sexta-feira, 13 de abril de 2012

O PRÍNCIPE FELIZ - Oscar Wilde





(Por Carla Belintani)
Bem acima do nível da cidade, ao alto de uma elevada coluna, erguia-se a estátua
do Príncipe Feliz. Coberta por uma camada de finas folhas de puro ouro, tinha no lugar de
olhos duas safiras brilhantes e na empunhadura de sua espada, um resplandecente rubi
vermelho. De fato, era muito admirada.
˗ É tão bonita quanto um cata-vento ˗ destacou um dos Conselheiros da Cidade,
procurando dar ao seu discurso um ar de quem conhecia das artes. ˗ Apesar de não ser lá
de toda utilidade ˗ acrescentou prudentemente, a fim de não fazer-se passar por homem
pouco prático, o que sem dúvida ele não era.
˗ Por que você não pode ser como o Príncipe Feliz? ˗ perguntou uma mãe sensata
ao seu pequeno garoto, que chorava por coisas que sua mãe não lhe podia dar
. ˗ Nunca
ocorreu ao Príncipe Feliz chorar por coisa alguma.
˗ Alegro-me de saber que há no mundo alguém que seja realmente feliz ˗
resmungou um homem desiludido ao contemplar a admirável obra.
˗ Parece realmente um anjo ˗ afirmaram as Crianças do Orfanato ao saírem da
catedral com seus aventais brancos e mantos de vivo escarlate
.
˗ Como vocês sabem? ˗ perguntou-lhes o Professor de Matemática. ˗ Vocês nunca
viram um anjo.
˗ Ah, mas em nossos sonhos sim! ˗ responderam as crianças, ao que o Professor
de Matemática reprochou franzindo o cenho e lançando-lhes um olhar severo, pois não
permitia que as crianças sonhassem.
Uma noite, voava pela cidade um pequeno Andorinho. Seus amigos haviam
migrado para o Egito seis semanas antes, mas ele preferira ficar, pois havia se
apaixonado pela mais bela Haste de Junco
. Havia-a visto pela primeira vez na primavera, enquanto voava para capturar uma grande mariposa amarela ao rio. Sentiu-se tão atraído pela singela cintura daquela linda Haste, que parou para conversar com ela.
˗ Posso amar você? ˗ perguntou-lhe o Andorinho, que gostava de ir direto ao
assunto, ao que ela respondeu afirmativamente, com uma reverência. Ele então passou a
voar e voar ao redor de sua amada, tocando as águas do rio e criando ondas de prata.
Assim começou seu namoro com ela, que durou todo o verão
˗ Que relação ridícula! ˗ contestavam seus amigos. ˗ Além de não ter dinheiro, ela
tem parentes demais. ˗ O rio, de fato, estava repleto de juncos.
Sentiu-se só após a partida de seus amigos, com a chegada do outono. Sua
amada já não lhe atraía mais e sentia-se enfadado com a situação.
˗ Ela não é de muita conversa e receio que seja coquete, pois está sempre
flertando com o vento. ˗ Sempre que ventava, a Haste fazia as mais graciosas
reverências.
˗ Reconheço que ela seja caseira ˗ continuou ˗ mas eu adoro viajar e minha mulher
deveria também gostar de conhecer outros lugares
˗ Você fugiria comigo? ˗ desabafou finalmente com ela, mas sua amada recusou,
meneando com a cabeça: era muito arraigada ao lar.
˗ Você não tem se importado comigo ˗ disse-lhe enfurecido. ˗ As pirâmides me
esperam, adeus! ˗ Bateu asas e se foi.
Voou durante todo o dia até que, enfim, chegou à cidade ao anoitecer.
˗ Onde eu poderia passar a noite? ˗ pensou. ˗ Espero que a cidade tenha feito os
preparativos para me receber.
Foi então que ele viu uma estátua sobre uma elevada coluna.
8˗ Já sei, vou passar a noite ali; é um lugar arejado, com bastante ar fresco. ˗
Pousou então entre os pés do Príncipe Feliz.
˗ Tenho um berço de ouro ˗ disse para si enquanto olhava em redor, preparandose para dormir. Mas, no exato momento em que colocava sua cabeçinha sob a asa, uma
grande gota de água caiu sobre ele.
˗ Que estranho! ˗ exclamou. ˗ Não há sequer uma nuvem no céu; as estrelas estão
claras e brilhantes, mas mesmo assim está chovendo. O clima na Europa do Norte é
realmente estranho. A Haste de junco costumava gostar de chuva, mas isto não passava
de um egoísmo seu.
