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| De repente, num tropeço, a Fera... (Imagem de Diego Fernández) |
A bela e a fera (Clarice Lispector)
Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace
Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da
tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a "seu" José para vir
buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das
mãos, só a massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo
uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco.
Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar
sem nenhum dinheiro. Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir
dinheiro. Mas - mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor
aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado
ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se
lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo mesma.
Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses outros ela se
refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era – era puro, pensou sem
se entender. Quando se viu no espelho – a pele trigueira pelos banhos de
sol faziam ressaltar as flores douradas perto do rosto nos cabelos
negros – conteve-se para não exclamar um “ah!” – pois ela era cinqüenta
milhões de unidades de gente linda. Nunca houve – em todo o passado do
mundo – alguém que fosse como ela. E, depois, em três trilhões de
trilhões de ano – não haveria uma moça exatamente como ela.
“Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão!”
Este
momento era único – e ela teria durante a vida milhares de momentos
únicos. Até suou frio na testa, por tanto lhe ser dado e por ela
avidamente tomado.
“A beleza pode levar à espécie de loucura que é a paixão.” Pensou: “estou casada, tenho três filhos, estou segura.”
Ela
tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram
importantes o “de” e o “e”: marcavam classe e quatrocentos anos de
carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens que, sim, que
simplesmente “podiam”. Podiam o quê? Ora, simplesmente podiam. E ainda
por cima, viscosos pois que o “podia” deles era bem oleado nas máquinas
que corriam sem barulho de metal ferrugento. Ela, que era uma potência.
Uma geração de energia elétrica. Ela, que para descansar usava os
vinhedos do seu sítio. Possuía tradições podres mas de pé. E como não
havia nenhum novo critério para sustentar as vagas e grandes esperanças,
a pesada tradição ainda vigorava. Tradição de quê? De nada, se se
quisesse apurar. Tinha a seu favor apenas o fato de que os habitantes
tinham uma longa linhagem atrás de si, o que, apesar de linhagem
plebéia, bastava para lhes dar uma certa pose de dignidade.
Pensou
assim, toda enovelada: “Ela que, sendo mulher, o que lhe parecia
engraçado ser ou não ser, sabia que se fosse homem, naturalmente seria
banqueiro, coisa normal que acontece entre os “dela”, isto é, de sua
classe social, à qual o marido, porém, alcançara com muito trabalho e
que o classificava de “self made man” enquanto ela não era uma “self
made woman”. No fim do longo pensamento, pareceu-lhe que – que não
pensara em nada.
Um homem sem uma perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse:
- Moça, me dá um dinheiro para eu comer?
“Socorro!!!” gritou-se para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “Socorre-me, Deus”, disse baixinho.
Estava
exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado
com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel que ficava o
cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na
Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo
menos de espécie diferente da dela. “Da dela?” “Que espécie de ela era
para ser ‘da dela’?” Ela – os outros. Mas, mas a morte não nos separa,
pensou de repente e seu rosto tomou ar de uma máscara de beleza e não
beleza de gente: sua cara por um momento se endureceu.
Pensamento do
mendigo: “essa dona de cara pintada com estrelinhas douradas na testa,
ou não me dá ou me dá muito pouco”. O correu-lhe então, um pouco
cansado: “ou dá quase nada”.
Ela espantada: como praticamente não
andava na rua – era de carro de porta à porta – chegou a pensar: ele vai
me matar? Estava atarantada e perguntou:
- Quanto é que se costuma dar?
- O que a pessoa pode dar e quer dar - respondeu o mendigo espantadíssimo.
Ela,
que não pagava o salão de beleza, o gerente deste mandava cada mês sua
conta para a secretária do marido. “Marido”. Ela pensou: o marido o que
faria com o mendigo? Sabia que: nada. Eles não fazem nada. E ela – ela
era “eles” também. Tudo o que pode dar? Podia dar o banco do marido,
poderia lhe dar seu apartamento, sua casa de campo, suas jóias...
