, nos mostrou este vídeo:


Delicadeza dos traços versus dureza de tema. A castração de novo à tona. Diante de um cenário e contexto judaicos que o filme nos apresenta, uma beleza plástica nos cutuca para mais uma discussão sobre o castrar. Vale?

Terminamos com a sobremesa, sorvete de doce de leite, a cargo da Carla.
E fechamos para a próxima quarta a leitura de O Desafio do mesmo livro.
Por isso, confrades, seguindo a linha alfabética depois da Adri deveria ser Aline e depois a Ângela, na impossibilidade das duas veio a Carla. Então para o dia 7, quem irá para a poltrona e responderá pela sobremesa será uma das anteriores ou a Cláudia?

O arremate da noite veio com as palavras doces de Nequinha que nos enviou língua de gato e que tais para adoçar os pensamentos e as palavras. Conhecedora do mundo das letras, a língua de gato em noite que o tema era castração não poderia ter sido melhor.
 

O bilhetinho carinhoso teve leitura de Carla, a enfant engajada nas questões da psiquê no nosso dia a dia.

Vamos seguir, seguir, seguir.

Bj
Joana
 


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Carlos Drummond de Andrade



Conversa de Botas Batidas

Esta versão fez parte da coletânea "Re-Tratos" que, com licença poética,
gravaram versões de músicas da banda Los Hermanos.

Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ah, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre a cortina pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair
(o poema entre aspas chama-se "Memória" e é declamado por Carlos Drummond de Andrade, seu autor)