Outra gota então caiu sobre ele.
˗ Que utilidade tem uma estátua se nem evitar a chuva ela pode? ˗ afirmou. ˗
Preciso encontrar um bom abrigo em alguma chaminé. ˗ E assim decidiu voar para outro
lugar.
No entanto, antes mesmo de poder abrir as asas, uma terceira gota lhe acertou.
Ele então olhou para cima e... Ah! Era realmente verdade o que estava vendo?
Os olhos do Príncipe Feliz estavam repletos de lágrimas, que escorriam sobre sua
face dourada. Seu rosto ao luar era tão belo que o Andorinho encheu-se de pena.
˗ Quem é você? ˗ perguntou.
˗ Sou o Príncipe Feliz.
˗ Por que chora então? Você me deixou todo ensopado!
˗ Quando era vivo e tinha um coração humano ˗ respondeu a estátua – não
conhecia as lágrimas, porque vivia no Palácio de Sans-Souci, onde a tristeza não podia
entrar. Durante o dia, brincava com meus amigos no jardim e, à noite, conduzia a dança
no Grande Salão. Ao redor do jardim estendia-se um enorme muro, mas nunca me havia
interessado em saber o que havia além dele. Tudo a meu respeito era absolutamente
belo. Meus cortesões me chamavam de Príncipe Feliz, e feliz de fato eu era, se se pode
chamar o prazer de felicidade. Assim vivi, assim morri. E agora que me puseram aqui
neste local tão alto, posso ver o quão horrível e miserável é minha cidade; e embora meu
coração esteja feito de bronze, nada posso fazer senão chorar.
˗ O que?! Não é ele feito de ouro sólido? ˗ perguntou-se o Andorinho, que era
educado demais para fazer observações pessoais em voz alta.
˗ Em um lugar distante ˗ continuou a estátua em um tom musical ˗ em uma rua
estreita há uma casa humilde. Uma das janelas está aberta, através da qual vejo uma
mulher sentada em uma cadeira. Seu rosto é delgado e cansado. Suas mãos são ásperas
e avermelhadas, completamente feridas pela agulha, por ser ela uma costureira. Está
bordando flores de maracujá em um vestido de cetim para que a mais adorável dama de
honra da Rainha a vista em um baile na corte. Na cama, em um canto do quarto, jaz seu
filho doente. Ele arde em febre e pede a sua mãe laranjas. Ela, porém, nada tem a
oferecer-lhe senão a água do rio e, por isso, ele chora. Andorinho, Andorinho, querido
Andorinho, não poderia levar a ela este rubi que está na empunhadura de minha espada?
Meus pés estão presos neste pedestal, por isso não posso me mover.
˗ Esperam-me no Egito ˗ disse o Andorinho. ˗ Meus amigos estão agora voando
sobre o Nilo e flertando com flores de lótus. Daqui a pouco estarão se preparando para
dormir na tumba do grande Rei, que está lá, dentro de seu caixão pintado. Está
embrulhado com linho amarelo e embalsamado com especiarias. Ao redor de seu
pescoço há uma corrente de jade verde fosco e suas mãos são como folhas murchas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho, não poderia ficar esta noite comigo e
ser meu mensageiro? O garotinho tem sede e sua mãe está tão triste.
˗ Não sei se gosto de garotos ˗ respondeu o Andorinho. ˗ No verão passado,
quando estava à beira do rio, havia dois garotos muito grosseiros, filhos do dono da
moedeira, que não paravam de jogar pedras em mim. Nunca me acertaram, obviamente:
os Andorinhos podemos voar para bem longe e, além disso, sou de uma linhagem
conhecida pela agilidade, mas mesmo assim era um sinal de desrespeito.
Mas o olhar triste do Príncipe Feliz fez o Andorinho arrepender-se:
˗ Faz muito frio aqui, mas ficarei com você esta noite e serei seu mensageiro.
˗ Muito obrigado, querido Andorinho ˗ agradeceu o Príncipe.
Então o Andorinho pegou o grande rubi da espada do Príncipe e saiu voando
sobre os telhados da cidade com a pedra ao bico.
Passou pela torre da catedral, onde anjos de mármore branco estavam esculpidos.
Passou também sobre o palácio e ouviu a música do grande baile. Uma linda garota
surgiu à varanda com seu namorado.
˗ Que lindas estão as estrelas hoje ˗ disse o garoto a sua amada. ˗ E quão
poderoso é o poder do amor!