Mas alguma coisa que era uma avareza de todo o mundo, perguntou:
- Quinhentos cruzeiros basta? É só o que eu tenho.
O mendigo olhou-a espantado.
- Está rindo de mim, moça?
- Eu?? Não estou não, eu tenho mesmo os quinhentos na bolsa...
Abriu-a, tirou-lhe a nota e estendeu-a humildemente ao homem, quase lhe pedindo desculpas.
O homem perplexo.
E depois rindo, mostrando as gengivas quase vazias:
-
Olhe – disse ele -, ou a senhora é muito boa ou não está bem da
cabeça... Mas, aceito, não vá dizer depois que roubei, ninguém vai me
acreditar. Era melhor me dar trocado.
- Eu não tenho trocado, só tenho essa nota de quinhentos.
O homem pareceu assustar-se, disse qualquer coisa quase incompreensível por causa da má dicção de poucos dentes.
Enquanto isso a cabeça dele pensava: comida, comida, comida boa, dinheiro, dinheiro.
A
cabeça dela era cheia de festas, festas, festas. Festejando o quê?
Festejando a ferida alheia? Uma coisa os unia: ambos tinham uma vocação
por dinheiro. O mendigo gastava tudo o que tinha, enquanto o marido de
Carla, banqueiro, colecionava dinheiro. O ganha-pão era a Bolsa de
Valores, e inflação, e lucro. O ganha-pão do mendigo era a redonda
ferida aberta. E ainda por cima, devia ter medo de ficar curado,
adivinhou ela, porque, se ficasse bom, não teria o que comer, isso Carla
sabia: “quem não tem bom emprego depois de certa idade...” Se fosse
moço, poderia ser pintor de paredes. Como não era, investia na ferida
grande em carne viva e purulenta. Não, a vida não era bonita.
Ela se
encostou na parede e resolveu deliberadamente pensar. Era diferente
porque não tinha o hábito e ela não sabia que pensamento era visão e
compreensão e que ninguém podia se intimar assim: pense!
Bem. Mas
acontece que resolver era um obstáculo. Pôs-se então a olhar para dentro
de si e realmente começaram a acontecer. Só que tinha os pensamentos
mais tolos. Assim: esse mendigo sabe inglês? Esse mendigo já comeu
caviar, bebendo champanhe? Eram pensamentos tolos porque claramente
sabia que o mendigo não sabia inglês, nem experimentara caviar e
champanhe. Mas não pôde se impedir de ver nascer em si mais um
pensamento absurdo: ele já fez esportes de inverno na Suíça?
Desesperou-se então. Desesperou-se tanto que lhe veio o pensamento feito de duas palavras apenas “Justiça Social”.
Que morram todos os ricos! Seria a solução, pensou alegre. Mas – quem daria dinheiro aos pobres?
De
repente – de repente tudo parou. Os ônibus pararam, os carros pararam,
os relógios pararam, as pessoas na rua imobilizaram-se – só seu coração
batia, e para quê?
Viu que não sabia gerir o mundo. Era uma incapaz,
com cabelos negros e unhas compridas e vermelhas. Ela era isso: como
uma fotografia colorida fora de foco. Fazia todos os dias a lista do que
precisava ou queria fazer no dia seguinte – era desse modo que se
ligara ao tempo vazio. Simplesmente ela não tinha o que fazer. Faziam
tudo por ela. Até mesmo os dois filhos – pois bem, fora o marido que
determinara que teriam dois...
“Tem-se que fazer força para vencer
na vida”, dissera-lhe o avô morto. Seria ela, por acaso, “vencedora”? Se
vencer fosse estar em plena tarde clara na rua, a cara lambuzada de
maquilagem e lantejoulas douradas... Isso era vencer? Que paciência
tinha que ter consigo mesma. Que paciência tinha que ter para salvar a
sua própria vida. Salvar de quê? Do julgamento? Mas quem julgava? Sentiu
a boca inteiramente seca e a garganta em fogo – exatamente como quando
tinha que se submeter a exames escolares. E não havia água! Sabe o que é
isso – não haver água?