˗ Espero que minha roupa esteja pronta até o dia do Baile Oficial ˗ respondeu ela. ˗
Pedi que flores de maracujá fossem bordadas em meu vestido, mas as costureiras são
tão preguiçosas.
O Andorinho sobrevoou o rio e viu as lanternas acesas nos mastros dos navios.
Passou sobre o Gueto e viu alguns judeus barganhando e pesando dinheiro sobre
balanças de cobre. Enfim, chegou àquela casinha humilde e olhou seu interior. O
garotinho agitava-se febrilmente sobre a cama, e sua mãe havia caído no sono, devido ao
cansaço. O Andorinho então entrou e colocou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do
dedal da mulher. Logo depois, voou suavemente ao redor da cama, abanando com as
asas a fronte do garoto.
˗ Como me sinto mais refrescado ˗ disse o menino. ˗ Devo estar melhorando. ˗ E
mergulhou em um delicioso sono
O Andorinho então voou de volta para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia
feito.
˗ É engraçado ˗ afirmou-lhe. ˗ Sinto-me aquecido agora, mesmo estando frio.
˗ É porque você acabou de fazer uma boa ação ˗ respondeu-lhe o Príncipe. E o
Andorinho começou a pensar e também caiu no sono. Pensar sempre o deixava
sonolento.
Assim que o dia amanheceu, voou em direção ao rio e tomou um banho.
˗ Que fenômeno singular ˗ exclamou o Professor de Ornitologia, enquanto passava
sobre a ponte. ˗ Um Andorinho no inverno! ˗ E o professor então decidiu escrever um
longo artigo sobre isto no jornal local. Todos na cidade o mencionavam, mas o texto
estava repleto de palavras que ninguém podia entender.
˗ Esta noite vou para o Egito ˗ disse o Andorinho, que estava ansioso por causa da
expectativa. Visitou todos os monumentos públicos e sentou-se por um longo tempo no
topo do campanário da igreja. Sempre que aparecia por lá, os Pardais gorjeavam, dizendo
uns aos outros: ˗ Que ilustre estrangeiro! ˗ e ele sentia-se o todo-todo.
Quando a lua nasceu, voltou para junto do Príncipe Feliz.
˗ Tem algum recado para o Egito? ˗ perguntou. ˗ Vou partir agora mesmo
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você não ficaria
mais uma noite comigo?
˗ Esperam-me no Egito ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Amanhã os meus amigos
voarão para a Segunda Catarata. É ali que o hipopótamo descansa entre as plantas
aquáticas, e o Deus Memnon repousa em um grande trono de granito
. Todas as noites ele contempla as estrelas, e quando a estrela da manhã brilha, solta um grito de alegria e
emudece novamente. Ao meio dia, leões amarelos dirigem-se à margem do rio para beber
água. Seus olhos são como berilos verdes, e o seu uivo é tão forte quanto o bramido da
catarata.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Em um lugar
distante, do outro lado da cidade, vejo um jovem em um sótão. Está debruçado sobre uma
mesa cheia de papéis, e em um copo a seu lado há um ramo de violetas murchas
. Seu cabelo é castanho e ondulado, e seus lábios são vermelhos como uma romã; e seus
olhos, grandes e sonhadores. Está tentando terminar uma peça para o Diretor do Teatro,
mas ele tem tanto frio que é incapaz de continuar a escrever. Não há mais fogo na lareira,
e a fome o fez perder a consciência.
˗ Ficarei aqui com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho, que realmente
tinha um coração bom. ˗ Devo levar ao garoto outro rubi?
˗ Céus! Não me resta mais nenhum rubi! ˗ exclamou o Príncipe. ˗ Meus olhos são
o que tenho neste momento. São feitos de safiras raras, que foram trazidas da Índia mil
anos atrás. Arranque uma delas e leve-a ao garoto. Ele certamente levará a um joalheiro,
e então poderá comprar comida, lenha e terminar a peça.
˗ Querido Príncipe ˗ disse o Andorinho ˗ não posso fazer isso. ˗ E pôs-se a chorar.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
E o Andorinho arrancou um dos olhos do Príncipe e voou em direção ao sótão
onde se encontrava o garoto. Era extremamente fácil adentrar o recinto, pois havia um
buraco no teto, através do qual teve acesso ao quarto. O garotinho tinha a cabeça sobre
as mãos e por isso não pôde ouvir o bater de asas do Andorinho. Assim, quando olhou
para cima, viu uma linda safira sobre as violetas murchas.
˗ Acho que alguém está gostando de mim ˗ exclamou o garoto. ˗ Isto deve ser um
presente de um grande admirador. Agora posso terminar minha peça. ˗ E o garoto ficou
muito feliz.
No dia seguinte, o Andorinho voou para o porto. Pousou no mastro de um grande
navio e viu os marinheiros içando grandes caixas para fora do porão. ˗ Puxando carga! ˗
gritavam eles, a cada caixa que subia
˗ Estou indo para o Egito! ˗ gritou o Andorinho, mas ninguém pareceu importar-se.
Quando a lua voltou a aparecer, ele voou de volta para o Príncipe Feliz.
˗ Voltei para dizer-lhe adeus ˗ disse-lhe.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ respondeu o Príncipe. ˗ Você não
ficaria comigo uma noite mais?
˗ Já é inverno ˗ respondeu o Andorinho ˗ e logo, logo, a neve fria estará aqui. No
Egito, o sol é quente sobre as palmeiras verdes, e os crocodilos descansam sobre a lama,
preguiçosamente. Meus companheiros estão construindo um ninho sobre Templo de
Baalbek, e os pombos brancos assistem seu trabalho, arrulhando uns aos outros. Querido
Príncipe, preciso realmente deixá-lo agora, mas nunca o esquecerei. Na próxima
primavera trarei duas lindas joias para substituir as que você doou. O rubi há de ser
vermelho como uma rosa; e a safira, azul, como o infinito oceano.
˗ Logo ali na praça ˗ disse o Príncipe Feliz ˗ há uma garotinha que vende fósforos,
os quais estragaram depois de ela tê-los deixado cair na valeta. Seu pai a castigará se ela
não trouxer algum dinheiro para casa, e por isso ela chora. Ela não tem tênis ou meia, e
sua cabecinha está desprotegida contra o frio. Arranque o olho que me resta e o dê a ela,
assim seu pai não a castigará.
˗ Ficarei com você uma noite mais ˗ respondeu o Andorinho ˗ mas de maneira
alguma arrancarei o olho que lhe resta: você ficará completamente cego.
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Faça tal como lhe
ordeno.
Ele então arrancou-lhe o outro olho partiu como uma flecha. Ao avistar a garotinha,
o Andorinho baixou em sua direção e soltou a joia sobre a palma de sua mão.
˗ Que lindo cristal! ˗ exclamou ela, e saiu correndo alegremente para casa.
O Andorinho então voltou para junto do Príncipe e disse-lhe:
˗ Você agora está cego, e por isso vou ficar sempre com você.
˗ De maneira alguma, querido Andorinho ˗ respondeu o pobre Príncipe. ˗ Você
precisa ir para o Egito.
˗ Ficarei com você para sempre ˗ afirmou o Andorinho, adormecendo logo em
seguida aos pés Príncipe.
Durante todo o dia seguinte, ele permaneceu sobre o ombro do Príncipe Feliz,
contando-lhe histórias que havia visto em terras estrangeiras. Contou-lhe sobre as íbis,
aves que formavam longas filas às margens do Nilo para capturar peixinhos dourados;
sobre a Esfinge, que é tão velha quanto o mundo, vive no deserto e conhece tudo; sobre
os comerciantes, que caminham lentamente ao lado de seus camelos e carregam
miçangas de âmbar em suas mãos; sobre o Rei da Montanhas da Lua, que é negro como
o ébano e louva um grande cristal; sobre a grande serpente verde que dorme em uma
palmeira e vinte sacerdotes lhe dão de comer bolinhos de mel; sobre os pigmeus, que
navegam em um grande lago sobre folhas largas e achatadas, e sempre estão em guerra
contra as borboletas
˗ Andorinho, Andorinho, querido Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você me conta
histórias surpreendentes; porém, mais surpreendente ainda é o sofrimento dos homens.
Não há Mistério maior que a Miséria. Voe sobre minha cidade, querido Andorinho, e digame o que lá vê.
O Andorinho então sobrevoou a grande cidade e viu os ricos divertindo-se em
suas lindas casas, enquanto mendigos sentavam-se ao pé do portão. Passou por becos
escuros e viu os rostos brancos de crianças famintas olhando desinteressadamente as
ruas obscuras. Sob a arcada de uma ponte dois garotos estavam deitados, abraçando-se
um ao outro de modo a se aquecerem.
˗ Que fome temos! ˗ diziam.