Quis pensar em outra coisa e esquecer o
difícil momento presente. Então lembrou-se de frases de um livro póstumo
de Eça de Queirós que havia estudado no ginásio: “O lago de Tiberíade
resplandeceu transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu,
todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro,
e alvos terrenos por entre os palmares, sob o vôo das rolas.”
Sabia
de cor porque, quando adolescente, era muito sensível a palavras e
porque desejava para si mesma o destino de resplendor do lago de
Tiberíade.
Teve uma vontade inesperadamente assassina: a de matar
todos os mendigos do mundo! Somente para que ela, depois da matança,
pudesse usufruir em paz seu extraordinário bem-estar.
Não. O mundo não sussurrava.
O mundo gri-ta-va!!! Pela boca desdentada desse homem.
A jovem senhora do banqueiro pensou que não ia suportar a falta de maciez que se lhe jogavam no rosto tão maquilado.
E
A festa? Como diria na festa, quando dançasse, como diria ao parceiro
que a teria entre os braços... O seguinte: olhe, o mendigo também tem
sexo, disse que tinha onze filhos. Ele não vai a reuniões sociais, ele
não sai nas colunas do Ibrahim, ou do Zózimo, ele tem fome de pão e não
de bolos, ele na verdade só quer comer mingau pois não tem dentes para
mastigar carne... “Carne?” Lembrou-se vagamente que a cozinheira dissera
que o “filet mignon” subira de preço. Sim. Como poderia ela dançar? Só
se fosse uma dança doida e macabra de mendigos.
Não, ela não era
mulher de ter chiliques e fricotes e ir desmaiar ou se sentir mal. Como
algumas de suas “coleguinhas” de sociedade. Sorriu um pouco ao pensar em
termos de “coleguinhas”. Colegas em quê? Em se vestir bem? Em dar
jantares para trinta, quarenta pessoas?
Ela mesma aproveitando o
jardim no verão que se extinguia dera uma recepção para quantos
convidados? Não, não queria pensar nisso, lembrou-se (por que sem o
mesmo prazer?) das mesas espalhadas sobre a relva, a luz de vela... “luz
de vela”? pensou, mas eu estou doida? Eu caí num esquema? Num esquema
de gente rica?
“Antes de casar era de classe média, secretária do
banqueiro com quem se casara agora e agora – agora luz de velas. Estou é
brincando de viver, pensou, a vida não é isso.”
“A beleza pode ser
de uma grande ameaça.” A extrema graça se confundiu com uma perplexidade
e uma funda melancolia. “A beleza assusta”. “Se eu não fosse tão bonita
teria tido outro destino”, pensou ajeitando as flores douradas sobre os
negríssimos cabelos.
Ela uma vez vira uma amiga inteiramente de
coração torcido e doído e doido de forte paixão. Então não quisera nunca
experimentar. Sempre tivera medo das coisas belas demais ou horríveis
demais: é que não sabia em si como responder-lhes e se responderia se
fosse igualmente bela ou igualmente horrível.
Estava assustada
quando vira o sorriso de Mona Lisa, ali, à sua mão no Louvre. Como se
assustara com o homem da ferida ou com a ferida do homem.
Teve vontade de gritar para o mundo: “Eu não sou ruim! Sou um produto nem sei de quê, como saber dessa miséria de alma”.
Para
mudar de sentimento – pois que ela não os agüentava e já tinha vontade
de, por desespero, dar um pontapé violento na ferida do mendigo -, para
mudar de sentimentos pensou: este é o meu segundo casamento, isto é, o
marido anterior estava vivo.
Agora entendia por que se casara da
primeira vez e estava em leilão: quem dá mais? Quem dá mais? Então está
vendida. Sim, casara-se pela primeira vez com o homem que “dava mais”,
ela o aceitara porque ele era rico e era um pouco acima dela em nível
social. Vendera-se. E o segundo marido? Seu casamento estava findando,
ele com duas amantes... e ela tudo suportando porque um rompimento seria
escandaloso: seu nome era por demais citado nas colunas sociais. E
voltaria ela a seu nome de solteira? Até habituar-se ao seu nome de
solteira, ia demorar muito. Aliás, pensou rindo de si mesma, aliás, ela
aceitava este segundo porque ele lhe dava grande prestígio. Vendera-se
às colunas sociais? Sim. Descobria isso agora. Se houvesse para ela um
terceiro casamento – pois era bonita e rica -, se houvesse, com quem se
casaria? Começou a rir um pouco histericamente porque pensara: o
terceiro marido era o mendigo.
De repente perguntou ao mendigo:
- O senhor fala inglês?
O
homem nem sequer sabia o que ela lhe perguntara. Mas, obrigado a
responder pois a mulher já o comprara-o com tanto dinheiro, saiu pela
evasiva.
- Falo sim. Pois não estou falando agora mesmo com a senhora? Por quê? A senhora é surda? Então vou gritar: FALO.
Espantada
pelos enormes gritos do homem, começou a suar frio. Tomava plena
consciência de que até agora fingira que não havia os que passam fome,
não falam nenhuma língua e que havia multidões anônimas mendigando para
sobreviver. Ela soubera sim, mas desviara a cabeça e tampara os olhos.
Todos, mas todos – sabem e fingem que não sabem. E mesmo que não
fingissem iam ter um mal-estar. Como não teriam? Não, nem isso teriam.
Ela era... Afinal de contas quem era ela?
Sem
comentários, sobretudo porque a pergunta não durou um átimo de segundo:
pergunta e resposta não tinham sido pensamentos de cabeça, eram de
corpo.
Eu sou o Diabo, pensou lembrando-se do que aprendera na
infância. E o mendigo é Jesus. Mas – o que ele quer não é dinheiro, é
amor, esse homem se perdeu na humanidade como eu também me perdi.
Quis
forçar-se a entender o mundo e só conseguiu lembrar-se de fragmentos de
frases ditas pelos amigos do marido: “essas usinas não serão
suficientes”. Que usinas, santo Deus? As do Ministro Galhardo? Teria ele
usinas? A “energia elétrica... hidrelétrica”?
E a magia essencial de viver – onde estava agora? Em que canto do mundo? No homem sentado na esquina?
A mola do mundo é dinheiro? Fez-se ela a pergunta. Mas quis fingir que não era. Sentiu-se tão, tão rica que teve um mal-estar.
Pensamento
do mendigo: “Essa mulher é doida ou roubou o dinheiro porque milionária
ela não pode ser”, milionária era para ele apenas uma palavra e mesmo
se nessa mulher ele quisesse encarnar uma milionária não poderia porque:
onde se viu milionária ficar parada de pé na rua, gente? Então pensou:
ela é daquelas vagabundas que cobram caro de cada freguês e com certeza
está cumprindo alguma promessa?
Depois.
Depois.
Silêncio.
Mas de repente aquele pensamento gritado:
-
Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi
esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo
pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre, aceitável, e minha roupa
de alma está maltrapilha...
“Há coisas que nos igualam”, pensou
procurando desesperadamente outro ponto de igualdade. Veio de repente a
resposta: eram iguais porque haviam nascido e ambos morreriam. Eram,
pois, irmãos.
Teve vontade de dizer: olhe, homem, eu também sou uma
pobre coitada, a única diferença é que sou rica. Eu... pensou com
ferocidade, eu estou perto de desmoralizar o dinheiro ameaçando o
crédito do meu marido na praça. Estou prestes a, de um momento para o
outro, me sentar no fio da calçada. Nascer foi a minha pior desgraça.