˗ Não podem ficar aqui! ˗ ordenou-lhes o Vigia; e eles então tiveram que
perambular na chuva
Voltou para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que havia visto.
˗ Estou coberto com puro ouro ˗ segredou-lhe o Príncipe. ˗ Retire-o folha por folha
e dê-o aos pobres: os homens têm o costume de pensar que o ouro pode deixá-los mais
felizes.
Folha por folha o Andorinho ia retirando o ouro, até que o Príncipe ficou
completamente cinza e desinteressante. Folha por folha o Andorinho passou a distribuí-
las aos pobres. As faces das crianças enrubesciam, e de tanta alegria os pequenos riam e
brincavam na rua.
˗ Agora temos pão! ˗ gritavam de alegria.
Mas a neve logo chegaria, e com ela a geada. As ruas pareciam feitas de prata, de
tão claras e cintilantes que eram. Pedaços de gelo pendiam das calhas das casas como
adagas de cristal. Todos passeavam em casacos de pele, e os meninos, com seus gorros
escarlates, patinavam no gelo.
O pobre Andorinho sentia cada vez mais frio, mas isto não o impedia de continuar
com Príncipe: seu amor por ele era muito grande. Sempre que o padeiro se distraía, o
Andorinho ia lá e pegava ao pé de sua porta miolos de pão, e agitava as asas a fim de
manter-se aquecido.
Mas aos poucos ele percebia que a morte se aproximava: sobravam-lhe apenas
forças para voar pela última vez aos ombros do Príncipe.
˗ Adeus, amado Príncipe! ˗ murmurou-lhe. ˗ Você permitiria que eu beijasse sua
mão?
˗ Sinto-me contende de saber que finalmente você vai para o Egito, querido
Andorinho ˗ disse o Príncipe. ˗ Você já ficou tempo demais aqui. Mas beije-me nos lábios,
pois eu amo você.
˗ Não é ao Egito que estou indo ˗ respondeu o Andorinho. ˗ Vou para junto da
Morte; afinal, ela é a irmã do Sono, não é?
Dito isto, ele beijou os lábios do Príncipe e sucumbiu, logo em seguida, morto aos
seus pés.
Naquele momento, ouviu-se um barulho estranho vindo de dentro da estátua,
como se algo houvesse se quebrado. E foi exatamente o que aconteceu: o coração do
Príncipe partira-se em dois. Sem dúvida havia sido a terrível geada.
Na manhã seguinte, o Prefeito passeava pela praça em companhia de seus
Assessores. Ao passarem pela coluna, olhou para cima, em direção à estátua, e
exclamou assombrado:
˗ Santo Deus! Que miserável aspecto tem o Príncipe!
˗ Miserável mesmo! ˗ responderam os Assessores, que sempre concordavam com
o Prefeito. Eles então subiram para conferir de perto.
˗ O rubi caiu de sua espada; seus olhos se foram; e ele não é mais feito de ouro ˗
afirmou o Prefeito, asseverando logo em seguida:
˗ Sua sorte é um pouco melhor que a de um mendigo!
˗ Pouco melhor que a de um mendigo ˗ repetiram os Assessores.
˗ Há até um pássaro morto a seus pés! ˗ continuou o Prefeito. ˗ Devemos
urgentemente lançar um decreto que proíba os pássaros de morrerem aqui. ˗ E o
Escrevente da cidade tomou nota da sugestão.
Eles então incumbiram-se de derrubar a estátua do Príncipe Feliz.
˗ Não sendo mais belo, deixa de ser útil ˗ declarou o Professor de Artes da
Universidade.
Decidiram, enfim, derreter a estátua em um forno, e o Prefeito solicitou uma
reunião da Corporação a fim de decidir o que haveria de ser feito com o metal.
˗ Devemos ter outra estátua, obviamente, e esta estátua será a minha ˗ concluiu.
˗ Será a minha ˗ repetiram os Assessores, um a um, o que acabou provocando
uma grande briga entre eles. Desde a última vez que soube notícia deles, estavam
brigando ainda.
˗ Que coisa mais curiosa! ˗ disse o supervisor do trabalhador da fundição. ˗ Este
coração de bronze não quer derreter no forno. Teremos que jogá-lo fora. E atiraram-no
em uma pilha de lixo onde se encontrava também o Andorinho morto
˗ Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade ˗ ordenou Deus a um de seus
Anjos, que Lhe trouxe um coração de bronze e um passarinho morto.
˗ Você fez a escolha certa ˗ disse Deus. ˗ Por isso, no jardim do Paraíso este lindo
pássaro há de cantar para todos ouvirem, e em minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há
de louvar-me.

5 comentários:

  1. Esse foi o conto escolhido por mim para quarta feira (dia 18 de abril). Essa tradução é diferente das demais, pois foi tirada de uma tradução por alunos de letras da USP. Achei bem interessante. Vou postar alguns comentários da pesquisa depois. Espero que gostem.
    Com carinho
    Carla feliz

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  2. "O presente trabalho oferece uma proposta de
    tradução para o conto The Happy Prince (O Príncipe Feliz), escrito por Oscar Wilde e
    publicado em 1888.
    Muito se tem discutido sobre o estatuto de história infantil atribuído ao conto, uma
    vez que ao longo do texto é possível deparar-se com temas polêmicos como a
    homossexualidade, a injustiça social, a iconoclastia e o questionamento de padrões
    estabelecidos.
    3Sem dúvida, a consideração de tais questões teve de ser levada em conta, no que
    tange às escolhas feitas pelos tradutores. Como, por exemplo, traduzir Swallow
    (“andorinha”), nome de um dos personagens principais, sem se considerar a clara
    conotação homossexual dada ao relacionamento deste personagem com o Príncipe
    Feliz? Seguramente não poderíamos ter mudado o gênero da ave e deixado-a no
    feminino, pois isto, além de fugir drasticamente da proposta do texto, teria trazido
    enormes problemas com relação ao gênero de outras personagens, como a Haste de
    Junco (Reed), que no início da história relaciona-se com o nosso Andorinho.
    A aparente facilidade que se poderia revelar a tradução de um conto infantil é,
    portanto, rapidamente rechaçada quando se tem por objetivo transmitir as sutilezas
    imagéticas e ideológicas por trás do texto literário de um autor como Oscar Wilde,
    sutilezas às quais os tradutores não poderíamos de maneira alguma fechar os olhos no
    momento da tradução.
    Assim sendo, os tradutores não se furtaram ao desafio e à responsabilidade de
    transmitir na tradução os aspectos que só por meio de uma interpretação profunda das
    entrelinhas poderiam ser resgatados e comunicados no texto final.
    A tradução que apresentamos é uma versão com comentários, expostos ao final
    do texto em um quadro que mostra, lado a lado, o texto original e as soluções de tradução
    para os problemas que encontramos. Tais problemas foram discutidos no seminário que
    antecedeu a feitura deste trabalho, e muitas das sugestões dadas nesta ocasião foram
    por nós adotadas no texto final."

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  3. Assim como o conto que a Adri nos trouxe do Thomas Mann (Desejo de Felicidade), este conto do Wilde (meu íntimo), traduz tudo aquilo que ele viria a escrever futuramente.
    "O Retrato de Dorian Gray", tbm revela a decomposição do homem através da descoberta da tristeza, do egoísmo, do desamor.
    Uma imagem de ouro e pedras preciosas a do Príncipe Feliz.
    Um retrato perfeito, hipnótico no Dorian Gray.
    De novo a Adri com "O Aniversário da Infanta", onde o anão tem uma imagem totalmente diferente de si mesmo e morre de horror ao se ver no espelho.
    O Estudante do "Rouxinol e a Rosa" que a MJ nos trouxe tbm nos apresenta o Narciso, que não consegue sair de si e entender e receber o outro.
    Parabéns pela escolha minha lagartixa linda.
    Provavelmente estarei presa quando vcs estiverem discutindo o conto.
    Por um beijo em uma lápide fria...
    Mas estarei feliz, como o Andorinho apaixonado, como o Rouxinol enamorado, como o Anão enfeitiçado pela infanta...
    Ao Oscar Wilde,
    Um brinde Vermelho.
    Bjs,
    Cláudia

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  4. cláudia, fico sem palavras diante de uma análise tão brilhante, fundamentada e sensível. você é nossa musa da literatura, cinema, gastronomia... uma amiga acolhedora.
    sentimos muito sua falta mas viajamos junto com você, como disse a silvia. voilá (sei lá se é assim que se escreve) madame! ah, sua filha linda está te representando à altura, amanhã vai ter pavê de chocolate de sobremesa, pour d.&juju.
    beijos da d. e das confrades que querem caminhar sempre ao teu lado nessa grande jornada que é a vida. viva paris! viva a casa da escandinávia, logo mais!

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  5. Muito bom mesmo, boa tradução, bom livro.
    É de ótima leitura.

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