Tendo já pagado esse maldito acontecimento, sinto-me com direito a tudo.
Tinha medo. Mas de repente deu o grande pulo de sua vida:
corajosamente sentou-se no chão. “Vai ver que ela é comunista!” pensou
meio a meio o mendigo. “E como comunista teria direito às suas jóias,
seus apartamentos, sua riqueza e até os seus perfumes.”
Nunca mais
seria a mesma pessoa. Não que jamais tivesse visto um mendigo. Mas –
mesmo este era em hora errada, como levada de um empurrão e derramar por
isso vinho tinto em branco vestido de renda. De repente sabia: esse
mendigo era feito da mesma matéria que ela. Simplesmente isso. O
“porquê” é que era diferente. No plano físico eles eram iguais. Quanto a
ela, tinha uma cultura mediana, e ele não parecia saber de nada, nem
quem era o Presidente do Brasil. Ela, porém, tinha uma capacidade aguda
de compreender. Será que estivera até agora com a Inteligência embutida?
Mas se ela já há pouco, que estivera em contato com uma ferida que
pedia dinheiro para comer – passou a só pensar em dinheiro? Dinheiro
esse que sempre fora óbvio para ela. E a ferida, ela nunca a vira tão de
perto...
- A senhora está se sentindo mal?
- Não estou mal... mas não estou bem, não sei...
Pensou: o corpo é uma coisa que estando doente a gente carrega. O mendigo se carrega a si mesmo.
- Hoje no baile a senhora se recupera e tudo volta ao normal – disse José.
Realmente no baile ela reverdeceria seus elementos de atração e tudo voltaria ao normal.
Sentou-se
no banco do carro refrigerado lançando antes de partir o último olhar
àquele companheiro de hora e meia. Parecia-lhe difícil despedir-se dele,
ele era agora o “eu” alter-ego, ele fazia parte para sempre de sua
vida. Adeus. Estava sonhadora, distraída, de lábios entreabertos com se
houvesse à beira deles uma palavra. Por um motivo que ela não saberia
explicar – ele era verdadeiramente ela mesma. E assim, quando o
motorista ligou o rádio, ouviu que o bacalhau produzia nove mil óvulos
por ano. Não soube deduzir nada com essa frase, ela que estava
precisando de um destino. Lembrou-se de que em adolescente procurara um
destino e escolhera cantar. Como parte de sua educação, facilmente lhe
arranjaram um bom professor. Mas cantava mal, ela mesma sabia e seu pai,
amante das óperas, fingira não notar que ela cantava mal. Mas houve um
momento em que ela começou a chorar. O professor perplexo perguntara-lhe
o que tinha.
- É que eu tenho medo de, de, de, de, cantar bem...
Mas você canta muito mal, dissera-lhe o professor.
-
Também tenho medo, tenho medo também de cantar muito, muito mais mal
ainda. Maaaaal mal demais! Chorava ela e nunca teve mais nenhuma aula de
canto. Essa história de procurar a arte para entender só lhe acontecera
uma vez – depois mergulhara num esquecimento que só agora, aos trinta e
cinco anos de idade, através da ferida, precisava ou cantar muito mal
ou cantar muito bem – estava desnorteada. Há quanto tempo não ouvia a
chamada música clássica porque esta poderia tirá-la do sono automático
em que vivia. Eu – estou brincando de viver. No mês que vem ia a New
York e descobriu que essa ida era como uma nova mentira, como uma
perplexidade. Ter uma ferida na perna – é uma realidade. E tudo na sua
vida, desde quando havia nascido, tudo na sua vida fora macio como pulo
do gato.
(No carro andando)
De repente pensou: nem lembrei de perguntar o nome dele.
1977
In: Lispector, Clarice. A Bela e a Fera, Nova Fronteira, 1979, 131-146.